Conteúdos

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Conferência da Deusa Portugal 2022 - uma experiência única e inesquecível


Esta Conferência, realizada entre 13 e 15 de Maio deste ano, foi a segunda do género, tendo a primeira tido lugar na mesma área de Sintra, Quinta dos Lobos, em Maio de 2019. Ficou estabelecido na altura que seria um evento bienal e que o seguinte seria em 2021, mas a pandemia trocou-nos as voltas e obrigou-nos a adiar até 2022. As circunstâncias continuavam desafiantes, mas mesmo assim em Janeiro decidimos prosseguir com a concretização do nosso projecto, fosse como fosse, e conseguimos. E tudo aconteceu como um milagre, um portal que se abriu por vontade e mão da Deusa, um céu que clareou. Justamente, porque em honra estavam as Deusas solares!...

 Na véspera, conseguimos criar o Templo da Mãe do Fogo na quinta Ten Chi. Esvaziámos o espaço, lavámos, limpámos e enfeitámos com os estandartes de Lydia Ruyle que nos chegaram dos Estados Unidos e com outros igualmente maravilhosos criados pelas Sacerdotisas de cada Círculo, nove ao todo. E cada uma delas decorou também o altar lateral da respectiva direcção.

Estava montado o cenário desta festa da Deusa, que incluía os espaços exteriores, como o altar à Deusa Maia, o espaço do mercado, a bilheteira e… por último mas de primeiríssima importância, a cozinha, onde a Cristiana e a Goreti, apoiadas por outras almas generosas e prestativas, fizeram a magia que garantiu sustento e abundância a todo o staff, bem como a todas e a todos os participantes que previamente encomendavam a sua refeição. Este foi mais um sonho que aqui se manifestou de forma ainda mais completa e perfeita e profissional do que a inicialmente imaginada, com ingredientes de primeira qualidade e tudo equilibrado com muita alegria, sentido de humor, amor e graça.

 

À hora prevista do dia 13 de Maio, dia em que na nossa tradição acolhemos a Senhora do Verão, depois das boas-vindas dadas pela nossa Melissa Mãe, a Sacerdotisa Cristina Grumete, pela segunda vez desde a primeira edição da Conferência, realizámos a cerimónia de abertura, que envolveu, como todas as outras, as nove Sacerdotisas do Grupo Cerimonial e as nove Sacerdotisas do Círculo. Foi quando introduzimos no espaço do Templo o Fogo sagrado de cada uma das nove  direcções, incluindo o Centro, e quando oferecemos à Mãe do Fogo as flores que havíamos levado, e também canções que exprimiam a nossa intenção para aqueles três dias de devoção, que era essencialmente a de reativarmos o nosso Fogo interior, de renovarmos a nossa energia, a nossa fé na Deusa e na Vida, de reafirmarmos a nossa coragem e a nossa alegria de viver.

Nestes três dias, trabalhámos com o Sol triplo, o sol do meio-dia, de Trebaruna, o sol poente, de Sul/Sula/Chula/Sulis, e o sol da madrugada, de Aurora. Recebemos bênçãos das águas quentes de cura de Sula, como as de São Pedro do Sul, as das Caldas da Rainha, do Marvão, de Chaves e outras levadas de termas conhecidas do nosso território.

 No sábado, abrimos o dia com uma cerimónia em que honrámos especialmente essas águas e com Sula fizemos a travessia pelo reino das nossas sombras, para à noite A encontrarmos através das Suas Sacerdotisas e Sacerdote. No domingo honrámos Aurora pela madrugada e saímos em procissão cantando e celebrando o corpo da Deusa em que se transforma a sagrada paisagem da serra de Sintra.

Sobre as comunicações, as nossas palestrantes e o nosso palestrante foram Mary Sharratt, que nos falou sobre a sua obra focada em mulheres ímpares cujo lugar na história precisa de ser reconhecido e valorizado; Rosa Leonor Pedro, que nos falou da mulher dividida pelo patriarcado. Mike Jones ensinou-nos a ler a paisagem sagrada e a explorar as dimensões secretas da Deusa na Sua natureza; Kathy Jones falou-nos da terra mágica de Glastonbury/Avalon e do Templo que aí criou há cerca de vinte anos; Laura Ghianda abordou o tema do feminino activo e solar e de dualismos injustos e redutores. Eu mesma falei de vestígios de antigos cultos a Deusas solares no nosso território. Marta Blanco Fernández esteve impossibilitada de viajar desde Espanha por razões de saúde, mas enviou-nos em vídeo a sua comunicação, baseada na tese de doutoramento que defendeu há alguns meses na universidade de Alicante,

 "Origem, demonização e sobrevivência do divino feminino na Península Ibérica: uma aproximação desde a tealogia e o ecofeminismo", que vos convidamos a ver e a ouvir no canal do Youtube da Conferência da Deusa Portugal: ://youtu.be/CvdRpxS6u0o

 Embora o termo "Conferência" evoque ênfase no aspecto mental, naquelas que são dedicadas à Deusa não é o caso. No entanto, este é também um aspecto importante. Honrando e valorizando o estudo académico e a investigação relativa no caso à mulher, à Deusa e ao sagrado feminino em geral, que expandem a nossa visão e dão estrutura, enraizando e fortalecendo o nosso trabalho.

 Referir ainda Elaine Wattam, que também veio de Glastonbury e nos ofereceu um belo workshop inspirado no fogo de Brígida, como sua Sacerdotisa que é, bem como de Avalon.

 Acrescentar também a participação da Sacerdotisa do Templo das Rosas, Ouassima Issrae, que nos apresentou o seu Templo e nos ofereceu a magia da Rosa.

 Pode ver mais sobre os temas abordados no site da Conferência:

 https://www.conferenciadadeusa.com/

Ao nível das performances, fomos muito abençoadas e abençoados com tanta dança maravilhosa, como o do fantástico Saucco de Trivia, de Madrid; a de Ana Bergano, Ikny Falcão e das bailarinas do espaço Reyel e ainda a de Tara Chantelle Gomez, que foi uma muito agradável surpresa. A sua arte, como a das restantes bailarinas e bailarino elevaram-nos a uma dimensão muito sagrada do Templo antigo e das suas bailarinas, que incorporavam a Deusa através da beleza da música e da dança. Danças circulares, criando integração, elevação de alma e profunda conexão e comunhão também não faltaram, graças às Sacerdotisas Juliana Di Avalon e Sandra Coelho e ainda às alunas da primeira Espiral da formação de Sacerdotisa do Jardim das Hespérides, que nos trouxeram, através da dança, a energia alegre, auspiciosa e divina da Rainha do Verão.

