As Lições de Lammas da Creta da Idade do Bronze: A Deusa e o Grão
Laura Shannon
(tradução Luiza Frazão)
Hoje é a Véspera de Lammas, o momento tradicional para celebrar a colheita.
Convido-vos a dedicar um instante à reflexão sobre as colheitas das nossas
próprias vidas e sobre os dons da Deusa Mãe, saboreando as ricas imagens
legadas pelos nossos ancestrais indígenas da Antiga Europa.
No Lammas (literalmente, «missa do pão»), as pessoas partilhavam pão
confeccionado com os primeiros cereais da colheita. Trata-se do dia intermédio
entre o solstício de verão e o equinócio de outono, marcando o auge do verão.
Embora seja mais conhecido como uma festividade celta, este momento do
calendário astronómico era cuidadosamente observado por outras culturas
antigas, incluindo a Creta da Idade do Bronze. Embora não saibamos se os
antigos cretenses celebravam especificamente o dia exato de Lammas/Lughnasad,
sabemos que honravam a colheita através de cerimónias sazonais dedicadas à
Deusa e ao grão.

A sofisticada cultura hoje conhecida como Creta «minoica» (embora esse não
fosse o nome pelo qual se identificavam) seguia atentamente os ritmos do Sol,
da Lua e das estrelas. Helen Benigni descreve como o complexo sagrado de
Cnossos se alinha com constelações que surgem no nordeste, sendo interpretadas
pelas sacerdotisas-astrónomas como momentos em que «as divindades apareciam ao
povo para o guiar ao longo de cada ano agrícola». Lucy Goodison demonstra
igualmente que a chamada «Sala do Trono» de Cnossos foi cuidadosamente
orientada para receber os raios do Sol nascente durante os solstícios e os
equinócios.
Cnossos e outros centros sagrados minoicos foram implantados em paisagens
consideradas sagradas, junto de colinas, nascentes, grutas e montanhas fendidas
ou de picos em forma de chifres, representando simbolicamente o corpo da Deusa.
Assim, a Terra, o Sol, a Lua e as estrelas moldavam o tempo e o espaço ritual,
iluminando, tanto literal como metaforicamente, o lugar de cada pessoa no ciclo
sagrado da vida, da morte e da regeneração.
A arte vibrante desta sociedade pacífica retrata mulheres em funções de
autoridade sagrada e secular, e apresenta uma Deusa como divindade central,
frequentemente associada a aves e serpentes e acompanhada por sacerdotisas. Em
contraste com a arte das posteriores culturas patriarcais micénica e grega, a
arte minoica não glorifica a violência nem a guerra. A arqueomitóloga Marija
Gimbutas considerava Creta o derradeiro florescimento das civilizações da Deusa
da Antiga Europa, bem como o último território a sucumbir às tribos
indo-europeias dos Kurgan, cuja expansão pôs fim a esse mundo pacífico durante
o quinto e quarto milénios a.C.

A civilização minoica começou a desenvolver-se quando os primeiros
agricultores neolíticos chegaram a Creta vindos da Anatólia, por volta de 6300
a.C., trazendo consigo conhecimentos sobre agricultura, olaria, tecelagem e
domesticação de animais. Com o passar do tempo, estes agricultores anatólios —
geneticamente aparentados aos habitantes de Çatalhöyük — misturaram-se com os
cretenses nativos, dando origem à extraordinária sociedade que floresceu entre
3100 e 1450 a.C. Nesse período construíram centros sagrados, criaram obras de
arte de grande beleza e produziram abundantes colheitas de cereais, azeite,
vinho, madeira, fruta, mel, têxteis e todo o tipo de artesanato. Estes produtos
eram exportados através de uma vasta rede marítima que estabeleceu rotas comerciais
por todo o Mediterrâneo antigo.
Os seus centros rituais, frequentemente designados «palácios», dos quais
Cnossos é o maior exemplo, apresentam arquitetura de vários pisos, sistemas de
canalização e drenagem e numerosos espaços cerimoniais. A ausência de
fortificações defensivas sugere que não viviam sob a ameaça constante de
ataques. Rodeados por campos férteis, estes grandes complexos serviam também
para armazenar excedentes agrícolas, distribuídos em épocas de necessidade. O
cereal, fonte de vida, aliado ao compromisso de partilhar os recursos, garantiu
a prosperidade da sua civilização.

