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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

NOITE DE NATAL - A ANTIGA NOITE DAS MÃES

 Será por esta a razão profunda que o Dia da Mãe em Portugal se celebrou a 8 de Dezembro até tempos relativamente recentes?

"Noite das mães: as antigas origens pagãs do Pai Natal?

Essa tradição de uma mulher viajar pelo mundo trazendo presentes também está incorporada na tradição irlandesa. Isso poderia ser um remanescente das deusas antigas trazendo boa fortuna?


Um antigo festival de inverno que remonta pelo menos à Idade do Ferro é a Noite das Mães ou Modraniht.

Esta celebração ocorreu na actual véspera de Natal e foi associada a uma homenagem às ancestrais e espíritos femininos, daí a associação com as mães.

O que pode ser surpreendente para algumas pessoas é que essa celebração também ecoa no folclore irlandês da véspera de Natal.

Ao contrário de outras festas menos atestadas que ocorreram nesta época, temos documentação escrita definitiva desta festa que remonta ao século VIII, e relíquias dessas mesmas divindades na forma de Dísir e Matres do primeiro século.

A tradição oral remonta muito mais longe, possivelmente às primeiras deusas da fertilidade europeias.

Deusas triplas semelhantes da Idade do Bronze também são encontradas na Anatólia, talvez indicando uma raiz proto-indo-europeia. As sete deusas Matrika, por exemplo, remontam a pelo menos 3.000 aC.

O Dísablót do Norte da Europa foi realizado durante as noites de inverno, bem como o Equinócio Vernal.

Agora, esta é uma ocorrência interessante porque as fadas e espíritos associados com as Plêiades (incluindo a mencionada Matrika) também eram reconhecidos nessas ocasiões. Mas isso provavelmente é um post para depois, excepto para dizer que não devemos esquecer-nos de que as estrelas eram tanto um motivo para esta celebração sazonal quanto o renascimento do sol!

Neste contexto, as noites mais longas do ano teriam acontecido numa época em que as estrelas estavam mais presentes na vida das pessoas e, portanto, teriam sido vistas como mais influentes.

Como já escrevi algumas vezes aqui, vamos cada vez encontrando mais e mais monumentos alinhados com constelações e posições de estrelas polares em dias auspiciosos, o que confirma o que dissemos antes.


Espero que seja este o caso também aqui na Irlanda.

Mas voltando à Noite das Mães, era uma noite em que oferendas e sacrifícios eram feitos às deusas, antepassadas e ancestrais femininas. Oferecer uma porção de uma refeição, sem manteiga, mel ou bebida eram meios populares de apaziguar e expressar respeito e agradecimento.

Acender fogueiras, queimar incenso e fazer profecias para o ano seguinte eram outras actividades associadas a esta noite. Isso não deveria ser surpresa, considerando os vínculos entre as Dísir, as Norns e as Moirai, todos grupos triplos de mulheres / deusas sobrenaturais controlando o destino.


É interessante olhar para esta tradição à luz de uma deusa anterior mencionada aqui, La Befana, que entrava pela casa voando, trazendo presentes para as crianças que haviam sido boas e pedaços de carvão para aquelas que se tinham portado mal.

Befana é similar a Perchta e à rainha das fadas, Nicnevin, que muitas vezes era considerada a líder da Caçada Selvagem no Yule. Esta era uma procissão de elfos, espíritos de fadas, mortos e mortas e outras entidades sobrenaturais.

Embora seja frequentemente considerado de mau agouro encontrar o desfile desta caçada, é interessante notar os aspectos mais lúdicos e provocadores dos encontros folclóricos irlandeses. (Para não ignorar as mortes reais de outros que são arrastados por esta perseguição fantasmagórica!)

Essa tradição de uma mulher viajar pelo mundo trazendo presentes também está incorporada na tradição irlandesa. Isso poderia ser um remanescente das deusas antigas trazendo boa fortuna?

Aqui está um exemplo de uma história sobrevivente que foi gravada em Carlow em 1937.

“Diz-se que na noite de Natal uma velha vai de trenó de um lado ao outro do mundo. O trenó é puxado por cães e caminha pelas nuvens. Numa certa véspera de Natal, porém, o eixo do trenó quebrou-se e ela caiu ao chão, pousando ao lado de uma carpintaria. O carpinteiro fez um eixo para o seu trenó.

Ele mirou e remirou até que ela estar fora de vista, e quando então olhou para o chão, por algum poder mágico, todas as sobras de madeira se tinham transformado em ouro. ”

Fonte original aqui: https://www.duchas.ie/en/cbes/5044666/5030337/5142569

Com o folclore irlandês posterior da véspera de Natal, muito parecido com Brigid no Imbolc, por exemplo, vemos Maria substituída pela antiga figura da Deusa.

