O poder da Deusa, que se manifesta por meio das mulheres, é uma matriz emocional que convida a uma fusão ou simbiose inconsciente e transmite uma sensação de chegada a casa.Jean Shinoda Bolen
sábado, 1 de maio de 2021
DEUSAS SOLARES - CAÍDAS E REMETIDAS PARA A NOITE
sábado, 9 de janeiro de 2021
POR QUE ESTUDAR A ANTIGA CIVILIZAÇÃO DE CRETA É TÃO IMPORTANTE PARA NÓS?
Uma História que nos Traz Esperança, por Elizabeth Chloe Erdmann
Há muitos anos atrás, havia uma antiga civilização minoica
na ilha grega de Creta que foi anterior às nossas ideias mais comuns de como
era a Grécia antiga ...
Antes de Platão, Aristóteles, da Acrópole, antes de
Alexandre - antes da Guerra de Troia - antes de Esparta...
Havia uma civilização como nenhuma outra em Creta, a maior
das ilhas gregas flutuando de forma autossuficiente num espaço entre o sul da
Europa e o norte da África; era uma cultura de comércio marítimo. Há quatro mil
anos, pequenas aldeias agrícolas começaram a construir "centros
sagrados", geralmente chamados de "estruturas palacianas". O seu
fim permanece um mistério altamente contestado. Os valores da Creta antiga eram
semelhantes a muitas culturas e tradições indígenas - como os Haudenosaunee ou
os iroqueses: reverência por todas as espécies animais e vegetais e um sentido
profundo da natureza colectiva da existência.
Então, o que acontecia antes nessa misteriosa ilha de Creta?
Os seus frescos retratam jogos que consistiam em saltar
sobre um touro. (Sim, falamos de pessoas que saltam sobre os chifres duma
criatura bovina.) Isso contrasta totalmente com o foco na violência contra os
animais, como touradas e sacrifícios, retratados nas civilizações que se sucedem
à minóica. Os frescos minoicos mostram figuras masculinas e femininas agarrando
o touro pelos chifres e saltando através deles dando uma espécie de salto
mortal. Saltar sobre o touro poderia ter sido um desporto sagrado e extático
para a geração mais jovem ou um tipo de iniciação.
Então, voltando ao que aconteceu com essa cultura, é algo de
muito misterioso. Sabemos por escavações que houve um imenso evento vulcânico
catastrófico na antiga Thera (agora conhecida como Santorini), que enfraqueceu
a cultura minoica. A chegada dos micénicos da Grécia continental levou a uma
mistura relativamente breve de culturas. Na arte micénica, vemos cenas que
retratam heróis conquistando a natureza, mulheres como vítimas e violência
contra animais. Depois de algumas centenas de anos, a sociedade micénica chegou
ao fim. As pessoas retiraram-se para as montanhas e a Grécia entrou num período
conhecido como idade das trevas que durou cerca de quinhentos anos. Depois
disso, vieram Homero e os famosos filósofos da Grécia.
Existem traços da visão de mundo minoica na nossa cultura? E
por que devemos preocupar-nos com Creta e a cultura minoica?
Elizabeth Chloe Erdmann é uma teórica apaixonada pela “Teologia Nómade”
- com uma profunda atracção pela história relacionada com a Deusa. Erdmann tem
mestrado em estudos teológicos pela Boston University, esteve associada à Amarkantak Tribal University na Índia e actualmente
faz um doutorado pesquisando sobre o Contemporary Feminist Goddess Worship
& Thealogy, na University College Cork, Irlanda. É autora publicada e
palestrante regular sobre cultura, religião e feminismo e co-lidera a
Peregrinação da Deusa, que tem lugar na Primavera a Creta, com Carol P. Christ.
Mora em Chittenango, no interior do estado de Nova York, nas terras ancestrais
da soberana Nação Onondaga, guardiães do fogo do Haudenosaunee - um povo
indígena matrilinear com muitos costumes semelhantes aos da Creta antiga. Envolvida
em ativismo e pesquisa com Sally Roesch-Wagner, no centro Matilda Joslyn Gage
para Justiça Social em Fayetteville, NY, considera-se uma mulher curiosa e
apaixonada pelos mistérios do mundo.
https://feminismandreligion.com/2020/10/26/a-story-to-inspire-hope-by-elizabeth-chloe-erdmann/#more-50552
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
Magia de Natal - faça você mesma
A árvore de Natal, pinheiro, ou abeto, é um símbolo de permanência no confronto com a realidade da finitude da vida, proposto pelo Inverno. Por isso a decoramos com luzes, brilhos e cores, com bolas que evocam a luz do sol eterno, que renasce pelo Solstício.
