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domingo, 9 de agosto de 2026

O Mistério da Lendária Cidade de Lilaia, na Mata do Vimeiro, Alcobaça

 

Que bom finalmente ter podido conhecer um lugar que há anos estava na minha lista!

Ontem fui caminhar pela Mata do Vimeiro, em Alcobaça, um lugar antigo, onde a passagem do tempo deixou marcas nos troncos de árvores imponentes, como carvalhos, castanheiros, aveleiras, sobreiros, medronheiros, azinheiras, espinheiros, pinheiros. Plantas aromáticas e medicinais,  igualmente herdeiras de veneráveis anciãs, como a urze, o poejo, a cavalinha, o trovisco, a murta, a giesta e tantas outras, perfumam os caminhos da paisagem, que parece guardar memórias bem antigas.

Alcobaça é apenas uma criação dos monges de Cister?

Na verdade, o lugar parece encerrar vestígios anteriores até aos da memória dos "monges de Cister que cultivaram campos e empreenderam uma obra que representa uma autêntica domesticação ecológica da paisagem portuguesa: uma transformação deliberada dos ecossistemas naturais para os tornar mais previsíveis, produtivos e controláveis."

Já agora, só acrescentar a propósito que: "A ecologia contemporânea poderia fazer uma crítica bastante dura sobre a obra destes monges que drenaram pântanos, destruindo zonas húmidas, hoje reconhecidas como ecossistemas de elevado valor ecológico; canalizaram rios, numa simplificação e artificialização dos sistemas fluviais; construíram açudes e levadas, alterando regimes naturais de caudal e conectividade dos rios; expandiram a agricultura pela conversão de habitats e redução da vegetação espontânea. Igualmente privilegiaram espécies e culturas produtivas, diminuindo o potencial da diversidade biológica, e maximizaram a produtividade do território, numa lógica antropocêntrica, em que o valor da natureza é sobretudo definido pela sua utilidade para o homem."

Deixando os monges e recuando ainda mais no tempo encontramos Lilaia!

Mas, entre o silêncio das árvores, a sombra da vegetação e os caminhos que parecem roubados aos silvados naturais, nasce a sensação de que aquele espaço poderá ter sido, em tempos remotos, cenário de outras histórias e mistérios, que hoje, infelizmente, parecem indecifráveis para nós.

Acontece que, de há uns anos para cá, sempre que visito um lugar natural impressionante, gosto de saber se sobre ele existe algum estudo arqueológico; gosto de perceber até onde chegam as suas raízes e de que eventualmente se alimentam…

E foi deste modo que, de repente, me deparei com pesquisas arqueológicas sobre a região onde é referida en passant, sem mais, a "cidade de Lilaia" - sim, ali alugues na Mata do Vimeiro de Alcobaça! Como assim a “Cidade de Lilaia”?! Que cidade é esta, cujo eco tem permanecido trancado num arquivo penso que apenas e somente municipal?!

O enigmático topónimo, entretanto, parece transportar uma ressonância grega, evocando uma antiguidade mediterrânica para esta cidade arcaica perdida entre a realidade e a memória...

Quem pode ser Lilaia? Uma divindade das Águas ligada ao rio Baça e à sua fonte primeira?

"Segundo a tradição mitológica, Lilaia (Λίλαια) era uma ninfa associada às nascentes do rio Cefiso (Kephisos). Na mitologia e na história grega, a antiga cidade de Lilaia recebeu esse nome em homenagem à ninfa, que era filha do deus-rio Cefiso. A povoação já existia, mas ganhou este nome por se situar junto às nascentes do rio protegidas por esta Ninfa.

Na verdade, “Lilaia era uma divindade das águas, ligada às fontes da região da Fócida. O geógrafo grego Pausânias registou que a cidade tomou o nome da ninfa por causa das nascentes locais do rio Cefiso. Os registos históricos apontam que a área foi habitada desde o milénio III a.C..”

