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sábado, 9 de janeiro de 2021

POR QUE ESTUDAR A ANTIGA CIVILIZAÇÃO DE CRETA É TÃO IMPORTANTE PARA NÓS?

 

Uma História que nos Traz Esperança, por Elizabeth Chloe Erdmann

Há muitos anos atrás, havia uma antiga civilização minoica na ilha grega de Creta que foi anterior às nossas ideias mais comuns de como era a Grécia antiga ...

Antes de Platão, Aristóteles, da Acrópole, antes de Alexandre - antes da Guerra de Troia - antes de Esparta...

Havia uma civilização como nenhuma outra em Creta, a maior das ilhas gregas flutuando de forma autossuficiente num espaço entre o sul da Europa e o norte da África; era uma cultura de comércio marítimo. Há quatro mil anos, pequenas aldeias agrícolas começaram a construir "centros sagrados", geralmente chamados de "estruturas palacianas". O seu fim permanece um mistério altamente contestado. Os valores da Creta antiga eram semelhantes a muitas culturas e tradições indígenas - como os Haudenosaunee ou os iroqueses: reverência por todas as espécies animais e vegetais e um sentido profundo da natureza colectiva da existência.

Isso é muito diferente da arte e das representações que surgem depois no continente grego, onde os heróis conquistam serpentes de nove faces e realizam tarefas aparentemente impossíveis para Deuses e Deusas que têm um relacionamento complicado com os seres humanos. O próprio nome da Europa vem de Europa, que era uma jovem donzela atraída para fora de sua casa em Creta num touro, como parte de um truque inventado por Zeus. Esses mitos vêm duma época em que o domínio sobre a natureza é tido como fundamental: é a história que se desenrola nas imagens narrativas da Acrópole de Atenas.

Então, o que acontecia antes nessa misteriosa ilha de Creta?

O povo minoico. A cultura dessas pessoas era diferente daquela que veio depois. Os seus centros sagrados eram dedicados a eventos políticos, artísticos e culturais. O seu sentido do sagrado impregnava as actividades diárias. Nessa sociedade via-se a própria vida como sagrada. Houve uma redistribuição ou partilha de bens e alimentos nesses locais, de modo que ninguém passou fome ou escassez. Há muito pouca indicação de fortificação e armas, especialmente em comparação com as civilizações posteriores, como os gregos micénicos. A arte minoica retrata mulheres em posições de poder - como sacerdotisas com os braços erguidos em estados de êxtase e muitas vezes nuas até a cintura. Homens são mostrados cantando quando voltam da colheita, há vasos que mostram a alegre vida marinha e estatuetas de cães sorridentes feitos de barro. Quando percorremos o museu, não podemos deixar de pensar — uau, essas pessoas sabiam como se divertir. Elas parecem felizes por estarem vivas. Viviam em harmonia com a natureza.

Os seus frescos retratam jogos que consistiam em saltar sobre um touro. (Sim, falamos de pessoas que saltam sobre os chifres duma criatura bovina.) Isso contrasta totalmente com o foco na violência contra os animais, como touradas e sacrifícios, retratados nas civilizações que se sucedem à minóica. Os frescos minoicos mostram figuras masculinas e femininas agarrando o touro pelos chifres e saltando através deles dando uma espécie de salto mortal. Saltar sobre o touro poderia ter sido um desporto sagrado e extático para a geração mais jovem ou um tipo de iniciação.

O que torna a antiga cultura minoica diferente das que a seguem - daquelas com as quais estamos mais familiarizadas e familiarizados na cultura popular e na academia? Deixe-me dar um RESUMO em 8 PALAVRAS: representação feminina, menos violência, sem escravidão, recursos partilhados.

Então, voltando ao que aconteceu com essa cultura, é algo de muito misterioso. Sabemos por escavações que houve um imenso evento vulcânico catastrófico na antiga Thera (agora conhecida como Santorini), que enfraqueceu a cultura minoica. A chegada dos micénicos da Grécia continental levou a uma mistura relativamente breve de culturas. Na arte micénica, vemos cenas que retratam heróis conquistando a natureza, mulheres como vítimas e violência contra animais. Depois de algumas centenas de anos, a sociedade micénica chegou ao fim. As pessoas retiraram-se para as montanhas e a Grécia entrou num período conhecido como idade das trevas que durou cerca de quinhentos anos. Depois disso, vieram Homero e os famosos filósofos da Grécia.

Existem traços da visão de mundo minoica na nossa cultura? E por que devemos preocupar-nos com Creta e a cultura minoica?

A resposta é simples: a esperança está em nós.

 

Elizabeth Chloe Erdmann é uma teórica apaixonada pela “Teologia Nómade” - com uma profunda atracção pela história relacionada com a Deusa. Erdmann tem mestrado em estudos teológicos pela Boston University, esteve associada à  Amarkantak Tribal University na Índia e actualmente faz um doutorado pesquisando sobre o Contemporary Feminist Goddess Worship & Thealogy, na University College Cork, Irlanda. É autora publicada e palestrante regular sobre cultura, religião e feminismo e co-lidera a Peregrinação da Deusa, que tem lugar na Primavera a Creta, com Carol P. Christ. Mora em Chittenango, no interior do estado de Nova York, nas terras ancestrais da soberana Nação Onondaga, guardiães do fogo do Haudenosaunee - um povo indígena matrilinear com muitos costumes semelhantes aos da Creta antiga. Envolvida em ativismo e pesquisa com Sally Roesch-Wagner, no centro Matilda Joslyn Gage para Justiça Social em Fayetteville, NY, considera-se uma mulher curiosa e apaixonada pelos mistérios do mundo.

https://feminismandreligion.com/2020/10/26/a-story-to-inspire-hope-by-elizabeth-chloe-erdmann/#more-50552

 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Magia de Natal - faça você mesma

7 de Janeiro, dia de desmontar a árvore e as decorações de Natal

A árvore de Natal, pinheiro, ou abeto, é um símbolo de permanência no confronto com a realidade da finitude da vida, proposto pelo Inverno. Por isso a decoramos com luzes, brilhos e cores, com bolas que evocam a luz do sol eterno, que renasce pelo Solstício. 

Quando o frufru natalício se anuncia e  me atinge também a mim, dou asas à imaginação do meu self-criança, e à minha, e juntas montamos a árvore, sempre inspirada no tema da infância, e nos últimos tempos honrando também a Deusa que venero. Mas sem dúvida que ela é dedicada em especial ao meu tempo de criança, quando esta celebração era motivo de tanta excitação, pura alegria (havia férias!) e deleite. No coração do Inverno, inóspito, húmido, enregelado, a festa do Natal reconfortava e aquecia a alma. Nunca vou esquecer o encantamento provocado pela visão súbita do cortejo de pequenos anjos que irrompia capela adentro a meio da missa desse dia na aldeia. Era como se um portal se abrisse directamente no céu trazendo até nós a visão de criaturas do altíssimo. Tão pouco esquecerei a dor da revolta pelo cancelamento sem mais desse prodigioso evento. Profunda agonia por sentir que qualquer pedaço de paraíso podia ser tão fugaz, tão facilmente destruído, como se não houvesse vontade humana suficiente para dele cuidar, nem suficiente compreensão da importância primordial da beleza, o próprio amor solidificado, materializado ali naqueles anjinhos vestidos de branco delicado como os seus passinhos de criança e as suas solenes asas de penas. Era inquietante saber que não havia nesta dimensão guardiãs e guardiães do paraíso à altura, suficiente protecção contra cultivadores de distopias. Foi muito cruel.

