Que bom finalmente ter podido conhecer um lugar que há anos estava na minha lista!
Já agora, só acrescentar a propósito que: "A ecologia contemporânea poderia fazer uma crítica bastante dura sobre a obra destes monges que drenaram pântanos, destruindo zonas húmidas, hoje reconhecidas como ecossistemas de elevado valor ecológico; canalizaram rios, numa simplificação e artificialização dos sistemas fluviais; construíram açudes e levadas, alterando regimes naturais de caudal e conectividade dos rios; expandiram a agricultura pela conversão de habitats e redução da vegetação espontânea. Igualmente privilegiaram espécies e culturas produtivas, diminuindo o potencial da diversidade biológica, e maximizaram a produtividade do território, numa lógica antropocêntrica, em que o valor da natureza é sobretudo definido pela sua utilidade para o homem."
Deixando os monges e recuando ainda mais no tempo encontramos Lilaia!
Mas, entre o silêncio das árvores, a sombra da vegetação e os caminhos que parecem roubados aos silvados naturais, nasce a sensação de que aquele espaço poderá ter sido, em tempos remotos, cenário de outras histórias e mistérios, que hoje, infelizmente, parecem indecifráveis para nós.Acontece que, de há uns anos para cá, sempre que visito um lugar natural
impressionante, gosto de saber se sobre ele existe algum estudo arqueológico; gosto de perceber até onde chegam as suas raízes e de que eventualmente se alimentam…
E foi deste modo que, de repente, me deparei com pesquisas
arqueológicas sobre a região onde é referida en passant, sem mais, a
"cidade de Lilaia" - sim, ali alugues na Mata do Vimeiro de Alcobaça!
Como assim a “Cidade de Lilaia”?! Que cidade é esta, cujo eco tem permanecido
trancado num arquivo penso que apenas e somente municipal?!
O enigmático topónimo, entretanto, parece transportar uma ressonância grega, evocando uma antiguidade mediterrânica para esta cidade arcaica perdida entre a realidade e a memória...
Quem pode ser Lilaia? Uma divindade das Águas ligada ao rio Baça e à sua fonte primeira?
"Segundo a tradição mitológica, Lilaia (Λίλαια) era uma ninfa associada às nascentes do rio Cefiso (Kephisos). Na mitologia e na história grega, a antiga cidade de Lilaia recebeu esse nome em homenagem à ninfa, que era filha do deus-rio Cefiso. A povoação já existia, mas ganhou este nome por se situar junto às nascentes do rio protegidas por esta Ninfa.Na verdade, “Lilaia era uma divindade das águas, ligada às
fontes da região da Fócida. O geógrafo grego Pausânias registou que a cidade
tomou o nome da ninfa por causa das nascentes locais do rio Cefiso. Os registos
históricos apontam que a área foi habitada desde o milénio III a.C..”
E sabem que algures nesta mata nasce o rio Baça? E que há aqui uma fonte com potencial para alojar uma divindade com o estatuto duma ninfa
grega? Trata-se duma generosa e abundante
nascente, mesmo em Agosto, a da Pena da Gouvinha, um lugar magnífico, mas infelizmente tratado, com péssimo gosto, parece
que precisamente de forma a esconder e a fechar toda a sua beleza e magia. Outro
gosto mais apurado por arranjos e intervenções paisagísticas teria conseguido
respeitar o impacto e a beleza natural daquele espaço, sem atentados grosseiros
à sua natural grandiosidade, que já por certo atraiu Ninfas e outros seres
feéricos naquela exuberante paisagem.
Bem, por esta não esperava!…
A região está repleta de influências mediterrânicas?
Confesso que o meu “salto quântico” até ao Mediterrâneo foi encorajado pela existência na mesma região de Alcobaça do topónimo Cós, que a maior parte
das fontes atribui à influência fenícia. A região estaria "ainda envolta
na mesma atmosfera marítima de contactos, viagens e intercâmbios. Fenícios e
gregos conheceram as costas do Ocidente e deixaram, em diferentes lugares do
Mediterrâneo, marcas materiais e simbólicas."
Penso que o professor Moisés Espírito Santo, com a sua
obsessão pelos Fenícios e outros povos da região, não teria desaprovado de todo
este raciocínio…
Mas será que podemos mesmo seguir o rasto de Lilaia até ao
Mediterrâneo? Que vos parece?
Tudo isto confirma que estas matas podem eventualmente ser
mais do que ricos "arquivos vegetais"... o que já é tanto!...
Como é possível que a existência duma hipotética cidade perdida no tempo não interesse às e aos seus herdeiros actuais?
Possivelmente, os monges de Cister fizeram bem mais na
região de Alcobaça do que erradicar ervas "daninhas", secar pântanos
e desviar correntes…
@Luiza Frazão
Nota
Fontes
Google
Imagens
Fotos da autora