Os valores cooperativos evidentes na cultura minoica são característicos de
sociedades matriarcais e matricêntricas. Como explica Carol Christ, «nas
primeiras fases da agricultura, quando a terra era detida pelo clã materno,
assegurava-se uma distribuição equitativa dos bens através da prática da
dádiva; existiam mecanismos para que todas as vozes fossem ouvidas; e a Terra
era entendida como uma grande Mãe generosa». Deste modo, as estruturas
espirituais e sociais encontravam-se profundamente entrelaçadas.
Joan Cichon apresenta argumentos convincentes para considerar a Creta da
Idade do Bronze uma cultura matriarcal, segundo a definição de Heide
Goettner-Abendroth: não uma imagem invertida do patriarcado, em que as mulheres
dominam e os homens são oprimidos, mas antes uma sociedade igualitária e
pacífica. Nas palavras de Goettner-Abendroth:
«As sociedades matriarcais são sociedades centradas na mãe. Baseiam-se em
valores maternos: cuidado, nutrição e maternidade, válidos para todas as
pessoas — para mães e não mães, para mulheres e homens. Nas sociedades
matriarcais, a maternidade, que nasce de um facto biológico, transforma-se num
modelo cultural.»
Este modelo de cuidado manifesta-se no armazenamento centralizado e na
distribuição comunitária dos recursos, incluindo os cereais, bem como nos
amplos espaços destinados a cerimónias e danças coletivas. O fresco da
Procissão Ocidental, em Cnossos, mostra pessoas transportando oferendas de
alimentos e bebidas para uma figura feminina central, provavelmente uma
sacerdotisa ou a própria Deusa. Podemos imaginar esta cena evocativa integrada
numa celebração da colheita, quando os dons da Terra atingiam o seu auge, os
campos já tinham sido ceifados e quem os cultivava podia finalmente reunir-se
em comunidade.
A agricultura neolítica foi, em grande medida, desenvolvida pelas mulheres,
em sociedades que reconheciam um paralelo entre a fertilidade da Terra e a
fertilidade das mães humanas e animais. Essa ligação entre a mulher e a Terra
ajudou a moldar a imagem de uma divindade feminina e contribuiu para o
surgimento de uma sociedade igualitária baseada no princípio do cuidar. Carol
Christ escreve:
«Como guardiãs e intérpretes dos mistérios, as mulheres criaram rituais para
celebrar a Fonte da Vida e transmitir às gerações seguintes os conhecimentos da
agricultura, da olaria e da tecelagem. Os principais rituais do ciclo agrícola
incluíam a bênção das sementes antes da sementeira, a oferta dos primeiros
frutos da colheita à Deusa e a partilha da abundância em banquetes
comunitários. Estes rituais afirmam que a vida é um dom da Deusa e instituem a
dádiva como prática cultural. Como as mulheres detinham os conhecimentos da
agricultura, faz sentido que a terra fosse propriedade dos clãs maternos, que o
parentesco e a herança fossem transmitidos pela linha materna e que o governo e
as decisões da comunidade estivessem nas mãos das anciãs do clã. Neste contexto,
a inteligência, o amor e a generosidade das mães e das matriarcas eram
entendidos como reflexo da inteligência, do amor e da generosidade da própria
Deusa.»
Uma bela fotografia antiga — embora de baixa qualidade — proveniente de um
postal ilustrado sem identificação, mostra uma avó cretense segurando os pães
acabados de sair do seu forno, feitos com o cereal que ela própria semeou,
cultivou, colheu, malhou, armazenou, moeu e cozeu. Ainda hoje, muitas mulheres
idosas em Creta praticam agricultura de pequena escala de forma sustentável,
preservando métodos ancestrais que remontam ao Neolítico e que, segundo esta
tradição, foram oferecidos pela Deusa.
Imagens como esta, tal como os próprios pães, alimentam-nos em todos os
níveis e recordam-nos que a sabedoria da Terra, herdada das e dos nossos
ancestrais indígenas europeus, ainda não desapareceu por completo.
Há, de facto, muitas lições que podemos recolher. A sabedoria da antiga
Creta convida-nos a reencontrar os ritmos das estações, a reunirmo-nos em
gratidão pelos inúmeros dons da Mãe Terra e a partilhar aquilo que temos, para
que haja o suficiente para todas e todos. Que a colheita deste ano nos traga a
bênção da Deusa e nos conduza através destes tempos difíceis rumo a um futuro
mais sustentável.
Referências
Benigni, Helen (2007). The Goddess and the Bull: A Study in
Minoan-Mycenaean Mythology. Capítulo 2: The Astronomer Priestesses of
the Bronze Age. University Press of America.
Christ, Carol P. (2020). «Women Invented Agriculture, Pottery, and Weaving
and Created Neolithic Religion». Feminism and Religion, 11 de maio.
Christ, Carol P. (2019). «Crete, Religion and Culture». In Encyclopedia
of Women in World Religions, ed. Susan de-Gaia. Santa Barbara: ABC-CLIO.
Cichon, Joan (2022). Matriarchy in Bronze Age Crete: A Perspective from
Archaeomythology and Modern Matriarchal Studies. Archaeopress Archaeology.
Gimbutas, Marija & Dexter, Miriam Robbins (1999). «The Minoan Religion
in Crete». In The Living Goddesses, pp. 131–150. Berkeley: University
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Gimbutas, Marija (1989). The Language of the Goddess. San
Francisco: Harper & Row.
Goettner-Abendroth, Heide (2012). Matriarchal Societies: Studies on
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Goodison, Lucy (2004). «From Tholos Tomb to Throne Room: Some Considerations
of Dawn Light and Directionality in Minoan Buildings». In Knossos: Palace,
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British School at Athens.
Scully, Vincent (2014). The Earth, the Temple, and the Gods: Greek
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Shannon, Laura (2023). «Crete: Women’s Dance and Culture from the Depths of
Time». Neue Kreise Ziehen – Fachzeitschrift für meditativen & sakralen
Tanz, 3/2023, pp. 25–29.
https://feminismandreligion.com/2026/08/01/lammas-lessons-from-bronze-age-crete-the-goddess-and-the-grain-by-laura-shannon/
Imagens: Palácio de Cnossos e de Festos, Creta (imagens minhas)