E sabem que algures nesta mata nasce o rio Baça? E que há aqui uma fonte com potencial para alojar uma divindade com o estatuto duma ninfa grega? Trata-se duma generosa e abundante nascente, mesmo em Agosto, a da Pena da Gouvinha, um lugar magnífico, mas infelizmente tratado, com péssimo gosto, parece que precisamente de forma a esconder e a fechar toda a sua beleza e magia. Outro gosto mais apurado por arranjos e intervenções paisagísticas teria conseguido respeitar o impacto e a beleza natural daquele espaço, sem atentados grosseiros à sua natural grandiosidade, que já por certo atraiu Ninfas e outros seres feéricos naquela exuberante paisagem.

Ora, investigando um pouco, ficamos a saber o seguinte: “A fonte ou nascente da Pena da Gouvinha, situada na Mata Nacional do Vimeiro em Alcobaça, é precisamente um dos locais apontados como ponto de origem e nascente que alimenta o rio Baça, que nasce em terras do Vimeiro, especificamente na área da Mata Nacional do Vimeiro. Ao percorrer os trilhos da mata (como o percurso oficial PR5 ACB), a fonte é identificada exatamente no leito e zona de nascente que dão início ao curso de água. O caudal recolhido destas origens avança por quilómetros até se juntar ao rio Alcoa bem no coração da cidade de Alcobaça.”

Bem, por esta não esperava!…

A região está repleta de influências mediterrânicas?

Confesso que o meu “salto quântico” até ao Mediterrâneo foi encorajado pela existência na mesma região de Alcobaça do topónimo Cós, que a maior parte das fontes atribui à influência fenícia. A região estaria "ainda envolta na mesma atmosfera marítima de contactos, viagens e intercâmbios. Fenícios e gregos conheceram as costas do Ocidente e deixaram, em diferentes lugares do Mediterrâneo, marcas materiais e simbólicas."

Penso que o professor Moisés Espírito Santo, com a sua obsessão pelos Fenícios e outros povos da região, não teria desaprovado de todo este raciocínio…

De resto, existe ainda uma teoria que atribui uma origem grega ao topónimo Turquel, igualmente localizado no concelho de Alcobaça: "Trokle", que significa caverna em grego, terá dado "Turquel" e a verdade é que grutas, ou cavernas, não faltam naquelas faldas da paisagem cársica da Serra dos Candeeiros!...

Mas será que podemos mesmo seguir o rasto de Lilaia até ao Mediterrâneo? Que vos parece?

Tudo isto confirma que estas matas podem eventualmente ser mais do que ricos "arquivos vegetais"... o que já é tanto!...

Como é possível que a existência duma hipotética cidade perdida no tempo não interesse às e aos seus herdeiros actuais?

 Mas sabem o que mais me intriga e frustra nesta história toda? Sim, é o profundo descaso, o facto duma cidade lendária e mítica referida nos registos dum etnógrafo(1), que a bebeu de lendas e narrativas locais, permanecer no mais puro esquecimento, sem despertar nas gentes o mínimo interesse ou curiosidade… Não é estranho?...

Possivelmente, os monges de Cister fizeram bem mais na região de Alcobaça do que erradicar ervas "daninhas", secar pântanos e desviar correntes…

@Luiza Frazão

Nota

 (1) José Diogo Ribeiro (1850–1943), professor e investigador dedicado à etnografia e história regional de Turquel e do Vimeiro. No local chamado Cidade de Lilaia, assinalou a presença de fragmentos cerâmicos antigos, além de referir a aparição de lápides de mármore na Quinta do Vimeiro. (https://porcaminhosdecister.blogspot.com)

Fontes 

Google

Imagens

Fotos da autora

Poster: https://www.facebook.com/LauraHexandShadow/posts/in-greek-mythology-water-was-never-emptyfreshwater-springs-rivers-lakes-and-foun/122241223544107167/

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

As Lições de Lammas da Creta da Idade do Bronze: A Deusa e o Grão, por Laura Shannon

 As Lições de Lammas da Creta da Idade do Bronze: A Deusa e o Grão

Laura Shannon 

(tradução Luiza Frazão)


Hoje é a Véspera de Lammas, o momento tradicional para celebrar a colheita. Convido-vos a dedicar um instante à reflexão sobre as colheitas das nossas próprias vidas e sobre os dons da Deusa Mãe, saboreando as ricas imagens legadas pelos nossos ancestrais indígenas da Antiga Europa.

