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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

A REVOLUCIONÁRIA DESCOBERTA ARQUEOLÓGICA DA CIVILIZAÇÃO CRETENSE

 

O achado arqueológico da civilização cretense foi uma “bomba” no seio da comunidade de estudiosos de então, uma vez que, pelas suas evidências, não correspondia a nada do que até aí fora descoberto e a nada do que era “expectável” à luz dos valores patriarcais e masculinos que vigoravam e que dominavam a ciência da altura.

Houve todo um conjunto de descobertas e de particularidades, sobretudo através das manifestações artísticas que chegaram até à atualidade (e daí a importância fulcral da arte para compreendermos esta cultura e esta sociedade), que permitiram ver que se estava na presença de uma sociedade “diferente”. Baseada em valores pacíficos – quando, à sua volta, já quase todas as civilizações começavam a ser fortemente dominadas pelos valores bélicos –, tratava-se de uma sociedade essencialmente baseada na economia agrária, próspera, igualitária e estável.

Para além disto, chegou-se à conclusão de que se tratava de uma sociedade intensamente religiosa, em que o centro do seu culto era a Deusa. Na verdade, religião e vida quotidiana, misturavam-se de tal forma no quotidiano das cidades-estado desta ilha, que sagrado e quotidiano se entrelaçavam na vida dos cretenses. O próprio exercício físico e o desporto, bem como todo o tipo de atividades lúdicas e de entretenimento, estavam intimamente ligadas às práticas e cultos religiosos. Religião e divertimento associavam-se em harmonia, e a prática de jogos e desportos era caracterizada pela participação igualitária de mulheres e homens.

O que provavelmente foi uma das particularidades mais marcantes, e que mais deve ter impressionado os arqueólogos que primeiramente exploraram esta civilização, ainda muito imbuídos dos valores patriarcais (a “lente” através da qual observavam e analisavam os factos e fenómenos de estudo científico): a igualdade entre géneros. A forte e frequente presença das mulheres na arte cretense leva a concluir que elas representavam papéis sociais prestigiados, tanto no culto religioso da Deusa, como a nível de poder (chegando-se a sugerir a existência de uma rainha cretense).

Mas também a música, o canto e a dança integravam tanto as expressões culturais e artísticas dos cretenses como as suas próprias práticas religiosas. Todos estes aspetos se fundiam num só: “(…) a religião para os cretenses constituía uma ocupação feliz” e “(…) “Toda a vida impregnava-se de fé ardente na Deusa Natureza, fonte de toda criação e harmonia”, citando a autora da obra. Desta forma, era inevitável que o sistema de valores e crenças desta civilização se baseasse firmemente na paz, na dádiva, na compaixão, na beleza, nos prazeres da vida. A própria liberdade e fluidez com que a sexualidade era perspetivada e vivida pelos cretenses conduzia a um pacifismo e a uma anulação ou redução da agressividade, que se evidenciava mais noutros povos.

E, centrando-se no culto profundo e muito enraizado da Deusa, tal como afirma Nicholas Platon: "o medo da morte era praticamente obliterado pela omnipresente alegria de viver".

Estas são, em traços gerais, as características principais que diferenciam esta cultura, mas existem muitas mais particularidades que a distinguem das outras sociedades suas contemporâneas.

Uma delas é o facto de a sociedade minóica (assim chamada devido ao Rei Minos) ter sido uma sociedade muito baseada no “encanto pela vida”, pela “sensibilidade”, e “amor à beleza e natureza”, como se pode ler na obra de Riane Eisler. De uma forma geral era uma cultura baseada em valores hedonistas, de prazer, de valorização do lado belo e de harmonia da vida, e a arte, que chegou até nós, demonstra-nos isto de forma evidente: desde joias, a estatuária, aos frescos, entre outras formas de arte descobertas.

Em termos de estilo de vida, os cretenses eram fortemente ligados à natureza e ao respeito e usufruto da mesma, pelo que até as habitações particulares, edifícios públicos e demais construções refletiam esse estilo de vida.

Concluiu-se também que a sua organização social era caracterizada por uma justa divisão da riqueza, não existindo assimetrias sociais profundas, como nas outras civilizações desenvolvidas da época; registava-se uma significativa prosperidade económica (baseada não só na agricultura, mas também, posteriormente, pela pecuária, indústria e comércio, essencialmente, marítimo, que floresceu dadas as privilegiadas condições geográficas da ilha). Paralelamente, regista-se um avançado sistema de obras públicas, que abrangia desde estradas a sistemas de distribuição de água, etc., muito avançados e completos.

No entanto, nenhum destes aspetos, e esta é uma das singularidades que mais sobressaem, conduziu a uma sociedade onde a noção de poder fosse autocrática ou baseada na violência ou exploração de uns grupos sociais por outros. De forma alguma existem indicações de que o poder estivesse concentrado apenas num reduzido número de indivíduos, nem tão pouco que se tratasse de uma sociedade baseada no poder armado: verificou-se a ausência de estruturas de defesa ou fortificações. O que sugere que a participação em guerras dentro ou fora da ilha seriam provavelmente quase inexistentes.

Ainda assim, é pouco provável que não tenham existido combates para defenderem o seu rico território, no entanto, não eram esses os seus valores dominantes, nem a própria arte cretense valoriza ou glorifica os atos de guerra.

A autora Riane Eisler indica-nos fortes indícios de que em Creta o poder teria sido exercido pelas mulheres, e que estas teriam tido um papel muito relevante na vida religiosa e social das cidades da ilha.

As mulheres estavam mais retratadas “nas artes e ofícios”, o que reflete uma posição social, religiosa, política e económica elevada ou de destaque, e eram frequentemente retratadas na esfera pública, o que é sinónimo de respeito e prestígio na sociedade (ao contrário daquele que, posteriormente, foi o sentido da evolução cultural humana, que remeteu cada vez mais as mulheres para a esfera doméstica e privada, sem serem vistas nem terem “uma voz própria”). O papel feminino era bastante ativo em todas as esferas da sociedade.

De facto, toda a conceção de beleza, de paz, de harmonia, lúdica e de respeito (pelo outro e pelo meio ambiente), e a própria posição igualitária entre sexos, presentes nos traços culturais e no legado artístico de Creta, já nos indica que estamos na presença de uma sociedade que não é dominada pelos valores “ditos masculinos”, da guerra, da destruição ou da violência.

Os próprios valores cretenses, baseados “num espírito feminino”, como se observa na História da Arte, na perspetiva de Jaquetta Hawkes, espelhavam-se até na arquitetura característica da ilha.

Aliás, é sobretudo através da arte que chegam até nós os mais evidentes indícios de que o poder era exercido pelas mulheres: a autora fala-nos da própria “(…) influência da sensibilidade feminina — [que ofereceu] notável contribuição à arte minóica".

Muito do que se sabe sobre a cultura cretense advém do estudo da produção artística desse período e local: a arte cretense, por exemplo, não glorifica as atividades bélicas ou a guerra em geral. Há um evidente hedonismo em Creta: a vida agradável, rodeada de beleza e a comunhão com a Natureza; uma cultura de bem-estar e igualdade entre classes socioeconómicas e entre géneros.

