SANTA MARIÑA DE AUGAS SANTAS | OURENSE | GALIZA
10 de outubro de 2026
Organização: Susana Ribeiro e Xosé Romero
Conheci Susana Ribeiro, galega, praticante de Druidismo, Feng Shui, Geomancia e Geometria Sagrada, no nosso retiro do Solstício de Verão, em Terras de Bouro, na Aldeia da Ermida, cuja madroeira é a divina Mãe Marinha. Nesse retiro, em terras de Marinha, pudemos sentir a energia forte, soberana, amorosa e protectora da Deusa, que aí invocámos e que, na nossa Roda do Ano, honramos e celebramos particularmente no Solstício de Verão.
Foi também nessa ocasião que Susana me convidou para participar nas primeiras Xornadas do Celtismo Galaico, que começava então a idealizar e a preparar com Xosé Romero. Essas Jornadas realizaram-se no sábado, 10 de outubro de 2026, em Santa Mariña de Augas Santas, na Galiza, província de Ourense.
Conhecia Marinha integrada no grupo das Nove Mulheres Sagradas, as Nove Hespérides, juntamente com Quitéria, Eufémia, Marciana, Genivera/Genebra, Victória, Liberata, Germana e Bazília. Mas já através de Dalila Pereira da Costa, na obra As Margens Sacralizadas do Rio Douro, pudera vislumbrar a antiguidade desta figura, nossa ancestral divina: a Mulher-Marinha, a Sereia mítica das nossas origens aquáticas.
Mais tarde, Nikki Hillis ajudou-me a alargar o horizonte desta ancestralidade através do conceito de uma antiquíssima Mer-Line, uma linhagem espiritual feminina na qual Melusine, Mari, Maria e até Maria Madalena — e, por certo, Marinha — poderiam encontrar lugar, como expressões de uma genealogia primordial ligada à Sereia, às águas sagradas e aos mistérios do feminino.
Marinha, pela mão de Susana Ribeiro e de Xosé Romero, conduziu-nos por bosques encantados, onde sobrevivem preciosas relíquias do culto antigo que as gentes destes lugares lhe prestavam. O historiador Manuel Galego ajudou-nos a contextualizar essa memória no tempo e no espaço, enquanto a antropóloga Lídia Mariño partilhou dados preciosos da sua investigação sobre as tradições do sagrado feminino galaico e peninsular. Tivemos ainda a alegria de escutar a bela música de Lucía Cortiñas Lorenzana e de Diego Piñeiro, que deu voz e ressonância ao espírito deste encontro.
Bonito de ver quando um povo consegue reconhecer, guardar e proteger a sua história, as suas raízes e os seus lugares sagrados.
Na Galiza, na província de Ourense, Santa Mariña de Augas Santas revela-nos, na minha leitura espiritual, toda a força de uma Grande Mãe, embora apresentada sob a categoria de «santa». Senhora das Águas e da Terra, da Fertilidade e da Criação; da Soberania, guardiã e protectora das tribos; Senhora da cura, através das Suas águas santas; e Aquela que, no fim da vida, nos acolhe de novo no Seu divino útero, quando regressamos à Terra.
Como nos convida a reflectir P. D. Mackenzie Cook, a propósito da Deusa Epona, que designa como Hidden Goddess of the Celts, também em Marinha podemos procurar estes poderes da Grande Mãe. E, se quisermos aprofundar esta reflexão, basta observar a relação simbólica que podemos estabelecer entre o Seu culto e os lugares de morte e memória.Encontramos o nome de Santa Mariña associado a importantes lugares funerários de diferentes épocas, desde o passado remoto até ao presente. Basta olhar para a necrópole megalítica de Santa Mariña, no Monte de Santa Mariña, na província de Lugo, na Galiza, um dos conjuntos de arquitectura tumular megalítica relevantes do noroeste da Península Ibérica.
Já em período medieval, encontramos, em Moreira de Rei, Trancoso, Portugal, uma notável necrópole de sepulturas antropomórficas escavadas no granito, com mais de 700 túmulos identificados. Esta presença do nome de Santa Marinha em lugares de sepultamento convida-nos a reflectir sobre a relação simbólica entre a Grande Mãe, a Terra que nos sustenta e Aquela que, no fim, nos recebe. Uma ligação que encontra também expressão em lugares mais recentes, como o importante cemitério de Santa Marinha, em Vila Nova de Gaia.