 Agradecer ainda o concerto de taças e gongos que Rafael Narciso nos ofereceu no serão de sábado, dia 14 de Maio.

 Fomos ainda abençoadas/os com tradutoras diligentes e incansáveis, das quais destaco Xénia Bendit, que, com graça e competência, acumulou essa função com outra de grande responsabilidade como Sacerdotisa do Círculo. Tivemos ainda o imenso privilégio de ter a talentosa Sara Miguens como nossa fotógrafa oficial! (Atenção que estas aqui ainda não são as suas fotos, que ainda estão em fase de edição).

 Também um destaque especial para as nossas Melissas, femininas e masculinas, que bem-dispostas, amorosas e eficientes, tiveram um papel indispensável para que tudo corresse tão bem. 

Foram quase três anos de intensa preparação e muitos desafios, uma pandemia e um conflito na Europa, que nos obrigaram a dois adiamentos. Tivemos pessoas que saíram e outras que entraram, quase até ao último momento, e tudo isso nos obrigou a alterações, reajustes e acertos na programação, alguns quase em cima da hora. No final, porém, miraculosamente, tudo acabou por se adequar da forma mais harmoniosa, bela, orgânica e amorosa. E a grande lição que recebemos foi que o mais importante, depois de fazermos com empenho tudo o que estiver ao nosso alcance, é confiarmos, mantendo o foco e o amor no coração. A Deusa sempre faz o resto!

 A energia reajustou-se por si própria e tudo fluiu, e o que sentimos foi a bênção duma imersão de três dias na maravilhosa dimensão do Jardim das Hespérides, uma experiência indescritível, numinosa. Nós apenas nos dispusemos a senti-La, criámos o cenário e as circunstâncias e a Deusa manifestou-se, o Seu Jardim Dourado abriu-se e todas e todos pudemos sentir a Sua energia profundamente curadora e transformadora.

 Alguns testemunhos:

A minha primeira participação numa conferência da Deusa foi uma experiência mágica e inesquecível. Assim que cheguei à quinta senti-me bem-vinda e fui amavelmente recebida e acolhida por todas as irmãs e irmãos experientes, que já são Sacerdotisas e Sacerdotes da Deusa. O que vivi na conferência durante os três dias foi inesquecível. Desde a partilha de amor, de fraternidade, de amizade, de sorrisos, de gargalhadas, de música, de danças, de comida deliciosa, de força, de coragem, de conhecimento, de cura, de ajuda, de consciência, de respeito e de bênçãos.

 E o mais importante, senti ainda mais o amor incondicional da Deusa em mim. Regressei a casa feliz, com o coração quente de tanto amor e amizade que recebi, e também dei.

Sandra Monteiro

 ……………………………………………………..

 Grata à Deusa e a todas as mulheres e homens que fizeram esta Conferência da Deusa Portugal - Maio de 2022 acontecer e que estiveram presentes.

 Foi uma honra e um prazer poder participar nesta celebração às Deusas Solares.

 Quando disse SIM estava longe de imaginar o lugar bonito que iria ocupar. Foi uma bênção, uma alegria e uma aprendizagem maravilhosas.

 Sinto que todos demos o nosso melhor e que estamos realmente a construir um mundo onde os nossos corações podem respirar e expressar-se em amor.

Mónica Campanhã

 ……………………………………………...........

 Ainda integrando todo o amor que recebi na Conferência da Deusa Portugal, que aconteceu no último fim de semana na Quinta Ten Chi, na qual tive a oportunidade de ajudar como Melissa.

 Este evento acontecerá novamente em 2024 e eu recomendo para aquelas e aqueles que sentem o apelo do culto da Deusa!

 Sou especialmente grata por esses momentos de pura conexão e lembranças de minhas vidas passadas, pelas almas incríveis que conheci, e principalmente pela oportunidade de estar ao serviço de um evento tão importante para os tempos que estamos a viver!

 EM AMOR E DEVOÇÃO

 Sarasvati Yarah

 ……………………………………………………..

Dias maravilhosos na Conferência da Deusa Portuguesa. Luiza e sua equipa fizeram um trabalho incrível, apesar de muitos obstáculos no caminho. Pessoas adoráveis e muito foco, alegria e devoção à Deusa. Foi muito bom fazer parte deste grande evento da Deusa e partilhar tempo com você, Laura, e todos os amigos portugueses e espanhóis. Foi uma experiência desafiadora e difícil na sua criação, mas tudo finalmente se encaixou magnificamente. Sinta-se orgulhosa, fique feliz. As teorias são boas, mas a prática é o que conta - como somos uns e umas com as outras e com a Deusa, como enfrentamos desafios.

 Kathy Jones

 …………………………………………………………........

Eu e o meu companheiro estamos maravilhados com este evento. Vocês tocaram nosso coração. Pratico a arte desde os meus 13 anos e nunca estive em uma cerimônia tão linda, tão poderosa e tão tocante de alma como aquelas em que participámos lá. Obrigado.

 Hud Alex Dalla Vecchia

 ……………………………………………………

 O FOGO SAGRADO DA DEUSA

Ontem caminhei com o meu bastão invisível na procissão das mulheres e homens que no fim da Conferência da Deusa percorreram um pequeno caminho no coração de Sintra…e com os pés batendo na terra faziam ouvir os tambores como um só coração, fazendo ecoar em mim memórias de velhos cantos  e que em coro, agradeciam à Deusa o esplendor do dia e todas as dádivas terrenas de que somos prodigalizados, nós mulheres e homens, apesar da fome e das guerras e da miséria humana... e sentir esperança na Humanidade.

 E tudo isto foi possível pelo esforço e entrega de algumas dezenas de mulheres que quero homenagear, porque fez eclodir no meu peito uma epifania, sentir o milagre da unidade, no corpo e na alma, ao ver a face da Deusa reflectida em cada mulher abençoada pela sua dádiva.

