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terça-feira, 11 de agosto de 2026

AS MULHERES E OS SEUS FILHOS

 

Escrito há já quase 20 anos, espero que desactualizado.... Mas o movimento Liberating Motherhood, criado por Zawn Villines, parece indicar que está tudo na mesma...

“Cerca de metade das mulheres sozinhas com filhos são pobres”, lê-se como título de um artigo do Público, de 13 de Outubro. A seguir vem: “Que elas têm sido mais atingidas pela pobreza é algo que tem sido constatado em diferentes estudos. Mas um trabalho coordenado por uma equipa do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, mostra (...) que idosas isoladas e mães sozinhas com filhos a cargo são os dois grupos mais vulneráveis. E aquelas onde as diferenças de género mais se fazem sentir.”

Pudera! Enquanto as mães têm que repartir com os vários filhos os seus rendimentos, os pais desses mesmos filhos (sim, porque as crianças ainda nascem como resultado da interacção de um homem e de uma mulher!) serão mais abastados precisamente por não terem que dividir os seus ganhos por ninguém. Estou a ver mal?

Estes estudos são de facto muito interessantes: vai-se ao terreno, produzem-se estatísticas, mostra-se trabalho.... Quanto aos resultados práticos de tanto gasto de meios, tenho as minhas dúvidas. Sem grandes investigações, qualquer pessoa de bom senso já percebeu o seguinte: a humanidade, em grande percentagem, reproduz-se como resultado da pura mania das mulheres de se meterem em enrascadas, reproduzindo-se sem ponderarem as circunstâncias em que o fazem, numa obediência cega aos ditames dos respectivos “relógios biológicos”; ou, pior ainda, como resultado de práticas depravadas, contrárias aos bons ensinamentos dos patriarcas, que só vêm confirmar que afinal a Bíblia está certa e todos nascemos em pecado! E depois empobrecem. Bem feito! Justiça divina.

O estudo, caso se partisse do pressuposto de que a criação de novos indivíduos é um assunto da maior importância que nos deve implicar a todas e a todos por igual, poderia ter tido a seguinte orientação (é só uma ideia): em vez de se medirem os índices de pobreza das mães, mediam-se os das crianças. Aí chegar-se-ia a outra conclusão ligeiramente diferente: as crianças que têm os dois progenitores como fonte de rendimento são mais abastadas do que aquelas que têm só um a fornecer-lhes comidinha, roupinhas, casa confortável, brinquedos, enfim, tudo aquilo de que os nossos queridos rebentos precisam.

É que, quando leio coisas como “As mulheres sozinhas e os seus filhos são os mais pobres”, tenho sempre a sensação de que se aquele “apêndice” fosse substituído por “e as suas manias”, “e a sua síndroma pré-menstrual” ou “e as suas quatro patas” não fazia diferença nenhuma... As crianças são um assunto de mulheres, ponto final.

 Até nos tornarmos qualquer coisa de interessante para o mercado, a assembleia de voto ou as contribuições e impostos, somos algo de barulhento, esgotante e altamente dispendioso, que teima em nascer de mães sacrificadas e menosprezadas – tecnologia de reprodução até agora insubstituível, mas muito desgovernada, na verdade, em perigosa autogestão. O combustível usado por essa, apesar de tudo, altamente sofisticada “tecnologia de reprodução” é uma energia inefável, mas abundante, compulsiva e gratuita chamada “instinto maternal” (o termo, vá-se lá saber porquê, perde força no masculino), pura concentração de amor em doses astronómicas capaz das coisas mais incríveis tais como: tirar-nos o dinheiro para a prestação da casa, para ir ao futebol depois de ter bebido umas belas cervejas numa roda de amigos, ou mesmo para comprarmos o simples pão para a boca, como diz o povo.

 E é assim que, numa percentagem cada vez mais elevada, dizem-nos estes senhores dos “institutos superiores”, os assuntos referentes à reprodução da nossa espécie vão sendo tratados por aqui; e não só, claro – nisso estamos bem acompanhados...

Agora vamos à responsabilidade parental versão rico: a mãe e o pai da desaparecida Maddie vão ser, ou já terão sido, processados por negligência em relação às suas crianças, por, supostamente, as terem deixado sozinhas durante algumas horas. Acho bem. Mas o que fazer então aos pais que desaparecem sem deixar rasto durante toda a vida da sua progenitura? Como daria muito trabalho, não se faz nada – não se incomoda um homem por ninharias destas... Assim, aquela larguíssima percentagem de pais que deixam de assumir qualquer responsabilidade, monetária ou outra, na educação das e dos filhos goza de toda a impunidade. Não prover às necessidades das crianças que se trouxeram ao mundo não é considerado crime, ou pelo menos crime punível, apenas algo de vago e inconsequente como “falta de carácter”, “falta de princípios” ou qualquer coisa do género. E assim, são as mulheres (já habituadas a perder em toda a linha) que, com os “seus filhos”, saltam para as estatísticas das e dos “mais pobres”. E lá vão ficando, com mais ou menos relatórios de comissões disto ou daquilo, porque essas comissões não terão por si sós os meios para contrariar tradições solidamente arraigadas, como a das mães assumirem sozinhas tarefas tão pesadas e tão pouco dignificantes para homens de barba rija como criar filhas e filhos para a sociedade e para o mundo.

