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domingo, 22 de março de 2026

Amaterasu - Deusa Sol do Japão

 

Nesta época do ano, Equinócio da Primavera, em que celebramos Trebaruna e outras Deusas solares de outros panteões divinos, lembrar esta que é uma das mais importantes e veneradas até hoje, com o seu mito, santuário e gruta sagrada no Japão.

Amaterasu é uma Deusa do Sol e a Sua história é uma das mais importantes e conhecidas da tradição do Japão. Ela é considerada a ancestral da família imperial japonesa e uma das principais divindades do Xintoísmo, a religião tradicional do país. Esta deusa está ligada ao brilho do sol, à ordem do mundo e ao renascimento da luz.

No mito de Amaterasu, conta-se que a Deusa tinha um irmão tempestuoso, caótico e impulsivo, Susanoo, divindade do mar e das tempestades. Este, num acesso de fúria, destruiu os campos e cometeu actos tão violentos, que perturbaram a ordem e chocaram profundamente Amaterasu.

E a Deusa retirou-se do mundo, escondendo-se na caverna sagrada de Ama-no-Iwato.

Sem o sol, o mundo mergulhou na escuridão total.
As colheitas morreram e o equilíbrio do cosmos foi profundamente alterado.

Desesperadas, as outras divindades reuniram-se para trazer a luz de volta.

Uma deusa chamada Ame-no-Uzume teve uma ideia: fez uma dança selvagem e sagrada, cheia de riso e provocação. Os deuses começaram a rir alto — uma gargalhada que ecoou até à caverna. Curiosa, Amaterasu abriu ligeiramente a porta para ver o que se passava…

Nesse momento, colocaram diante dela um espelho sagrado: Yata no Kagami. Ao ver o seu próprio brilho refletido, Amaterasu ficou fascinada e saiu da caverna. Rapidamente, os Deuses fecharam a entrada, impedindo-A de voltar a esconder-se. E assim a luz regressou ao mundo.

Amaterasu continua a ser venerada no santuário de Ise Grand Shrine, um dos lugares mais sagrados do Japão.


sábado, 1 de maio de 2021

DEUSAS SOLARES - CAÍDAS E REMETIDAS PARA A NOITE



“(…) a Artemis grega, divindade solar na origem dos tempos,  que perdeu este aspeto e esta função a favor dum deus masculino. Podemos de resto ver como é que esse processo se desenrolou no mundo helénico e relacioná-lo com a tradição celta. Com efeito, primitivamente, Artemis identificava-se com sua mãe, Leto (ou Latona), tal como Core-Perséfone era a dupla da mãe Deméter: ela representava o Sol jovem, o Sol levante, por oposição a Leto que personificava o velho Sol, o Sol poente (tal como Core era a jovem filha, ou seja, a Terra jovem, face a Deméter, a velha Terra, o conhecido mito da renovação).

A partir do momento em que as divindades femininas foram masculinizadas, e também porque era impossível esquecer completamente o seu aspeto feminino, conservou-se a personagem de Artemis, apondo-se-lhe no entanto um paredro macho, o seu irmão Apolo, o qual monopolizou o aspeto solar, ao mesmo tempo que Artemis era remetida para a noite transformando-se em Deusa-Lua.

O mesmo aconteceu no Egipto onde Osiris tomou o lugar de Isis como Sol poente enquanto Hórus se tornava o Sol levante.

Sabemos que primitivamente a Lua era masculina e o Sol feminino, ainda assim é nas línguas semitas, germânicas e celtas e também nas tradições populares (onde se diz que “a Lua engravida as mulheres”).
Houve por conseguinte uma grande reviravolta no simbolismo mítico e religioso: a deusa-mãe Sol, Leto, foi substituída pelo seu filho e pela sua filha, macho e fêmea, e sabemos que Juno-Hera tudo fez para que essas crianças, fruto do adultério de Zeus (e portanto das prerrogativas paternalistas) não nascessem, o que significa que Hera, mulher divina, recusou admitir a mudança de orientação da sociedade, da ginecocracia para o paternalismo”.

