O poder da Deusa, que se manifesta por meio das mulheres, é uma matriz emocional que convida a uma fusão ou simbiose inconsciente e transmite uma sensação de chegada a casa.Jean Shinoda Bolen
domingo, 25 de abril de 2021
BORA LÁ SALTAR NO ESCURO – Confissões duma Mulher para lá da Meia-Idade
Sou uma mulher de mais de 65 anos, activista da Deusa, e há partes de mim que por vezes se sentem cansadas, quase esgotadas… Sou uma mulher. Ser uma mulher com uma visão ou ser um homem com uma visão são realidades muitíssimo distintas. Na tradição masculina, na androcracia em que vivemos, por trás dum homem, grande ou pequeno, há sempre uma mulher – quanto mais não seja para acarretar com culpas e frustrações – que está lá quando ele chega a casa cansado, que o apoia, que diz ámen à sua visão, que torce por ele e fica orgulhosa quando as coisas correm bem. Ela faz a sopa, mantém o espaço, cuida dos aspectos práticos do quotidiano. Atrás dum homem está uma Esposa, que é uma espécie de extensão ou substituta da mãe, com funções acrescidas. Claro que isto é o quadro clássico, ou seja, já era, hoje em dia em que tudo está mais fluído, o que temos é a Companheira, que poderá ser mais intermitente, descartável, mas eventualmente bem mais talentosa e tecnologicamente funcional. Sempre existe uma ou mais para suprir as necessidades de apoiar, gerir, manter o espaço, torcer, dizer ámen, ajudar, e de forma cada vez mais prática e eficiente.
Embora também existam, são raros, raríssimos, convenhamos, os casos em que estes papéis se invertem. Por norma, atrás duma mulher com uma visão não está ninguém a proteger o seu espaço nem a dar-lhe energia. O mais certo é que aconteça precisamente o contrário. Atrás dela pode estar o próprio marido a disputar a sua atenção e energia, ou o resto da família, que não acha a mínima graça à sua originalidade, que a conhece demasiado bem e por isso sabe que é um fake, que sempre foi. “Quem é que pensas que és?”.
Óbvio que se ela fosse um homem, sim, aí teria toda a legitimidade para escrever e publicar livros, por exemplo, com toda a família a assistir orgulhosa ao seu lançamento. Já uma mulher sozinha a lançar um livro pode acontecer não ter uma única pessoa da família a assistir e a apoiá-la nesse momento. Ninguém. Não se fala nessa bizarrice, “Mas quem és tu afinal?”.
Pode ser que atrás dela estejam pessoas que continuam a ver nela a mãe, cujo dever é apenas o de dar, e é bem possível até que nem ela própria saiba receber, que tacteie no escuro à procura do mais básico sentimento humano que é a sensação de que a sua existência é legítima, de que tem o direito de existir. E não se pode existir sem ter voz própria. E esta não é uma questão que amadureça saudável à medida que flui o tempo e se sucedem as estações, muito pelo contrário. Duvida sempre quando te disserem que a esperança de vida aumentou…
As suas dúvidas existenciais como mulher são projectadas sobre pessoas que contestam a sua autoridade, desvalorizando tudo aquilo que com tanto esforço e trabalho, enfrentando tantos desafios, conseguiu, desmontando uma a uma todas as possíveis zonas de conforto.
Uma mulher sozinha, recusando um enterro em vida, com a sua visão e voz própria, tem de ser capaz de conviver e de abraçar a impostora que se lhe colou à pele e à imagem, tem de poder olhar para ela no espelho e sossegá-la: “Bora lá saltar no escuro, segura-te!”. É a impostora em si que aguenta a parte das mil e uma razões para não, nunca estar à altura daquela Anciã longínqua, duma qualquer cultura exótica, idealizada pelo photoshop e enquadrada pelas frases prontas a servir do fast food verbal new-age.
Uma mulher real sozinha, a partir de certa idade, é por norma suspeita, e se algum poder conquistou com o seu esforço, discernimento e coragem vai ser-lhe pedido que trate de o repartir, pedacinho a pedacinho, até não sobrar mais nada, ou que o use para promover outras pessoas. Afinal se já não és a mãe que se sacrifica como a vela se consome e arde para que haja luz, para que serves afinal?
Mas nesta escuridão criativa da alma, abençoada seja, a luz da Deusa nítida se recorta: “Pára de resmungar, de lamber as feridas, avança”… Pois… talvez, quem sabe, abrindo caminhos...
©Luiza Frazão
quinta-feira, 1 de abril de 2021
E se partíssemos da hipótese de que a Creta Antiga era matriarcal, matrifocal e matrilinear?