Como podemos ver, então, há também alguns paralelos surpreendentes com La Befana, que era uma deusa que voava de casa em casa nos contos antigos na Europa continental no meio do inverno. E, como já foi mencionado, a própria La Befana está conectada com as deusas Perchta e Holda.

A velha, neste caso, também pode ser outra forma da Cailleach, é claro. Há fortes ligações com a Cailleach como inicialmente associado a figuras de deusas da Europa continental antes das associações com a Irlanda e a Escócia

Existem também antigas tradições relacionadas com a figura da Mãe do Veado dos povos xamânicos asiáticos, bem como das tribos da Escandinávia, Escócia e dos povos indígenas norte-americanos.

Veja a postagem anterior para mais informações sobre isso. Já mencionamos como as várias figuras da Deusa voaram pelo ar em um trenó, carregaram o sol nos chifres de um cervo e entregaram presentes ao povo.

Então, talvez a véspera de Natal deva ser lembrada por sua associação muito mais antiga com ancestrais e espíritos femininos, bem como sua associação com o início de um novo ciclo solar anual.

A Noite das Mães foi um momento de proximidade e reflexão pessoal para famílias, filhas e filhos.

Foi um momento de recordar as mães que faleceram e, à medida que as noites escuras chegavam ao fim e a nova luz estava para nascer, era o momento de contacto entre fins e novos começos.

(C.) David Halpin.

Fotos.

1. A reconstrução da Shamaness of Bad Dürrenberg por James Dilley

2. Círculo de pedras de Boleycarrigeen

3. Uma foto em preto e branco de Haroldstown Dolmen

4. La Befana, a Bruxa do Natal Italiana, em https://italiancenter.net/events/festa-della-befana.html


Versão original:

https://www.facebook.com/CircleStoriesDavidHalpin/posts/1349492972066042

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

A LAVADEIRA DO VAU

 


A Lavadeira do Vau

(The Washer at the Ford) e a Ribeira da Mulher Morta

Mexilhoeira Grande, concelho de Portimão, Serro do Algarve

A Ribeira da Mulher Morta vem de Pereiro e desagua no rio Mexilhoeira

A cultura algarvia é rica em vestígios celtas e em lendas de Mouras Encantadas e Portimão é uma dessas zonas particularmente afortunadas, dentro daquilo que já pude perceber. Nessa área, não longe da foz da Ribeira de Boina, por exemplo, o monumento funerário de Alcalar apresenta grandes semelhanças com New Grange na Irlanda, construído no vale do River Boyne. Pensa-se que Boina e Boyne se relacionam com o teónimo Bovinda, que por sua vez se relaciona com o nome da Grande Deusa celta, Brígida.

Acontece que uma das minhas alunas trouxe-me há dias uma pérola da cultura celta encontrada quando, ao investigar a Gruta da Mulher Morta, no Serro do Algarve, se deparou com a Ribeira da Mulher Morta. Lendas ouvidas sobre o lugar contam que uma mulher aí se afogou quando insistiu em ir lavar num dia tão sagrado quanto a Quinta-feira da Espiga. O som da roupa a ser batida na pedra ainda ecoa certos dias, a certas horas…

Ora, uma assombração feminina que lava a roupa no rio, no vau, subsiste na cultura irlandesa, onde é designada por the Washer at the Ford, que traduzindo dá a Lavadeira do Vau. A roupa que lava está ensanguentada e ela é considerada um avatar da Deusa Banshee da Irlanda, ou Bean Sidhe do País de Gales, e noutras interpretações da Deusa Morrigan. 

Esta anunciadora da morte, divindade do Samhain, portanto, também se pode encontrar no folclore da Galiza, onde é justamente referida como a Lavadeira do Vau. Curiosamente, ainda no concelho de Portimão, ao escrever o nome desta figura no motor de busca, fui remetida para a localidade de Ladeira do Vau

Na minha perspectiva e interpretação, estas figuras, vão para além da cultura celta e parecem ser aparentadas com o fantasma de La Llorona, do México, ou com as personagens de Medeia, da mitologia grega, e de Lilith, da mitologia hebraica. Relacionam-se também, estas entidades, com o  fantasma da Mulher de Branco, presente na nossa cultura e, ao que parece, em variadíssimas outras latitudes deste mundo e dimensão.

O que eu sinto é que Elas nos trazem notícias do Corpo de Dor do Feminino, remetendo-nos para o grande vazio que o impacto devastador da cultura patriarcal criou na alma da mulher...

©Luiza Frazão

 

 

 

 

 

 

 

Imagem: httpsbruxapoetisa.wordpress.com20180303lavadeira-do-vau

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O SOL DA DEUSA - A LUZ QUE GUIA E O CALOR DA VIDA CONSCIENTE

 

A lua tornou-se uma das imagens centrais da espiritualidade da Deusa. No entanto... precisamos de examinar a sua potência contra-imaginal - o sol. Se a Deusa deve estar totalmente representada na nossa sociedade, ela também deve ser a luz que guia e o calor da nossa vida consciente. O Sol não deve ser considerado apenas como um símbolo patriarcal irrecuperável, mas como uma representação da vida e do alegre prazer da Deusa.