 Eu vi mulheres brotando e florescendo como nascidas do ventre da Terra cantando cheias de reconhecimento e generoso afecto que prodigalizavam ao seu redor, honrando a dádiva da Deusa… e vi-me eu mesma, mais uma vez nascida do seu ventre e de todas as mulheres em osmose como parteiras que ampararam dores e choros e elevaram a minha alma em êxtase sereno com os seus sorrisos e manhas …

 E vi no seu canto, o olho da pequena coruja, inteligente e atenta todo o tempo ...ela via tudo em silêncio …e escondia-se sagaz…  e vi ainda uma sereia alada… e uma naga escondida na floresta…e vi também um trolle e uma fada…Vi um gnomo delicioso e uma donzela assustada e vi a bruxa rabugenta sempre a praguejar palavras entre dentes… Vi jovens e velhas e mulheres maduras serem transformadas e vi nos ares entre todas as deusas,  a encantadora de serpentes… Lilith, que sibilando, atravessava todos os espaços e se insinuava entre as mulheres erguendo-as na vertical ao encontro de si mesmas, mediadoras do ceu e da terra, unindo os elementos… 

 Quero agradecer a todas as mulheres que vieram até mim e me abraçaram e agradeceram aquilo que eu escrevo, mas que vem delas para mim porque é nelas que me inspiro e é delas que vem o que sinto e sei, por osmose e empatia feminina… como sendo minhas irmãs e mães e filhas que não tive…e porque sei que todas somos filhas da Deusa.

Quero agradecer à mulher doce  e genuína, com o seu véu vermelho (Tara Chantelle Gomez), que nos seus sublimes passos mágicos de dança  em círculo e com gestos de eternidade, me fez lembrar que todas somos a vida o renascimento e a morte ...e também no final, a todas as mulheres empoderadas, vestidas de dourado, que em apoteose, nos espelharam  nos seus espelhos de  miríades de cores, a lembrar que somos Ela, e belas... culminando assim este encontro de deusas  e mulheres e de alguns  homens especiais que também abracei…

 Quero agradecer a todas as mulheres presentes, lamentando sinceramente as ausentes, às Sacerdotisas e as Melissas todo o seu cuidado e serviço à Deusa…e em especial à  Luiza Frazão a sua fé, a sua persistência e a audácia de acreditar e trazer para esta realidade tangível o que era apenas um sonho meu de menina e adolescente…

 Gratidão eterna a toda as mulheres que ecoaram o meu coração!

 Rosa Leonor Pedro

 ………………………………………………………

 Mais do que um Sonho, um Chamamento e um Legado.

 Fica o registo, para quem o sentir e desejar viver ou reviver desta forma.

 Ela

 No Caminho que me levava para os braços da Deusa, a partir de casa, enquanto me dirigia para a Conferência em seu Nome, senti o ímpeto de colher flores. Flores para Ela. Colhi-as então,  de cor rosa, branca, azul-lilás,  compondo um lindo ramo que coloquei, em reverência,  no solo que me acolheu. Foi assim a minha chegada, numa sentida homenagem ao Seu Colo e ao Seu Seio, que tanto me nutriram nestes dias.

 Dias indubitavelmente mágicos, irreais, mas, paradoxalmente, muito mais reais do que tantos outros.  Dias plenos de fascínio e beleza.

 Entrei no espaço em plena consciência,  procurando honrar cada Altar com a minha atenção muda e respeitosa.

Foram intensas todas as experiências que se seguiram, vibrantes de Vida, fazendo com que eta e Ela pulsasse por todo o nosso ser: o sangue correndo mais quente nas veias, o coração batendo ao ritmo das vivências, umas vezes descompassado, outras envolto na mais profunda paz.

Entreguei-me a Ela o mais que consegui, deixando que me conduzisse por tempos, espaços e códigos repletos de significado.

Inolvidável,  mais além do esperado,  tudo o que vivi! A honra que me coube junto a uma das senhoras mais distintas que já conheci,  Rosa Leonor Pedro Lilith.  O poema dito e tão visceralmente sentido por Amala e por todas e todos os que o recebiam, tendo a Sacerdotisa cumprido e honrado subliminarmente a missão oferecida por uma das maiores escritoras e defensoras da Mulher.

 As pessoas que conheci - porque assim estava escrito - pessoas cuja afinidade e amor fraterno se refectiu nos abraços que consolam e chegam até à alma.

 Ainda não desci o suficiente até este plano, talvez. Continuo imersa em beleza, embevecida por tudo o que recebi. Tudo foi perfeito,  desde o afago envolvente das árvores,  o lago de nenúfares com o leve coachar pela noite fora. A mensagem que recebi à chegada,  que me disse, em tom preciso, exactamente, o que precisava ouvir. Os Altares. O Grupo Cerimonial. As Sacerdotisas. Toda a equipa, que tão gentilmente me acolheu. As Mensagens essenciais das Oradoras. A Música. O Som do Gongo. O Som do Tambor. O Som das nossas Vozes.  As Danças Circulares. A Cerimónia Noturna. Os desafios. Os pirilampos que me acompanharam pela caminhada noturna na serra, para ver o Castelo dos Mouros iluminado. As confidências trocadas, a cair de sono, com os parceiros de camarata.  A cerimónia de Aurora ao Nascer do Sol!

Que almas tão grandes e generosas conheci ou revi. Vindas e vindos de vários pontos do país, da Espanha, da Irlanda, do Brasil... Nas mulheres, no menino de 12 anos que ficou no meu grupo, no outro elemento do sexo masculino, já de barbas brancas, ambos representantes do sexto masculino no mesmo. A colega de Português com uma sucessão de mestrados,  devotada à magia e a uma sabedoria muito antiga, uma sábia e talentosa artesã com uma força e generosidade inequívocas.

O Mago perito em Herbalismo e Medicina Tradicional Oriental, perito também na Arte do Gongo, emanando uma simplicidade e discrição que não conseguiram ocultar a sua mestria e saber sublime (referência a Rafael Narciso). A meditação. A união.

Tudo na mais mágica terra do nosso país, vivendo tanto, tanto do que a minha Alma sempre quis, realizando sonhos antigos e satisfazendo vontades emergentes das minhas entranhas, como a Dança Na Floresta, com a Bênção da Lua quase cheia e da Chuva que começou a cair enquanto os nossos pés descalços honravam o solo ancestral e o nosso Coração se abria à Deusa, ao Céu, à Terra e a nós próprias.

 A Conexão com a Deusa ao longo destes dias, neste Evento que tanto a louvou, foi, sim,  real e sagrada, a fazer-se sentir no mais simples e no mais profundo, na verificação de que tudo em redor se acabou por harmonizar e se harmonizou para mim.

 No momento mais solene, senti, intrinsecamente, a sua Voz e Presença em cada fibra do meu ser, o que fez com que as minhas águas deslizassem pela face, de pura emoção, gratidão, reconhecimento e entrega.

 Também aqui a perfeição e o sentido,  na sacerdotisa que me conduziu, assim como na que me recebeu.

 Sei que o que vivi me aconchegará, exponenciando a minha e a Sua força,  e que o meu enlevo acalentará os meus dias, fazendo-me sorrir secretamente nos momentos mais inesperados.

 Sei que longamente o esperava, tal como Ela por mim, tal como a Vida Plena e a Abundância por nós, a cada instante.

