Temos enquanto nação uma missão sagrada?
O conceito de "povo escolhido" ou de "missão
sagrada" é muito comum a vários povos e nações, e Portugal também tem o
seu. Isto é algo que pode ser visto como positivo, pode ser factor de coesão e
motivação do grupo, mas não deixa de representar riscos, podendo ser gerador de
conflitos, quando interpretado como superioridade sobre outros - uma realidade
que infelizmente muito turva o nosso presente.
Alguns exemplos históricos e culturais são:
- O Povo Judeu (Israelitas/Judeus)
No judaísmo, os judeus são tradicionalmente vistos como o
"povo escolhido" por Deus (Yahweh). Essa ideia vem da Torá
(especialmente Deuteronómio e Êxodo), onde Deus estabelece uma aliança com os
israelitas no Monte Sinai. A missão sagrada é descrita como não sendo
exactamente de superioridade ou privilégios (acho que nunca é o caso), mas de “responsabilidade”,
sendo a primeira a de “obedecer aos mandamentos”, ser um "reino de
sacerdotes e nação santa" e servir como "luz para as nações", proclamando
a verdade de Deus e exemplificando ética e justiça ao mundo…
- Os Cristãos e o
conceito de "Novo Israel"
Muitos grupos cristãos ao longo da história se viram como
herdeiros ou substitutos espirituais do povo escolhido do Antigo Testamento.
Exemplos incluem:
- Puritanos ingleses e colonos da Nova Inglaterra (século
XVII): John Winthrop descreveu a colónia como uma "cidade sobre um monte",
uma missão divina de criar uma sociedade modelo que iluminasse o mundo com
valores cristãos e servisse de exemplo para a Europa.
- Nacionalismo cristão em vários países: Inglaterra, Países
Baixos e outros consideraram-se povos eleitos em momentos de conflito (como
contra católicos ou muçulmanos), com slogans como "Gott mit uns"
(Deus connosco) em contextos alemães.
- No cristianismo evangélico e em missões, há a ideia duma
missão global de evangelizar "todos os povos" (Mateus 28:19), com
alguns grupos vendo a sua nação como instrumento divino para isso.
- Estados Unidos e o Destino Manifesto (Manifest Destiny)
No século XIX, os americanos (especialmente protestantes
brancos) acreditaram que tinham uma “missão divina” de expandir-se de costa a
costa na América do Norte, levando "civilização", democracia,
protestantismo e progresso aos territórios "selvagens". O termo foi
cunhado pelo jornalista John L. O’Sullivan em 1845, mas as raízes vêm dos puritanos.
Essa doutrina justificou a expansão para o Oeste, a Guerra
Mexicano-Americana e deslocamento de povos indígenas, vistos como obstáculo à
vontade de Deus...
Era vista como "óbvia" (manifest) e certa
(destiny), concedida pela Providência divina. Influenciou até visões modernas
de "excepcionalismo americano" e intervenções globais. Recentemente,
foi citada em contextos políticos como uma forma dos EUA se verem a si mesmos
como "nação escolhida".
- Muçulmanos (em certos contextos expansionistas iniciais):
A ummah (comunidade) islâmica via a expansão como jihad (esforço) para trazer a
submissão a Deus (islam) ao mundo, dividindo o mundo em Dar al-Islam (casa da
paz) e Dar al-Harb (casa da guerra). Entretanto, não é hoje em dia uma visão
consensual entre todos os muçulmanos.
- Impérios coloniais europeus (Portugal, Espanha,
Inglaterra, França): Muitos justificavam a colonização como missão sagrada de
cristianizar "pagãos" e "civilizar" (ligado à Doutrina da
Descoberta e bulas papais). Os portugueses e espanhóis falavam em "missão
civilizadora" com bênção divina.
- Japão imperial, a “Terra dos deuses” (shinkoku) com missão
divina, a França revolucionária: Missão laica de espalhar liberdade e direitos
humanos e os movimentos seculares do séc. XX: Comunismo (proletariado como
redentor) e nazismo (raça ariana como portadora da luz).
- Outros nacionalismos: Nações como a Rússia (com ideias de
"Terceira Roma" ortodoxa), a França revolucionária (missão de
liberdade) ou até movimentos seculares que adoptam linguagem quase religiosa de
"destino histórico".
Agora atenção a este caso dos Povos indígenas:
Isto é muito importante e faz-nos pensar em quem era mesmo
mais civilizado - os invasores ou os invadidos? Porque esta é uma ideia de
missão em que não temos resquícios de expansionismo como nas precedentes.
Ora, na perspectiva do cientista Nassim Haramein estes
ideais expansionistas são profundamente falocráticas, ou seja, seguem a lógica
do falo com a sua urgência no crescimento e na expansão, que é depois seguida de explosão; uma ideia que, segundo a mesma fonte, está
no cerne do funcionamento de tudo neste mundo, desde a economia à ciência e
tecnologia, dos foguetões ao motor do nosso carro.
Muitas vezes, como é o caso entre nós, estes ideais de “missão
sagrada” da nação, estas elucubrações mentais, têm um contexto aristocrático e militarista,
reflectindo hierarquias de "poder sobre" que sempre tiveram os meios
necessários para dominarem a narrativa.
Uma narrativa que tem justificado o que cada vez fica mais
difícil de justificar, que é a nossa pesada herança colonial...
Então, tomo como válida a missão sagrada dos povos indígenas que referi acima, sendo que aqui temos um fundo mítico que pode alimentar essa ideia: o retorno ao nosso Jardim das Hespérides, em que feminino e masculino estejam em equilíbrio e parceria, com o soft power do primeiro contendo o segundo, evitando que este aja sozinho e solto pelo mundo, incontido e descontrolado, semeando terror e destruição.
Assim seja!
@Luiza Frazão
(Fontes de pesquisa: Google)
.jpg)



Sem comentários:
Enviar um comentário