No Lammas (literalmente, «missa do pão»), as pessoas partilhavam pão confeccionado com os primeiros cereais da colheita. Trata-se do dia intermédio entre o solstício de verão e o equinócio de outono, marcando o auge do verão. Embora seja mais conhecido como uma festividade celta, este momento do calendário astronómico era cuidadosamente observado por outras culturas antigas, incluindo a Creta da Idade do Bronze. Embora não saibamos se os antigos cretenses celebravam especificamente o dia exato de Lammas/Lughnasad, sabemos que honravam a colheita através de cerimónias sazonais dedicadas à Deusa e ao grão.

A sofisticada cultura hoje conhecida como Creta «minoica» (embora esse não fosse o nome pelo qual se identificavam) seguia atentamente os ritmos do Sol, da Lua e das estrelas. Helen Benigni descreve como o complexo sagrado de Cnossos se alinha com constelações que surgem no nordeste, sendo interpretadas pelas sacerdotisas-astrónomas como momentos em que «as divindades apareciam ao povo para o guiar ao longo de cada ano agrícola». Lucy Goodison demonstra igualmente que a chamada «Sala do Trono» de Cnossos foi cuidadosamente orientada para receber os raios do Sol nascente durante os solstícios e os equinócios.

Cnossos e outros centros sagrados minoicos foram implantados em paisagens consideradas sagradas, junto de colinas, nascentes, grutas e montanhas fendidas ou de picos em forma de chifres, representando simbolicamente o corpo da Deusa. Assim, a Terra, o Sol, a Lua e as estrelas moldavam o tempo e o espaço ritual, iluminando, tanto literal como metaforicamente, o lugar de cada pessoa no ciclo sagrado da vida, da morte e da regeneração.

A arte vibrante desta sociedade pacífica retrata mulheres em funções de autoridade sagrada e secular, e apresenta uma Deusa como divindade central, frequentemente associada a aves e serpentes e acompanhada por sacerdotisas. Em contraste com a arte das posteriores culturas patriarcais micénica e grega, a arte minoica não glorifica a violência nem a guerra. A arqueomitóloga Marija Gimbutas considerava Creta o derradeiro florescimento das civilizações da Deusa da Antiga Europa, bem como o último território a sucumbir às tribos indo-europeias dos Kurgan, cuja expansão pôs fim a esse mundo pacífico durante o quinto e quarto milénios a.C.

A civilização minoica começou a desenvolver-se quando os primeiros agricultores neolíticos chegaram a Creta vindos da Anatólia, por volta de 6300 a.C., trazendo consigo conhecimentos sobre agricultura, olaria, tecelagem e domesticação de animais. Com o passar do tempo, estes agricultores anatólios — geneticamente aparentados aos habitantes de Çatalhöyük — misturaram-se com os cretenses nativos, dando origem à extraordinária sociedade que floresceu entre 3100 e 1450 a.C. Nesse período construíram centros sagrados, criaram obras de arte de grande beleza e produziram abundantes colheitas de cereais, azeite, vinho, madeira, fruta, mel, têxteis e todo o tipo de artesanato. Estes produtos eram exportados através de uma vasta rede marítima que estabeleceu rotas comerciais por todo o Mediterrâneo antigo.

Os seus centros rituais, frequentemente designados «palácios», dos quais Cnossos é o maior exemplo, apresentam arquitetura de vários pisos, sistemas de canalização e drenagem e numerosos espaços cerimoniais. A ausência de fortificações defensivas sugere que não viviam sob a ameaça constante de ataques. Rodeados por campos férteis, estes grandes complexos serviam também para armazenar excedentes agrícolas, distribuídos em épocas de necessidade. O cereal, fonte de vida, aliado ao compromisso de partilhar os recursos, garantiu a prosperidade da sua civilização.