 Vou voltar. Sei que estou com Ela, que por Ela ansiava. E que Ela sempre me buscará.

 Obrigada.

 Fátima

 ……………………………………………………………

 “Hoje partilho algo que aprendi com as 17 mulheres e o homem que estiveram na criação, gestação, nutrição, manifestação, realização e celebração de um o Sonho.

 A manifestação de um sonho, ou projeto grandioso Feminino precisa da força da

 Coragem e Ousadia

 Confiar e acreditar que é possível

 Precisa de;

 Resiliência

 Paciência

 União,

 Sustentação

 Desapego

 Perda

 Isto tudo sem perder 

 Foco

 

 Flexibilidade

Porque um sonho grandioso manifesta-se sempre!

 Trabalhar num projeto Feminino com o envolvimento de muitas pessoas, precisa de foco, flexibilidade e planeamento

 O Sonho é a manifestação do Fogo do amor e da paixão

 O foco, a manifestação da Terra

 O mapa de orientação, a intuição do elemento Ar

 A flexibilidade, a água que contorna os obstáculos

 E a alquimia acontece.

 Agora quanto ao guião das etapas e fases,

 esse é cíclico, espiralado, flexível, mutável, misterioso, criativo, desafiador,

 A Deusa em movimento

 Uma dança cheia de graça

 Recalcular a rota é uma habilidade feminina

 O labirinto está dentro de nós

 As mulheres guerreiras nunca desistem.

 Têm elevada resistência a frustração

 O ego apaziguado

 As mulheres que amam e curam mulheres,

 Não abandonam, apenas se afastam e esperam o momento oportuno para voltar

 Não julgam embora sejam altamente críticas, mas respeitam

 Não traem, mas conversam entre si e chegam a um consenso

 Não humilham, mas respiram fundo e corrigem

 Não rejeitam, mas pedem um tempo para esclarecer, curar, pensar e voltar

 Entendem a alma feminina e aos poucos vão aprendendo a viver neste universo do feminino.

 Não utilizam as fraquezas da outra para brilhar.

 Para uma mulher fazer parte do sonho ou projeto de outra mulher

 É preciso que este lhe faça sentido, tenha uma razão e utilidade

 Precisa ter ressonância com a sua verdade, essência e missão de alma.

 Precisa de amar o Feminino em si.

 É preciso também, ter alma de guerreira e amiga e saber celebrar.

 A forma como tratamos as mulheres é a forma como nos tratamos.

 A conferência aconteceu através da manifestação da Deusa, no Coração dos Mistérios Sagrados de cada Mulher e de cada Homem,

 Afinal é possível trabalhar com mulheres, SIM!

 Quando o Sol e a Lua sabem dar o seu lugar no movimento cíclico do amanhecer e do entardecer.

 Mariette Capinha

 …………………………………………………………….

 Hoy hace una semana desde la que nada volverá a ser igual.

 Nunca pensé que la experiencia de una Conferencia fuera a cambiarte, a transformarte tanto, a regalarte tanto...

 Ha sido increíble desde el principio de ese viaje en coche, hasta el final, envuelta en un abrazo.

 Gracias @conferenciadadeusaportugal    por tanto, por las conferencias, los workshop, la comida, la danza, el amor en cada altar, en cada detalle...

 Gracias tribu porque sin vosotr@s nada hubiera sido igual!!! Vengo cargada de mensajes, removida de la cabeza a los pies, con fuego en los ojos y con un sentimiento de unión y comunidad que ya no se irá.

 Patricia (Espanha)

 ………………………………………………

 “Gratidão, sentido de comunhão, realização, Amor, amor e amor, será  pouco para exprimir o que sinto. Não há cansaço, nem ausência de sono que resista à maravilhosa energia de Amor que esteve presente neste fim de semana!!!

 Obrigada Luiza Frazão e todas as irmãs de caminhada que estiveram presentes, a todas e todos os participantes.

 Esta conferência foi mais que um sonho, foi um constante desafio. Tal como a cobra muda de pele, como a água encontra o caminho através de leitos nem sempre fáceis, até ao último minuto fomos constantemente desafiadas.

 Chegar ao final a transbordar felicidade, Gratidão e energia de Amor, todos em abundância, foi a melhor prenda que podia ter tido!

 Além de todas as vivências ritualísticas, cerimoniais, emocionais e sociais,  tenho que realçar o seguinte,  pois para mim será inesquecível: facilitar um workshop em conjunto com a minha querida irmã  Juliana Di Avalon, em que a energia do tarot da Imperatriz, dos elementos sagrados, expressos através  da dança circular sagrada e sua abertura nos nossos corações,  a um círculo de participantes perfeito, foi das experiências mais enriquecedoras, de respeito e partilha que tive neste meu percurso de professora de danças circulares sagradas, em fusão com o de sacerdotisa. Minha querida Juliana Di Avalon, obrigada! És maravilhosa!

 Bem hajam. Estão no meu Coração em Amor. Todas e todos!!!”

 Sandra Coelho



Imagens: 

 1. Grupo Cerimonial e Sacerdotisas do Círculo

 2. Altar principal

 3. Celebrando o regresso da Senhora do Verão

 4. Escritora Mary Sharratt (autora de Illuminations, Ecstasy, Revelations, entre outros títulos)

 5. Bailarinas do Espaço Reyel com Ana Bergano

 6. Altar à Deusa Maia, Rainha de Maio

 7. Grupo Cerimonial (fotografia de Sara Miguens)

 8. Danças circulares 

sábado, 5 de março de 2022

BELAS, POBRES E FÁCEIS!