Pode ter sido aí que o meu compromisso com a utopia e a magia foi assinado, embora também seja possível que ele venha da noite dos tempos, dos alvores da história da minha alma, uma suspeita levantada pelo encontro com François Vatel, do filme estreado no ano de 2000. Claro que o genial mordomo do Príncipe de Condé tinha meios com que não tenho sequer competência para sonhar. Restam-me os requintes dos musgos, das bagas negras das heras e do alfeneiro, das pinhas, da verdura da época e dos enfeites vários coleccionados ao longo dos anos e actualizados de acordo com as alterações do gosto. Nos últimos tempos, além de satisfazerem os caprichos da minha criança interior, eles procuram também honrar a minha devoção à Deusa. Foi assim que as aves do paraíso vieram em bando, ou que fui atraída por um enfeite com a forma da mão de Tanit, por outro que replica a Babuska, pela miniatura do gato chinês, que tem como origem uma antiga Deusa, por outro ainda com a forma dum balão de hidrogénio, honrando a Mãe do Ar deste festival. 

Por debaixo da árvore, sapatinhos, como é lógico, já que não tenho lareira: umas botas que foram usadas pelo meu pai em criança, uns sapatos de menina dourados com fivela de brilhantes trazidos duma charity shop inglesa, e ainda uma cadeira de fada, uma caixa rosa fúchsia brilhante para as rifas de Natal, uma lanterna e, no lugar de honra, a minha colecção dos quatro The Lady Bird Nature Books, que com a compostura, a graça e a candura dos anos 50 do século XX, ensinavam a nossa criança a ver a paisagem, a reconhecer as alterações, as marcas e os sinais que cada estação imprime na natureza e nas actividades humanas. Por vezes também lá ficam a destilar o seu sortilégio a colecção de Contos de Andersen ou o livro das Princesas Esquecidas e Desconhecidas, de Rebecca Dautremer e Philippe Lechermeir…

Com o tempo, criei tradições de Natal muito próprias e pessoais, e repito-as, ou recrio-as, a cada ano. Sozinha ou acompanhada, pouco importa neste capítulo. Depois do sumiço que levou o cortejo encantado dos anjinhos de Natal, e do encontro com outros e outras desmancha-prazeres, cuidei de aprender a criar magia para consumo próprio. Sem dúvida uma das melhores aprendizagens que levarei desta vida.

Luiza Frazão 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O SOL DA DEUSA - A LUZ QUE GUIA E O CALOR DA VIDA CONSCIENTE

 

A lua tornou-se uma das imagens centrais da espiritualidade da Deusa. No entanto... precisamos de examinar a sua potência contra-imaginal - o sol. Se a Deusa deve estar totalmente representada na nossa sociedade, ela também deve ser a luz que guia e o calor da nossa vida consciente. O Sol não deve ser considerado apenas como um símbolo patriarcal irrecuperável, mas como uma representação da vida e do alegre prazer da Deusa.

_ Caitlin Matthews, Voices of the Goddess: A Chorus of Sibyls

O sol é uma força activa que governa a cura, a luz e a abundância por fazer crescer as searas. A lua entretanto é vista como passiva, governando a noite, a psique e os mares através da sua capacidade para criar as marés. Mas se te perguntassem pelos géneros destas luminárias o que dirias?

Quase sempre a resposta seria que o sol é masculino e a lua feminina. Na verdade, a lua é talvez o símbolo mais conhecido do divino feminino na actual espiritualidade da Deusa. No entanto, se tivesses feito a mesma pergunta a uma pessoa pagã do passado, terias muito provavelmente tido uma resposta diferente. Enquanto na Grécia e em Roma se reverenciava a lua como Artemis e Diana e o sol como Hélios e Apolo, o conceito dum sol masculino e duma lua feminina não era universalmente partilhado em todos os sistemas mitológicos. Das tribos celtas ao povo Inuit da América do Norte, o sol era visto mais frequentemente como uma deusa do que como um deus.

Então como é que hoje em dia vemos o sol como sendo exclusivamente masculino? Quando comparamos os papéis e géneros das luminárias entre culturas, torna-se claro que as nossas antepassadas e os nossos antepassados pagãos não conseguiam atingir a unanimidade sobre a questão do sol ser masculino e a lua feminina. Encontramos panteões que cultuavam deuses solares e deusas lunares e outros que viam o sol como feminino e a lua como masculina.

Parece que o povo celta não conseguia decidir-se nesta matéria, tendo numerosas deusas lunares mas também deusas solares, que coexistiam com deuses solares. De forma semelhante, no Egipto também havia deuses e deusas solares. Assim sendo, se algumas culturas veneravam o sol como uma deusa e outras como um deus, e outras ainda como deus ou como deusa, por que razão é que hoje em dia o conceito de sol feminino nos parece tão pouco familiar?

Em última análise, o conceito do sol como exclusivamente masculino é bastante recente e a origem desta classificação exclusiva remonta à época vitoriana.

Com efeito, esta época trouxe com ela um renovado interesse pela mitologia, em particular pelos mitos solares. A arqueologia e o estudo da cultura popular eram novos campos de interesse académico e obras versando sobre mitologia clássica tornaram-se extremamente populares. Os mitos gregos e romanos serviam de bitola para comparar e sistematizar o estudo de outras mitologias, e foi assim que o conceito do sol/deus e da lua/deusa se tornou aceite como sendo a forma “correcta” de ver estas duas luminárias. Se os mitos de outras culturas diferiam, considerava-se que isso apenas reflectia a inferioridade cultural desse grupo ou um desvio acidental da norma mitológica. O trabalho de Friedrich Max Müller, um dos fundadores do campo de estudo da mitologia comparada, popularizou grandemente o conceito de masculino solar, conectando cada divindade e herói ao sol e proclamando que todas as religiões derivavam do monoteísmo solar original que via o sol como o criador masculino. As teorias de Müller foram mais tarde ridicularizadas, mas as suas influências perduram até hoje.

Apesar da deusa solar parecer um conceito estranho para muitas e muitos de nós, ela está mais presente no paganismo moderno do que aquilo que poderíamos supor, apenas não a classificamos como tal. Com efeito, Brígida, uma das deusas mais populares do panteão celta e cujo festival o paganismo celebra a cada Imbolc, tem inúmeros atributos solares. Apesar disso, Brígida é habitualmente referida como deusa do fogo e da inspiração, nunca como uma deusa solar.

