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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

A REVOLUCIONÁRIA DESCOBERTA ARQUEOLÓGICA DA CIVILIZAÇÃO CRETENSE

 

O achado arqueológico da civilização cretense foi uma “bomba” no seio da comunidade de estudiosos de então, uma vez que, pelas suas evidências, não correspondia a nada do que até aí fora descoberto e a nada do que era “expectável” à luz dos valores patriarcais e masculinos que vigoravam e que dominavam a ciência da altura.

Houve todo um conjunto de descobertas e de particularidades, sobretudo através das manifestações artísticas que chegaram até à atualidade (e daí a importância fulcral da arte para compreendermos esta cultura e esta sociedade), que permitiram ver que se estava na presença de uma sociedade “diferente”. Baseada em valores pacíficos – quando, à sua volta, já quase todas as civilizações começavam a ser fortemente dominadas pelos valores bélicos –, tratava-se de uma sociedade essencialmente baseada na economia agrária, próspera, igualitária e estável.

Para além disto, chegou-se à conclusão de que se tratava de uma sociedade intensamente religiosa, em que o centro do seu culto era a Deusa. Na verdade, religião e vida quotidiana, misturavam-se de tal forma no quotidiano das cidades-estado desta ilha, que sagrado e quotidiano se entrelaçavam na vida dos cretenses. O próprio exercício físico e o desporto, bem como todo o tipo de atividades lúdicas e de entretenimento, estavam intimamente ligadas às práticas e cultos religiosos. Religião e divertimento associavam-se em harmonia, e a prática de jogos e desportos era caracterizada pela participação igualitária de mulheres e homens.

O que provavelmente foi uma das particularidades mais marcantes, e que mais deve ter impressionado os arqueólogos que primeiramente exploraram esta civilização, ainda muito imbuídos dos valores patriarcais (a “lente” através da qual observavam e analisavam os factos e fenómenos de estudo científico): a igualdade entre géneros. A forte e frequente presença das mulheres na arte cretense leva a concluir que elas representavam papéis sociais prestigiados, tanto no culto religioso da Deusa, como a nível de poder (chegando-se a sugerir a existência de uma rainha cretense).

Mas também a música, o canto e a dança integravam tanto as expressões culturais e artísticas dos cretenses como as suas próprias práticas religiosas. Todos estes aspetos se fundiam num só: “(…) a religião para os cretenses constituía uma ocupação feliz” e “(…) “Toda a vida impregnava-se de fé ardente na Deusa Natureza, fonte de toda criação e harmonia”, citando a autora da obra. Desta forma, era inevitável que o sistema de valores e crenças desta civilização se baseasse firmemente na paz, na dádiva, na compaixão, na beleza, nos prazeres da vida. A própria liberdade e fluidez com que a sexualidade era perspetivada e vivida pelos cretenses conduzia a um pacifismo e a uma anulação ou redução da agressividade, que se evidenciava mais noutros povos.

E, centrando-se no culto profundo e muito enraizado da Deusa, tal como afirma Nicholas Platon: "o medo da morte era praticamente obliterado pela omnipresente alegria de viver".

Estas são, em traços gerais, as características principais que diferenciam esta cultura, mas existem muitas mais particularidades que a distinguem das outras sociedades suas contemporâneas.

Uma delas é o facto de a sociedade minóica (assim chamada devido ao Rei Minos) ter sido uma sociedade muito baseada no “encanto pela vida”, pela “sensibilidade”, e “amor à beleza e natureza”, como se pode ler na obra de Riane Eisler. De uma forma geral era uma cultura baseada em valores hedonistas, de prazer, de valorização do lado belo e de harmonia da vida, e a arte, que chegou até nós, demonstra-nos isto de forma evidente: desde joias, a estatuária, aos frescos, entre outras formas de arte descobertas.