Enquanto não conseguir resolver o problema, peço às minhas leitoras e leitores paciência para lerem o que posto... Não sei por que razão não estou a consiguir usar dos espaços no corpo do texto que sempre usei sem problemas...
No meio de toda esta profunda confusão que estamos a viver, foram reveladas conversas de um “deputado” brasileiro enquanto visitava a Ucrânia sob ataque russo, ou alguma zona fronteiriça, que suscitaram profunda indignação e dor junto de mulheres e também de homens mais conscientes e responsáveis. Nos comentários que ouvi, dizia alguém que a maturidade emocional deste indivíduo seria inferior à de um menino de 12 anos. Acho esta comparação um insulto a qualquer criança de qualquer género e idade. Também não me parece que possamos usar qualquer termo de comparação do reino animal… a mentalidade machista, misógina patriarcal é da ordem da aberração pura e dura... Vou apenas reproduzir o que é necessário da dita conversa para a minha argumentação, usando pinças, se possível, para não juntar mais perturbação e toxicidade ao caos instalado… O tema era uma vez mais a objectivação da mulher, sem qualquer tipo de consideração pelas circunstâncias em que se encontram as refugiadas de guerra na Ucrânia neste momento, como faria qualquer AI (leia-se "robot") que tivesse sofrido dum ataque viral anulando a função “empatia” e exacerbado a função “líbido”... Sabe-se lá se não é mesmo esse o problema de parte considerável dos machos humanos neste suposto universo holográfico em que vivemos! Mas essas mulheres, segundo o subespécime humano em questão, ou AI sob ataque viral, teriam três requisitos “excitantes”: eram naturalmente “belas”, “pobres” e por isso mesmo “fáceis” - uma vez um indivíduo da mesma subespécie, disse-me que eu era uma “rapariga fácil”, como se espetasse com desdém uma faca no meu coração, mas o que ele na verdade estava mesmo a fazer era a dar-me motivação para o trabalho que faço hoje, ainda que o fizesse de forma boçal e retorcida… Mas, entretanto, se analisarmos de outro ângulo, da perspectiva do estudo das bases e fundamentos do próprio sistema patriarcal, que produziu energúmenos deste tipo, o que podemos ver aqui é um grande contributo para a nossa compreensão das táticas usadas contra nós enquanto mulheres, para nos vergarem e colocarem ao serviço do dito sistema. De uma forma simplificada, pode ser assim resumido: para FACILITARMOS os desmandos dos patriarcas, fomos privadas do acesso à propriedade. Só assim se compreendem os dados estatísticos que mostram a quota-parte que nos cabe da riqueza do mundo. Isto apesar de despendemos horas e horas de trabalho fundamental, que eles conseguiram provar, graças à sua inteligência artificial (só pode) atacada pelos vírus acima referidos, que é um trabalho menor, sem qualificação nem valor, e por isso não merecedor de remuneração. E culturas há em que o acesso à propriedade privada está mesmo vedado à mulher. E assim ficamos “fáceis” e acessíveis e descartáveis e alvo do primeiro predador de meia-tigela que nos apareça pela frente… Leia-se este estudo da Oxfam (muitos outros existem sobre este tema): “Segundo os cálculos da Oxfam, 42% das mulheres no mundo não podem ter um trabalho remunerado pela carga muito grande de trabalho de cuidados no âmbito privado ou familiar, frente a somente 6% dos homens. Embora cuidar de outras pessoas, cozinhar ou limpar sejam tarefas essenciais "a pesada e desigual responsabilidade pelo trabalho de cuidado que recai sobre as mulheres perpetua tanto as desigualdades econômicas quanto as de gênero", afirmou a ONG. A Oxfam calcula o valor monetário do trabalho de assistência não remunerada para mulheres acima de 15 anos, com US$ 10,8 trilhões por ano, ou seja, "três vezes mais que o valor do setor digital em todo o mundo", enfatiza a ONG.... – Veja mais em https://economia.uol.com.br/.../mulheres-as-grandes... Que, enquanto mulheres de todas as partes do mundo, compreendamos as bases e fundamentos da nossa própria dependência, silenciamento e irrelevância na tomada de decisões das estruturas que nos governam, as mesmas que conduzem os nossos filhos e filhas à morte nos campos de batalha para que o produto da rapina dos grandes oligarcas do mundo possa ser salvo! 

 ©Luiza Frazão 5 de Março de 2022 Imagem: Pintura da artista ucraniana Oksana Bylic

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

APRESENTAÇÃO DE "A DEUSA CELTA DE PORTUGAL", por ANDREIA MENDES


É um prazer estar aqui convosco esta tarde a apresentarmos “A Deusa Celta de Portugal - A Anciã do Inverno e a Rainha do Verão”. Vou começar por enquadrar um pouco como conheci a Luiza, minha Orientadora, minha Formadora e Amiga, e o seu trabalho. Eu fui aluna de um dos cursos da Luiza, o “Magna Mater”, que posso dizer que, pessoalmente, foi um marco muito importante na minha vida. E só após o curso concluído é que nos conhecemos pessoalmente, após muitas trocas de impressões por e-mail, webinars, etc. 

Houve circunstâncias que só possibilitaram conhecermo-nos quando eu decidi ser novamente sua aluna, desta vez na frequência da Formação de Sacerdotisas da Deusa do Jardim das Hespérides, juntamente com outras Irmãs que estão hoje aqui presentes também. Eu tenho uma relação com este livro muito especial, não só porque se centra em duas faces da Deusa que pessoalmente gosto de conhecer e de honrar, que são Cailaca-Beira e a Deusa Iria-Brígida, mas também porque durante o ano em que frequentei o curso “Magna Mater” houve a coincidência de a Luiza estar a preparar este livro. Eu não o sabia, e tive a surpresa e o privilégio de a Luiza me enviar a versão do seu livro ainda não publicada, para eu o ler e escrever o prefácio. E aqui estamos nós esta tarde para apresentar a “Deusa Celta de Portugal”. Antes de mais nada, creio que é importante realçar o valor e a importância da obra da Luiza, e a Luiza como autora na atualidade. Porque ela escreve-nos sobre a complexa temática da Deusa e do Seu culto, espiritualidade e a cultura associadas a Ela, em particular em Portugal. Há uma frase da Patricia Monaghan que diz: “Nós nunca perdemos a Deusa. 

O que aconteceu foi que algumas e alguns de nós nos esquecemos da forma de encontrá-La”. E o trabalho da Luiza tem sido precioso e percursor ao permitir-nos esse reencontrar e recuperar da Deusa, tanto numa dimensão espiritual e devocional, como com através de um estudo e investigação rigorosa, aprofundada e centrada no nosso território, que é algo que faz muita falta nesta área no nosso país. Porque se trata de um “filão” riquíssimo onde está ainda muito por explorar em Portugal, e a que autoras e autores como a Luiza, se têm dedicado, mas onde há ainda muito que descobrir, até porque todo o Movimento da Deusa é relativamente recente no nosso país. Então é esse o enorme contributo que devemos à Luiza. Esta recuperação do conhecimento da Deusa. Nós temos a sorte de ela ter vindo quase literalmente a “desbravar caminho”, nos últimos anos, numa leitura da realidade à luz da Divindade Feminina. E este novo livro é prova disso, a Luiza mostra-nos e explica-nos factos e propostas teóricas sem os “filtros” das interpretações a que nos habituaram, durante séculos de perspetivas patriarcais e no contexto de uma cultura judaico-cristã, e de séculos de reinterpretações e distorções da Igreja dominante acerca dos cultos pagãos e da Deusa.