Jean Markale, La Femme Celte, Payot (tradução Luiza Frazão) 
Imagem: Sun Goddess Mitra, Persian painting by Hojjat Shakiba

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Notícias do Sol em manhã de Inverno

 

Esta manhã o sol brilhava intensamente quando abri a janela do meu quarto rasgada a Leste. Saudei-A como faço habitualmente, à Mãe do Fogo, a nossa Estrela do Dia, Trebaruna, Brígida, Sul, Sula, Aurora, e fechando os olhos, visualizei a Sua luz dourada penetrando em cada célula do meu corpo, trazendo-me energia e renovação, fé, entusiasmo, propósito e capacidade de agir neste mundo. Preciso de me lembrar de que o fiz quando a letargia bater à porta, e de me sintonizar com a energia solar que convoquei para o meu corpo e para a minha alma. Preciso de muita energia para tudo o que tenho de organizar e agora também para responder a todas as mil e uma questões que começam a chegar de todos os lados...

Das tarefas que tenho de fazer, as mais agradáveis são sem dúvida a leitura, e vários livros demandam agora a minha atenção. São os meus livros de estudo, melhor dizendo. Deusas Solares, Êxtase, Feminino Activo e Solar e temas afins.

Incrível como nos temos contentado com a Lua com centenas de Deusas do Sol a acenarem-nos nos diversos panteões do mundo, mas cuja existência basicamente desconhecíamos, embora a própria Brígida, se pararmos para pensar, seja uma delas. Mas fomos levadas a voltar-lhes as costas, conformadas com o nosso reino da noite, com a luz projectada de fora, com a passividade como dote do nosso casamento com as sombras... o que, convenhamos também tem sido uma boa desculpa para não entrarmos em pleno na cena do mundo. Antes deixámo-la ser dominada por um masculino solar abrasador, desertificador, atómico, nitidamente com necessidade da sua contraparte lunar para equilibrar os excessos de todo esse fogo malparado...

Mas tanto que fazer neste dia, acrescendo-se tarefas tão banais como ir à mercearia... e os meus pés com tantas saudades de pisarem a terra...

E depois gerir todas as solicitações de pessoas querendo vir oferecer o seu saber à nossa Conferência... Como dizer "já não cabe", "já não é possível", a tanta abundância, qualidade e generosidade?... parece que estamos a precisar de magia para gerir o programa, de ser capazes de esticar o tempo... Mas para já, Mãe Sol, apenas um sentimento, Gratidão.

Imagem: estandarte da Deusa Trebaruna realizado por Helena Lebre


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O SOL DA DEUSA - A LUZ QUE GUIA E O CALOR DA VIDA CONSCIENTE

 

A lua tornou-se uma das imagens centrais da espiritualidade da Deusa. No entanto... precisamos de examinar a sua potência contra-imaginal - o sol. Se a Deusa deve estar totalmente representada na nossa sociedade, ela também deve ser a luz que guia e o calor da nossa vida consciente. O Sol não deve ser considerado apenas como um símbolo patriarcal irrecuperável, mas como uma representação da vida e do alegre prazer da Deusa.

_ Caitlin Matthews, Voices of the Goddess: A Chorus of Sibyls

O sol é uma força activa que governa a cura, a luz e a abundância por fazer crescer as searas. A lua entretanto é vista como passiva, governando a noite, a psique e os mares através da sua capacidade para criar as marés. Mas se te perguntassem pelos géneros destas luminárias o que dirias?

Quase sempre a resposta seria que o sol é masculino e a lua feminina. Na verdade, a lua é talvez o símbolo mais conhecido do divino feminino na actual espiritualidade da Deusa. No entanto, se tivesses feito a mesma pergunta a uma pessoa pagã do passado, terias muito provavelmente tido uma resposta diferente. Enquanto na Grécia e em Roma se reverenciava a lua como Artemis e Diana e o sol como Hélios e Apolo, o conceito dum sol masculino e duma lua feminina não era universalmente partilhado em todos os sistemas mitológicos. Das tribos celtas ao povo Inuit da América do Norte, o sol era visto mais frequentemente como uma deusa do que como um deus.