Carol P. Christ
em 22 DE FEVEREIRO DE 2021
Se começássemos com a hipótese de que a Creta antiga era matriarcal, matrifocal e matrilinear, o que esperaríamos que fosse o foco central da sua religião? * Harriet Boyd Hawes e a sua colega Blanche E. Williams apresentaram uma incipientemente feminista análise, centrada na mulher, da religião da antiga Creta, em Gournia, o livro que descreve a escavação de uma aldeia minóica no início do século XX. Boyd Hawes argumentou que as evidências arqueológicas mostravam não apenas a preeminência da Deusa, conclusão com a qual Williams concordava, mas também a força e a independência das mulheres numa cultura que ela definiu como matriarcal e matrilinear, centrada na família materna. Se a Creta antiga era matrilinear, matrifocal e matriarcal, deveríamos esperar encontrar evidências de que as mulheres não eram apenas fortes e independentes, mas também que assumiam papéis de liderança na religião e na cultura. Williams notou a presença de sacerdotisas. Os frescos em miniatura de Cnossos mostram um grupo de mulheres idosas sentadas no lugar de honra e um grupo de mulheres realizando uma dança ritual. Onde faltam evidências sobre as funções de liderança, não se deve presumir que a liderança deve ter estado nas mãos de homens.
Não deveríamos surpreender-nos ao descobrir que a Deusa ou a mãe terra estava no centro dos rituais e cerimónias na Creta antiga. No entanto, dizer que a Deusa é central levanta a questão do que queremos dizer quando dizemos Deusa. No Ocidente, a divindade é entendida como transcendente em relação ao mundo, representada como um Outro, um ser masculino dominante, juiz das/os vivas/os e das/os mortas/os. Citando o Dicionário Oxford English, o arqueólogo Colin Renfrew baseia a sua discussão sobre a religião minóica na ideia da transcendência divina. Mas se aceitarmos a visão de Marija Gimbutas de que a Deusa representa os poderes do nascimento, morte e regeneração em todas as formas de vida, surge-nos uma imagem diferente. A Deusa é imanente, ao invés de transcendente em relação ao mundo. Ela é a força vivificante nos seres humanos e em toda a natureza. Ela não é a juíza das/os vivas/os e das/os mortas/os, pois as/os mortas/os são devolvidos ao seu corpo. Ao contrário das divindades gregas posteriores, as deusas da Velha Europa e da antiga Creta geralmente não são retratadas como seres humanos idealizados. Embora muitas vezes tenham olhos, seios e triângulos sagrados, elas também têm bicos e asas, têm o formato de montanhas e são decoradas com linhas fluidas que simbolizam rios ou riachos. Essas formas híbridas sugerem que toda a vida é uma imagem da divindade e que os seres humanos não são superiores, melhores ou separados de outras formas de vida. Imagens híbridas celebram a conexão de todos os seres na teia da vida e chamam os seres humanos a participarem e a desfrutarem deste mundo, não a procurarem escapar ou elevar-se acima dele. Uma religião centrada na gratidão pela vida neste mundo é muito diferente daquela que se concentra no medo, no julgamento e no anseio pela vida após a morte. A percepção de Jacquetta Hawkes de que a religião da antiga Creta celebrava "a graça da vida" está exatamente certa.
A velha deusa europeia ou minóica é uma ou várias? Os monoteístas têm insistido que só pode haver um Deus, mas os politeístas reverenciam uma pluralidade de imagens, enquanto os animistas celebram os espíritos de seres vivos (percebidos) como rios e árvores, montanhas e cavernas. Os termos monoteísmo e politeísmo não são neutros. Ambos foram desenvolvidos por monoteístas: o monoteísmo descreve as crenças correctas do self; politeísmo, as falsas crenças da/o outra/o. Acho que a distinção da teóloga e liturgista Marcia Falk entre monoteísmo exclusivo e inclusivo é útil para resolver a questão do um/a e das/os muitas/os. Segundo Falk, o monoteísmo inclusivo é uma intuição da unidade do ser na diversidade do mundo: celebrando a unidade do ser, acolhe uma pluralidade de imagens para representar a diversidade e a diferença no mundo. Desse ponto de vista, as fronteiras entre o monoteísmo e o politeísmo são porosas. Quando Gimbutas falou dos poderes de nascimento, morte e regeneração em toda a vida, ela referia-se à unidade de ser subjacente à diversidade de formas de vida, incluindo plantas, animais e seres humanos. Da mesma forma, quando os povos indígenas falam da mãe terra como a doadora de tudo e de todos os seres como parentes, eles reconhecem que toda a vida é sustentada por uma única fonte. O fato dos povos cretenses antigos imaginarem a divindade de maneiras diferentes e com características diferentes não exige a conclusão de que eles adoravam muitas divindades distintas, como argumentam alguns arqueólogos: considero que intuíram uma unidade de ser enquanto celebravam a diversidade da vida. Esta parece ter sido a conclusão de Williams, que escreveu sobre “a proeminência de uma deusa sob vários aspectos”.