O meandro sagrado de Marinha, em Ourense
Nas Jornadas de Celtismo Galaico, tivemos a oportunidade de peregrinar pelo roteiro mágico da Santa, da Deusa, que une importantes monumentos naturais e construídos, entre imponentes carvalhos e castanheiros ligados à Sua lenda e ao Seu martírio. Percorremos o complexo de Santa Mariña de Augas Santas e os arredores do castro galaico-romano de Armea, mergulhando numa paisagem onde a pedra, a água, o fogo e a memória se entrelaçam.
Na capela de São Tomé, encontrámos o Seu poço, que, segundo a lenda, terá sido aberto por um dos três saltos dados pela cabeça decapitada da Santa. No exterior, permanecem os vestígios do Seu mítico carvalho e a Sua fonte de águas milagrosas.Na tradição lendária, Marinha é também uma pastorinha por quem um prefeito romano se apaixona, sem ser correspondido. Por isso, é submetida a um terrível martírio: é presa, dependurada e queimada num forno, de onde é salva pelo próprio São Pedro, que lhe alivia as queimaduras com a água das pequenas pias escavadas na rocha.
Por fim, o prefeito ordena que lhe cortem a cabeça, de um só golpe. Ao cair, esta salta três vezes e, em cada lugar onde toca a terra, brota uma nascente. A Santa não é sepultada num templo, nem num lugar de sepultamento comum. A Sua presença permanece inscrita na própria paisagem.
Todos os passos da vida e do martírio de Marinha estão assinalados no território: desde o banco de pedra onde se sentava para vigiar o rebanho até às Pioucas da Santa, cavidades talhadas na rocha que, segundo algumas interpretações históricas, poderão ter servido como lagares de azeite ou de vinho.
Pelo caminho, encontramos ainda o Monte do Señoriño, com a aparência de um santuário rupestre, e o impressionante Penedo da Moura. Chegamos, por fim, ao Forno da Santa, estrutura interpretada arqueologicamente como uma antiga sauna castreja, conservada na cripta de um templo cristão cuja construção nunca chegou a ser concluída.
A tradição de Santa Mariña une a pedra, a água e o fogo numa narrativa de sofrimento, resistência e renascimento. O forno representa o suplício; as cavidades e as fontes evocam a água purificadora e milagrosa; as formações rochosas testemunham a permanência da paisagem e da memória colectiva.
O município de Allariz apresenta este conjunto patrimonial como um lugar onde se cruzam história, tradição, arqueologia e paisagem.
Mas há algo que torna tudo isto ainda mais especial: o cuidado e o carinho com que a comunidade local preserva este património.
É um lugar que desperta orgulho em quem pratica o paganismo ou o xamanismo, em quem ama a cultura celta e em todas as pessoas que reconhecem em Santa Mariña a presença viva da Grande Mãe.É uma bênção poder mergulhar num lugar assim, percorrer os seus caminhos e escutar as suas histórias pela mão de Marinha.
E Marinha levou-nos também a um lugar antigo e saudoso, tão familiar e aconchegante como um abraço materno. Um lugar de reencontro, de comunhão e de pertença, onde o círculo se faz corro, fraternidade e sororidade; onde cada pessoa pode chegar com a sua história e encontrar espaço para a partilhar.
Uma alegria singela e inteira, tão simples como as coisas essenciais da vida: estar juntas e juntos, escutar, aprender, cantar, caminhar pela terra antiga e sentir que há memórias que continuam vivas em nós, mesmo quando já não sabemos nomeá-las. Como se, por instantes, o tempo abrisse uma passagem e nos permitisse regressar a uma casa muito antiga, guardada no fundo da nossa alma.
Que Marinha continue a guardar-nos como a Grande Mãe que é: Senhora das Águas, guardiã da memória antiga, presença amorosa que nos reúne no Seu regaço e nos lembra que também nós somos terra, água, linhagem e comunidade.
Gratidão à Grande Mãe Marinha, à Terra que nos acolhe e a todas as pessoas que mantêm viva a memória dos lugares sagrados.
Gratidão a todas as mulheres e homens de coração aberto e sensível aos mistérios de Marinha.
Abençoada!
© Luiza Frazão


















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