Em termos de estilo de vida, os cretenses eram fortemente ligados à natureza e ao respeito e usufruto da mesma, pelo que até as habitações particulares, edifícios públicos e demais construções refletiam esse estilo de vida.

Concluiu-se também que a sua organização social era caracterizada por uma justa divisão da riqueza, não existindo assimetrias sociais profundas, como nas outras civilizações desenvolvidas da época; registava-se uma significativa prosperidade económica (baseada não só na agricultura, mas também, posteriormente, pela pecuária, indústria e comércio, essencialmente, marítimo, que floresceu dadas as privilegiadas condições geográficas da ilha). Paralelamente, regista-se um avançado sistema de obras públicas, que abrangia desde estradas a sistemas de distribuição de água, etc., muito avançados e completos.

No entanto, nenhum destes aspetos, e esta é uma das singularidades que mais sobressaem, conduziu a uma sociedade onde a noção de poder fosse autocrática ou baseada na violência ou exploração de uns grupos sociais por outros. De forma alguma existem indicações de que o poder estivesse concentrado apenas num reduzido número de indivíduos, nem tão pouco que se tratasse de uma sociedade baseada no poder armado: verificou-se a ausência de estruturas de defesa ou fortificações. O que sugere que a participação em guerras dentro ou fora da ilha seriam provavelmente quase inexistentes.

Ainda assim, é pouco provável que não tenham existido combates para defenderem o seu rico território, no entanto, não eram esses os seus valores dominantes, nem a própria arte cretense valoriza ou glorifica os atos de guerra.

A autora Riane Eisler indica-nos fortes indícios de que em Creta o poder teria sido exercido pelas mulheres, e que estas teriam tido um papel muito relevante na vida religiosa e social das cidades da ilha.

As mulheres estavam mais retratadas “nas artes e ofícios”, o que reflete uma posição social, religiosa, política e económica elevada ou de destaque, e eram frequentemente retratadas na esfera pública, o que é sinónimo de respeito e prestígio na sociedade (ao contrário daquele que, posteriormente, foi o sentido da evolução cultural humana, que remeteu cada vez mais as mulheres para a esfera doméstica e privada, sem serem vistas nem terem “uma voz própria”). O papel feminino era bastante ativo em todas as esferas da sociedade.

De facto, toda a conceção de beleza, de paz, de harmonia, lúdica e de respeito (pelo outro e pelo meio ambiente), e a própria posição igualitária entre sexos, presentes nos traços culturais e no legado artístico de Creta, já nos indica que estamos na presença de uma sociedade que não é dominada pelos valores “ditos masculinos”, da guerra, da destruição ou da violência.

Os próprios valores cretenses, baseados “num espírito feminino”, como se observa na História da Arte, na perspetiva de Jaquetta Hawkes, espelhavam-se até na arquitetura característica da ilha.

Aliás, é sobretudo através da arte que chegam até nós os mais evidentes indícios de que o poder era exercido pelas mulheres: a autora fala-nos da própria “(…) influência da sensibilidade feminina — [que ofereceu] notável contribuição à arte minóica".

Muito do que se sabe sobre a cultura cretense advém do estudo da produção artística desse período e local: a arte cretense, por exemplo, não glorifica as atividades bélicas ou a guerra em geral. Há um evidente hedonismo em Creta: a vida agradável, rodeada de beleza e a comunhão com a Natureza; uma cultura de bem-estar e igualdade entre classes socioeconómicas e entre géneros.

O culto da Deusa, ali, era absolutamente central, e Ela é representada, por exemplo, num papel supremo: numa carruagem que leva um defunto para a sua transformação e renascimento, no eterno ciclo da vida-morte-vida.  As Suas sacerdotisas são frequentemente representadas, em frescos, liderando procissões, cultos e rituais. A própria historiadora da arte, Hawkes, coloca a hipótese de existir uma rainha cretense, que também é retratada: ou seja, estamos perante o próprio centro do poder, no feminino.