Se as culturas matrilineares, matrifocais e matriarcais tendem a ver a Terra como uma grande e generosa mãe, podemos esperar que essa percepção seja expressa em rituais e cerimónias. A gratidão é a resposta apropriada aos presentes dados gratuitamente. Sugiro que a gratidão pelo dom e dádivas da vida não era apenas um foco, mas o foco central da religião na Creta antiga. Se for assim, devemos esperar encontrar rituais celebrando o dom da vida no nascimento de bebés, na chegada à maioridade das meninas, bem como em rituais de morte homenageando as/aos ancestrais. Também podemos esperar encontrar rituais que honrem a linha materna e expressem gratidão pela sabedoria das ancestrais. Muitos desses rituais teriam ocorrido na Casa matrilinear, como sugere o arqueólogo Jan Driessen. Os rituais para as/os ancestrais também podem ter acontecido em cemitérios. Devemos também esperar encontrar rituais que expressem gratidão pelo alimento que sustenta a vida, por exemplo, nas oferendas de primícias à mãe terra e no derramamento de libações que são absorvidas de volta ao seu corpo. Se as mulheres inventaram a agricultura e, como argumentou Gimbutas, a religião da Velha Europa celebrava os processos de nascimento, morte e regeneração em toda a vida, deveríamos encontrar rituais focados no plantio, colheita e armazenamento de sementes. Alguns desses rituais podem ter ocorrido nas Casas matrilineares, enquanto outros certamente ocorreram na natureza e nos campos. Se a fabricação de cerâmica e a tecelagem fossem entendidas como mistérios de transformação envolvendo nascimento, morte e regeneração, poderíamos encontrar evidências de rituais associados a essas atividades nas Casas ou nas oficinas. É sabido que os ritos na Creta antiga envolviam árvores, montanhas e cavernas, bem como fontes de água. Devemos perguntar-nos se e como tais cerimónias expressam gratidão à mãe terra, a fonte da vida, e aos ciclos de nascimento, morte e regeneração.
* Essas reflexões são parte de um rascunho inicial do prólogo metodológico de um ensaio que me pediram para escrever sobre Religião numa vila minóica a ser publicado no relatório arqueológico sobre as escavações recentes em Gournia. Na parte anterior do prólogo, discuto as teorias sobre as culturas matriarcal, matrifocal e matrilinear de Harriet Boyd Hawes, Blanche E. Williams, Marija Gimbutas, Heide Goettner-Abendroth e outras/os.
Original aqui
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
A REVOLUCIONÁRIA DESCOBERTA ARQUEOLÓGICA DA CIVILIZAÇÃO CRETENSE
O achado arqueológico da civilização cretense foi uma “bomba” no seio da comunidade de estudiosos de então, uma vez que, pelas suas evidências, não correspondia a nada do que até aí fora descoberto e a nada do que era “expectável” à luz dos valores patriarcais e masculinos que vigoravam e que dominavam a ciência da altura.
Houve todo um conjunto de descobertas e de particularidades,
sobretudo através das manifestações artísticas que chegaram até à atualidade (e
daí a importância fulcral da arte para compreendermos esta cultura e esta
sociedade), que permitiram ver que se estava na presença de uma sociedade
“diferente”. Baseada em valores pacíficos – quando, à sua volta, já quase todas
as civilizações começavam a ser fortemente dominadas pelos valores bélicos –,
tratava-se de uma sociedade essencialmente baseada na economia agrária, próspera,
igualitária e estável.
Para além disto, chegou-se à conclusão de que se tratava de
uma sociedade intensamente religiosa, em que o centro do seu culto era a Deusa.
Na verdade, religião e vida quotidiana, misturavam-se de tal forma no
quotidiano das cidades-estado desta ilha, que sagrado e quotidiano se
entrelaçavam na vida dos cretenses. O próprio exercício físico e o desporto,
bem como todo o tipo de atividades lúdicas e de entretenimento, estavam
intimamente ligadas às práticas e cultos religiosos. Religião e divertimento
associavam-se em harmonia, e a prática de jogos e desportos era caracterizada
pela participação igualitária de mulheres e homens.
Mas também a música, o canto e a dança integravam tanto as
expressões culturais e artísticas dos cretenses como as suas próprias práticas
religiosas. Todos estes aspetos se fundiam num só: “(…) a religião para os
cretenses constituía uma ocupação feliz” e “(…) “Toda a vida impregnava-se de fé
ardente na Deusa Natureza, fonte de toda criação e harmonia”, citando a autora
da obra. Desta forma, era inevitável que o sistema de valores e crenças desta
civilização se baseasse firmemente na paz, na dádiva, na compaixão, na beleza,
nos prazeres da vida. A própria liberdade e fluidez com que a sexualidade era
perspetivada e vivida pelos cretenses conduzia a um pacifismo e a uma anulação
ou redução da agressividade, que se evidenciava mais noutros povos.