As suas conexões solares permaneceram até nas histórias de santa Brígida, a versão cristianizada da deusa. Santa Brígida veio ao mundo ao nascer do sol e a casa onde nasceu brilhava com tal intensidade que a vizinhança pensou haver um incêndio, mas quando foram ver, essa luz que viam emanava da própria santa. Também se diz que um dia ela suspendeu a sua capa de um raio de sol. Era ainda sobejamente conhecida a sua habilidade para curar a cegueira, uma capacidade comum às deusas solares, uma vez que o sol era considerado uma espécie de “olho” no céu.

Interessante é ainda o facto de tanto o nome irlandês como aquele que era usado no inglês antigo para designar o sol era feminino, indicando que estes povos viam o sol como uma força feminina. Sem esquecer que a cruz de Brígida não passa duma representação simbólica do sol.

In Drawing Down the Sun, Rekindle the Magic of the Solar Goddess, Stephanie Woodfield, 2014

Imagens:

Imagem 1 - https://druidry.org/resources/brigid-survival-of-a-goddess

Imagem 2 - https://www.pinterest.co.uk/catnewell1/goddess/

sábado, 31 de outubro de 2020

ARQUÉTIPOS DA SOMBRA - A SOLTEIRONA... depois da BRUXA...

 

Nesta altura do ano em que é inevitável enfrentarmos a Sombra, é inevitável também falarmos dos aspectos amaldiçoados do feminino, até porque vamos ganhando cada vez mais consciência deles. Esses aspectos têm a ver essencialmente com questões de Liberdade, um direito que é muito prejudicial para o Patriarcado reconhecer plenamente à mulher. Liberdade para fazer escolhas, para se ser independente, inteira e completa em si mesma, para se viver como se quer. Esses aspectos que foram denegridos, como Megera ou Medusa, têm também a ver com força e poder, poder de dizer não, de se autodefender, de não agradar a toda a gente, de estar maldisposta, de não ser a boazinha de serviço, de escolher não entrar numa estrutura, numa instituição em que temos sido (e só por isso mesmo tem sobrevivido) a parte mais fraca…

Verdade que resgatámos com sucesso o título de Bruxa, mas há pelo menos um que continua a não parecer nada bonito: Solteirona! Aquela que "ficou para tia"... Basicamente é sempre bom desconfiar de títulos que não se aplicam ao homem, ou que perdem impacto no masculino... Há quantos anos já a filósofa feminista Mary Daly (1928-2010) levantou do chão esse título maldito entre os malditos dado pelo pensamento patriarcal a uma mulher que não se casou?... Assim, na língua inglesa a palavra Spinster já figura há muito na lista dos epítetos femininos resgatados da ignomínia misógina, precisamente pelas feministas. Título a reclamar sem medo, com  alguma ironia, para depois o desvalorizarmos, por aquilo que ele nos diz sobre a forma como temos permitido ser definidas na nossa relação com o homem.


Imagem: https://www.theguardian.com/books/2015/aug/02/spinster-kate-bolick-review-self-indulgent

 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

ALEXANDRA DAVID-NEÉL - exploradora, feminista, escritora espiritualista, budista, anarquista, reformadora religiosa

 

Neste mês de Outubro, a 24, comemora-se o aniversário da escritora e exploradora Alexandra David-Néel, nascida em Saint-Mandé, França, em 1868. Alexandra teve uma infância infeliz, filha única de pais amargos que brigavam constantemente e tentou fugir várias vezes, desde os dois anos de idade. Quando adolescente, viajou sozinha por alguns países europeus, incluindo uma viagem de bicicleta por Espanha. Quando tinha 21 anos, a jovem herdou dinheiro dos pais e usou-o todo para ir ao Sri Lanka, chegando até a trabalhar como cantora de ópera por um tempo para ajudar a financiar as suas viagens. O que lhe interessava especialmente era o budismo.

Alexandra David-Néel disfarçou-se de tibetana e conseguiu entrar na cidade de Lhasa, que na época era proibida a pessoas estrangeiras. Aprendeu a língua e tornou-se fluente em tibetano. Conheceu o Dalai Lama, praticou meditação e ioga e caminhou pelo Himalaia, onde sobreviveu comendo o couro das suas botas e uma vez escapou por um triz de uma tempestade de neve com uma meditação que aumenta a temperatura corporal. Os habitantes locais pensaram que ela poderia ser a encarnação de Thunderbolt Sow, uma divindade budista feminina. Alexandra tornou-se uma lama tântrica no Tibete aos 52 anos.

Alexandra escreveu sobre tudo isso e o seu livro mais famoso é Magic and Mystery in Tibet (1929), no qual escreveu: “Então era primavera no nublado Himalaia. Novecentos metros abaixo da minha caverna rododendros floresceram. Escalei o topo de montanhas áridas. Longas caminhadas me levaram a vales desolados salpicados de lagos translúcidos ... Solidão, solidão! … A mente e os sentidos desenvolvem a sua sensibilidade nesta vida contemplativa feita de observações e reflexões contínuas. Alguém se torna um visionário, ou melhor, não é que ele era cego até então? ”

Morreu em 1969, aos 101 anos, poucos meses depois de renovar o seu passaporte. Ela foi uma grande influência para os escritores Beat, especialmente Allen Ginsberg, que se converteu ao budismo depois de ter lido alguns de seus ensinamentos.

em O Almanaque do Escritor e https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandra_David-N%C3%A9el

 

 

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O GATO - ANIMAL TOTÉMICO DA GRANDE BRUXA

Na energia do Samhain...

Gato - Misterioso e Mágico por Judith Shaw

O gato move-se elegantemente, com graça, independência e uma autoconfiança inabalável. “O meu cão acredita que é humano; o meu gato acredita que o seu deus”é um ditado que reflecte as crenças das e dos nossos ancestrais. Desde os dias do Neolítico, os gatos têm sido associados a deusas.

Os gatos, membros domesticados e os menores da família Felidae e da ordem Carnívora, são um interessante exemplo de equilíbrio - entre calma tranquila e acção poderosa, independência e conexão, entre o visível e o invisível.


Mistério e magia, feminilidade poderosa, explorando o desconhecido

Activo durante os momentos liminares do crepúsculo e do amanhecer - com alguns sendo mais nocturnos como os gatos selvagens - a associação do gato com a magia, o mistério e a capacidade de ver o que não é visível é antiga.

O gato tem excelente visão na penumbra fornecida por grandes córneas elípticas, pupilas que se expandem muito ou se contraem em fendas finas e uma camada especial atrás da retina chamada tapetum. Isso funciona como um espelho - permitindo que a luz entre no olho, se reflicta e entre novamente - criando o brilho nocturno assustador dos olhos de Gato.

O Gato na sua associação com deusas, é o símbolo máximo de uma feminilidade poderosa

Os gatos, embora não fossem domesticados no Egipto até cerca de 1500 a.C., eram sagrados para os egípcios desde 2465 a. C.