O culto da Deusa, ali, era absolutamente central, e Ela é representada, por exemplo, num papel supremo: numa carruagem que leva um defunto para a sua transformação e renascimento, no eterno ciclo da vida-morte-vida.  As Suas sacerdotisas são frequentemente representadas, em frescos, liderando procissões, cultos e rituais. A própria historiadora da arte, Hawkes, coloca a hipótese de existir uma rainha cretense, que também é retratada: ou seja, estamos perante o próprio centro do poder, no feminino.

Toda a presença da simbologia da Deusa (intensamente ligada à natureza, tal como a borboleta e a serpente, símbolos da transmutação e metamorfose, e o machado de lâmina dupla, utilizado no cultivo agrícola, que simbolizava a própria divindade da transformação e do renascimento, e também a fertilidade da terra, sustento de toda a população) é outro fator que indicia o poder das mulheres nesta sociedade, pois surge com muita frequência nos mais variados objetos de arte que foram descobertos. 

O próprio facto de não existirem estátuas de governantes, por exemplo, um reflexo tão típico do enaltecimento do “poder masculino” de então, indicam-nos que o poder era mais exercido pelas mulheres.

Outro facto que indicia que a cultura, essencialmente centrada na Deusa e no papel e poder femininos, estava bastante enraizada, é o de que, mesmo após o início do período histórico seguinte, a Idade do Bronze, e com a complexificação das estruturas sociais, isso não significou em Creta o declínio do poder nem do status das mulheres, pelo contrário, pareceu até fortalecê-lo.  A Deusa continuou a ser cultuada e a ser o centro da vida nesta civilização. E, como tal, os seus princípios de conceção “feminina” do mundo, prevaleceram, da mesma forma que a importância do papel das mulheres também. 

Avançando mais ainda nesta interpretação, temos a evidência de que o poder nesta cultura estava intimamente ligado ao sexo feminino, pois, tal como nos refere Eisler, “(…) em Creta as virtudes "femininas" de concórdia e sensibilidade tinham prioridade social” – aspetos que não eram desvalorizados, como acontece(u) noutras culturas, e de que houve uma noção diferente de poder.

O poder era exercido não com base na força física ou do confronto militar ou da subjugação, mas sim com base numa noção de “responsabilidade maternal” (uma “característica do modelo de parceria da sociedade”, citando a autora).

Por fim, temos outra forte confirmação de que o poder era exercido pelas mulheres na sociedade cretense: a sucessão e herança eram feitas por linhagem feminina. Estamos, portanto, perante uma sociedade matrilinear. Uma sociedade onde a Deusa assume o poder divino central, e as sacerdotisas/rainha exercem o poder temporal, pese embora se mantivesse sempre o espírito de harmonia e igualdade entre mulheres e homens cretenses.

Creio que a mensagem da excecional civilização cretense é a de que pode constituir um modelo e um exemplo tanto para a nossa sociedade atual como para as futuras, cujas bases já se estão a construir agora. É admirável o facto de existirem provas concretas (e não “sonhos utópicos”, como muito bem sublinha Eisler) de como, há milhares de anos, existiu uma sociedade desenvolvida, que transmite uma mensagem que corresponde ao seu próprio sistemas de valores: igualitária, próspera e pacífica, com um paradigma totalmente invertido em relação às atuais.

Esta mensagem, em minha opinião, reflete-se nos seguintes aspetos: ausência de guerra e os valores de convivência pacífica e harmoniosa; valores ecológicos e de respeito pela natureza; uma conceção diferente de poder e um conceito diferente de governação.

A ausência de guerra e a centralidade dos valores de paz, estabilidade e harmonia entre povos vizinhos ou distantes é outro aspeto. Não se registavam manifestações que habitualmente conotamos como “características masculinas” de orgulho ou barbaridades para com o outro. A própria arte de Creta espelha a ausência de “dominação, destruição e opressão”, como refere a autora.

Verificámos em Creta a quase ausência de conflitos militares dentro da própria ilha ou com territórios circundantes, ao contrário do que prevalece ainda hoje, nas culturas predominantes, de valores patriarcais, onde a guerra parece ser o infrutífero e destrutivo modo de “resolução” de conflitos entre povos.

Valores ecológicos e de respeito para com a natureza: O culto da Deusa, vista como a Grande Mãe de tudo o que existe e A grande provedora da própria subsistência das comunidades, profundamente centrado na própria natureza, nos ciclos das estações e na abundância e prosperidade que advinham da terra e das atividades agrícolas, com certeza que foi a base deste mesmo respeito por tudo o que se relacionasse com a vida natural. O que entra em franco contraste com todas as agressões que as comunidades humanas têm vindo a cometer para com os ecossistemas, e este é um dos exemplos mais fundamentais para a humanidade atual, porque dele depende a própria sobrevivência da espécie humana e do Planeta.

Em Creta existiu uma conceção de poder, e igualmente de governação, extremamente diferente das sociedades que lhe eram contemporâneas, certamente das que se lhes seguiram, e das atuais. Tal como nos revela Riane Eisler, não existia, como por exemplo no Antigo Egito ou na Suméria, a “glorificação” dos governantes: a arte testemunha este facto com a ausência de monumentos ou estátuas dedicadas à dignificação dessas personalidades. Pelo contrário, o poder era exercido de forma pacífica e igualitária, de forma limitada, e com provável representação das diferentes classes socioprofissionais de cada cidade-estado de Creta. Um aspeto do qual certamente se distanciaram as culturas e povos que se lhes seguiram, mas que se aproxima daquele que hoje vigora nas sociedades ocidentais mais justas e igualitárias, por exemplo. Ainda assim, ainda estamos longe da ausência de representação de “figuras de poder”, mesmo na nossa sociedade atual, onde ainda se cultivam símbolos do poder e da governação tipicamente patriarcais. Temos o exemplo das monarquias atuais, europeias e não só, onde os símbolos, ainda que de um poder não efetivo na maior parte dos casos, estão bastante presentes. E, sem recuar muito no tempo, temos o próprio exemplo dos símbolos do poder e dos seus detentores, propagados e cultivados no Estado Novo, em Portugal, e em outros regimes autocráticos similares.

Em termos de governação, o exemplo de Creta também transmite uma importante mensagem de igualdade e respeito inter-pares.  Ainda que existisse (como era muito comum na época) uma estreita fusão entre religião e poder, como já referimos acima, cultivava-se o respeito e a harmonia entre iguais, no que respeita aos soberanos das diferentes cidades-estado da ilha. E também uma importante limitação de poderes, por parte de altos cargos de conselheiros oficiais, que faz concluir que provavelmente haveria uma conceção do poder e da governação como uma representação de interesses do povo, junto de quem os exercia – o que se trata de um sistema político altamente avançado e que impede a evolução para um poder despótico, tão comum nesta época, e tanto tempo antes do nascimento da democracia da Grécia do período Clássico. Algo que não corresponde à existência, que ainda perdura, de regimes autoritários em pleno século XXI.