Estas são, em traços gerais, as características principais
que diferenciam esta cultura, mas existem muitas mais particularidades que a
distinguem das outras sociedades suas contemporâneas.
Uma delas é o facto de a sociedade minóica (assim chamada
devido ao Rei Minos) ter sido uma sociedade muito baseada no “encanto pela
vida”, pela “sensibilidade”, e “amor à beleza e natureza”, como se pode ler na
obra de Riane Eisler. De uma forma geral era uma cultura baseada em valores
hedonistas, de prazer, de valorização do lado belo e de harmonia da vida, e a
arte, que chegou até nós, demonstra-nos isto de forma evidente: desde joias, a
estatuária, aos frescos, entre outras formas de arte descobertas.
Em termos de estilo de vida, os cretenses eram fortemente
ligados à natureza e ao respeito e usufruto da mesma, pelo que até as
habitações particulares, edifícios públicos e demais construções refletiam esse
estilo de vida.
No entanto, nenhum destes aspetos, e esta é uma das
singularidades que mais sobressaem, conduziu a uma sociedade onde a noção de
poder fosse autocrática ou baseada na violência ou exploração de uns grupos
sociais por outros. De forma alguma existem indicações de que o poder estivesse
concentrado apenas num reduzido número de indivíduos, nem tão pouco que se
tratasse de uma sociedade baseada no poder armado: verificou-se a ausência de
estruturas de defesa ou fortificações. O que sugere que a participação em
guerras dentro ou fora da ilha seriam provavelmente quase inexistentes.
Ainda assim, é pouco provável que não tenham existido combates
para defenderem o seu rico território, no entanto, não eram esses os seus
valores dominantes, nem a própria arte cretense valoriza ou glorifica os atos
de guerra.
As mulheres estavam mais retratadas “nas artes e ofícios”, o
que reflete uma posição social, religiosa, política e económica elevada ou de
destaque, e eram frequentemente retratadas na esfera pública, o que é sinónimo
de respeito e prestígio na sociedade (ao contrário daquele que, posteriormente,
foi o sentido da evolução cultural humana, que remeteu cada vez mais as
mulheres para a esfera doméstica e privada, sem serem vistas nem terem “uma voz
própria”). O papel feminino era bastante ativo em todas as esferas da
sociedade.
De facto, toda a conceção de beleza, de paz, de harmonia,
lúdica e de respeito (pelo outro e pelo meio ambiente), e a própria posição
igualitária entre sexos, presentes nos traços culturais e no legado artístico
de Creta, já nos indica que estamos na presença de uma sociedade que não é
dominada pelos valores “ditos masculinos”, da guerra, da destruição ou da
violência.
Os próprios valores cretenses, baseados “num espírito
feminino”, como se observa na História da Arte, na perspetiva de Jaquetta
Hawkes, espelhavam-se até na arquitetura característica da ilha.
Aliás, é sobretudo através da arte que chegam até nós os
mais evidentes indícios de que o poder era exercido pelas mulheres: a autora
fala-nos da própria “(…) influência da sensibilidade feminina — [que ofereceu]
notável contribuição à arte minóica".
O culto da Deusa, ali, era absolutamente central, e Ela é
representada, por exemplo, num papel supremo: numa carruagem que leva um
defunto para a sua transformação e renascimento, no eterno ciclo da
vida-morte-vida. As Suas sacerdotisas
são frequentemente representadas, em frescos, liderando procissões, cultos e
rituais. A própria historiadora da arte, Hawkes, coloca a hipótese de existir
uma rainha cretense, que também é retratada: ou seja, estamos perante o próprio
centro do poder, no feminino.
Toda a presença da simbologia da Deusa (intensamente ligada
à natureza, tal como a borboleta e a serpente, símbolos da transmutação e
metamorfose, e o machado de lâmina dupla, utilizado no cultivo agrícola, que
simbolizava a própria divindade da transformação e do renascimento, e também a
fertilidade da terra, sustento de toda a população) é outro fator que indicia o
poder das mulheres nesta sociedade, pois surge com muita frequência nos mais
variados objetos de arte que foram descobertos.
Outro facto que indicia que a cultura, essencialmente
centrada na Deusa e no papel e poder femininos, estava bastante enraizada, é o
de que, mesmo após o início do período histórico seguinte, a Idade do Bronze, e
com a complexificação das estruturas sociais, isso não significou em Creta o
declínio do poder nem do status das mulheres, pelo contrário, pareceu até
fortalecê-lo. A Deusa continuou a ser
cultuada e a ser o centro da vida nesta civilização. E, como tal, os seus
princípios de conceção “feminina” do mundo, prevaleceram, da mesma forma que a
importância do papel das mulheres também.