Os valores cooperativos evidentes na cultura minoica são característicos de sociedades matriarcais e matricêntricas. Como explica Carol Christ, «nas primeiras fases da agricultura, quando a terra era detida pelo clã materno, assegurava-se uma distribuição equitativa dos bens através da prática da dádiva; existiam mecanismos para que todas as vozes fossem ouvidas; e a Terra era entendida como uma grande Mãe generosa». Deste modo, as estruturas espirituais e sociais encontravam-se profundamente entrelaçadas.

Joan Cichon apresenta argumentos convincentes para considerar a Creta da Idade do Bronze uma cultura matriarcal, segundo a definição de Heide Goettner-Abendroth: não uma imagem invertida do patriarcado, em que as mulheres dominam e os homens são oprimidos, mas antes uma sociedade igualitária e pacífica. Nas palavras de Goettner-Abendroth:

«As sociedades matriarcais são sociedades centradas na mãe. Baseiam-se em valores maternos: cuidado, nutrição e maternidade, válidos para todas as pessoas — para mães e não mães, para mulheres e homens. Nas sociedades matriarcais, a maternidade, que nasce de um facto biológico, transforma-se num modelo cultural.»

Este modelo de cuidado manifesta-se no armazenamento centralizado e na distribuição comunitária dos recursos, incluindo os cereais, bem como nos amplos espaços destinados a cerimónias e danças coletivas. O fresco da Procissão Ocidental, em Cnossos, mostra pessoas transportando oferendas de alimentos e bebidas para uma figura feminina central, provavelmente uma sacerdotisa ou a própria Deusa. Podemos imaginar esta cena evocativa integrada numa celebração da colheita, quando os dons da Terra atingiam o seu auge, os campos já tinham sido ceifados e quem os cultivava podia finalmente reunir-se em comunidade.

A agricultura neolítica foi, em grande medida, desenvolvida pelas mulheres, em sociedades que reconheciam um paralelo entre a fertilidade da Terra e a fertilidade das mães humanas e animais. Essa ligação entre a mulher e a Terra ajudou a moldar a imagem de uma divindade feminina e contribuiu para o surgimento de uma sociedade igualitária baseada no princípio do cuidar. Carol Christ escreve:

«Como guardiãs e intérpretes dos mistérios, as mulheres criaram rituais para celebrar a Fonte da Vida e transmitir às gerações seguintes os conhecimentos da agricultura, da olaria e da tecelagem. Os principais rituais do ciclo agrícola incluíam a bênção das sementes antes da sementeira, a oferta dos primeiros frutos da colheita à Deusa e a partilha da abundância em banquetes comunitários. Estes rituais afirmam que a vida é um dom da Deusa e instituem a dádiva como prática cultural. Como as mulheres detinham os conhecimentos da agricultura, faz sentido que a terra fosse propriedade dos clãs maternos, que o parentesco e a herança fossem transmitidos pela linha materna e que o governo e as decisões da comunidade estivessem nas mãos das anciãs do clã. Neste contexto, a inteligência, o amor e a generosidade das mães e das matriarcas eram entendidos como reflexo da inteligência, do amor e da generosidade da própria Deusa.»

Uma bela fotografia antiga — embora de baixa qualidade — proveniente de um postal ilustrado sem identificação, mostra uma avó cretense segurando os pães acabados de sair do seu forno, feitos com o cereal que ela própria semeou, cultivou, colheu, malhou, armazenou, moeu e cozeu. Ainda hoje, muitas mulheres idosas em Creta praticam agricultura de pequena escala de forma sustentável, preservando métodos ancestrais que remontam ao Neolítico e que, segundo esta tradição, foram oferecidos pela Deusa.

Imagens como esta, tal como os próprios pães, alimentam-nos em todos os níveis e recordam-nos que a sabedoria da Terra, herdada das e dos nossos ancestrais indígenas europeus, ainda não desapareceu por completo.

Há, de facto, muitas lições que podemos recolher. A sabedoria da antiga Creta convida-nos a reencontrar os ritmos das estações, a reunirmo-nos em gratidão pelos inúmeros dons da Mãe Terra e a partilhar aquilo que temos, para que haja o suficiente para todas e todos. Que a colheita deste ano nos traga a bênção da Deusa e nos conduza através destes tempos difíceis rumo a um futuro mais sustentável.