Deusa egípcia Bastet
Bastet, Deusa Egípcia do Coração, dos Segredos da Mulher, da Cura e dos Gatos, estava intimamente associada a Sekhmet, Deusa da Guerra, Pragas e Cura. Como Sekhmet, ela foi originalmente descrita como uma leoa - ganhando o título temível de Senhora do Massacre. À medida que os gatos se tornavam domesticados, Bastet também, assumindo uma imagem mais gentil - na maioria das vezes retratada como um gato sentado olhando serenamente ao redor ou como uma mulher com cabeça de gato. Às vezes ela aparece com gatinhos a seus pés.

Hécate, deusa grega da vida, morte, renascimento e mistério, teve a sua origem na área do Mar Negro da Geórgia moderna. Muitas vezes vista como um cão - às vezes um gato preto, Hécate floresce depois de escurecer, como o Gato, e vê profundamente os mistérios da vida.


Freya, deusa nórdica do amor, fertilidade, guerra, adivinhação e magia, caminhou pelos céus numa carruagem puxada por dois gatos cinzentos gigantes. Cercada por mistério, ela foi capaz de ver além do visível.

Para o povo Celta, o gato estava associado à Deusa e ao feminino. Muito provavelmente por causa disso e da sua capacidade de ver o mundo espiritual, a igreja cristã via os gatos como maus. Eles eram vistos como ameaças ao poder da Igreja sobre assuntos espirituais. Gatos e mulheres foram severamente perseguidas.

A situação dos gatos piorou depois que o Papa Gregório IX emitiu sua bula papal, Vox Rama (1233 dC), a primeira a associar gatos com bruxas e o diabo. Muitos acreditam que se seguiram assassinatos em massa de gatos, ou pelo menos um abandono em massa de gatos depois que suas donas - Curandeiras - foram mortas. Documentos europeus medievais e do início da modernidade descrevem dezenas de casos de gatos que foram queimados vivos. Isso resultou num efeito colateral indesejável - sem a predação dos gatos, a população de vermes explodiu, espalhando ainda mais a peste bubónica de 1348 d. C.

Vários clãs escoceses, como MacIntosh, MacNeishe e MacNicole, têm o Gato como seu animal totémico.

A Deusa Galesa da Transformação, Kerridwen, na sua manifestação como a porca Henwen, deu à luz uma variedade de seres - um grão de trigo e de cevada, uma abelha, um lobo, uma águia e um gato - espalhando vida por toda a terra. Com a mudança dos tempos, a gata de Henwen, Cath Palug, foi transformada numa das Três Pragas de Anglesey e morta pelo Rei Arthur.

Nos antigos reinos do Sião e da Birmânia, uma seita budista acreditava que, após a morte de alguém verdadeiramente puro, a sua alma migra para um gato.


Shashti, Deusa Hindu da Vegetação e Protetora das Crianças, foi retratada com uma cabeça de gato ou montando um gato enquanto carregava ao colo um ou mais bebés.

Um conto persa revela a natureza mágica do gato. Um mágico pegou um punhado de fumo, adicionou chama e duas estrelas brilhantes - então esfregou as mãos. Ao abri-las, apresentou ao herói, Rustum, um gatinho cinza esfumaçado, com olhos brilhantes e uma delicada língua vermelha, em gratidão por um resgate recente.

Espírito aventureiro, curiosidade, flexibilidade, paciência

A capacidade do gato de ser um excelente caçador depende igualmente da força mortal e da calma paciente. O gato espreita a sua presa e depois posiciona-se furtivamente com os músculos prontos para atacar quando a possibilidade de sucesso é maior.

“Um gato tem nove vidas.” Sempre curiosos sobre o seu mundo, os gatos - ágeis e coordenados - quase sempre pousam em pé. A capacidade do gato de entrar e sair de situações deve-se ao seu corpo flexível, com uma coluna vertebral mantida unida por músculos - não ligamentos.

Ele abre seus olhos para os mistérios da vida, com grande curiosidade, que lhe dá coragem para explorar o desconhecido, incentivando a flexibilidade e a abertura para novas percepções. O gato ensina-nos a necessidade de observação paciente, seguida de acção decisiva.

Independência e companheirismo

A pesquisa genética revela que os gatos foram domesticados pela primeira vez há cerca de 12.000 anos, quando a agricultura começou no Médio Oriente. No típico estilo felino, os gatos dão as cartas - eventualmente domesticando-se ao aprender que os humanos fornecem comida extra como recompensa pelos seus esforços de caça. Os gatos provavelmente descendem de um gato selvagem nativo do Oriente Próximo - Felis s. Lybica.

Ao contrário da maioria dos animais domésticos que foram criados selectivamente pelos seres humanos para certas características, os gatos mantêm o controle sobre a escolha dos seus ou das suas companheiras. Eles vêm e vão quando querem, muitas vezes escolhendo companheiros ou companheiras selvagens com excelente visão nocturna e genes auditivos, permitindo que os gatos domésticos continuem sendo predadores mortais. Os gatos, sabendo muito bem que podem sobreviver por conta própria, treinam os seus gatinhos por meio do exemplo a espreitar, esperar e atacar. O gato continua a ser um visitante selvagem que te concede a graça da sua presença.

Os romanos viam a atitude indiferente do gato como sinónimo de independência.

Embora solitários por natureza, quando a comida é abundante, os gatos estabelecem amizades e toleram outros gatos muito bem. Os donos de gatos sabem que seus animais de estimação adoram acariciar e a pesquisa mostra que os gatos têm uma forte ligação com os seus donos.

Por meio de um conjunto de expressões, sons vocais e posturas corporais e de cauda, o gato é capaz de comunicar as suas emoções e intenções, sinalizando o seu desejo de aumentar, diminuir ou manter a distância social.

Ele lembra-nos de manter o equilíbrio entre a autodescoberta permitida pela solidão e as alegrias da companhia e da partilha e da confiança em si mesmo, deixando para trás dependências doentias.

Serenidade, autoconsciência, autocura

Um gato ronronando expressa perfeitamente a serenidade. O ronronar do gato, muitas vezes um sinal de contentamento e prazer, pode indicar ferimento ou dor. As nossas e os nossos ancestrais associaram o Gato às deusas da cura. Hoje os cientistas concordam que o ronronar do gato tem um efeito curativo sobre si mesmo e sobre as pessoas. Pegar num gato que ronrona reduz a própria frequência cardíaca. O padrão e as frequências de som do seu ronronar estão na faixa que pode melhorar a densidade óssea e promover a cura. O padrão e as frequências de som do seu ronronar estão na faixa que pode melhorar a densidade óssea e promover a cura. O ronronar do gato pode atenuar os danos aos ossos que podem acontecer durante sua vida cheia de sestas.

O gato ensina-nos que o caminho para a serenidade e a autocura está dentro de nós. Com os olhos semicerrados, como se estivesse em estado de transe, ele ronrona em direcção a um estado de calma e paz

Proteção, Boa Sorte

A deusa chinesa Li Shou, descrita como uma gata, presidia ao controlo de pragas e à fertilidade. Um conto relata que quando o mundo era jovem, os deuses colocaram Li Shou e os seus gatos no comando do mundo. Precisando de uma boa comunicação para essa tarefa, os gatos receberam o dom da fala. Mas, fiéis à sua natureza, os gatos, que preferiam se aquecer sob os raios de sol quentes, perseguir borboletas e dormir, negligenciaram o seu papel de protetores. Os deuses ficaram descontentes. Finalmente Li Shou disse aos deuses que os gatos não tinham nenhum interesse real em governar o mundo, preferindo brincar e tirar uma soneca. O poder da fala foi-lhes então tirado e dado aos seres humanos para governar o mundo. Mas o gato manteve o papel de cronometrista, ajudando a manter o mundo nos trilhos.