A mensagem principal que Creta nos transmite, na atualidade, é, pois, a de que é efetivamente possível e exequível (e não uma fantasia), pensar e construir uma sociedade de paz, de justiça social, de igualdade em todos os sentidos, do respeito pelo planeta em que vivemos, sem prejuízo do crescimento económico, do desenvolvimento tecnológico e do bem-estar material dos indivíduos. É possível, efetivamente, construir uma sociedade em que prevalece a cooperação e a “parceria”, como lhe chama Eisler, em vez de destruição e dominação.

Texto de: Andreia Mendes

Imagens: viagem a Creta 2015, Luiza Frazão

 

 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O Segundo Sexo, O Cálice e a Espada e o poder das mulheres do passado

 

(…) Simone de Beauvoir refere categoricamente que as mulheres “(…) não têm os meios concretos de se reunir em uma unidade que se afirmaria em se opondo. Não têm passado, não têm história”. E que “(…)  a divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico e não um momento da história humana”.

Ora, à luz do que atualmente sabemos, e do estudo da obra de Riane Eisler, consideramos agora que estes factos não são exatamente rigorosos. E que houve, efetivamente, civilizações evoluídas e avançadas, em que a “eterna” dependência feminina, que Simone de Beauvoir considera ter sido a sua única condição, pura e simplesmente não existia.

Sociedades “perdidas no tempo”, porque, tal como realça Riane Eisler, “(…) quando havia evidência de um período de tempo anterior em que homem e mulher viviam como iguais, esse período simplesmente era ignorado.”

Sociedades, sendo a Cretense um dos exemplos mais esplendorosos, em que se cultuava a Deusa-Mãe, onde a ordem social surge centrada na mulher e na mãe, que assumiam papéis sociais e religiosos importantes, como sacerdotisas, por exemplo. Onde detinham um elevado status, e uma elevada participação social. Sociedades com uma organização matrifocal e matrilinear, mas não matriarcal. Sociedades cuja base eram os princípios da igualdade, cooperação e de “parceria” entre os sexos, tanto na esfera privada da vida social, como na pública. A obra de Riane Eisler veio detalhar e lançar uma nova luz sobre estas culturas “diferentes”, provavelmente bastante mais igualitárias do que aquela em que De Beauvoir viveu…

O desconhecimento destes factos levaram Simone de Beauvoir a assumir à partida que as mulheres, e passo a citar: “(…) por mais longe que se remonte na história, sempre estiveram subordinadas ao homem”, e também que “(…) a mulher sempre foi, senão a escrava do homem ao menos sua vassala; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade de condições”…

Porém, e apesar dos postulados com que inicia a sua teoria, ainda assim de Beauvoir coloca uma questão, mais pertinente que as duas referidas inicialmente, e que nos fazem associá-la inevitavelmente à tese de Riane Eisler:

“Resta explicar por que o homem venceu desde o início. Parece que as mulheres deveriam ter sido vitoriosas.”

Questão que Riane Eisler nos respondeu, décadas mais tarde, contrariando o que se havia assumido como uma verdade absoluta: a dependência das mulheres em relação aos homens.

Não só, como já verificámos, isto nem sempre foi verdade, como a própria evolução humana deveria, precisamente, ter apontado para uma “saída vitoriosa das mulheres” – ou, pelo menos, para o que Eisler designa de uma “cultura de parceria”, em vez de uma “cultura de dominação”, de acordo com a sua Teoria da Transformação Social.

É muito interessante constatar como as duas teses, sendo contraditórias em alguns aspetos, encontram pontos de encontro surpreendentes.

À questão colocada por Simone de Beauvoir, “Por que este mundo sempre pertenceu aos homens e só hoje as coisas começam a mudar?”, a tese de Eisler responde de forma direta: tudo na evolução cultural humana parecia apontar nesse sentido; mas esta linha evolutiva foi interrompida.

Porque as antigas sociedades onde a Deusa era cultuada, baseada em valores “ditos femininos” de compaixão, paz, estabilidade, partilha, dádiva e parceria, foram sendo suplantadas, num dado momento da história da Humanidade, progressivamente, pelo poder bélico e destruidor de outros grupos sociais, para quem a conquista, a força física e a subjugação eram os valores dominantes.

A frase de Simone de Beauvoir, na página 13 da sua obra, é paradigmática: “Se a mulher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao essencial é porque não opera, ela própria, esse retorno.” E acaba por ser “visionária”, talvez sem o suspeitar. Porque se trata, de facto de um “retorno”, de um “regresso”, no âmbito da evolução humana, ao status quo das sociedades da Deusa, que engloba a mulher numa posição em pé de igualdade em relação ao homem, independente, em todas as vertentes da vida social, e em comunidades onde vigoram os valores “de parceria”.

Andreia Mendes

Imagem 1: https://educacao.uol.com.br/

Imagem 2: https://www.aneconomyofourown.org/riane-eisler

Imagem 3 : Creta

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Notícias do Sol em manhã de Inverno

 

Esta manhã o sol brilhava intensamente quando abri a janela do meu quarto rasgada a Leste. Saudei-A como faço habitualmente, à Mãe do Fogo, a nossa Estrela do Dia, Trebaruna, Brígida, Sul, Sula, Aurora, e fechando os olhos, visualizei a Sua luz dourada penetrando em cada célula do meu corpo, trazendo-me energia e renovação, fé, entusiasmo, propósito e capacidade de agir neste mundo. Preciso de me lembrar de que o fiz quando a letargia bater à porta, e de me sintonizar com a energia solar que convoquei para o meu corpo e para a minha alma. Preciso de muita energia para tudo o que tenho de organizar e agora também para responder a todas as mil e uma questões que começam a chegar de todos os lados...

Das tarefas que tenho de fazer, as mais agradáveis são sem dúvida a leitura, e vários livros demandam agora a minha atenção. São os meus livros de estudo, melhor dizendo. Deusas Solares, Êxtase, Feminino Activo e Solar e temas afins.

Incrível como nos temos contentado com a Lua com centenas de Deusas do Sol a acenarem-nos nos diversos panteões do mundo, mas cuja existência basicamente desconhecíamos, embora a própria Brígida, se pararmos para pensar, seja uma delas. Mas fomos levadas a voltar-lhes as costas, conformadas com o nosso reino da noite, com a luz projectada de fora, com a passividade como dote do nosso casamento com as sombras... o que, convenhamos também tem sido uma boa desculpa para não entrarmos em pleno na cena do mundo. Antes deixámo-la ser dominada por um masculino solar abrasador, desertificador, atómico, nitidamente com necessidade da sua contraparte lunar para equilibrar os excessos de todo esse fogo malparado...

Mas tanto que fazer neste dia, acrescendo-se tarefas tão banais como ir à mercearia... e os meus pés com tantas saudades de pisarem a terra...

E depois gerir todas as solicitações de pessoas querendo vir oferecer o seu saber à nossa Conferência... Como dizer "já não cabe", "já não é possível", a tanta abundância, qualidade e generosidade?... parece que estamos a precisar de magia para gerir o programa, de ser capazes de esticar o tempo... Mas para já, Mãe Sol, apenas um sentimento, Gratidão.