Toda a presença da simbologia da Deusa (intensamente ligada à natureza, tal como a borboleta e a serpente, símbolos da transmutação e metamorfose, e o machado de lâmina dupla, utilizado no cultivo agrícola, que simbolizava a própria divindade da transformação e do renascimento, e também a fertilidade da terra, sustento de toda a população) é outro fator que indicia o poder das mulheres nesta sociedade, pois surge com muita frequência nos mais variados objetos de arte que foram descobertos. 

O próprio facto de não existirem estátuas de governantes, por exemplo, um reflexo tão típico do enaltecimento do “poder masculino” de então, indicam-nos que o poder era mais exercido pelas mulheres.

Outro facto que indicia que a cultura, essencialmente centrada na Deusa e no papel e poder femininos, estava bastante enraizada, é o de que, mesmo após o início do período histórico seguinte, a Idade do Bronze, e com a complexificação das estruturas sociais, isso não significou em Creta o declínio do poder nem do status das mulheres, pelo contrário, pareceu até fortalecê-lo.  A Deusa continuou a ser cultuada e a ser o centro da vida nesta civilização. E, como tal, os seus princípios de conceção “feminina” do mundo, prevaleceram, da mesma forma que a importância do papel das mulheres também. 

Avançando mais ainda nesta interpretação, temos a evidência de que o poder nesta cultura estava intimamente ligado ao sexo feminino, pois, tal como nos refere Eisler, “(…) em Creta as virtudes "femininas" de concórdia e sensibilidade tinham prioridade social” – aspetos que não eram desvalorizados, como acontece(u) noutras culturas, e de que houve uma noção diferente de poder.

O poder era exercido não com base na força física ou do confronto militar ou da subjugação, mas sim com base numa noção de “responsabilidade maternal” (uma “característica do modelo de parceria da sociedade”, citando a autora).

Por fim, temos outra forte confirmação de que o poder era exercido pelas mulheres na sociedade cretense: a sucessão e herança eram feitas por linhagem feminina. Estamos, portanto, perante uma sociedade matrilinear. Uma sociedade onde a Deusa assume o poder divino central, e as sacerdotisas/rainha exercem o poder temporal, pese embora se mantivesse sempre o espírito de harmonia e igualdade entre mulheres e homens cretenses.

Creio que a mensagem da excecional civilização cretense é a de que pode constituir um modelo e um exemplo tanto para a nossa sociedade atual como para as futuras, cujas bases já se estão a construir agora. É admirável o facto de existirem provas concretas (e não “sonhos utópicos”, como muito bem sublinha Eisler) de como, há milhares de anos, existiu uma sociedade desenvolvida, que transmite uma mensagem que corresponde ao seu próprio sistemas de valores: igualitária, próspera e pacífica, com um paradigma totalmente invertido em relação às atuais.

Esta mensagem, em minha opinião, reflete-se nos seguintes aspetos: ausência de guerra e os valores de convivência pacífica e harmoniosa; valores ecológicos e de respeito pela natureza; uma conceção diferente de poder e um conceito diferente de governação.

A ausência de guerra e a centralidade dos valores de paz, estabilidade e harmonia entre povos vizinhos ou distantes é outro aspeto. Não se registavam manifestações que habitualmente conotamos como “características masculinas” de orgulho ou barbaridades para com o outro. A própria arte de Creta espelha a ausência de “dominação, destruição e opressão”, como refere a autora.

Verificámos em Creta a quase ausência de conflitos militares dentro da própria ilha ou com territórios circundantes, ao contrário do que prevalece ainda hoje, nas culturas predominantes, de valores patriarcais, onde a guerra parece ser o infrutífero e destrutivo modo de “resolução” de conflitos entre povos.