Por outro lado, a agravar a situação, outras tradições há, porventura já da ordem do mito, como a do homem forte e provedor, que vão contribuindo para este estado das coisas. Esta é uma tradição igualmente persistente, mas, certamente por falta de cultivo, parece ter-se transformado apenas numa perigosa quimera que ainda vai alimentando a fantasia de meninas ingénuas e distraídas que, não lendo jornais e desinvestindo completamente na sua educação e valorização pessoal e profissional, se colocam em delicadas situações de dependência que as farão depois engrossar esse preocupante lote das mulheres que têm as “suas” crianças como único capital.   

@Luiza Frazão, 2007

 Imagens Unsplash

1. Dylan Nolte

2.  Xavier Mouton Photographie

3. Liane Mikah                                                                   

domingo, 6 de maio de 2012

O LUGAR DA MÃE - A RECUPERAÇÃO DA MÃE É A RECUPERAÇÃO DO FEMININO COLETIVO


A MÃE COMO ELEMENTO DETERMINANTE DA SOCIEDADE

“Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós.”

“Com a frase “Dai-me outras mães e eu vos darei outro mundo”, Santo Agostinho revelava o ponto débil do seu projeto de sociedade e a necessidade que tinham de transformar duma vez por todas as mães. Transformar as mães para vencer a natureza humana e a sua predisposição para se organizar e viver como o fez durante muito tempo, sem dominação nem escravatura, em paz e em cooperação (a arqueologia já afastou qualquer dúvida a este respeito, provando que a Idade de Ouro não é um mito mas uma realidade).

Novas mães para reproduzirem os “filia” continuadores das empresas guerreiras, humanos aptos para fazerem a guerra ou para aceitarem tornar-se escravos. Não se podia criar este mundo sem mudar a mãe. A sociedade patriarcal foi erguida sobre um matricídio, acabando com as gerações de mulheres com cujo desaparecimento se sumiu também a paz sobre a Terra (Bachofen). É esta a civilização que perdura ainda hoje, continuando a destruir a vida e a corromper a condição humana, mais competitiva, mais fratricida, mais belicista e mais desapiedada que nunca. Do meu ponto de vista, não é a economia que está em crise, é o modelo de civilização.

Na encruzilhada na qual a humanidade se encontra, o que precisamos de fazer se queremos acabar com este sistema de dominação e sobreviver é recuperar a verdadeira mãe, e com ela as qualidades básicas dos seres humanos, que nos capacitam para a concórdia e nos incapacitam para o fratricídio. Recuperar a mãe verdadeira é recuperar o habitat que a rodeia. Bachofen criou um termo em alemão para o definir: é o Muttertum, sendo que o sufixo “tum” (equivalente ao “dom” em inglês) significa o sítio, o lugar da mãe.

Não se trata apenas dum espaço físico, mas antes dum conjunto de relações travadas com o seu fluxo libidinal específico, o fluido feminino-materno, o hálito materno, porque a produção do nosso sistema orgânico libidinal, desenhado para organizar as relações humanas, é a matéria-prima do tecido social humano original. O Muttertum é assim como a urdidura da tela social, como lhe chamou na sua preciosa metáfora Martha Moia: um conjunto de fios, porque um fio sozinho não consegue fazer a urdidura.

Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós. Segundo Malinowski, as mulheres trobriandesas dum clã (in The Sexual Life of Savages in the Western Melanesia) tinham um nome coletivo, “tábula”, a “tábula” é que se ocupava do parto das mulheres do clã.

Em castelhano há uma aceção do nome "mãe" que é um vestígio dessa mãe ancestral, que se encontra na expressão "salirse de madre", "sair da mãe", que seria sair do Muttertum, que nos faz amadurecer e nos torna consistentes. Há também uma aceção em que a palavra significa "fonte originária de algo" ("a mãe do vinagre", por exemplo), ou como a raiz de algo, quando dizemos que encontrámos a "mãe do cordeiro". Se um rio sai da "madre", tudo se inunda e é o desastre. Pois assim anda a humanidade, "fora da mãe", em permanente estado de esquizofrenia e cada vez com mais ataques de violência..."

Cacilda Rodrigañez Bustos

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