Referências

Benigni, Helen (2007). The Goddess and the Bull: A Study in Minoan-Mycenaean Mythology. Capítulo 2: The Astronomer Priestesses of the Bronze Age. University Press of America.

Christ, Carol P. (2020). «Women Invented Agriculture, Pottery, and Weaving and Created Neolithic Religion». Feminism and Religion, 11 de maio.

Christ, Carol P. (2019). «Crete, Religion and Culture». In Encyclopedia of Women in World Religions, ed. Susan de-Gaia. Santa Barbara: ABC-CLIO.

Cichon, Joan (2022). Matriarchy in Bronze Age Crete: A Perspective from Archaeomythology and Modern Matriarchal Studies. Archaeopress Archaeology.

Gimbutas, Marija & Dexter, Miriam Robbins (1999). «The Minoan Religion in Crete». In The Living Goddesses, pp. 131–150. Berkeley: University of California Press.

Gimbutas, Marija (1989). The Language of the Goddess. San Francisco: Harper & Row.

Goettner-Abendroth, Heide (2012). Matriarchal Societies: Studies on Indigenous Cultures across the Globe. New York: Peter Lang.

Goodison, Lucy (2004). «From Tholos Tomb to Throne Room: Some Considerations of Dawn Light and Directionality in Minoan Buildings». In Knossos: Palace, City, State, eds. G. Cadogan, E. Hatzaki e A. Vasilakis, pp. 339–350. British School at Athens.

Scully, Vincent (2014). The Earth, the Temple, and the Gods: Greek Sacred Architecture. Trinity University Press.

Shannon, Laura (2023). «Crete: Women’s Dance and Culture from the Depths of Time». Neue Kreise Ziehen – Fachzeitschrift für meditativen & sakralen Tanz, 3/2023, pp. 25–29.

https://feminismandreligion.com/2026/08/01/lammas-lessons-from-bronze-age-crete-the-goddess-and-the-grain-by-laura-shannon/

Imagens: Palácio de Cnossos e de Festos, Creta (imagens minhas)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

AS MULHERES E OS SEUS FILHOS

 

Escrito há já quase 20 anos, espero que desactualizado.... Mas o movimento Liberating Motherhood, criado por Zawn Villines, parece indicar que está tudo na mesma...

“Cerca de metade das mulheres sozinhas com filhos são pobres”, lê-se como título de um artigo do Público, de 13 de Outubro. A seguir vem: “Que elas têm sido mais atingidas pela pobreza é algo que tem sido constatado em diferentes estudos. Mas um trabalho coordenado por uma equipa do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, mostra (...) que idosas isoladas e mães sozinhas com filhos a cargo são os dois grupos mais vulneráveis. E aquelas onde as diferenças de género mais se fazem sentir.”

Pudera! Enquanto as mães têm que repartir com os vários filhos os seus rendimentos, os pais desses mesmos filhos (sim, porque as crianças ainda nascem como resultado da interacção de um homem e de uma mulher!) serão mais abastados precisamente por não terem que dividir os seus ganhos por ninguém. Estou a ver mal?

Estes estudos são de facto muito interessantes: vai-se ao terreno, produzem-se estatísticas, mostra-se trabalho.... Quanto aos resultados práticos de tanto gasto de meios, tenho as minhas dúvidas. Sem grandes investigações, qualquer pessoa de bom senso já percebeu o seguinte: a humanidade, em grande percentagem, reproduz-se como resultado da pura mania das mulheres de se meterem em enrascadas, reproduzindo-se sem ponderarem as circunstâncias em que o fazem, numa obediência cega aos ditames dos respectivos “relógios biológicos”; ou, pior ainda, como resultado de práticas depravadas, contrárias aos bons ensinamentos dos patriarcas, que só vêm confirmar que afinal a Bíblia está certa e todos nascemos em pecado! E depois empobrecem. Bem feito! Justiça divina.