Valores ecológicos e de respeito para com a natureza: O culto da Deusa, vista como a Grande Mãe de tudo o que existe e A grande provedora da própria subsistência das comunidades, profundamente centrado na própria natureza, nos ciclos das estações e na abundância e prosperidade que advinham da terra e das atividades agrícolas, com certeza que foi a base deste mesmo respeito por tudo o que se relacionasse com a vida natural. O que entra em franco contraste com todas as agressões que as comunidades humanas têm vindo a cometer para com os ecossistemas, e este é um dos exemplos mais fundamentais para a humanidade atual, porque dele depende a própria sobrevivência da espécie humana e do Planeta.

Em Creta existiu uma conceção de poder, e igualmente de governação, extremamente diferente das sociedades que lhe eram contemporâneas, certamente das que se lhes seguiram, e das atuais. Tal como nos revela Riane Eisler, não existia, como por exemplo no Antigo Egito ou na Suméria, a “glorificação” dos governantes: a arte testemunha este facto com a ausência de monumentos ou estátuas dedicadas à dignificação dessas personalidades. Pelo contrário, o poder era exercido de forma pacífica e igualitária, de forma limitada, e com provável representação das diferentes classes socioprofissionais de cada cidade-estado de Creta. Um aspeto do qual certamente se distanciaram as culturas e povos que se lhes seguiram, mas que se aproxima daquele que hoje vigora nas sociedades ocidentais mais justas e igualitárias, por exemplo. Ainda assim, ainda estamos longe da ausência de representação de “figuras de poder”, mesmo na nossa sociedade atual, onde ainda se cultivam símbolos do poder e da governação tipicamente patriarcais. Temos o exemplo das monarquias atuais, europeias e não só, onde os símbolos, ainda que de um poder não efetivo na maior parte dos casos, estão bastante presentes. E, sem recuar muito no tempo, temos o próprio exemplo dos símbolos do poder e dos seus detentores, propagados e cultivados no Estado Novo, em Portugal, e em outros regimes autocráticos similares.

Em termos de governação, o exemplo de Creta também transmite uma importante mensagem de igualdade e respeito inter-pares.  Ainda que existisse (como era muito comum na época) uma estreita fusão entre religião e poder, como já referimos acima, cultivava-se o respeito e a harmonia entre iguais, no que respeita aos soberanos das diferentes cidades-estado da ilha. E também uma importante limitação de poderes, por parte de altos cargos de conselheiros oficiais, que faz concluir que provavelmente haveria uma conceção do poder e da governação como uma representação de interesses do povo, junto de quem os exercia – o que se trata de um sistema político altamente avançado e que impede a evolução para um poder despótico, tão comum nesta época, e tanto tempo antes do nascimento da democracia da Grécia do período Clássico. Algo que não corresponde à existência, que ainda perdura, de regimes autoritários em pleno século XXI.

A mensagem principal que Creta nos transmite, na atualidade, é, pois, a de que é efetivamente possível e exequível (e não uma fantasia), pensar e construir uma sociedade de paz, de justiça social, de igualdade em todos os sentidos, do respeito pelo planeta em que vivemos, sem prejuízo do crescimento económico, do desenvolvimento tecnológico e do bem-estar material dos indivíduos. É possível, efetivamente, construir uma sociedade em que prevalece a cooperação e a “parceria”, como lhe chama Eisler, em vez de destruição e dominação.

Texto de: Andreia Mendes

Imagens: viagem a Creta 2015, Luiza Frazão

 

 

domingo, 12 de julho de 2020

O Patriarcado é um sistema de dominação masculina criado pela intercessão da necessidade de controlo das mulheres, da propriedade privada e da guerra – primeira parte, Carol P. Christ


O patriarcado é frequentemente definido como um sistema de dominação masculina. Esta definição não esclarece, apenas obscurece, o complexo conjunto de factores que contribuem para o funcionamento do sistema patriarcal. Precisamos duma definição mais complexa se queremos compreender e desafiar o sistema patriarcal em todos os seus aspectos.