Então “A Deusa Celta de Portugal” é também um reflexo disso, das indagações e pesquisas sobre: - “quem é a Deusa?” (nas várias culturas do mundo, e na nossa em especial), os Seus ritos, cultos, práticas e a Sua cultura matrifocal, muito centrada na Mulher, mas também muito igualitária entre os dois géneros; - ajudar-nos a perceber onde é que estão as nossas Deusas em Portugal, e a sobrevivência da Deusa até aos nossos dias, onde estão os Seus vestígios materiais e imateriais (nas nossas lendas, nos nossos costumes, na toponímia – a Luiza faz uma investigação muito rigorosa dos nomes dos lugares e dos monumentos, por ex., a presença da Deusa na paisagem e nos elementos da Natureza, em antigos lugares de culto e templos sagrados, etc.); - porque Ela, de facto, está imensamente presente no nosso dia a dia, em muito do que nos rodeia, em muitas ocasiões festivas, celebrações cíclicas, em datas, em lugares, que depois foram cristianizados e que muitas pessoas não imaginam que tiveram a sua origem num culto pagão. Aliás, a Luiza diz-nos que quem quer saber mais sobre a Deusa pode começar pelo que até hoje ainda tem uma conotação algo “negativa”, resultante daquelas distorções de que se falou há pouco. Existe, por exemplo, o caso do Lobo, um animal totémico, sagrado no culto da Deusa, muito associado ao Imbolc e à Deusa Brígida (que é exatamente esta altura do ano), e como ele foi sendo representado sucessivamente como o “lobo mau” nos contos infantis. Ou a própria Serpente, demonizada desde tempos bíblicos, que foi um grande símbolo da Deusa, um símbolo de transformação e de renovação. - e o trabalho Luiza conduz-nos também a algo que nos interessa muito, a nós Mulheres (e Homens, também) do século XXI: ao importantíssimo impacto da Deusa no estatuto das Mulheres de hoje, e até hoje. Porque nas antigas sociedades que cultuavam a Deusa, matrifocais, centradas na Mulher e na Grande Mãe, que eram bem organizadas, prósperas e pacíficas, há cerca de 10 000, 20 000 anos atrás e mais ainda, as mulheres gozavam de direitos, privilégios e prestígio, muito mais do que muitas de nós hoje em dia, aqui e em vários pontos do globo. Porque nessas comunidades vigoravam valores de igualdade, de princípios de dádiva, entreajuda, nutrição, etc. Em franco contraste com as sociedades atuais, altamente tecnológicas, mas onde ainda se morre de fome. E onde sabemos que atualmente ainda persistem regimes autocráticos e ditatoriais, sociedades militarizadas, e sem falar nesses casos extremos, persistem ainda inúmeras desigualdades, nomeadamente, entre homens e mulheres: desigualdades económicas, salariais, de representação política, de status e prestígio social, que as mulheres foram perdendo cada vez mais, à medida que outras religiões, outros deuses, masculinos, e outros valores se impunham (e se consolidaram), há cerca de 5 ou 7 mil anos atrás. Mas, numa perspetiva otimista, o paradigma está novamente a mudar.

 
“Anciã do Inverno e Rainha do Verão” Passo a citar uma frase do livro muito bonita e muito elucidativa: “Sabemos que a Deusa é una e múltipla, pessoal e impessoal, constante e mutável, local e universal. Sabemos que outro nome para Deusa é Natureza, que Ela é a Terra e o Céu e tudo o que é (…).” Na própria capa do livro isto já está revelado: sim, a Deusa é una, mas Ela também tem uma dupla face. Aliás, Ela tem múltiplas faces, mas estas duas são, efetivamente, as mais evidentes, mais dicotómicas. E também o que elas simbolizam: a luz e a sombra, o novo e o velho, o nascimento e a morte/transformação/renascimento, etc. Tanto no mundo lá fora, nos ciclos da Terra e da natureza, como nos próprios ciclos femininos, e tal como em cada uma e em cada um de nós ao longo da vida, quando atravessamos essas dualidades. Vamos ter inúmeras descobertas com esta leitura: - a ideia de que não será possível dissociarmos um grande local português de peregrinação atual, na Cova da Iria, de uma Deusa que se chama precisamente Iria ou Iria-Brígida, como a Luiza nos propõe; - a proposta de que a cultura celta tem o seu berço na Península Ibérica, e de que os povos ibéricos influenciaram mais os povos do Norte da Europa do que imaginamos; - que o próprio nome de Portugal tem origem no nome de uma das duas Deusas; - a cristianização de Deusas, convertidas em santas; - e, em particular, um estudo exaustivo e pormenorizado da ligação da nossa popular Santa Iria de Portugal com a Deusa que deu o nome à Irlanda, e as suas ligações a várias cidades e localidades portuguesas; - e, obviamente, os atributos, os dons e os símbolos, tanto de Brígida, a Donzela do Verão, como de Calaica, a Velha senhora dos meses de Inverno. Nós vamos deparar-nos com aquilo que nos parecem muitas “coincidências”, mas que não o são. São demasiadas para o serem. Aliás, uma das frases que mais repeti para mim mesma ao longo da leitura deste livro foi: “Como é que eu nunca me lembrei disto?” Creio que também vai acontecer o mesmo às/aos leitores/as. E deve-se precisamente ao olhar treinado, acurado, da Luiza, de quem vê a realidade à sua volta sem os tais “filtros” patriarcais, mas que a vê a sob a perspetiva da tradição da Deusa. E, falando em tradição, “A Deusa Celta de Portugal” tem outro aspeto muito interessante que é a sua dimensão prática: ou seja, temos a leitura da teoria, mas também temos a oportunidade de aprender ou recuperar, e pôr em prática, rituais antigos de cura, por exemplo, que antigamente se praticavam aqui mesmo, em Portugal. Pessoalmente, recordo-me de um deles, a que a minha bisavó materna recorria, e que nós temos oportunidade de resgatar, hoje, em pleno 2022. É a recuperação da sabedoria ancestral. Que é algo que sabemos que a sociedade atual tem valorizado muito pouco, e isso é algo que tem que mudar. Concluindo: eu acredito, e numa perspetiva pessoal e mais abrangente, que trabalhos como o da Luiza, e este em particular, estão definitivamente a contribuir para o reerguer dos valores da Deusa, e que predominavam nas antigas culturas da Deusa. E que estão em consonância com preocupações muito atuais e até urgentes como: uma maior conexão e respeito pela Terra, modos de vida mais ecológicos, a sustentabilidade do planeta, e a meu ver, uma nova mudança de paradigma. Ou seja, uma mudança para novos valores, ditos “mais femininos”, digamos assim, com menos competição desenfreada, menos conflitos armados, por ex. Mas com um cada vez maior empoderamento feminino, um mundo de “Feminino Ativo”. Isto é, não uma sociedade “cinzenta” e utilitarista, mas sim mais equilibrada, porque cada vez mais criativa, artística, mais ligada ao nosso Chakra Raiz, a tudo o que é gestativo, gerador de vida (tanto em termos literais como simbólicos), com maior ligação à intuição e às emoções em vez da super-utilização do nosso lado mental. Porque esse é o recuperar da Essência Feminina: as artes manuais, tudo o que é lúdico, a expressão do corpo através da dança, etc. Pessoalmente, só me dei conta de que era uma pessoa muito racional, e que o meu lado criativo estava subdesenvolvido, quando entrei em contacto com a espiritualidade da Deusa, que me deu a oportunidade de criar, de imaginar, de cultivar o belo, a minha individualidade, aquilo que é único em nós, em vez de alinhar numa cultura massiva, padronizada, etc. Está, portanto, a Luiza de parabéns por mais um trabalho ímpar, e por nos permitir ter acesso a ele, e principalmente a transmiti-lo também às próximas gerações. Porque é assim que vamos construindo uma sociedade com mais valores de paz, de igualdade e de cooperação a todos os níveis – que são os valores da Deusa. 