Os japoneses atribuem ao gato o papel de ter salvo a vida de um imperador. O “gato acenando”, com uma pata levantada, cresceu tornou-se uma lenda. Quando o imperador passou por um templo, um gato sentado na frente levantou a pata em reconhecimento. Atraído pelo gesto do gato, o imperador entrou no templo exactamente quando um raio atingiu o local onde ele estava. Ainda hoje o Gato Acenando é considerado um guardião do lar e sua imagem é frequentemente um poderoso talismã da sorte.

O deus polaco Ovinnik, que assumiu a forma de um gato preto, protegeu os animais domésticos e afugentou fantasmas e fadas.

No conto irlandês, a Viagem de Maelduin, um gato protege os tesouros do Outro mundo da pilhagem.

Divinatório

O gato acena para que você possa abraçar possibilidades mágicas, adoptar novos caminhos com curiosidade e flexibilidade, para confiar que a sorte está consigo. Evocando o seu próprio desejo de correr livre, o gato ensina o equilíbrio entre paciência e acção, oferecendo protecção e sorte. Sempre orgulhoso, independente e corajoso, ele oferece uma visão sobre este mundo e o mundo além do véu.

 Judith Shaw, formada pelo San Francisco Art Institute, sempre se interessou por mitos, cultura e estudos místicos. Pouco depois de se formar na SFAI, enquanto vivia na Grécia, Judith começou a explorar a Deusa na sua arte. Ela continua a ser inspirada pela Deusa em todas as suas manifestações, que são encontradas em todo o mundo natural. Nos últimos anos, Judith começou a estudar as deusas dos seus ancestrais, o povo Celta, resultando em seu baralho de cartas do oráculo da deusa celta. Ela agora está trabalhando em seu próximo baralho de cartas do oráculo - Animal Spirit Guides. Originária de Nova Orleães, Judith mora no Novo México, onde pinta o quanto o tempo permite e é vendedora imobiliária em part-time.

Versão original:  https://feminismandreligion.com/2020/10/28/cat-mysterious-and-magical-by-judith-shaw/#more-50523

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele

Diana Vandenberg
https://www.boekwinkeltjes.nl/b/103915124/De-hermetische-schilderkunst-van-Diana/
"Se a função da fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também explicá-la pelo "eterno feminino" e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: que é uma mulher?

O próprio enunciado do problema sugere-me uma primeira resposta. É significativo que eu coloque este problema. Um homem não teria a ideia de escrever um livro sobre a situação singular que ocupam os machos na humanidade. Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: "Sou uma mulher". Essa verdade constitui o fundo sobre o qual se erguerá qualquer outra afirmação. Um homem não começa nunca por se apresentar como um indivíduo de determinado sexo: que ele seja homem é natural. É de maneira formal, nos registos dos cartórios ou nas declarações de identidade que as rubricas, masculino, feminino, aparecem como simétricas. A relação dos dois sexos não é a das duas electricidades, de dois polos. O homem representa a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos "os homens" para designar os seres humanos, tendo-se assimilado ao sentido singular do vocábulo vir o sentido geral da palavra homo. A mulher aparece como o negativo, de modo que toda determinação lhe é imputada como limitação, sem reciprocidade.

Agastou-me, por vezes, no curso de conversações abstractas, ouvir os homens dizerem-me: "Você pensa assim porque é uma mulher". Mas eu sabia que a minha única defesa era responder: "penso-o porque é verdadeiro", eliminando assim a minha subjectividade. Não se tratava, em hipótese alguma, de replicar: "E você pensa o contrário porque é um homem", pois está subentendido que o fato de ser um homem não é uma singularidade; um homem está no seu direito sendo homem, é a mulher que está errada. Praticamente, assim como para os Antigos havia uma vertical absoluta em relação à qual se definia a oblíqua, há um tipo humano absoluto que é o masculino. A mulher tem ovários, um útero; eis as condições singulares que a encerram na sua subjectividade; diz-se de bom grado que ela pensa com as suas glândulas. O homem esquece soberbamente que a sua anatomia também comporta hormonas e testículos. Encara o corpo como uma relação directa e normal com o mundo que acredita apreender na sua objectividade, ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que o especifica: um obstáculo, uma prisão. "A fêmea é fêmea em virtude de certa carência de qualidades", diz Aristóteles. "Devemos considerar o carácter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural". E Sto. Tomás, depois dele, decreta que a mulher é um homem incompleto, um ser "ocasional". É o que simboliza a história do Génese em que Eva aparece como extraída, segundo Bossuet, de um "osso supranumerário" de Adão. A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autónomo. "A mulher, o ser relativo...", diz Michelet. E é por isso que Benda afirma em Rapport d'Uriel: "O corpo do homem tem um sentido em si, abstracção feita do da mulher, ao passo que este parece destituído de significação se não se evoca o macho... O homem é pensável sem a mulher. Ela não, sem o homem". Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o "sexo" para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro.

A categoria do Outro é tão original quanto a própria consciência. Nas mais primitivas sociedades, nas mais antigas mitologias, encontra-se sempre uma dualidade que é a do Mesmo e a do Outro. A divisão não foi estabelecida inicialmente sob o signo da divisão dos sexos, não depende de nenhum dado empírico: é o que se conclui, entre outros, dos trabalhos de Granet sobre o pensamento chinês de Dumézil sobre as índias e Roma. Nos pares Varuna-Mitra, Urano-Zeus, Sol-Lua, Dia-Noite, nenhum elemento feminino se acha implicado a princípio; nem tampouco na oposição do Bem ao Mal, dos princípios fastos e nefastos, da direita e da esquerda, de Deus e Lúcifer; a alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano. Nenhuma coletividade se define nunca como Uma sem colocar imediatamente a Outra diante de si. Basta três viajantes reunidos por acaso num mesmo compartimento para que todos os demais viajantes se tornem "os outros" vagamente hostis. Para os habitantes de uma aldeia, todas as pessoas que não pertencem ao mesmo lugarejo são "outros"' e suspeitos; para os habitantes de um país, os habitantes de outro país são considerados "estrangeiros". Os judeus são "outros" para o antissemita, os negros para os racistas norte-americanos, os indígenas para os colonos, os proletários para as classes dos proprietários."

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo

https://joaocamillopenna.files.wordpress.com/2018/03/beauvoir-o-segundo-sexo-volume-11.pdf

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Como seria viver numa sociedade matriarcal pacífica?