O patriarcado é o sistema de dominação masculina ancorado num etos de Guerra que legitima a violência, santificada pelos símbolos religiosos, no qual os homens dominam as mulheres através do controlo da sexualidade feminina, com a intenção de legarem a propriedade aos herdeiros masculinos, e no qual os homens, heróis de guerra, são instruídos para matar homens, autorizados a violar mulheres, a apoderarem-se da terra e das suas riquezas, a explorarem recursos e a apropriarem-se ou dominarem por qualquer meio os povos conquistados.

Marx e Engels disseram que a família patriarcal, a propriedade privada e o estado surgiram ao mesmo tempo. Embora a sua compreensão das sociedades que precederam o patriarcado tenha falhas, a intuição que tiveram de que o patriarcado está ligado à propriedade privada e à dominação em nome do Estado está correta. Desde há muito que é óbvio para mim que o patriarcado não pode ser separado da Guerra e dos reis que tomam o poder na sequência da guerra. Fiquei surpreendida há anos com a alegação de Merlin Stone de que na sociedade matrilinear não existem crianças ilegítimas porque todas as crianças têm mãe. Mais tarde, tentei perceber por que razão a Igreja de Roma e outras igrejas e o Partido Republicano na América se opõem tão fortemente ao direito das mulheres controlarem o seu próprio corpo e tentam a todo o custo impedir o seu direito ao aborto.

Na definição do patriarcado que dou acima, junto todas estas questões numa síntese que descreve além das suas origens a forma como está relacionado com o controlo da sexualidade feminina, com a questão da propriedade privada, da guerra, da conquista, da violação usada como arma de guerra e do recurso à escravidão.

O sistema que defino como patriarcal é um sistema de dominação reforçado pela violência ou pela ameaça da violência. É um sistema desenvolvido e controlado por homens poderosos, no qual as mulheres, crianças, outros homens e a própria natureza são dominadas. Devo entretanto acrescentar que não acredito que esteja na “natureza” do homem dominar pela violência. O sistema patriarcal tem uma origem histórica, o que significa que não é eterno nem inevitável. Houve mulheres e homens que ofereceram resistência ao patriarcado ao longo da sua história. Podemos juntar-nos também hoje em dia para lhe oferecermos resistência.

A minha definição de patriarcado foi influenciada por novos dados da pesquisa feita por Heidi  Goettner-Abendroth em Sociedades de Paz, que faz avançar o nosso entendimento das sociedades pré-patriarcais que ela designa por “matriarcais” “sociedades de paz”.

Goettner-Abendroth identifica a estrutura profunda dos matriarcados usando quarto marcadores: 

1) económico: estas sociedades usualmente praticam agricultura em pequena escala e conseguem relativa igualdade económica através da dádiva enquanto hábito social; 

2) social: estas sociedades são igualitárias, matrilineares, matrilocais, sendo a terra propriedade do clã materno e com ambos os géneros, mulheres e homens, permanecendo no respetivo clã materno; 

3) político: estas sociedades são igualitárias e possuem sistemas democráticos de consenso bem desenvolvidos; 

4) cultura, espiritualidade: estas sociedades tendem a considerar a Terra como a Grande Mãe Doadora. Mais importante e permeando tudo o resto, estas sociedades honram princípios de cuidado, amor e generosidade que associam à ideia de  maternidade, acreditando que tais princípios devem ser praticados tanto pelas mulheres como pelos homens.

A cultura Mosuo dos Himalaias, objeto de estudo recente, mesmo encontrando-se em vias de desaparecimento, é um exemplo clássico. Fiquei a saber da sua existência ao ouvir a discussão de Michael Palin sobre os hábitos sexuais das mulheres de Mosuo no seu documentário sobre os Himalaias. Estas mulheres explicaram a Palin que na sua cultura as mulheres e os homens se definem a si próprias e a si próprios através da sua conexão com a clã materno. Quando uma rapariga atinge a idade da maturidade sexual, a mãe prepara-lhe um quarto onde ela poderá convidar um rapaz para jantar. Caso este lhe agrade, ele é convidado a passar a noite com ela. As crianças nascidas destas relações tornam-se parte do clã materno. O papel do pai é assumido pelos tios e irmãos da mãe, sendo o papel desta partilhado com as irmãs. Quando algum membro dum casal se cansa da relação, esta acaba e cada pessoa encontra um novo parceiro ou uma nova parceira. Obviamente que o Michael Palin teve alguma dificuldade para acreditar no que as mulheres lhe contavam.