 Andreia Mendes
Sintra, 23 de Janeiro de 2022

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

“A DEUSA CELTA DE PORTUGAL: A ANCIÃ DO INVERNO E A RAINHA DO VERÃO”

Este livro é muito especial para mim (como dirão todas as autoras e todos os autores de cada um dos seus livros…) mas no meu caso vou tentar enumerar as razões para o considerar assim. Primeiro, cheguei a pensar que não iria conseguir acabá-lo, publicá-lo, dar sentido a todo o material que fui recolhendo sobre esta grande Deusa dupla tão central no nosso território, que representa ou incorpora esta divisão do ano em duas partes ainda hoje tão celebrada entre nós… De forma que vê-lo aqui manifestado na forma física é uma alegria e um alívio muito grande… Segundo, havia esta personagem divina que é IRIA, que do ponto de vista histórico, ou lendário, melhor dizendo, é apenas uma jovem freira, uma noviça, que viveu apenas até aos 15 anos. Apesar desse curtíssimo tempo de vida, o património que nos legou, é composto por confrarias, ermidas, capelas, igrejas, santuários, padrões, estandartes, cisternas, feiras, aquedutos, lendas, romances, poemas, orações, milagres, um milagre testemunhado por outra Santa, inclusive, Isabel de Aragão, consorte do rei Dinis, que segundo reza a lenda foi outra das testemunhas; etc. Este património é imenso e estende-se praticamente por todo o território… Iria é demasiado grande para não A vermos, demasiado importante para não A considerarmos quando se busca pela Senhora do território. Dá para perceber que Ela é, só pode ser, central. Mas como, se na sua Cova Ela apenas aparece durante os seis meses do bom tempo, de Maio a Outubro?!... Ah… isso é o que vamos ver neste livro…

 
E mais, Ela continua a ocupar um lugar central na nossa religiosidade popular, mesmo agora, porque o verdadeiro topónimo do sítio onde o culto da Deusa está mais vivo entre nós é COVA DA IRIA. Portanto, na serra de Aire, uma inversão do Seu nome, cultua-se até hoje IRIA, o que nos pode levar a defender a ideia de ser Ela uma das grandes Deusas, não apenas do território português, como também do mundo inteiro... É muito. É uma herança espiritual que precisamos de avaliar, de reconhecer, de estimar e de preservar e defender (vejam o destino do Seu antigo convento que será transformado em mais uma unidade hoteleira). E não é uma herança morta, digamos, inerte, apesar de tudo. Mesmo se excluirmos a Cova da Iria, quem como eu tomou o hábito de ir em peregrinação a Tomar a cada dia 20 de Outubro, consegue sentir o lugar que Ela ocupa nos corações das mulheres e dos homens dessa cidade, que vão religiosamente lançar-lhe pétalas de rosas no Nabão, que segundo a lenda levou o seu corpo morto até à Ribeira de Santarém…

 
Então, este livro é também um repositório de tudo aquilo que eu encontrei, de tudo o que eu sei sobre Ela. Para não esquecermos. Eu vivi em Inglaterra, em Glastonbury, e sei como ali se preserva, se acarinha, se tem orgulho, se contam histórias, se cria arte, se expande a cultura, se constrói toda uma aura mítica e mística à volta desses lugares sagrados, que depois irradia para o mundo e enriquece a nossa cultura humana, acrescenta à nossa humanidade, acrescenta à Alma ao mundo… E sabemos como isso é crucial nestes tempos em que as AIs, a robotização, a transformação dos seres humanos em ciborgues, fundindo-se com a máquina, são ameaças reais à nossa humanidade, à nossa alma… E a par destas, existe outra razão crucial que justifica este livro: dar a minha contribuição para sermos nós, mulheres, a contar as nossas histórias, a dominar a narrativa que nos diz respeito, assumindo-nos como sujeitos da cultura e não apenas objecto, com voz própria e discernimento próprio, baseado no nosso sentir de mulheres, na nossa história de mulheres, na nossa experiência de mulheres que geram a humanidade, que a criam; mulheres que vertem o sangue da vida, o sangue menstrual, tornado tabu, e que vertem o sangue da morte todos os dias a cada instante neste planeta… No nosso país uma média anual de 40 mulheres morre porque sim às mãos daqueles que um dia lhes juraram amor… eterno, possivelmente…

 
A Iria lendária, que seria uma das sacerdotisas de Iria, Deusa, foi uma dessas mulheres. Sim, eu sei que Ela é apenas mais uma das muitas raparigas que se tornaram santas depois de terem sido assassinadas, decapitadas, por norma; sei que Perséfone foi raptada por Hades e arrastada à força para os seus domínios no inframundo, enquanto em outros mitos mais antigos, como o de Inanna, a Deusa do Verão vai até ao inframundo visitar alguma pessoa das Suas relações de livre vontade; sei que Hera, uma Grande Deusa cretense, Senhora de tudo o que é, foi na Grécia clássica, patriarcal, reduzida à condição de esposa dum violador em série, transformando-se, pudera, na megera execrável que conhecemos; que a Medusa perdeu a cabeça; as Hespérides as maçãs de ouro que guardavam; que as Górgonas viraram monstros medonhos; que as Amazonas, que engrossaram as fileiras da resistência armada, não tiveram sossego; que Lilith foi banida por insubordinação; que Maria Madalena foi transformada em prostituta, que as Bruxas foram queimadas, ou seja, que as mulheres livres, senhoras e donas de si, têm tido nos últimos milénios muitos problemas… Sei que a mulher foi, é, um território conquistado… destituída das suas funções sacerdotais, afastada da vida pública, amputada de bens e direitos, encerrada no lar, como diria Riane Eisler, transformada em tecnologia de reprodução, em mera ajudante, em propriedade do patriarca… 