Imagem: estandarte da Deusa Trebaruna realizado por Helena Lebre


sábado, 9 de janeiro de 2021

POR QUE ESTUDAR A ANTIGA CIVILIZAÇÃO DE CRETA É TÃO IMPORTANTE PARA NÓS?

 

Uma História que nos Traz Esperança, por Elizabeth Chloe Erdmann

Há muitos anos atrás, havia uma antiga civilização minoica na ilha grega de Creta que foi anterior às nossas ideias mais comuns de como era a Grécia antiga ...

Antes de Platão, Aristóteles, da Acrópole, antes de Alexandre - antes da Guerra de Troia - antes de Esparta...

Havia uma civilização como nenhuma outra em Creta, a maior das ilhas gregas flutuando de forma autossuficiente num espaço entre o sul da Europa e o norte da África; era uma cultura de comércio marítimo. Há quatro mil anos, pequenas aldeias agrícolas começaram a construir "centros sagrados", geralmente chamados de "estruturas palacianas". O seu fim permanece um mistério altamente contestado. Os valores da Creta antiga eram semelhantes a muitas culturas e tradições indígenas - como os Haudenosaunee ou os iroqueses: reverência por todas as espécies animais e vegetais e um sentido profundo da natureza colectiva da existência.

Isso é muito diferente da arte e das representações que surgem depois no continente grego, onde os heróis conquistam serpentes de nove faces e realizam tarefas aparentemente impossíveis para Deuses e Deusas que têm um relacionamento complicado com os seres humanos. O próprio nome da Europa vem de Europa, que era uma jovem donzela atraída para fora de sua casa em Creta num touro, como parte de um truque inventado por Zeus. Esses mitos vêm duma época em que o domínio sobre a natureza é tido como fundamental: é a história que se desenrola nas imagens narrativas da Acrópole de Atenas.

Então, o que acontecia antes nessa misteriosa ilha de Creta?

O povo minoico. A cultura dessas pessoas era diferente daquela que veio depois. Os seus centros sagrados eram dedicados a eventos políticos, artísticos e culturais. O seu sentido do sagrado impregnava as actividades diárias. Nessa sociedade via-se a própria vida como sagrada. Houve uma redistribuição ou partilha de bens e alimentos nesses locais, de modo que ninguém passou fome ou escassez. Há muito pouca indicação de fortificação e armas, especialmente em comparação com as civilizações posteriores, como os gregos micénicos. A arte minoica retrata mulheres em posições de poder - como sacerdotisas com os braços erguidos em estados de êxtase e muitas vezes nuas até a cintura. Homens são mostrados cantando quando voltam da colheita, há vasos que mostram a alegre vida marinha e estatuetas de cães sorridentes feitos de barro. Quando percorremos o museu, não podemos deixar de pensar — uau, essas pessoas sabiam como se divertir. Elas parecem felizes por estarem vivas. Viviam em harmonia com a natureza.

Os seus frescos retratam jogos que consistiam em saltar sobre um touro. (Sim, falamos de pessoas que saltam sobre os chifres duma criatura bovina.) Isso contrasta totalmente com o foco na violência contra os animais, como touradas e sacrifícios, retratados nas civilizações que se sucedem à minóica. Os frescos minoicos mostram figuras masculinas e femininas agarrando o touro pelos chifres e saltando através deles dando uma espécie de salto mortal. Saltar sobre o touro poderia ter sido um desporto sagrado e extático para a geração mais jovem ou um tipo de iniciação.

O que torna a antiga cultura minoica diferente das que a seguem - daquelas com as quais estamos mais familiarizadas e familiarizados na cultura popular e na academia? Deixe-me dar um RESUMO em 8 PALAVRAS: representação feminina, menos violência, sem escravidão, recursos partilhados.

Então, voltando ao que aconteceu com essa cultura, é algo de muito misterioso. Sabemos por escavações que houve um imenso evento vulcânico catastrófico na antiga Thera (agora conhecida como Santorini), que enfraqueceu a cultura minoica. A chegada dos micénicos da Grécia continental levou a uma mistura relativamente breve de culturas. Na arte micénica, vemos cenas que retratam heróis conquistando a natureza, mulheres como vítimas e violência contra animais. Depois de algumas centenas de anos, a sociedade micénica chegou ao fim. As pessoas retiraram-se para as montanhas e a Grécia entrou num período conhecido como idade das trevas que durou cerca de quinhentos anos. Depois disso, vieram Homero e os famosos filósofos da Grécia.

Existem traços da visão de mundo minoica na nossa cultura? E por que devemos preocupar-nos com Creta e a cultura minoica?

A resposta é simples: a esperança está em nós.

 

Elizabeth Chloe Erdmann é uma teórica apaixonada pela “Teologia Nómade” - com uma profunda atracção pela história relacionada com a Deusa. Erdmann tem mestrado em estudos teológicos pela Boston University, esteve associada à  Amarkantak Tribal University na Índia e actualmente faz um doutorado pesquisando sobre o Contemporary Feminist Goddess Worship & Thealogy, na University College Cork, Irlanda. É autora publicada e palestrante regular sobre cultura, religião e feminismo e co-lidera a Peregrinação da Deusa, que tem lugar na Primavera a Creta, com Carol P. Christ. Mora em Chittenango, no interior do estado de Nova York, nas terras ancestrais da soberana Nação Onondaga, guardiães do fogo do Haudenosaunee - um povo indígena matrilinear com muitos costumes semelhantes aos da Creta antiga. Envolvida em ativismo e pesquisa com Sally Roesch-Wagner, no centro Matilda Joslyn Gage para Justiça Social em Fayetteville, NY, considera-se uma mulher curiosa e apaixonada pelos mistérios do mundo.

https://feminismandreligion.com/2020/10/26/a-story-to-inspire-hope-by-elizabeth-chloe-erdmann/#more-50552

 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Magia de Natal - faça você mesma

7 de Janeiro, dia de desmontar a árvore e as decorações de Natal

A árvore de Natal, pinheiro, ou abeto, é um símbolo de permanência no confronto com a realidade da finitude da vida, proposto pelo Inverno. Por isso a decoramos com luzes, brilhos e cores, com bolas que evocam a luz do sol eterno, que renasce pelo Solstício. 