... Podemos imaginar?...
Por Carol P. Christ

Existem muitas razões para as mulheres, os escravos e os pobres se revoltarem contra autoridades injustas em sociedades de tipo patriarcal. Mas entretanto não devemos assumir que haja razões para a revolta contra a dominação quando ela não existe, nem para nos revoltarmos contra autoridades injustas em sociedades onde elas não existem.

Em resposta à minha série recente de textos sobre o patriarcado enquanto sistema de dominação criado pela intersecção do controlo da sexualidade feminina, com o sistema da propriedade privada e a guerra (Parte 1, Parte 2, Parte 3), várias pessoas me perguntaram se existe alguma forma de injustiça inerente a uma sociedade de tipo matriarcal que possa ter dado origem à criação do patriarcado pelos homens como expressão da sua revolta.

A ideia por detrás desta questão é que se as mulheres são dominadas pelos homens nas sociedades patriarcais, então os homens também foram dominados pelas mulheres nas sociedades pré-patriarcais. Implícita nesta questão está a ideia de que deve ter havido uma “boa razão” para o desenvolvimento do patriarcado. A ideia de que na origem não houve qualquer “boa razão” para a existência do patriarcado – caso “boa” signifique justa – é simplesmente demasiado dolorosa para poder ser considerada por muit@s de nós.

O elo perdido nesta questão é a nossa incapacidade de imaginarmos sociedades sem dominação.

Segundo Heidi Goettner-Abendroth, “sociedades matriarcais” são “sociedades pacíficas” nas quais nenhum dos géneros domina o outro.

As sociedades matriarcais têm 4 características em comum:

1  1. Praticam agricultura em pequena escala e conseguem a igualdade através da dádiva transformada em hábito social.

2  2. São igualitárias, matrilocais e matrilineares. Mulheres e homens são definid@s pela sua conexão com o clã materno que possui a terra em comum.

3  3. Têm sistemas bem desenvolvidos de obtenção de consenso nas tomadas de decisão, que garantem que todas as opiniões sejam tidas em consideração.

     4. Respeitam princípios como o amor, o cuidado com as outras pessoas, a generosidade, os quais associam à ideia de maternidade e que ambos os géneros são ensinados a manifestar. Veem frequentemente a Terra como a Grande Mãe.

Como seria viver numa sociedade pacífica “matriarcal”?

Enquanto crianças, não teríamos de lutar com as nossas irmãs e os nossos irmãos pela atenção da nossa mãe ou do nosso pai. Tanto as raparigas como os rapazes receberiam o mesmo amor e atenção da parte das mães, avós e ti@s. tanto as raparigas como os rapazes teriam a certeza de sempre terem lugar no clã materno. Tanto enquanto rapaz como enquanto rapariga nunca teríamos de nos “separar de” nem de rejeitar a nossa mãe para “fazermos a experiência de nós enquanto indivíduos” nem para “crescermos”. Poderíamos crescer sem necessidade de romper os laços com as pessoas que primeiro nos amaram e cuidaram de nós. 

Seríamos criad@s numa família alargada com irmãs, irmãos e prim@s, tod@s considerad@s noss@s irmãs e irmãos. Nunca nos sentiríamos sós. Nunca nos ensinariam a competir com as nossas irmãs e irmãos. Nunca nos atacaríamos entre nós porque comportamentos violentos não seriam apropriados dentro da família.
Quando chegássemos à idade de ter sexo, poderíamos ter todo o sexo que nos apetecesse. Ser-nos-ia ensinado que sexo é algo alegre e prazenteiro. Quando os casais já não sentissem atracção mútua, facilmente se separariam e encontrariam outras pessoas.

Não haveria razão para as famílias se preocuparem com o interesse das crianças pelo sexo. Como todas as crianças têm uma mãe e todas as mães têm casa no clã materno, não haveria crianças “ilegítimas”, “bastardas”, “mulheres perdidas”, “vadias” ou prostitutas. Como o sexo seria livre, a prostituição não faria qualquer sentido.
As crianças nascidas dessas relações teriam sempre um lar no clã da sua família materna. As mães seriam ajudadas na educação das crianças pelas suas irmãs e irmãos, pelas mães e avós, tias e tios. Uma jovem grávida ou com uma criança pequena nunca seria rejeitada nem “entregue à sua sorte”.

Com tanta ajuda, as mulheres poderiam trabalhar “fora de casa” nos campos comunitários juntamente com as suas e os seus parentes. Uma mãe nunca ficaria “confinada” ou “fechada” com as crianças. “O problema d@s sem nome” descrito por Betty Friedan não se poria. Mães que não se sentiriam sozinhas, nem oprimidas, não sentiriam qualquer necessidade de “fazerem as suas filhas e filhos pagarem” pela sua infelicidade.

Um jovem não teria a obrigação de “prover” ao sustento das crianças, uma vez que isso seria da responsabilidade do clã materno. Um jovem contribuiria para o seu próprio clã e ajudaria as suas irmãs e primas a cuidar das suas crianças. Estas crianças vê-lo-iam como o seu “modelo de masculinidade”. Os homens trabalhariam com as mães e as irmãs nos campos, em projetos de construção ou comércio com outros clãs.

Quer fossemos rapazes ou raparigas, homens ou mulheres, teríamos sempre a certeza de sermos amad@s, pois seríamos ensinad@s a amar e a cuidar das outras pessoas. Não seriamos ensinad@s a competir, enganar ou cumular para nós propri@s. Caso tivéssemos uma habilidade especial, seríamos encorajad@s a desenvolvê-la, mas nunca a pensarmos que isso nos tornaria superiores a qualquer outra pessoa.
Tanto enquanto rapazes como enquanto raparigas, seríamos ensinad@s a respeitar as pessoas de idade, em particular as avós e os avôs. Isto não significa que estas pessoas tomariam o poder sobre nós, porque os clãs teriam sistemas democráticos bem desenvolvidos de forma a obter consensos que permitiriam a qualquer voz ser ouvida antes da tomada de decisões importantes.

Seguramente que haveria conflitos, ciúmes e desentendimentos em sociedades pacíficas, mas quando os conflitos ocorressem, não seriam resolvidos pela força porque a todas as pessoas teria sido ensinado que a partilha e a generosidade de espírito são as melhores formas de resolver conflitos.

Sociedades pacíficas estão tão longe daquela em que vivemos e são estranhamente tão atraentes, que muitas pessoas julgam que elas nunca existiram. No entanto, sociedades pacíficas existiram em todos os continentes do planeta e existem ainda hoje em dia em vários níveis entre os povos Iroquois, os Zapotecas, os Kuna, os Shipibo, os Samoans, os Asante, os Khoisan, os Tuaregs, os Berberes, os Kasai, os Minangkabau, os Mosuo e outros.

Não sei o que acham, mas quanto a mim, eu adoraria viver numa sociedade assim. Se procuramos “razões para” a existência do patriarcado, não creio que a infelicidade dos homens em tais sistemas fosse uma delas. Tanto os rapazes como os homens são amados, honrados e altamente considerados. Eles não têm de lutar, de ir à guerra, para se afirmarem e têm todo o sexo que querem, portanto assumo que são extremamente felizes.