Para resgatarmos do esquecimento e da ignomínia essas mulheres poderosas suprimidas no passado, para as vermos e entendermos quem foram e o que representavam, precisamos de ultrapassar a programação patriarcal e de educar o nosso olhar. Precisamos de nos matricular na Escola de Mistérios do Movimento da Deusa, das Feministas que olharam para os vestígios do passado a partir do sentir das suas entranhas; mulheres que acredito serem aquelas mesmas a quem se referia o Dalai Lama quando disse: “O mundo será salvo pela mulher ocidental”. Mulheres que entendem a importância de terem representação no panteão divino, sabendo que a Deusa foi a primeira divindade cultuada pela humanidade e que ao suprimir a Deusa a mulher ficou desamparada, sem respaldo, sem garante da sua força, do seu poder, sequer da sua legitimidade… e com isso muito perdemos todas e todas… Mas voltando a este livro em concreto, pude dar sentido às minhas descobertas graças ao estudo do trabalho das pioneiras do Movimento da Deusa que já referi, incluindo Marija Gimbutas e várias outras, mas muito especialmente o que funcionou para mim como uma espécie de pedra de roseta foi ter tido contacto com a cultura da antiga Britânia, Bridânia, como insiste agora Kathy Jones. A bibliografia a que tive acesso, o estudo que fiz durante a minha formação de Sacerdotisa de Avalon, forneceu-me uma indicação de que estamos na mesma zona cultural celta, a zona do Arco Atlântico, o que me foi confirmado pela investigadora Fernanda Frazão. Assim, para compreender todo o material recolhido aqui tive de cotejá-lo com aquele que ficou na tradição sobretudo da Irlanda e da Escócia sobre Brígida/Brigântia (o aspecto terra de Brígida) e sobre Cailleach, a nossa Cale, Cailícia ou Calaica-Beira. Foi uma emoção ver no material da Britânia o teónimo Beira, escrito exactamente como nós soletramos o nome das nossas províncias, sem nunca ter ouvido de nenhum arqueólogo ou etnógrafo nacional que se tratava do nome duma Deusa, da Senhora da terra, embora isso seja algo de muito óbvio que a divindade tenha dado o nome ao lugar. Encontramos então aqui todo um capítulo dedicada a Santa Brígida da Irlanda, com informação proveniente de várias fontes mas sobretudo de Gabriela Morais, da sua investigação sobre o antigo culto de Brígida, Brízida, Brigite, Brito, Brita, Brites, Britiande, Braz… sobretudo na zona de Lisboa, onde até existe, na igreja de São João Baptista do Lumiar, uma relíquia que é supostamente um osso da sua cabeça, oferecida a ninguém menos que o nosso já aqui referido rei Dinis, o nosso rei poeta, agricultor, neto de outro poeta muito famoso, Afonso X de Castela, autor das cantigas de Santa Maria, que fortemente suspeito, e não sou a única, ser o principal avatar cristão da Brígida celta, Deusa entre várias outras coisas da agricultura e da poesia. 

 Então a tradição de Iria no nosso território, da sua relação com as águas e com o sol, o fogo, com a cura, a profecia, a agricultura e a pastorícia, foi cotejada com a tradição de Brígida e as conclusões a que cheguei estão aqui… Visitei Iria nos lugares onde o seu culto foi, e é, mais intenso, Torre da Magueixa, Santarém, Tomar, Serra de Aire e, claro, Cova da Iria, onde continua bem viva a sua chama, adorada como a Senhora, ou a Rainha, do Verão, Aquela que regressa em Maio, como acontece no Almurtão, na Azenha, na Lousa… Em Tomar, no Ribatejo, fecha-se o ciclo, quando Ela é “morta” no final de Outubro, cedendo lugar à tempestuosa e temível Anciã do Inverno, a Velha, como é designada entre nós... Iria morre em Tomar, famosa cidade dos Templários, como sabemos. A estes cavaleiros prestativos, foi cedido, no século XII, o castelo e o termo de Ceras, topónimo que ainda hoje existe. Quem também ocupou a zona durante séculos foi o povo romano que cultuava a Deusa Mãe, Senhora do Grão e da abundância, dos cereais, Ceres, de quem Proserpina era filha. Uma donzela em tudo semelhante a Perséfone, filha de Deméter, ambas raptadas, uma em Roma outra na Grécia, pelo Senhor dos Infernos… no mês de Outubro… Ora aqui está um tema muito apelativo à nossa imaginação… E sim, Iria, como Rainha do Verão, é muito visível, muito celebrada, traz-nos os dias longos onde cabe a sesta, as colheitas, a abundância, o calor e a alegria do Verão. A sua contraparte Anciã, porém, é mais secreta, está mais escondida, mais furtiva, mas mesmo assim muito presente e nossa velha conhecida. Calaica é muito antiga e terá sido levada daqui para a Irlanda, onde continua a ser uma Deusa muito poderosa. Ela é aquela que se transforma em pedra por Beltane (ou pelo Imbolc quando consideramos a Roda do Ano dos Oito festivais solares). O que investiguei sobre Ela, levou-me a associá-la a Sheela-Na-Gig, o que foi um processo muito curioso porque a seguir encontrei outra autora irlandesa com a mesma ideia… Descobrir a Calaica e a sua força na nossa psique é uma tarefa muito promissora… 

 Os dois últimos capítulos do meu livro, entretanto são mais devocionais, com sugestões para celebrarmos hoje em dia estes portais do ano em que somos abençoadas e abençoados pela chegada da Rainha do Verão e nos preparamos para acolher a energia da Senhora do Inverno. No último capítulo apresento antigos rituais de cura muito usados neste território e convido-vos a pesquisarem outros na região onde vivem e a fortalecerem a relação com a Senhora da Terra onde nascemos, sabendo que outro nome para Deusa é Natureza! 

Luiza Frazão Sintra, 23 de Janeiro de 2022 

Imagens: 1. A Deusa Celta de Portugal: A Anciã do Inverno e a Rainha do Verão 2. Com a autora da capa, Sara Baga e o editor, Alexandre Gabriel 3. Com Andreia Mendes, autora do prefácio, fazendo a apresentação, e o editor Alexandre Gabriel