Avançando mais ainda nesta interpretação, temos a evidência
de que o poder nesta cultura estava intimamente ligado ao sexo feminino, pois,
tal como nos refere Eisler, “(…) em Creta as virtudes "femininas" de
concórdia e sensibilidade tinham prioridade social” – aspetos que não eram
desvalorizados, como acontece(u) noutras culturas, e de que houve uma noção
diferente de poder.
O poder era exercido não com base na força física ou do
confronto militar ou da subjugação, mas sim com base numa noção de “responsabilidade
maternal” (uma “característica do modelo de parceria da sociedade”, citando a
autora).
Por fim, temos outra forte confirmação de que o poder era
exercido pelas mulheres na sociedade cretense: a sucessão e herança eram feitas
por linhagem feminina. Estamos, portanto, perante uma sociedade matrilinear.
Uma sociedade onde a Deusa assume o poder divino central, e as
sacerdotisas/rainha exercem o poder temporal, pese embora se mantivesse sempre
o espírito de harmonia e igualdade entre mulheres e homens cretenses.
Esta mensagem, em minha opinião, reflete-se nos seguintes
aspetos: ausência de guerra e os valores de convivência pacífica e harmoniosa;
valores ecológicos e de respeito pela natureza; uma conceção diferente de poder
e um conceito diferente de governação.
A ausência de guerra e a centralidade dos valores de paz,
estabilidade e harmonia entre povos vizinhos ou distantes é outro aspeto. Não
se registavam manifestações que habitualmente conotamos como “características
masculinas” de orgulho ou barbaridades para com o outro. A própria arte de
Creta espelha a ausência de “dominação, destruição e opressão”, como refere a
autora.
Verificámos em Creta a quase ausência de conflitos militares
dentro da própria ilha ou com territórios circundantes, ao contrário do que
prevalece ainda hoje, nas culturas predominantes, de valores patriarcais, onde
a guerra parece ser o infrutífero e destrutivo modo de “resolução” de conflitos
entre povos.
Valores ecológicos e de respeito para com a natureza: O
culto da Deusa, vista como a Grande Mãe de tudo o que existe e A grande
provedora da própria subsistência das comunidades, profundamente centrado na
própria natureza, nos ciclos das estações e na abundância e prosperidade que
advinham da terra e das atividades agrícolas, com certeza que foi a base deste
mesmo respeito por tudo o que se relacionasse com a vida natural. O que entra em
franco contraste com todas as agressões que as comunidades humanas têm vindo a
cometer para com os ecossistemas, e este é um dos exemplos mais fundamentais
para a humanidade atual, porque dele depende a própria sobrevivência da espécie
humana e do Planeta.
A mensagem principal que Creta nos transmite, na atualidade,
é, pois, a de que é efetivamente possível e exequível (e não uma fantasia),
pensar e construir uma sociedade de paz, de justiça social, de igualdade em
todos os sentidos, do respeito pelo planeta em que vivemos, sem prejuízo do
crescimento económico, do desenvolvimento tecnológico e do bem-estar material
dos indivíduos. É possível, efetivamente, construir uma sociedade em que
prevalece a cooperação e a “parceria”, como lhe chama Eisler, em vez de
destruição e dominação.
Texto de: Andreia Mendes
Imagens: viagem a Creta 2015, Luiza Frazão
sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
O Segundo Sexo, O Cálice e a Espada e o poder das mulheres do passado
(…) Simone de Beauvoir refere categoricamente que as mulheres “(…) não têm os meios concretos de se reunir em uma unidade que se afirmaria em se opondo. Não têm passado, não têm história”. E que “(…) a divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico e não um momento da história humana”.
Ora, à luz do que atualmente sabemos, e do estudo da obra de
Riane Eisler, consideramos agora que estes factos não são exatamente rigorosos.
E que houve, efetivamente, civilizações evoluídas e avançadas, em que a
“eterna” dependência feminina, que Simone de Beauvoir considera ter sido a sua
única condição, pura e simplesmente não existia.
Sociedades “perdidas no tempo”, porque, tal como realça
Riane Eisler, “(…) quando havia evidência de um período de tempo anterior em
que homem e mulher viviam como iguais, esse período simplesmente era ignorado.”
Sociedades, sendo a Cretense um dos exemplos mais
esplendorosos, em que se cultuava a Deusa-Mãe, onde a ordem social surge
centrada na mulher e na mãe, que assumiam papéis sociais e religiosos
importantes, como sacerdotisas, por exemplo. Onde detinham um elevado status, e
uma elevada participação social. Sociedades com uma organização matrifocal e
matrilinear, mas não matriarcal. Sociedades cuja base eram os princípios da
igualdade, cooperação e de “parceria” entre os sexos, tanto na esfera privada
da vida social, como na pública. A obra de Riane Eisler veio detalhar e lançar
uma nova luz sobre estas culturas “diferentes”, provavelmente bastante mais
igualitárias do que aquela em que De Beauvoir viveu…
Porém, e apesar dos postulados com que inicia a sua teoria,
ainda assim de Beauvoir coloca uma questão, mais pertinente que as duas referidas
inicialmente, e que nos fazem associá-la inevitavelmente à tese de Riane
Eisler:
“Resta explicar por que o homem venceu desde o início.