Quando o frufru natalício se anuncia e me atinge também a mim, dou asas à imaginação do meu self-criança, e à minha, e juntas montamos a árvore, sempre inspirada no tema da infância, e nos últimos tempos honrando também a Deusa que venero. Mas sem dúvida que ela é dedicada em especial ao meu tempo de criança, quando esta celebração era motivo de tanta excitação, pura alegria (havia férias!) e deleite. No coração do Inverno, inóspito, húmido, enregelado, a festa do Natal reconfortava e aquecia a alma. Nunca vou esquecer o encantamento provocado pela visão súbita do cortejo de pequenos anjos que irrompia capela adentro a meio da missa desse dia na aldeia. Era como se um portal se abrisse directamente no céu trazendo até nós a visão de criaturas do altíssimo. Tão pouco esquecerei a dor da revolta pelo cancelamento sem mais desse prodigioso evento. Profunda agonia por sentir que qualquer pedaço de paraíso podia ser tão fugaz, tão facilmente destruído, como se não houvesse vontade humana suficiente para dele cuidar, nem suficiente compreensão da importância primordial da beleza, o próprio amor solidificado, materializado ali naqueles anjinhos vestidos de branco delicado como os seus passinhos de criança e as suas solenes asas de penas. Era inquietante saber que não havia nesta dimensão guardiãs e guardiães do paraíso à altura, suficiente protecção contra cultivadores de distopias. Foi muito cruel.
Pode ter sido aí que o meu compromisso com a utopia e a magia foi assinado, embora também seja possível que ele venha da noite dos tempos, dos alvores da história da minha alma, uma suspeita levantada pelo encontro com François Vatel, do filme estreado no ano de 2000. Claro que o genial mordomo do Príncipe de Condé tinha meios com que não tenho sequer competência para sonhar. Restam-me os requintes dos musgos, das bagas negras das heras e do alfeneiro, das pinhas, da verdura da época e dos enfeites vários coleccionados ao longo dos anos e actualizados de acordo com as alterações do gosto. Nos últimos tempos, além de satisfazerem os caprichos da minha criança interior, eles procuram também honrar a minha devoção à Deusa. Foi assim que as aves do paraíso vieram em bando, ou que fui atraída por um enfeite com a forma da mão de Tanit, por outro que replica a Babuska, pela miniatura do gato chinês, que tem como origem uma antiga Deusa, por outro ainda com a forma dum balão de hidrogénio, honrando a Mãe do Ar deste festival.
Por debaixo da árvore, sapatinhos, como é lógico, já que não tenho lareira: umas botas que foram usadas pelo meu pai em criança, uns sapatos de menina dourados com fivela de brilhantes trazidos duma charity shop inglesa, e ainda uma cadeira de fada, uma caixa rosa fúchsia brilhante para as rifas de Natal, uma lanterna e, no lugar de honra, a minha colecção dos quatro The Lady Bird Nature Books, que com a compostura, a graça e a candura dos anos 50 do século XX, ensinavam a nossa criança a ver a paisagem, a reconhecer as alterações, as marcas e os sinais que cada estação imprime na natureza e nas actividades humanas. Por vezes também lá ficam a destilar o seu sortilégio a colecção de Contos de Andersen ou o livro das Princesas Esquecidas e Desconhecidas, de Rebecca Dautremer e Philippe Lechermeir…
Com o tempo, criei tradições de Natal muito próprias e pessoais, e repito-as,
ou recrio-as, a cada ano. Sozinha ou acompanhada, pouco importa neste capítulo.
Depois do sumiço que levou o cortejo encantado dos anjinhos de Natal, e do encontro
com outros e outras desmancha-prazeres, cuidei de aprender a criar magia para
consumo próprio. Sem dúvida uma das melhores aprendizagens que levarei desta
vida.
Luiza Frazão
sexta-feira, 24 de abril de 2020
ENCONTRAR CALAICA
©Luiza Frazão