 Esta história ilustra uma importante diferença entre os costumes matrilineares e matrifocais dos Mosuo e os das culturas patriarcais com os quais estamos familiarizadas. Entre as mulheres desta etnia é de norma a livre escolha dos parceiros sexuais. Não existem crianças ilegítimas nesta cultura porque todas têm uma mãe. Não existem mulheres “perdidas” (bom reflectir sobre o sentido deste termo) nem prostitutas porque as mulheres são livres para terem relações com quem decidirem. A dicotomia entre a santa e a pecadora tão bem conhecida nas culturas patriarcais pura e simplesmente não existe aqui.

Com o contraste fornecido por Mosuo, é possível entender a um nível mais profundo que o patriarcado é um sistema de dominação masculina no qual o homem domina a mulher através do controlo da sexualidade feminina. O controlo da sexualidade feminina através da instituição do casamento não é acidental no patriarcado, sendo pelo contrário algo central. Os costumes que rodeiam o casamento patriarcal, incluindo a exigência de que a noiva esteja intocada ou “virgem”, a protecção da virgindade das raparigas pelo pai e pelos irmãos, o isolamento das raparigas e das mulheres, a exigência de estrita fidelidade da parte das esposas em relação aos maridos, e a imposição destes hábitos com o recurso à vergonha pública, à violência, ou ameaça de violência, tem um propósito: assegurar que os descendentes do homem sejam legítimos, sejam dele. Enquanto saber quem é a mãe biológica é fácil, ter a certeza de quem é  o verdadeiro pai é bem mais difícil. Se uma mulher tem mais do que um amante, então, sem teste de DNA que apenas foi descoberto recentemente, é quase impossível ter a certeza sobre quem é o pai. Uma primeira solução para esse dilema consiste em definir a paternidade de outra forma e uma segunda solução é o absoluto controlo sobre a sexualidade das mulheres.

Entretanto podemos perguntar-nos por que razão é tão crucial para um homem saber quem são os seus filhos biológicos que um complicado sistema de isolamento, vergonha e controlo da sexualidade feminina teve de ser posto em prática? A resposta encontra-se na próximo segmento da minha definição: o patriarcado é um sistema de dominação masculina no qual o homem domina a mulher através do controlo da sua sexualidade com a intenção de transmitir a propriedade aos herdeiros masculinos. Marx e Engels tinham razão ao afirmarem haver uma relação entre patriarcado e propriedade privada.  Não haveria necessidade do homem ter tanta certeza sobre a paternidade das suas crianças se a instituição da propriedade privada não existisse e se o valor dos indivíduos não fosse definido em função da propriedade que detêm e transmitem aos seus herdeiros, habitualmente do género masculino.

Apercebi-me recentemente de que a palavra “herança” ou “propriedade herdada” em grego moderno, “periousia”, derivada do grego antigo, ilustra a conexão entre propriedade e identidade de forma mais óbvia do que a palavra “herança”. “Ousia” no grego antigo refere-se ao ser ou à essência do indivíduo. “Peri-ousia” é aquilo que rodeia o ser essencial e portanto define “quem” se “é”. O seu sentido óbvio é que “quem se é” é definido pela “propriedade” que se herda e se transmite. Sem a clara identificação da “essência” dum homem com a sua propriedade, não seria necessária uma preocupação tão grande com a certeza de que o herdeiro da propriedade do pai é de facto o seu filho biológico.  