Parece que as mulheres deveriam ter sido vitoriosas.”
Questão que Riane Eisler nos respondeu, décadas mais tarde,
contrariando o que se havia assumido como uma verdade absoluta: a dependência
das mulheres em relação aos homens.
Não só, como já verificámos, isto nem sempre foi verdade,
como a própria evolução humana deveria, precisamente, ter apontado para uma
“saída vitoriosa das mulheres” – ou, pelo menos, para o que Eisler designa de
uma “cultura de parceria”, em vez de uma “cultura de dominação”, de acordo com
a sua Teoria da Transformação Social.
É muito interessante constatar como as duas teses, sendo
contraditórias em alguns aspetos, encontram pontos de encontro surpreendentes.
Porque as antigas sociedades onde a Deusa era cultuada,
baseada em valores “ditos femininos” de compaixão, paz, estabilidade, partilha,
dádiva e parceria, foram sendo suplantadas, num dado momento da história da
Humanidade, progressivamente, pelo poder bélico e destruidor de outros grupos
sociais, para quem a conquista, a força física e a subjugação eram os valores
dominantes.
A frase de Simone de Beauvoir, na página 13 da sua obra, é
paradigmática: “Se a mulher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao
essencial é porque não opera, ela própria, esse retorno.” E acaba por ser
“visionária”, talvez sem o suspeitar. Porque se trata, de facto de um
“retorno”, de um “regresso”, no âmbito da evolução humana, ao status quo das
sociedades da Deusa, que engloba a mulher numa posição em pé de igualdade em
relação ao homem, independente, em todas as vertentes da vida social, e em
comunidades onde vigoram os valores “de parceria”.
Andreia Mendes
Imagem 1: https://educacao.uol.com.br/
Imagem 2: https://www.aneconomyofourown.org/riane-eisler
Imagem 3 : Creta
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
Notícias do Sol em manhã de Inverno
Esta manhã o sol brilhava intensamente quando abri a janela do meu quarto rasgada a Leste. Saudei-A como faço habitualmente, à Mãe do Fogo, a nossa Estrela do Dia, Trebaruna, Brígida, Sul, Sula, Aurora, e fechando os olhos, visualizei a Sua luz dourada penetrando em cada célula do meu corpo, trazendo-me energia e renovação, fé, entusiasmo, propósito e capacidade de agir neste mundo. Preciso de me lembrar de que o fiz quando a letargia bater à porta, e de me sintonizar com a energia solar que convoquei para o meu corpo e para a minha alma. Preciso de muita energia para tudo o que tenho de organizar e agora também para responder a todas as mil e uma questões que começam a chegar de todos os lados...
Das tarefas que tenho de fazer, as mais agradáveis são sem dúvida a leitura, e vários livros demandam agora a minha atenção. São os meus livros de estudo, melhor dizendo. Deusas Solares, Êxtase, Feminino Activo e Solar e temas afins.
Incrível como nos temos contentado com a Lua com centenas de Deusas do Sol a acenarem-nos nos diversos panteões do mundo, mas cuja existência basicamente desconhecíamos, embora a própria Brígida, se pararmos para pensar, seja uma delas. Mas fomos levadas a voltar-lhes as costas, conformadas com o nosso reino da noite, com a luz projectada de fora, com a passividade como dote do nosso casamento com as sombras... o que, convenhamos também tem sido uma boa desculpa para não entrarmos em pleno na cena do mundo. Antes deixámo-la ser dominada por um masculino solar abrasador, desertificador, atómico, nitidamente com necessidade da sua contraparte lunar para equilibrar os excessos de todo esse fogo malparado...
Mas tanto que fazer neste dia, acrescendo-se tarefas tão banais como ir à mercearia... e os meus pés com tantas saudades de pisarem a terra...
E depois gerir todas as solicitações de pessoas querendo vir oferecer o seu saber à nossa Conferência... Como dizer "já não cabe", "já não é possível", a tanta abundância, qualidade e generosidade?... parece que estamos a precisar de magia para gerir o programa, de ser capazes de esticar o tempo... Mas para já, Mãe Sol, apenas um sentimento, Gratidão.
Imagem: estandarte da Deusa Trebaruna realizado por Helena Lebre
sábado, 9 de janeiro de 2021
POR QUE ESTUDAR A ANTIGA CIVILIZAÇÃO DE CRETA É TÃO IMPORTANTE PARA NÓS?