Quando o frufru natalício se anuncia e  me atinge também a mim, dou asas à imaginação do meu self-criança, e à minha, e juntas montamos a árvore, sempre inspirada no tema da infância, e nos últimos tempos honrando também a Deusa que venero. Mas sem dúvida que ela é dedicada em especial ao meu tempo de criança, quando esta celebração era motivo de tanta excitação, pura alegria (havia férias!) e deleite. No coração do Inverno, inóspito, húmido, enregelado, a festa do Natal reconfortava e aquecia a alma. Nunca vou esquecer o encantamento provocado pela visão súbita do cortejo de pequenos anjos que irrompia capela adentro a meio da missa desse dia na aldeia. Era como se um portal se abrisse directamente no céu trazendo até nós a visão de criaturas do altíssimo. Tão pouco esquecerei a dor da revolta pelo cancelamento sem mais desse prodigioso evento. Profunda agonia por sentir que qualquer pedaço de paraíso podia ser tão fugaz, tão facilmente destruído, como se não houvesse vontade humana suficiente para dele cuidar, nem suficiente compreensão da importância primordial da beleza, o próprio amor solidificado, materializado ali naqueles anjinhos vestidos de branco delicado como os seus passinhos de criança e as suas solenes asas de penas. Era inquietante saber que não havia nesta dimensão guardiãs e guardiães do paraíso à altura, suficiente protecção contra cultivadores de distopias. Foi muito cruel.

Pode ter sido aí que o meu compromisso com a utopia e a magia foi assinado, embora também seja possível que ele venha da noite dos tempos, dos alvores da história da minha alma, uma suspeita levantada pelo encontro com François Vatel, do filme estreado no ano de 2000. Claro que o genial mordomo do Príncipe de Condé tinha meios com que não tenho sequer competência para sonhar. Restam-me os requintes dos musgos, das bagas negras das heras e do alfeneiro, das pinhas, da verdura da época e dos enfeites vários coleccionados ao longo dos anos e actualizados de acordo com as alterações do gosto. Nos últimos tempos, além de satisfazerem os caprichos da minha criança interior, eles procuram também honrar a minha devoção à Deusa. Foi assim que as aves do paraíso vieram em bando, ou que fui atraída por um enfeite com a forma da mão de Tanit, por outro que replica a Babuska, pela miniatura do gato chinês, que tem como origem uma antiga Deusa, por outro ainda com a forma dum balão de hidrogénio, honrando a Mãe do Ar deste festival. 

Por debaixo da árvore, sapatinhos, como é lógico, já que não tenho lareira: umas botas que foram usadas pelo meu pai em criança, uns sapatos de menina dourados com fivela de brilhantes trazidos duma charity shop inglesa, e ainda uma cadeira de fada, uma caixa rosa fúchsia brilhante para as rifas de Natal, uma lanterna e, no lugar de honra, a minha colecção dos quatro The Lady Bird Nature Books, que com a compostura, a graça e a candura dos anos 50 do século XX, ensinavam a nossa criança a ver a paisagem, a reconhecer as alterações, as marcas e os sinais que cada estação imprime na natureza e nas actividades humanas. Por vezes também lá ficam a destilar o seu sortilégio a colecção de Contos de Andersen ou o livro das Princesas Esquecidas e Desconhecidas, de Rebecca Dautremer e Philippe Lechermeir…

Com o tempo, criei tradições de Natal muito próprias e pessoais, e repito-as, ou recrio-as, a cada ano. Sozinha ou acompanhada, pouco importa neste capítulo. Depois do sumiço que levou o cortejo encantado dos anjinhos de Natal, e do encontro com outros e outras desmancha-prazeres, cuidei de aprender a criar magia para consumo próprio. Sem dúvida uma das melhores aprendizagens que levarei desta vida.

Luiza Frazão 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O SOL DA DEUSA - A LUZ QUE GUIA E O CALOR DA VIDA CONSCIENTE

 

A lua tornou-se uma das imagens centrais da espiritualidade da Deusa. No entanto... precisamos de examinar a sua potência contra-imaginal - o sol. Se a Deusa deve estar totalmente representada na nossa sociedade, ela também deve ser a luz que guia e o calor da nossa vida consciente. O Sol não deve ser considerado apenas como um símbolo patriarcal irrecuperável, mas como uma representação da vida e do alegre prazer da Deusa.

_ Caitlin Matthews, Voices of the Goddess: A Chorus of Sibyls

O sol é uma força activa que governa a cura, a luz e a abundância por fazer crescer as searas. A lua entretanto é vista como passiva, governando a noite, a psique e os mares através da sua capacidade para criar as marés. Mas se te perguntassem pelos géneros destas luminárias o que dirias?

Quase sempre a resposta seria que o sol é masculino e a lua feminina. Na verdade, a lua é talvez o símbolo mais conhecido do divino feminino na actual espiritualidade da Deusa. No entanto, se tivesses feito a mesma pergunta a uma pessoa pagã do passado, terias muito provavelmente tido uma resposta diferente. Enquanto na Grécia e em Roma se reverenciava a lua como Artemis e Diana e o sol como Hélios e Apolo, o conceito dum sol masculino e duma lua feminina não era universalmente partilhado em todos os sistemas mitológicos. Das tribos celtas ao povo Inuit da América do Norte, o sol era visto mais frequentemente como uma deusa do que como um deus.

Então como é que hoje em dia vemos o sol como sendo exclusivamente masculino? Quando comparamos os papéis e géneros das luminárias entre culturas, torna-se claro que as nossas antepassadas e os nossos antepassados pagãos não conseguiam atingir a unanimidade sobre a questão do sol ser masculino e a lua feminina. Encontramos panteões que cultuavam deuses solares e deusas lunares e outros que viam o sol como feminino e a lua como masculina.

Parece que o povo celta não conseguia decidir-se nesta matéria, tendo numerosas deusas lunares mas também deusas solares, que coexistiam com deuses solares. De forma semelhante, no Egipto também havia deuses e deusas solares. Assim sendo, se algumas culturas veneravam o sol como uma deusa e outras como um deus, e outras ainda como deus ou como deusa, por que razão é que hoje em dia o conceito de sol feminino nos parece tão pouco familiar?

Em última análise, o conceito do sol como exclusivamente masculino é bastante recente e a origem desta classificação exclusiva remonta à época vitoriana.

Com efeito, esta época trouxe com ela um renovado interesse pela mitologia, em particular pelos mitos solares. A arqueologia e o estudo da cultura popular eram novos campos de interesse académico e obras versando sobre mitologia clássica tornaram-se extremamente populares. Os mitos gregos e romanos serviam de bitola para comparar e sistematizar o estudo de outras mitologias, e foi assim que o conceito do sol/deus e da lua/deusa se tornou aceite como sendo a forma “correcta” de ver estas duas luminárias. Se os mitos de outras culturas diferiam, considerava-se que isso apenas reflectia a inferioridade cultural desse grupo ou um desvio acidental da norma mitológica. O trabalho de Friedrich Max Müller, um dos fundadores do campo de estudo da mitologia comparada, popularizou grandemente o conceito de masculino solar, conectando cada divindade e herói ao sol e proclamando que todas as religiões derivavam do monoteísmo solar original que via o sol como o criador masculino. As teorias de Müller foram mais tarde ridicularizadas, mas as suas influências perduram até hoje.

Apesar da deusa solar parecer um conceito estranho para muitas e muitos de nós, ela está mais presente no paganismo moderno do que aquilo que poderíamos supor, apenas não a classificamos como tal. Com efeito, Brígida, uma das deusas mais populares do panteão celta e cujo festival o paganismo celebra a cada Imbolc, tem inúmeros atributos solares. Apesar disso, Brígida é habitualmente referida como deusa do fogo e da inspiração, nunca como uma deusa solar.