Fevereiro 18, 2013

Imagens:
1. Yves Yves, Unsplash 
2. Estandartes das Deusas do mundo, de Lydia Ruyle, cenário da Conferência da Deusa Portugal 2019, Sintra
3.Cariátides, museu de arqueologia da Acrópole, Atenas

domingo, 7 de junho de 2015

MAMMA MIA - O EXCESSO DE MÃE


No filme de grande sucesso Mamma Mia (2008, baseado num original de Catherine Johnson dirigido por Phyllida Lloyd), em que se enfatiza a natureza generosa, acolhedora, liberal da mãe; nessa casa de sonho em que entramos e saímos e andamos à vontade, em que existe sempre lugar para quem chega à mesa, em que a pasta ferve no lume enquanto a pizza e o pão cozem no forno, em que há sempre vozes e animação e alegria, nessa casa vive ou é ela própria, a casa, a nossa Mãe ideal e o seu colo aconchegante. Ela é aquela que nunca fecha a porta e aceita e perdoa e passa a mão pela cabeça com carinho e sabe ouvir e compreender e proteger e em cujo regaço nos sentimos a salvo das agruras do mundo. 

Posso dizer que tenho um conhecimento razoável dessa mãe; que um coletivo de mulheres desempenhou de certa forma a função dessa mãe na minha infância. Eram mulheres com as quais sempre podíamos contar. Para além da mãe natural, nem sempre a mais acessível, diga-se, havia as tias, as avós, as primas ou simplesmente as amigas da casa. Esse conjunto era o mais aproximado possível, creio, da Mãe, do habitat natural que rodeia a Mãe nas sociedades matrifocais, aquilo que Bachofen (antropólogo suiço do século XIX famoso pelas suas teorias sobre as antigas sociedades matriarcais) referia pelo termo alemão Muttertum.
Fonte: Cacilda Rodrigañez Bustos,
http://pulposymedusas.blogspot.pt/2010/08/por-un-feminismo-de-la-recuperacion.html



O estranho é que, apesar de em países como o nosso e de uma forma geral nos países latinos, ainda parecer existir muito este tipo de mãe, tal não é infelizmente garantia nenhuma de estarmos a criar pessoas mais seguras de si, empoderadas e com sentido de responsabilidade social ou cívica, no fundo todas as qualidades de que o termo adulto/a se reveste na sua verdadeira acepção. Diria até que em países com “menos mãe”, ou com mães menos “latinas” essas qualidades parecem florescer melhor. Alguma coisa então não estará a funcionar como deveria com as nossas mães que à partida parecem corresponder tão bem a um ideal de Mãe. 

Pessoalmente, sinto que um dos grandes problemas reside na ideia muito enraizada entre nós de que a Mãe tem de se sacrificar. As mães são aquelas que se sacrificam, um pouco como a vela que arde e se consome até ao fim para que a sua luz nos possa iluminar. As mães sacrificam-se, dizem, pela família. Para que a paz e a harmonia reinem na família, fazem tudo, acreditam muitas delas, esquecendo-se de que a família tem a sua alma própria que tudo regista e tudo sente e tudo vai de alguma forma acabar por revelar e manifestar. Mas então, na sua valorização do sacrifício, a mãe acaba muito por se calar, por fazer de conta, por fingir que não ouve, por desculpar depressa demais, por aceitar muitas vezes o inaceitável. 