Então como é que hoje em dia vemos o sol como sendo exclusivamente masculino? Quando comparamos os papéis e géneros das luminárias entre culturas, torna-se claro que as nossas antepassadas e os nossos antepassados pagãos não conseguiam atingir a unanimidade sobre a questão do sol ser masculino e a lua feminina. Encontramos panteões que cultuavam deuses solares e deusas lunares e outros que viam o sol como feminino e a lua como masculina.

Parece que o povo celta não conseguia decidir-se nesta matéria, tendo numerosas deusas lunares mas também deusas solares, que coexistiam com deuses solares. De forma semelhante, no Egipto também havia deuses e deusas solares. Assim sendo, se algumas culturas veneravam o sol como uma deusa e outras como um deus, e outras ainda como deus ou como deusa, por que razão é que hoje em dia o conceito de sol feminino nos parece tão pouco familiar?

Em última análise, o conceito do sol como exclusivamente masculino é bastante recente e a origem desta classificação exclusiva remonta à época vitoriana.

Com efeito, esta época trouxe com ela um renovado interesse pela mitologia, em particular pelos mitos solares. A arqueologia e o estudo da cultura popular eram novos campos de interesse académico e obras versando sobre mitologia clássica tornaram-se extremamente populares. Os mitos gregos e romanos serviam de bitola para comparar e sistematizar o estudo de outras mitologias, e foi assim que o conceito do sol/deus e da lua/deusa se tornou aceite como sendo a forma “correcta” de ver estas duas luminárias. Se os mitos de outras culturas diferiam, considerava-se que isso apenas reflectia a inferioridade cultural desse grupo ou um desvio acidental da norma mitológica. O trabalho de Friedrich Max Müller, um dos fundadores do campo de estudo da mitologia comparada, popularizou grandemente o conceito de masculino solar, conectando cada divindade e herói ao sol e proclamando que todas as religiões derivavam do monoteísmo solar original que via o sol como o criador masculino. As teorias de Müller foram mais tarde ridicularizadas, mas as suas influências perduram até hoje.

Apesar da deusa solar parecer um conceito estranho para muitas e muitos de nós, ela está mais presente no paganismo moderno do que aquilo que poderíamos supor, apenas não a classificamos como tal. Com efeito, Brígida, uma das deusas mais populares do panteão celta e cujo festival o paganismo celebra a cada Imbolc, tem inúmeros atributos solares. Apesar disso, Brígida é habitualmente referida como deusa do fogo e da inspiração, nunca como uma deusa solar.

As suas conexões solares permaneceram até nas histórias de santa Brígida, a versão cristianizada da deusa. Santa Brígida veio ao mundo ao nascer do sol e a casa onde nasceu brilhava com tal intensidade que a vizinhança pensou haver um incêndio, mas quando foram ver, essa luz que viam emanava da própria santa. Também se diz que um dia ela suspendeu a sua capa de um raio de sol. Era ainda sobejamente conhecida a sua habilidade para curar a cegueira, uma capacidade comum às deusas solares, uma vez que o sol era considerado uma espécie de “olho” no céu.

Interessante é ainda o facto de tanto o nome irlandês como aquele que era usado no inglês antigo para designar o sol era feminino, indicando que estes povos viam o sol como uma força feminina. Sem esquecer que a cruz de Brígida não passa duma representação simbólica do sol.

In Drawing Down the Sun, Rekindle the Magic of the Solar Goddess, Stephanie Woodfield, 2014

Imagens:

Imagem 1 - https://druidry.org/resources/brigid-survival-of-a-goddess

Imagem 2 - https://www.pinterest.co.uk/catnewell1/goddess/