Uma História que nos Traz Esperança, por Elizabeth Chloe Erdmann
Há muitos anos atrás, havia uma antiga civilização minoica
na ilha grega de Creta que foi anterior às nossas ideias mais comuns de como
era a Grécia antiga ...
Antes de Platão, Aristóteles, da Acrópole, antes de
Alexandre - antes da Guerra de Troia - antes de Esparta...
Havia uma civilização como nenhuma outra em Creta, a maior
das ilhas gregas flutuando de forma autossuficiente num espaço entre o sul da
Europa e o norte da África; era uma cultura de comércio marítimo. Há quatro mil
anos, pequenas aldeias agrícolas começaram a construir "centros
sagrados", geralmente chamados de "estruturas palacianas". O seu
fim permanece um mistério altamente contestado. Os valores da Creta antiga eram
semelhantes a muitas culturas e tradições indígenas - como os Haudenosaunee ou
os iroqueses: reverência por todas as espécies animais e vegetais e um sentido
profundo da natureza colectiva da existência.
Então, o que acontecia antes nessa misteriosa ilha de Creta?
Os seus frescos retratam jogos que consistiam em saltar
sobre um touro. (Sim, falamos de pessoas que saltam sobre os chifres duma
criatura bovina.) Isso contrasta totalmente com o foco na violência contra os
animais, como touradas e sacrifícios, retratados nas civilizações que se sucedem
à minóica. Os frescos minoicos mostram figuras masculinas e femininas agarrando
o touro pelos chifres e saltando através deles dando uma espécie de salto
mortal. Saltar sobre o touro poderia ter sido um desporto sagrado e extático
para a geração mais jovem ou um tipo de iniciação.
Então, voltando ao que aconteceu com essa cultura, é algo de
muito misterioso. Sabemos por escavações que houve um imenso evento vulcânico
catastrófico na antiga Thera (agora conhecida como Santorini), que enfraqueceu
a cultura minoica. A chegada dos micénicos da Grécia continental levou a uma
mistura relativamente breve de culturas. Na arte micénica, vemos cenas que
retratam heróis conquistando a natureza, mulheres como vítimas e violência
contra animais. Depois de algumas centenas de anos, a sociedade micénica chegou
ao fim. As pessoas retiraram-se para as montanhas e a Grécia entrou num período
conhecido como idade das trevas que durou cerca de quinhentos anos. Depois
disso, vieram Homero e os famosos filósofos da Grécia.
Existem traços da visão de mundo minoica na nossa cultura? E
por que devemos preocupar-nos com Creta e a cultura minoica?
Elizabeth Chloe Erdmann é uma teórica apaixonada pela “Teologia Nómade”
- com uma profunda atracção pela história relacionada com a Deusa. Erdmann tem
mestrado em estudos teológicos pela Boston University, esteve associada à Amarkantak Tribal University na Índia e actualmente
faz um doutorado pesquisando sobre o Contemporary Feminist Goddess Worship
& Thealogy, na University College Cork, Irlanda. É autora publicada e
palestrante regular sobre cultura, religião e feminismo e co-lidera a
Peregrinação da Deusa, que tem lugar na Primavera a Creta, com Carol P. Christ.
Mora em Chittenango, no interior do estado de Nova York, nas terras ancestrais
da soberana Nação Onondaga, guardiães do fogo do Haudenosaunee - um povo
indígena matrilinear com muitos costumes semelhantes aos da Creta antiga. Envolvida
em ativismo e pesquisa com Sally Roesch-Wagner, no centro Matilda Joslyn Gage
para Justiça Social em Fayetteville, NY, considera-se uma mulher curiosa e
apaixonada pelos mistérios do mundo.
https://feminismandreligion.com/2020/10/26/a-story-to-inspire-hope-by-elizabeth-chloe-erdmann/#more-50552
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
Magia de Natal - faça você mesma
7 de Janeiro, dia de desmontar a árvore e as decorações de Natal
A árvore de Natal, pinheiro, ou abeto, é um símbolo de permanência no confronto com a realidade da finitude da vida, proposto pelo Inverno. Por isso a decoramos com luzes, brilhos e cores, com bolas que evocam a luz do sol eterno, que renasce pelo Solstício.