Adoro imaginar todas as pessoas da terra a viverem em sociedades pacíficas onde os valores do amor, da partilha e da generosidade são considerados os mais importantes. A “idade de ouro” não tem de ser uma ideia do passado. Sonho com a possibilidade dela ser o nosso futuro.

Carol Christ
Traduzido por Luiza Frazão

http://feminismandreligion.com/2013/03/25/what-might-it-be-like-to-live-in-a-society-of-peace-can-you-imagine-by-carol-p-christ/#comment-15510

 Imagem: Ian Macharia, Kargi, Quénia

domingo, 12 de julho de 2020

O Patriarcado é um sistema de dominação masculina criado pela intercessão da necessidade de controlo das mulheres, da propriedade privada e da guerra – primeira parte, Carol P. Christ


O patriarcado é frequentemente definido como um sistema de dominação masculina. Esta definição não esclarece, apenas obscurece, o complexo conjunto de factores que contribuem para o funcionamento do sistema patriarcal. Precisamos duma definição mais complexa se queremos compreender e desafiar o sistema patriarcal em todos os seus aspectos.

O patriarcado é o sistema de dominação masculina ancorado num etos de Guerra que legitima a violência, santificada pelos símbolos religiosos, no qual os homens dominam as mulheres através do controlo da sexualidade feminina, com a intenção de legarem a propriedade aos herdeiros masculinos, e no qual os homens, heróis de guerra, são instruídos para matar homens, autorizados a violar mulheres, a apoderarem-se da terra e das suas riquezas, a explorarem recursos e a apropriarem-se ou dominarem por qualquer meio os povos conquistados.

Marx e Engels disseram que a família patriarcal, a propriedade privada e o estado surgiram ao mesmo tempo. Embora a sua compreensão das sociedades que precederam o patriarcado tenha falhas, a intuição que tiveram de que o patriarcado está ligado à propriedade privada e à dominação em nome do Estado está correta. Desde há muito que é óbvio para mim que o patriarcado não pode ser separado da Guerra e dos reis que tomam o poder na sequência da guerra. Fiquei surpreendida há anos com a alegação de Merlin Stone de que na sociedade matrilinear não existem crianças ilegítimas porque todas as crianças têm mãe. Mais tarde, tentei perceber por que razão a Igreja de Roma e outras igrejas e o Partido Republicano na América se opõem tão fortemente ao direito das mulheres controlarem o seu próprio corpo e tentam a todo o custo impedir o seu direito ao aborto.

Na definição do patriarcado que dou acima, junto todas estas questões numa síntese que descreve além das suas origens a forma como está relacionado com o controlo da sexualidade feminina, com a questão da propriedade privada, da guerra, da conquista, da violação usada como arma de guerra e do recurso à escravidão.

O sistema que defino como patriarcal é um sistema de dominação reforçado pela violência ou pela ameaça da violência. É um sistema desenvolvido e controlado por homens poderosos, no qual as mulheres, crianças, outros homens e a própria natureza são dominadas. Devo entretanto acrescentar que não acredito que esteja na “natureza” do homem dominar pela violência. O sistema patriarcal tem uma origem histórica, o que significa que não é eterno nem inevitável. Houve mulheres e homens que ofereceram resistência ao patriarcado ao longo da sua história. Podemos juntar-nos também hoje em dia para lhe oferecermos resistência.

A minha definição de patriarcado foi influenciada por novos dados da pesquisa feita por Heidi  Goettner-Abendroth em Sociedades de Paz, que faz avançar o nosso entendimento das sociedades pré-patriarcais que ela designa por “matriarcais” “sociedades de paz”.

Goettner-Abendroth identifica a estrutura profunda dos matriarcados usando quarto marcadores: 

1) económico: estas sociedades usualmente praticam agricultura em pequena escala e conseguem relativa igualdade económica através da dádiva enquanto hábito social; 

2) social: estas sociedades são igualitárias, matrilineares, matrilocais, sendo a terra propriedade do clã materno e com ambos os géneros, mulheres e homens, permanecendo no respetivo clã materno; 

3) político: estas sociedades são igualitárias e possuem sistemas democráticos de consenso bem desenvolvidos; 

4) cultura, espiritualidade: estas sociedades tendem a considerar a Terra como a Grande Mãe Doadora. Mais importante e permeando tudo o resto, estas sociedades honram princípios de cuidado, amor e generosidade que associam à ideia de  maternidade, acreditando que tais princípios devem ser praticados tanto pelas mulheres como pelos homens.

A cultura Mosuo dos Himalaias, objeto de estudo recente, mesmo encontrando-se em vias de desaparecimento, é um exemplo clássico. Fiquei a saber da sua existência ao ouvir a discussão de Michael Palin sobre os hábitos sexuais das mulheres de Mosuo no seu documentário sobre os Himalaias. Estas mulheres explicaram a Palin que na sua cultura as mulheres e os homens se definem a si próprias e a si próprios através da sua conexão com a clã materno. Quando uma rapariga atinge a idade da maturidade sexual, a mãe prepara-lhe um quarto onde ela poderá convidar um rapaz para jantar. Caso este lhe agrade, ele é convidado a passar a noite com ela. As crianças nascidas destas relações tornam-se parte do clã materno. O papel do pai é assumido pelos tios e irmãos da mãe, sendo o papel desta partilhado com as irmãs. Quando algum membro dum casal se cansa da relação, esta acaba e cada pessoa encontra um novo parceiro ou uma nova parceira. Obviamente que o Michael Palin teve alguma dificuldade para acreditar no que as mulheres lhe contavam.

 Esta história ilustra uma importante diferença entre os costumes matrilineares e matrifocais dos Mosuo e os das culturas patriarcais com os quais estamos familiarizadas. Entre as mulheres desta etnia é de norma a livre escolha dos parceiros sexuais. Não existem crianças ilegítimas nesta cultura porque todas têm uma mãe. Não existem mulheres “perdidas” (bom reflectir sobre o sentido deste termo) nem prostitutas porque as mulheres são livres para terem relações com quem decidirem. A dicotomia entre a santa e a pecadora tão bem conhecida nas culturas patriarcais pura e simplesmente não existe aqui.

Com o contraste fornecido por Mosuo, é possível entender a um nível mais profundo que o patriarcado é um sistema de dominação masculina no qual o homem domina a mulher através do controlo da sexualidade feminina. O controlo da sexualidade feminina através da instituição do casamento não é acidental no patriarcado, sendo pelo contrário algo central. Os costumes que rodeiam o casamento patriarcal, incluindo a exigência de que a noiva esteja intocada ou “virgem”, a protecção da virgindade das raparigas pelo pai e pelos irmãos, o isolamento das raparigas e das mulheres, a exigência de estrita fidelidade da parte das esposas em relação aos maridos, e a imposição destes hábitos com o recurso à vergonha pública, à violência, ou ameaça de violência, tem um propósito: assegurar que os descendentes do homem sejam legítimos, sejam dele. Enquanto saber quem é a mãe biológica é fácil, ter a certeza de quem é  o verdadeiro pai é bem mais difícil. Se uma mulher tem mais do que um amante, então, sem teste de DNA que apenas foi descoberto recentemente, é quase impossível ter a certeza sobre quem é o pai. Uma primeira solução para esse dilema consiste em definir a paternidade de outra forma e uma segunda solução é o absoluto controlo sobre a sexualidade das mulheres.