As suas conexões solares permaneceram até nas histórias de santa Brígida, a versão cristianizada da deusa. Santa Brígida veio ao mundo ao nascer do sol e a casa onde nasceu brilhava com tal intensidade que a vizinhança pensou haver um incêndio, mas quando foram ver, essa luz que viam emanava da própria santa. Também se diz que um dia ela suspendeu a sua capa de um raio de sol. Era ainda sobejamente conhecida a sua habilidade para curar a cegueira, uma capacidade comum às deusas solares, uma vez que o sol era considerado uma espécie de “olho” no céu.

Interessante é ainda o facto de tanto o nome irlandês como aquele que era usado no inglês antigo para designar o sol era feminino, indicando que estes povos viam o sol como uma força feminina. Sem esquecer que a cruz de Brígida não passa duma representação simbólica do sol.

In Drawing Down the Sun, Rekindle the Magic of the Solar Goddess, Stephanie Woodfield, 2014

Imagens:

Imagem 1 - https://druidry.org/resources/brigid-survival-of-a-goddess

Imagem 2 - https://www.pinterest.co.uk/catnewell1/goddess/

sábado, 31 de outubro de 2020

ARQUÉTIPOS DA SOMBRA - A SOLTEIRONA... depois da BRUXA...

 

Nesta altura do ano em que é inevitável enfrentarmos a Sombra, é inevitável também falarmos dos aspectos amaldiçoados do feminino, até porque vamos ganhando cada vez mais consciência deles. Esses aspectos têm a ver essencialmente com questões de Liberdade, um direito que é muito prejudicial para o Patriarcado reconhecer plenamente à mulher. Liberdade para fazer escolhas, para se ser independente, inteira e completa em si mesma, para se viver como se quer. Esses aspectos que foram denegridos, como Megera ou Medusa, têm também a ver com força e poder, poder de dizer não, de se autodefender, de não agradar a toda a gente, de estar maldisposta, de não ser a boazinha de serviço, de escolher não entrar numa estrutura, numa instituição em que temos sido (e só por isso mesmo tem sobrevivido) a parte mais fraca…

Verdade que resgatámos com sucesso o título de Bruxa, mas há pelo menos um que continua a não parecer nada bonito: Solteirona! Aquela que "ficou para tia"... Basicamente é sempre bom desconfiar de títulos que não se aplicam ao homem, ou que perdem impacto no masculino... Há quantos anos já a filósofa feminista Mary Daly (1928-2010) levantou do chão esse título maldito entre os malditos dado pelo pensamento patriarcal a uma mulher que não se casou?... Assim, na língua inglesa a palavra Spinster já figura há muito na lista dos epítetos femininos resgatados da ignomínia misógina, precisamente pelas feministas. Título a reclamar sem medo, com  alguma ironia, para depois o desvalorizarmos, por aquilo que ele nos diz sobre a forma como temos permitido ser definidas na nossa relação com o homem.


Imagem: https://www.theguardian.com/books/2015/aug/02/spinster-kate-bolick-review-self-indulgent

 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

ALEXANDRA DAVID-NEÉL - exploradora, feminista, escritora espiritualista, budista, anarquista, reformadora religiosa

 

Neste mês de Outubro, a 24, comemora-se o aniversário da escritora e exploradora Alexandra David-Néel, nascida em Saint-Mandé, França, em 1868. Alexandra teve uma infância infeliz, filha única de pais amargos que brigavam constantemente e tentou fugir várias vezes, desde os dois anos de idade. Quando adolescente, viajou sozinha por alguns países europeus, incluindo uma viagem de bicicleta por Espanha. Quando tinha 21 anos, a jovem herdou dinheiro dos pais e usou-o todo para ir ao Sri Lanka, chegando até a trabalhar como cantora de ópera por um tempo para ajudar a financiar as suas viagens. O que lhe interessava especialmente era o budismo.

Alexandra David-Néel disfarçou-se de tibetana e conseguiu entrar na cidade de Lhasa, que na época era proibida a pessoas estrangeiras. Aprendeu a língua e tornou-se fluente em tibetano. Conheceu o Dalai Lama, praticou meditação e ioga e caminhou pelo Himalaia, onde sobreviveu comendo o couro das suas botas e uma vez escapou por um triz de uma tempestade de neve com uma meditação que aumenta a temperatura corporal. Os habitantes locais pensaram que ela poderia ser a encarnação de Thunderbolt Sow, uma divindade budista feminina. Alexandra tornou-se uma lama tântrica no Tibete aos 52 anos.

Alexandra escreveu sobre tudo isso e o seu livro mais famoso é Magic and Mystery in Tibet (1929), no qual escreveu: “Então era primavera no nublado Himalaia. Novecentos metros abaixo da minha caverna rododendros floresceram. Escalei o topo de montanhas áridas. Longas caminhadas me levaram a vales desolados salpicados de lagos translúcidos ... Solidão, solidão! … A mente e os sentidos desenvolvem a sua sensibilidade nesta vida contemplativa feita de observações e reflexões contínuas. Alguém se torna um visionário, ou melhor, não é que ele era cego até então? ”

Morreu em 1969, aos 101 anos, poucos meses depois de renovar o seu passaporte. Ela foi uma grande influência para os escritores Beat, especialmente Allen Ginsberg, que se converteu ao budismo depois de ter lido alguns de seus ensinamentos.

em O Almanaque do Escritor e https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandra_David-N%C3%A9el

 

 

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O GATO - ANIMAL TOTÉMICO DA GRANDE BRUXA

Na energia do Samhain...

Gato - Misterioso e Mágico por Judith Shaw

O gato move-se elegantemente, com graça, independência e uma autoconfiança inabalável. “O meu cão acredita que é humano; o meu gato acredita que o seu deus”é um ditado que reflecte as crenças das e dos nossos ancestrais. Desde os dias do Neolítico, os gatos têm sido associados a deusas.

Os gatos, membros domesticados e os menores da família Felidae e da ordem Carnívora, são um interessante exemplo de equilíbrio - entre calma tranquila e acção poderosa, independência e conexão, entre o visível e o invisível.


Mistério e magia, feminilidade poderosa, explorando o desconhecido

Activo durante os momentos liminares do crepúsculo e do amanhecer - com alguns sendo mais nocturnos como os gatos selvagens - a associação do gato com a magia, o mistério e a capacidade de ver o que não é visível é antiga.

O gato tem excelente visão na penumbra fornecida por grandes córneas elípticas, pupilas que se expandem muito ou se contraem em fendas finas e uma camada especial atrás da retina chamada tapetum. Isso funciona como um espelho - permitindo que a luz entre no olho, se reflicta e entre novamente - criando o brilho nocturno assustador dos olhos de Gato.

O Gato na sua associação com deusas, é o símbolo máximo de uma feminilidade poderosa

Os gatos, embora não fossem domesticados no Egipto até cerca de 1500 a.C., eram sagrados para os egípcios desde 2465 a. C.