Na verdade, se quisermos ser rigorosas/os, o sacrifício da mãe aconteceu já muito antes de ela o ser, uma vez que ele é a base da própria família patriarcal que temos. Já agora, para quem viu o filme que cito no início, é bom lembrar um dos dados mais extraordinários da trama, que é o facto de nessa casa de sonho da Mãe não haver pai, e mais, de a heroína não saber sequer quem é o pai da sua filha e sair incólume desse crime de lesa autoridade patriarcal.... E a subversão continua no filme na forma como os homens com a possibilidade de serem o pai se comportam, prontos e encantados com a ideia de assumirem esse papel, sem competição nem exclusivismo, como acontece nas sociedades matriarcais, ou matrifocais, em que o papel do pai é irrelevante, sendo os homens da família a assumir a função de protetores e de educadores, fornecendo o modelo do masculino de que a criança precisa. Não é minha pretensão aqui incentivar as mulheres a terem filhas e filhos sozinhas sem um pai, sejamos realistas; com o tipo de sociedade em que vivemos, isso tornar-se-ia um peso muito grande tanto para a mulher como para a criança. 

Mas voltando à ideia do sacrifício da Mãe, ele aconteceu quando este modelo em que a mãe era central foi substituído por aquele que temos em que ela está sob a alçada do pai. O poder da Mãe, que refletia ou emanava do tipo de divindade cultuada, a Grande Mãe Criadora, passou para segundo plano quando a divindade mudou de género e passou a ser o Pai. Todo o modelo mudou, os valores que regiam a sociedade mudaram, o imperativo tornando-se agora o domínio e a conquista em vez de a proteção da vida. Fomos expulsas/os do paraíso, acabou-se a Idade de Ouro, pela lei da espada patriarcal, como tão bem nos refere Riane Eisler nessa obra absolutamente ímpar que é O Cálice e a Espada (Via óptima, Porto). Assim, já só por um acaso temos o tipo de maisonnée (um termo popular francês que define não só a casa como o coletivo de pessoas que nela vive ou que gravita à sua volta) do filme Mamma Mia, que nos fornece uma visão, obviamente muito idealizada, do genuíno reino (ou seria raino?) da Mãe, ou tão genuíno quanto o sistema que respiramos permite, e que em resumo é uma Mãe com poder e autoridade. 

Porque, não nos iludamos, não é por vivermos numa família de mulheres nem por lá em casa a última palavra ser a da mãe, que podemos dizer que ela tem poder genuinamente seu. Nenhuma mãe com poder emanado do seu próprio coração e forma de estar no mundo deixaria que um filho seu fosse para a guerra, por exemplo, consentiria numa forma de progresso que implique destruição da natureza, ou aceitaria na sua cama um homem a tresandar a carnificina e a outros abusos de poder e profunda insensibilidade ao sofrimento alheio. O poder que nos parece muitas vezes emanar da mãe no tipo de sociedade em que vivemos é na verdade o poder patriarcal que ela assume como seu sem o ser, tendo perdido o rasto dos verdadeiros valores que em estado selvagem, de antes da domesticação patriarcal, emanariam do seu coração de mulher. 

Por que referi então no título que temos “excesso de mãe”? Porque a mãe que temos, desempoderada e desautorizada, e até infantilizada, por ter passado da alçada do pai para a do marido sem saber quem ela própria é nem ter amadurecido como adulta, é essencialmente uma mãe permissiva, que nessa profunda distorção patriarcal que é a ideia do sacrifício, permite tudo aquilo que não deveria permitir, não sabendo impor, com receio de perder o amor da sua descendência, limites nem fronteiras e sem ser senhora do seu verdadeiro sim nem do seu verdadeiro não, incapaz de fornecer qualquer modelo de força, coragem, coerência ou autenticidade, valores que criem cidadãos e cidadãs responsáveis, capazes de governar um mundo. Em vez disso, ela reproduz seres imaturos como ela, mimados pelo seu excesso de proteção sem exigência de contrapartidas de responsabilização pessoal, os egoístas, vaidosos, enfatuados e corruptos dirigentes que temos e os cidadãos impotentes e assustados que em vão procuram refúgio nas saias duma mãe arquetípica, a Nossa Senhora dos templos cristãos, cuja única capacidade que parece ter é a de comungar do seu sofrimento.    

© Luiza Frazão

Imagem: Google