O estudo, caso se partisse do pressuposto de que a criação de novos indivíduos é um assunto da maior importância que nos deve implicar a todas e a todos por igual, poderia ter tido a seguinte orientação (é só uma ideia): em vez de se medirem os índices de pobreza das mães, mediam-se os das crianças. Aí chegar-se-ia a outra conclusão ligeiramente diferente: as crianças que têm os dois progenitores como fonte de rendimento são mais abastadas do que aquelas que têm só um a fornecer-lhes comidinha, roupinhas, casa confortável, brinquedos, enfim, tudo aquilo de que os nossos queridos rebentos precisam.

É que, quando leio coisas como “As mulheres sozinhas e os seus filhos são os mais pobres”, tenho sempre a sensação de que se aquele “apêndice” fosse substituído por “e as suas manias”, “e a sua síndroma pré-menstrual” ou “e as suas quatro patas” não fazia diferença nenhuma... As crianças são um assunto de mulheres, ponto final.

 Até nos tornarmos qualquer coisa de interessante para o mercado, a assembleia de voto ou as contribuições e impostos, somos algo de barulhento, esgotante e altamente dispendioso, que teima em nascer de mães sacrificadas e menosprezadas – tecnologia de reprodução até agora insubstituível, mas muito desgovernada, na verdade, em perigosa autogestão. O combustível usado por essa, apesar de tudo, altamente sofisticada “tecnologia de reprodução” é uma energia inefável, mas abundante, compulsiva e gratuita chamada “instinto maternal” (o termo, vá-se lá saber porquê, perde força no masculino), pura concentração de amor em doses astronómicas capaz das coisas mais incríveis tais como: tirar-nos o dinheiro para a prestação da casa, para ir ao futebol depois de ter bebido umas belas cervejas numa roda de amigos, ou mesmo para comprarmos o simples pão para a boca, como diz o povo.

 E é assim que, numa percentagem cada vez mais elevada, dizem-nos estes senhores dos “institutos superiores”, os assuntos referentes à reprodução da nossa espécie vão sendo tratados por aqui; e não só, claro – nisso estamos bem acompanhados...

Agora vamos à responsabilidade parental versão rico: a mãe e o pai da desaparecida Maddie vão ser, ou já terão sido, processados por negligência em relação às suas crianças, por, supostamente, as terem deixado sozinhas durante algumas horas. Acho bem. Mas o que fazer então aos pais que desaparecem sem deixar rasto durante toda a vida da sua progenitura? Como daria muito trabalho, não se faz nada – não se incomoda um homem por ninharias destas... Assim, aquela larguíssima percentagem de pais que deixam de assumir qualquer responsabilidade, monetária ou outra, na educação das e dos filhos goza de toda a impunidade. Não prover às necessidades das crianças que se trouxeram ao mundo não é considerado crime, ou pelo menos crime punível, apenas algo de vago e inconsequente como “falta de carácter”, “falta de princípios” ou qualquer coisa do género. E assim, são as mulheres (já habituadas a perder em toda a linha) que, com os “seus filhos”, saltam para as estatísticas das e dos “mais pobres”. E lá vão ficando, com mais ou menos relatórios de comissões disto ou daquilo, porque essas comissões não terão por si sós os meios para contrariar tradições solidamente arraigadas, como a das mães assumirem sozinhas tarefas tão pesadas e tão pouco dignificantes para homens de barba rija como criar filhas e filhos para a sociedade e para o mundo.

Por outro lado, a agravar a situação, outras tradições há, porventura já da ordem do mito, como a do homem forte e provedor, que vão contribuindo para este estado das coisas. Esta é uma tradição igualmente persistente, mas, certamente por falta de cultivo, parece ter-se transformado apenas numa perigosa quimera que ainda vai alimentando a fantasia de meninas ingénuas e distraídas que, não lendo jornais e desinvestindo completamente na sua educação e valorização pessoal e profissional, se colocam em delicadas situações de dependência que as farão depois engrossar esse preocupante lote das mulheres que têm as “suas” crianças como único capital.   

@Luiza Frazão, 2007

 Imagens Unsplash

1. Dylan Nolte

2.  Xavier Mouton Photographie

3. Liane Mikah