Escrito há já quase 20 anos, espero que desactualizado.... Mas o movimento Liberating Motherhood, criado por Zawn Villines, parece indicar que está tudo na mesma...
“Cerca de metade das mulheres sozinhas com filhos são pobres”, lê-se como título de um artigo do Público, de 13 de Outubro. A seguir vem: “Que elas têm sido mais atingidas pela pobreza é algo que tem sido constatado em diferentes estudos. Mas um trabalho coordenado por uma equipa do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, mostra (...) que idosas isoladas e mães sozinhas com filhos a cargo são os dois grupos mais vulneráveis. E aquelas onde as diferenças de género mais se fazem sentir.”Pudera!
Enquanto as mães têm que repartir com os vários filhos os seus rendimentos, os
pais desses mesmos filhos (sim, porque as crianças ainda nascem como resultado
da interacção de um homem e de uma mulher!) serão mais abastados precisamente
por não terem que dividir os seus ganhos por ninguém. Estou a ver mal?
Estes
estudos são de facto muito interessantes: vai-se ao terreno, produzem-se
estatísticas, mostra-se trabalho.... Quanto aos resultados práticos de tanto
gasto de meios, tenho as minhas dúvidas. Sem grandes investigações, qualquer
pessoa de bom senso já percebeu o seguinte: a humanidade, em grande
percentagem, reproduz-se como resultado da pura mania das mulheres de se
meterem em enrascadas, reproduzindo-se sem ponderarem as circunstâncias em que
o fazem, numa obediência cega aos ditames dos respectivos “relógios
biológicos”; ou, pior ainda, como resultado de práticas depravadas, contrárias
aos bons ensinamentos dos patriarcas, que só vêm confirmar que afinal a Bíblia
está certa e todos nascemos em pecado! E depois empobrecem. Bem feito! Justiça
divina.
O
estudo, caso se partisse do pressuposto de que a criação de novos indivíduos é
um assunto da maior importância que nos deve implicar a todas e a todos por
igual, poderia ter tido a seguinte orientação (é só uma ideia): em vez de se
medirem os índices de pobreza das mães, mediam-se os das crianças. Aí
chegar-se-ia a outra conclusão ligeiramente diferente: as crianças que têm os
dois progenitores como fonte de rendimento são mais abastadas do que aquelas
que têm só um a fornecer-lhes comidinha, roupinhas, casa confortável,
brinquedos, enfim, tudo aquilo de que os nossos queridos rebentos precisam.
É
que, quando leio coisas como “As mulheres sozinhas e os seus filhos são os mais pobres”, tenho sempre a sensação de
que se aquele “apêndice” fosse substituído por “e as suas manias”, “e a sua
síndroma pré-menstrual” ou “e as suas quatro patas” não fazia diferença
nenhuma... As crianças são um assunto de mulheres, ponto final.
Até nos tornarmos qualquer coisa de
interessante para o mercado, a assembleia de voto ou as contribuições e
impostos, somos algo de barulhento, esgotante e altamente dispendioso, que
teima em nascer de mães sacrificadas e menosprezadas – tecnologia de reprodução
até agora insubstituível, mas muito desgovernada, na verdade, em perigosa autogestão.
O combustível usado por essa, apesar de tudo, altamente sofisticada “tecnologia
de reprodução” é uma energia inefável, mas abundante, compulsiva e gratuita
chamada “instinto maternal” (o termo, vá-se lá saber porquê, perde força no
masculino), pura concentração de amor em doses astronómicas capaz das coisas
mais incríveis tais como: tirar-nos o dinheiro para a prestação da casa, para
ir ao futebol depois de ter bebido umas belas cervejas numa roda de amigos, ou
mesmo para comprarmos o simples pão para a boca, como diz o povo.
E é assim que, numa percentagem cada vez mais
elevada, dizem-nos estes senhores dos “institutos superiores”, os assuntos
referentes à reprodução da nossa espécie vão sendo tratados por aqui; e não só,
claro – nisso estamos bem acompanhados...
Agora vamos à responsabilidade parental versão rico: a mãe e o pai da desaparecida Maddie vão ser, ou já terão sido, processados por negligência em relação às suas crianças, por, supostamente, as terem deixado sozinhas durante algumas horas. Acho bem. Mas o que fazer então aos pais que desaparecem sem deixar rasto durante toda a vida da sua progenitura? Como daria muito trabalho, não se faz nada – não se incomoda um homem por ninharias destas... Assim, aquela larguíssima percentagem de pais que deixam de assumir qualquer responsabilidade, monetária ou outra, na educação das e dos filhos goza de toda a impunidade. Não prover às necessidades das crianças que se trouxeram ao mundo não é considerado crime, ou pelo menos crime punível, apenas algo de vago e inconsequente como “falta de carácter”, “falta de princípios” ou qualquer coisa do género. E assim, são as mulheres (já habituadas a perder em toda a linha) que, com os “seus filhos”, saltam para as estatísticas das e dos “mais pobres”. E lá vão ficando, com mais ou menos relatórios de comissões disto ou daquilo, porque essas comissões não terão por si sós os meios para contrariar tradições solidamente arraigadas, como a das mães assumirem sozinhas tarefas tão pesadas e tão pouco dignificantes para homens de barba rija como criar filhas e filhos para a sociedade e para o mundo.
Por outro lado, a agravar a situação, outras tradições há, porventura já da ordem do mito, como a do homem forte e provedor, que vão contribuindo para este estado das coisas. Esta é uma tradição igualmente persistente, mas, certamente por falta de cultivo, parece ter-se transformado apenas numa perigosa quimera que ainda vai alimentando a fantasia de meninas ingénuas e distraídas que, não lendo jornais e desinvestindo completamente na sua educação e valorização pessoal e profissional, se colocam em delicadas situações de dependência que as farão depois engrossar esse preocupante lote das mulheres que têm as “suas” crianças como único capital.
@Luiza Frazão, 2007
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