_ Caitlin Matthews, Voices of the Goddess: A Chorus of Sibyls

O sol é uma força activa que governa a cura, a luz e a abundância por fazer crescer as searas. A lua entretanto é vista como passiva, governando a noite, a psique e os mares através da sua capacidade para criar as marés. Mas se te perguntassem pelos géneros destas luminárias o que dirias?

Quase sempre a resposta seria que o sol é masculino e a lua feminina. Na verdade, a lua é talvez o símbolo mais conhecido do divino feminino na actual espiritualidade da Deusa. No entanto, se tivesses feito a mesma pergunta a uma pessoa pagã do passado, terias muito provavelmente tido uma resposta diferente. Enquanto na Grécia e em Roma se reverenciava a lua como Artemis e Diana e o sol como Hélios e Apolo, o conceito dum sol masculino e duma lua feminina não era universalmente partilhado em todos os sistemas mitológicos. Das tribos celtas ao povo Inuit da América do Norte, o sol era visto mais frequentemente como uma deusa do que como um deus.

Então como é que hoje em dia vemos o sol como sendo exclusivamente masculino? Quando comparamos os papéis e géneros das luminárias entre culturas, torna-se claro que as nossas antepassadas e os nossos antepassados pagãos não conseguiam atingir a unanimidade sobre a questão do sol ser masculino e a lua feminina. Encontramos panteões que cultuavam deuses solares e deusas lunares e outros que viam o sol como feminino e a lua como masculina.

Parece que o povo celta não conseguia decidir-se nesta matéria, tendo numerosas deusas lunares mas também deusas solares, que coexistiam com deuses solares. De forma semelhante, no Egipto também havia deuses e deusas solares. Assim sendo, se algumas culturas veneravam o sol como uma deusa e outras como um deus, e outras ainda como deus ou como deusa, por que razão é que hoje em dia o conceito de sol feminino nos parece tão pouco familiar?

Em última análise, o conceito do sol como exclusivamente masculino é bastante recente e a origem desta classificação exclusiva remonta à época vitoriana.

Com efeito, esta época trouxe com ela um renovado interesse pela mitologia, em particular pelos mitos solares. A arqueologia e o estudo da cultura popular eram novos campos de interesse académico e obras versando sobre mitologia clássica tornaram-se extremamente populares. Os mitos gregos e romanos serviam de bitola para comparar e sistematizar o estudo de outras mitologias, e foi assim que o conceito do sol/deus e da lua/deusa se tornou aceite como sendo a forma “correcta” de ver estas duas luminárias. Se os mitos de outras culturas diferiam, considerava-se que isso apenas reflectia a inferioridade cultural desse grupo ou um desvio acidental da norma mitológica. O trabalho de Friedrich Max Müller, um dos fundadores do campo de estudo da mitologia comparada, popularizou grandemente o conceito de masculino solar, conectando cada divindade e herói ao sol e proclamando que todas as religiões derivavam do monoteísmo solar original que via o sol como o criador masculino. As teorias de Müller foram mais tarde ridicularizadas, mas as suas influências perduram até hoje.

Apesar da deusa solar parecer um conceito estranho para muitas e muitos de nós, ela está mais presente no paganismo moderno do que aquilo que poderíamos supor, apenas não a classificamos como tal. Com efeito, Brígida, uma das deusas mais populares do panteão celta e cujo festival o paganismo celebra a cada Imbolc, tem inúmeros atributos solares. Apesar disso, Brígida é habitualmente referida como deusa do fogo e da inspiração, nunca como uma deusa solar.

As suas conexões solares permaneceram até nas histórias de santa Brígida, a versão cristianizada da deusa. Santa Brígida veio ao mundo ao nascer do sol e a casa onde nasceu brilhava com tal intensidade que a vizinhança pensou haver um incêndio, mas quando foram ver, essa luz que viam emanava da própria santa. Também se diz que um dia ela suspendeu a sua capa de um raio de sol. Era ainda sobejamente conhecida a sua habilidade para curar a cegueira, uma capacidade comum às deusas solares, uma vez que o sol era considerado uma espécie de “olho” no céu.

Interessante é ainda o facto de tanto o nome irlandês como aquele que era usado no inglês antigo para designar o sol era feminino, indicando que estes povos viam o sol como uma força feminina. Sem esquecer que a cruz de Brígida não passa duma representação simbólica do sol.

In Drawing Down the Sun, Rekindle the Magic of the Solar Goddess, Stephanie Woodfield, 2014

Imagens:

Imagem 1 - https://druidry.org/resources/brigid-survival-of-a-goddess

Imagem 2 - https://www.pinterest.co.uk/catnewell1/goddess/