Deusa egípcia Bastet
Bastet, Deusa Egípcia do Coração, dos Segredos da Mulher, da Cura e dos Gatos, estava intimamente associada a Sekhmet, Deusa da Guerra, Pragas e Cura. Como Sekhmet, ela foi originalmente descrita como uma leoa - ganhando o título temível de Senhora do Massacre. À medida que os gatos se tornavam domesticados, Bastet também, assumindo uma imagem mais gentil - na maioria das vezes retratada como um gato sentado olhando serenamente ao redor ou como uma mulher com cabeça de gato. Às vezes ela aparece com gatinhos a seus pés.

Hécate, deusa grega da vida, morte, renascimento e mistério, teve a sua origem na área do Mar Negro da Geórgia moderna. Muitas vezes vista como um cão - às vezes um gato preto, Hécate floresce depois de escurecer, como o Gato, e vê profundamente os mistérios da vida.


Freya, deusa nórdica do amor, fertilidade, guerra, adivinhação e magia, caminhou pelos céus numa carruagem puxada por dois gatos cinzentos gigantes. Cercada por mistério, ela foi capaz de ver além do visível.

Para o povo Celta, o gato estava associado à Deusa e ao feminino. Muito provavelmente por causa disso e da sua capacidade de ver o mundo espiritual, a igreja cristã via os gatos como maus. Eles eram vistos como ameaças ao poder da Igreja sobre assuntos espirituais. Gatos e mulheres foram severamente perseguidas.

A situação dos gatos piorou depois que o Papa Gregório IX emitiu sua bula papal, Vox Rama (1233 dC), a primeira a associar gatos com bruxas e o diabo. Muitos acreditam que se seguiram assassinatos em massa de gatos, ou pelo menos um abandono em massa de gatos depois que suas donas - Curandeiras - foram mortas. Documentos europeus medievais e do início da modernidade descrevem dezenas de casos de gatos que foram queimados vivos. Isso resultou num efeito colateral indesejável - sem a predação dos gatos, a população de vermes explodiu, espalhando ainda mais a peste bubónica de 1348 d. C.

Vários clãs escoceses, como MacIntosh, MacNeishe e MacNicole, têm o Gato como seu animal totémico.

A Deusa Galesa da Transformação, Kerridwen, na sua manifestação como a porca Henwen, deu à luz uma variedade de seres - um grão de trigo e de cevada, uma abelha, um lobo, uma águia e um gato - espalhando vida por toda a terra. Com a mudança dos tempos, a gata de Henwen, Cath Palug, foi transformada numa das Três Pragas de Anglesey e morta pelo Rei Arthur.

Nos antigos reinos do Sião e da Birmânia, uma seita budista acreditava que, após a morte de alguém verdadeiramente puro, a sua alma migra para um gato.


Shashti, Deusa Hindu da Vegetação e Protetora das Crianças, foi retratada com uma cabeça de gato ou montando um gato enquanto carregava ao colo um ou mais bebés.

Um conto persa revela a natureza mágica do gato. Um mágico pegou um punhado de fumo, adicionou chama e duas estrelas brilhantes - então esfregou as mãos. Ao abri-las, apresentou ao herói, Rustum, um gatinho cinza esfumaçado, com olhos brilhantes e uma delicada língua vermelha, em gratidão por um resgate recente.

Espírito aventureiro, curiosidade, flexibilidade, paciência

A capacidade do gato de ser um excelente caçador depende igualmente da força mortal e da calma paciente. O gato espreita a sua presa e depois posiciona-se furtivamente com os músculos prontos para atacar quando a possibilidade de sucesso é maior.

“Um gato tem nove vidas.” Sempre curiosos sobre o seu mundo, os gatos - ágeis e coordenados - quase sempre pousam em pé. A capacidade do gato de entrar e sair de situações deve-se ao seu corpo flexível, com uma coluna vertebral mantida unida por músculos - não ligamentos.

Ele abre seus olhos para os mistérios da vida, com grande curiosidade, que lhe dá coragem para explorar o desconhecido, incentivando a flexibilidade e a abertura para novas percepções. O gato ensina-nos a necessidade de observação paciente, seguida de acção decisiva.

Independência e companheirismo

A pesquisa genética revela que os gatos foram domesticados pela primeira vez há cerca de 12.000 anos, quando a agricultura começou no Médio Oriente. No típico estilo felino, os gatos dão as cartas - eventualmente domesticando-se ao aprender que os humanos fornecem comida extra como recompensa pelos seus esforços de caça. Os gatos provavelmente descendem de um gato selvagem nativo do Oriente Próximo - Felis s. Lybica.

Ao contrário da maioria dos animais domésticos que foram criados selectivamente pelos seres humanos para certas características, os gatos mantêm o controle sobre a escolha dos seus ou das suas companheiras. Eles vêm e vão quando querem, muitas vezes escolhendo companheiros ou companheiras selvagens com excelente visão nocturna e genes auditivos, permitindo que os gatos domésticos continuem sendo predadores mortais. Os gatos, sabendo muito bem que podem sobreviver por conta própria, treinam os seus gatinhos por meio do exemplo a espreitar, esperar e atacar. O gato continua a ser um visitante selvagem que te concede a graça da sua presença.

Os romanos viam a atitude indiferente do gato como sinónimo de independência.

Embora solitários por natureza, quando a comida é abundante, os gatos estabelecem amizades e toleram outros gatos muito bem. Os donos de gatos sabem que seus animais de estimação adoram acariciar e a pesquisa mostra que os gatos têm uma forte ligação com os seus donos.

Por meio de um conjunto de expressões, sons vocais e posturas corporais e de cauda, o gato é capaz de comunicar as suas emoções e intenções, sinalizando o seu desejo de aumentar, diminuir ou manter a distância social.

Ele lembra-nos de manter o equilíbrio entre a autodescoberta permitida pela solidão e as alegrias da companhia e da partilha e da confiança em si mesmo, deixando para trás dependências doentias.

Serenidade, autoconsciência, autocura

Um gato ronronando expressa perfeitamente a serenidade. O ronronar do gato, muitas vezes um sinal de contentamento e prazer, pode indicar ferimento ou dor. As nossas e os nossos ancestrais associaram o Gato às deusas da cura. Hoje os cientistas concordam que o ronronar do gato tem um efeito curativo sobre si mesmo e sobre as pessoas. Pegar num gato que ronrona reduz a própria frequência cardíaca. O padrão e as frequências de som do seu ronronar estão na faixa que pode melhorar a densidade óssea e promover a cura. O padrão e as frequências de som do seu ronronar estão na faixa que pode melhorar a densidade óssea e promover a cura. O ronronar do gato pode atenuar os danos aos ossos que podem acontecer durante sua vida cheia de sestas.