Entretanto podemos perguntar-nos por que razão é tão crucial para um homem saber quem são os seus filhos biológicos que um complicado sistema de isolamento, vergonha e controlo da sexualidade feminina teve de ser posto em prática? A resposta encontra-se na próximo segmento da minha definição: o patriarcado é um sistema de dominação masculina no qual o homem domina a mulher através do controlo da sua sexualidade com a intenção de transmitir a propriedade aos herdeiros masculinos. Marx e Engels tinham razão ao afirmarem haver uma relação entre patriarcado e propriedade privada.  Não haveria necessidade do homem ter tanta certeza sobre a paternidade das suas crianças se a instituição da propriedade privada não existisse e se o valor dos indivíduos não fosse definido em função da propriedade que detêm e transmitem aos seus herdeiros, habitualmente do género masculino.

Apercebi-me recentemente de que a palavra “herança” ou “propriedade herdada” em grego moderno, “periousia”, derivada do grego antigo, ilustra a conexão entre propriedade e identidade de forma mais óbvia do que a palavra “herança”. “Ousia” no grego antigo refere-se ao ser ou à essência do indivíduo. “Peri-ousia” é aquilo que rodeia o ser essencial e portanto define “quem” se “é”. O seu sentido óbvio é que “quem se é” é definido pela “propriedade” que se herda e se transmite. Sem a clara identificação da “essência” dum homem com a sua propriedade, não seria necessária uma preocupação tão grande com a certeza de que o herdeiro da propriedade do pai é de facto o seu filho biológico.  

Fevereiro 18, 2013

Imagens:
1. Yves Yves, Unsplash 
2. Estandartes das Deusas do mundo, de Lydia Ruyle, cenário da Conferência da Deusa Portugal 2019, Sintra
3.Cariátides, museu de arqueologia da Acrópole, Atenas

terça-feira, 2 de junho de 2020

A imagem de Deus enquanto Pai, Filho e Espírito: A raiz do problema


"Vários anos de pós-graduação em teologia convenceram-me de que havia algo de errado com a imagem tradicional de Deus. O meu questionamento começou com as palavras dos teólogos sobre as mulheres. A mulher era corpo, o homem era alma, a mulher era carne, o homem espírito. Por causa da sua fraca capacidade racional, a mulher foi persuadida pela serpente, porque não podia controlar as suas paixões, ela foi seduzida. Eu era uma mulher e, por mais que tentasse, não conseguia ver-me na fotografia. Eu sabia que a minha mente era tão boa como a de qualquer outra pessoa e não via o meu corpo como uma fonte de tentação. Gradualmente, comecei a perceber que a imagem de Deus enquanto Pai, Filho e Espírito estava na raiz do problema. Fosse o que fosse que eu fizesse, jamais seria “à sua imagem”. Embora esperasse encontrar em Deus um pai que amaria e aceitaria o meu eu feminino, parecia que "ele", tal como o meu pai e a maioria dos meus professores, gostava mais dos rapazes. Decidi que, a menos que pudéssemos chamar Deus de Mãe, assim como de Pai, de Filha tal como de Filho, as mulheres e as raparigas nunca poderiam ser valorizadas.

À medida que me afastava cada vez mais de Deus como Pai, sentia-me incapaz de ir à igreja, de cantar hinos ou de orar. Sem novas imagens para substituir as que eu não podia mais aceitar, sentia-me vazia. Uma noite, já bem tarde, a raiva foi crescendo dentro de mim. Gritei a Deus: "Quero que saibas o quanto eu sofri porque permitiste que te nomeassem à imagem do homem como o Deus dos pais, como homem de guerra, como rei do universo". Chorei de dor e rejeição, até esgotar as lágrimas. No silêncio que se seguiu, ouvi uma voz: “Em Deus existe uma mulher como tu. Ela partilha do teu sofrimento.”

Um ano depois quando ouviu o nome da Deusa numa oficina dinamizada por uma mulher chamada Starhawk, senti que a experiência de toda a minha vida se confirmava. Starhawk descreve a Deusa como

A Mãe Terra, que sustenta todas as coisas que crescem, que é o corpo, os nossos ossos e células. Ela é o ar - os ventos que se movem nas árvores e sobre as ondas, a respiração. Ela é o fogo da lareira, a fogueira ardente e o vulcão fumegante, o poder de transformação e mudança. E ela é a água - o mar, fonte original de vida, os rios, córregos, lagos e poços, o sangue que flui nos rios das nossas veias. Ela é égua, vaca, gato, coruja, grou, flor, árvore, maçã, semente, leão, porca, pedra, mulher. Ela pode ser encontrada no mundo à nossa volta, nos ciclos e estações da natureza, na mente, corpo, espírito e emoções de cada um e uma de nós.

Imagens da Deusa retratam o poder feminino como criativo e vital. Imagens da Deusa dizem-nos que nós participamos dos mistérios da natureza, nos ciclos de nascimento, morte e renovação. Foi ela quem eu intuí quando respondi às imagens da natureza nas palavras dos profetas e na relação Eu-Tu de Burber com uma árvore (1). Era Ela que eu procurava quando expressei a minha raiva a Deus. Ela era aquela que eu não conhecia. Ela era aquela que eu sempre conheci.

O anseio por uma imagem feminina de Deus foi despertado em mim pelo ressurgimento do movimento das mulheres. O despertar da nossa consciência trouxe-nos um modelo de espaço feminino onde podíamos partilhar as nossas histórias, "ouvirmo-nos umas às outras", permitir que a Deusa ressurgisse no meio de nós. Descobrimos livros escritos décadas antes que raramente tinham sido retirados das bibliotecas: M. Esther Harding, Jane Ellen Harrison, G. Rachel Levy e Helen Diner. Lemos sobre a Deusa em jornais e boletins, em livros recém-publicados: Jean Mountaingrove, Ruth Mountaingrove, Z. Budapeste, Hallie Mountain-Wing, Merlin Stone, Elizabeth Gould Davis, Marija Gimbutas, Charlene Spretnak, Starhawk e Elizabeth Gould Davis. Criámos grupos de estudo e círculos rituais. "A Deusa está viva. A magia está no ar", cantámos alegremente.”


(1)    Quando comecei a estudar a Bíblia Hebraica na faculdade, fui atraída pelas imagens que os profetas apresentavam das árvores do campo batendo palmas no dia da redenção, das montanhas e colinas que ressoavam em cânticos. Não entendi pois quando os meus professores disseram tratar-se dum exemplo da falácia patética, definida por eles como a atribuição de sentimentos a objectos inanimados. Eu pensava que as palavras dos profetas se expressavam a nossa profunda comunhão com a natureza.

Carol P. Christ, in Rebirth of the Goddess: Finding Meaning in Feminist Spirituality, 1997