O gato ensina-nos que o caminho para a serenidade e a autocura está dentro de nós. Com os olhos semicerrados, como se estivesse em estado de transe, ele ronrona em direcção a um estado de calma e paz

Proteção, Boa Sorte

A deusa chinesa Li Shou, descrita como uma gata, presidia ao controlo de pragas e à fertilidade. Um conto relata que quando o mundo era jovem, os deuses colocaram Li Shou e os seus gatos no comando do mundo. Precisando de uma boa comunicação para essa tarefa, os gatos receberam o dom da fala. Mas, fiéis à sua natureza, os gatos, que preferiam se aquecer sob os raios de sol quentes, perseguir borboletas e dormir, negligenciaram o seu papel de protetores. Os deuses ficaram descontentes. Finalmente Li Shou disse aos deuses que os gatos não tinham nenhum interesse real em governar o mundo, preferindo brincar e tirar uma soneca. O poder da fala foi-lhes então tirado e dado aos seres humanos para governar o mundo. Mas o gato manteve o papel de cronometrista, ajudando a manter o mundo nos trilhos.

Os japoneses atribuem ao gato o papel de ter salvo a vida de um imperador. O “gato acenando”, com uma pata levantada, cresceu tornou-se uma lenda. Quando o imperador passou por um templo, um gato sentado na frente levantou a pata em reconhecimento. Atraído pelo gesto do gato, o imperador entrou no templo exactamente quando um raio atingiu o local onde ele estava. Ainda hoje o Gato Acenando é considerado um guardião do lar e sua imagem é frequentemente um poderoso talismã da sorte.

O deus polaco Ovinnik, que assumiu a forma de um gato preto, protegeu os animais domésticos e afugentou fantasmas e fadas.

No conto irlandês, a Viagem de Maelduin, um gato protege os tesouros do Outro mundo da pilhagem.

Divinatório

O gato acena para que você possa abraçar possibilidades mágicas, adoptar novos caminhos com curiosidade e flexibilidade, para confiar que a sorte está consigo. Evocando o seu próprio desejo de correr livre, o gato ensina o equilíbrio entre paciência e acção, oferecendo protecção e sorte. Sempre orgulhoso, independente e corajoso, ele oferece uma visão sobre este mundo e o mundo além do véu.

 Judith Shaw, formada pelo San Francisco Art Institute, sempre se interessou por mitos, cultura e estudos místicos. Pouco depois de se formar na SFAI, enquanto vivia na Grécia, Judith começou a explorar a Deusa na sua arte. Ela continua a ser inspirada pela Deusa em todas as suas manifestações, que são encontradas em todo o mundo natural. Nos últimos anos, Judith começou a estudar as deusas dos seus ancestrais, o povo Celta, resultando em seu baralho de cartas do oráculo da deusa celta. Ela agora está trabalhando em seu próximo baralho de cartas do oráculo - Animal Spirit Guides. Originária de Nova Orleães, Judith mora no Novo México, onde pinta o quanto o tempo permite e é vendedora imobiliária em part-time.

Versão original:  https://feminismandreligion.com/2020/10/28/cat-mysterious-and-magical-by-judith-shaw/#more-50523

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele

Diana Vandenberg
https://www.boekwinkeltjes.nl/b/103915124/De-hermetische-schilderkunst-van-Diana/
"Se a função da fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também explicá-la pelo "eterno feminino" e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: que é uma mulher?

O próprio enunciado do problema sugere-me uma primeira resposta. É significativo que eu coloque este problema. Um homem não teria a ideia de escrever um livro sobre a situação singular que ocupam os machos na humanidade. Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: "Sou uma mulher". Essa verdade constitui o fundo sobre o qual se erguerá qualquer outra afirmação. Um homem não começa nunca por se apresentar como um indivíduo de determinado sexo: que ele seja homem é natural. É de maneira formal, nos registos dos cartórios ou nas declarações de identidade que as rubricas, masculino, feminino, aparecem como simétricas. A relação dos dois sexos não é a das duas electricidades, de dois polos. O homem representa a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos "os homens" para designar os seres humanos, tendo-se assimilado ao sentido singular do vocábulo vir o sentido geral da palavra homo. A mulher aparece como o negativo, de modo que toda determinação lhe é imputada como limitação, sem reciprocidade.

Agastou-me, por vezes, no curso de conversações abstractas, ouvir os homens dizerem-me: "Você pensa assim porque é uma mulher". Mas eu sabia que a minha única defesa era responder: "penso-o porque é verdadeiro", eliminando assim a minha subjectividade. Não se tratava, em hipótese alguma, de replicar: "E você pensa o contrário porque é um homem", pois está subentendido que o fato de ser um homem não é uma singularidade; um homem está no seu direito sendo homem, é a mulher que está errada. Praticamente, assim como para os Antigos havia uma vertical absoluta em relação à qual se definia a oblíqua, há um tipo humano absoluto que é o masculino. A mulher tem ovários, um útero; eis as condições singulares que a encerram na sua subjectividade; diz-se de bom grado que ela pensa com as suas glândulas. O homem esquece soberbamente que a sua anatomia também comporta hormonas e testículos. Encara o corpo como uma relação directa e normal com o mundo que acredita apreender na sua objectividade, ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que o especifica: um obstáculo, uma prisão. "A fêmea é fêmea em virtude de certa carência de qualidades", diz Aristóteles. "Devemos considerar o carácter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural". E Sto. Tomás, depois dele, decreta que a mulher é um homem incompleto, um ser "ocasional". É o que simboliza a história do Génese em que Eva aparece como extraída, segundo Bossuet, de um "osso supranumerário" de Adão. A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autónomo. "A mulher, o ser relativo...", diz Michelet. E é por isso que Benda afirma em Rapport d'Uriel: "O corpo do homem tem um sentido em si, abstracção feita do da mulher, ao passo que este parece destituído de significação se não se evoca o macho... O homem é pensável sem a mulher. Ela não, sem o homem". Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o "sexo" para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro.

A categoria do Outro é tão original quanto a própria consciência. Nas mais primitivas sociedades, nas mais antigas mitologias, encontra-se sempre uma dualidade que é a do Mesmo e a do Outro. A divisão não foi estabelecida inicialmente sob o signo da divisão dos sexos, não depende de nenhum dado empírico: é o que se conclui, entre outros, dos trabalhos de Granet sobre o pensamento chinês de Dumézil sobre as índias e Roma. Nos pares Varuna-Mitra, Urano-Zeus, Sol-Lua, Dia-Noite, nenhum elemento feminino se acha implicado a princípio; nem tampouco na oposição do Bem ao Mal, dos princípios fastos e nefastos, da direita e da esquerda, de Deus e Lúcifer; a alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano. Nenhuma coletividade se define nunca como Uma sem colocar imediatamente a Outra diante de si. Basta três viajantes reunidos por acaso num mesmo compartimento para que todos os demais viajantes se tornem "os outros" vagamente hostis. Para os habitantes de uma aldeia, todas as pessoas que não pertencem ao mesmo lugarejo são "outros"' e suspeitos; para os habitantes de um país, os habitantes de outro país são considerados "estrangeiros". Os judeus são "outros" para o antissemita, os negros para os racistas norte-americanos, os indígenas para os colonos, os proletários para as classes dos proprietários."

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo

https://joaocamillopenna.files.wordpress.com/2018/03/beauvoir-o-segundo-sexo-volume-11.pdf