Quando o frufru natalício se anuncia e me atinge também a mim, dou asas à imaginação do meu self-criança, e à minha, e juntas montamos a árvore, sempre inspirada no tema da infância, e nos últimos tempos honrando também a Deusa que venero. Mas sem dúvida que ela é dedicada em especial ao meu tempo de criança, quando esta celebração era motivo de tanta excitação, pura alegria (havia férias!) e deleite. No coração do Inverno, inóspito, húmido, enregelado, a festa do Natal reconfortava e aquecia a alma. Nunca vou esquecer o encantamento provocado pela visão súbita do cortejo de pequenos anjos que irrompia capela adentro a meio da missa desse dia na aldeia. Era como se um portal se abrisse directamente no céu trazendo até nós a visão de criaturas do altíssimo. Tão pouco esquecerei a dor da revolta pelo cancelamento sem mais desse prodigioso evento. Profunda agonia por sentir que qualquer pedaço de paraíso podia ser tão fugaz, tão facilmente destruído, como se não houvesse vontade humana suficiente para dele cuidar, nem suficiente compreensão da importância primordial da beleza, o próprio amor solidificado, materializado ali naqueles anjinhos vestidos de branco delicado como os seus passinhos de criança e as suas solenes asas de penas. Era inquietante saber que não havia nesta dimensão guardiãs e guardiães do paraíso à altura, suficiente protecção contra cultivadores de distopias. Foi muito cruel.
Pode ter sido aí que o meu compromisso com a utopia e a magia foi assinado, embora também seja possível que ele venha da noite dos tempos, dos alvores da história da minha alma, uma suspeita levantada pelo encontro com François Vatel, do filme estreado no ano de 2000. Claro que o genial mordomo do Príncipe de Condé tinha meios com que não tenho sequer competência para sonhar. Restam-me os requintes dos musgos, das bagas negras das heras e do alfeneiro, das pinhas, da verdura da época e dos enfeites vários coleccionados ao longo dos anos e actualizados de acordo com as alterações do gosto. Nos últimos tempos, além de satisfazerem os caprichos da minha criança interior, eles procuram também honrar a minha devoção à Deusa. Foi assim que as aves do paraíso vieram em bando, ou que fui atraída por um enfeite com a forma da mão de Tanit, por outro que replica a Babuska, pela miniatura do gato chinês, que tem como origem uma antiga Deusa, por outro ainda com a forma dum balão de hidrogénio, honrando a Mãe do Ar deste festival.
Por debaixo da árvore, sapatinhos, como é lógico, já que não tenho lareira: umas botas que foram usadas pelo meu pai em criança, uns sapatos de menina dourados com fivela de brilhantes trazidos duma charity shop inglesa, e ainda uma cadeira de fada, uma caixa rosa fúchsia brilhante para as rifas de Natal, uma lanterna e, no lugar de honra, a minha colecção dos quatro The Lady Bird Nature Books, que com a compostura, a graça e a candura dos anos 50 do século XX, ensinavam a nossa criança a ver a paisagem, a reconhecer as alterações, as marcas e os sinais que cada estação imprime na natureza e nas actividades humanas. Por vezes também lá ficam a destilar o seu sortilégio a colecção de Contos de Andersen ou o livro das Princesas Esquecidas e Desconhecidas, de Rebecca Dautremer e Philippe Lechermeir…
Com o tempo, criei tradições de Natal muito próprias e pessoais, e repito-as,
ou recrio-as, a cada ano. Sozinha ou acompanhada, pouco importa neste capítulo.
Depois do sumiço que levou o cortejo encantado dos anjinhos de Natal, e do encontro
com outros e outras desmancha-prazeres, cuidei de aprender a criar magia para
consumo próprio. Sem dúvida uma das melhores aprendizagens que levarei desta
vida.
Luiza Frazão
quarta-feira, 9 de dezembro de 2020
O SOL DA DEUSA - A LUZ QUE GUIA E O CALOR DA VIDA CONSCIENTE
A lua tornou-se uma
das imagens centrais da espiritualidade da Deusa. No entanto... precisamos de examinar
a sua potência contra-imaginal - o sol. Se a Deusa deve estar totalmente
representada na nossa sociedade, ela também deve ser a luz que guia e o calor da
nossa vida consciente. O Sol não deve ser considerado apenas como um símbolo
patriarcal irrecuperável, mas como uma representação da vida e do alegre prazer
da Deusa.
O sol é uma força activa que governa a cura, a luz e a
abundância por fazer crescer as searas. A lua entretanto é vista como passiva,
governando a noite, a psique e os mares através da sua capacidade para criar as
marés. Mas se te perguntassem pelos géneros destas luminárias o que dirias?
Quase sempre a resposta seria que o sol é masculino e a lua
feminina. Na verdade, a lua é talvez o símbolo mais conhecido do divino feminino
na actual espiritualidade da Deusa. No entanto, se tivesses feito a mesma
pergunta a uma pessoa pagã do passado, terias muito provavelmente tido uma
resposta diferente. Enquanto na Grécia e em Roma se reverenciava a lua como
Artemis e Diana e o sol como Hélios e Apolo, o conceito dum sol masculino e
duma lua feminina não era universalmente partilhado em todos os sistemas
mitológicos. Das tribos celtas ao povo Inuit da América do Norte, o sol era
visto mais frequentemente como uma deusa do que como um deus.
Então como é que hoje em dia vemos o sol como sendo
exclusivamente masculino? Quando comparamos os papéis e géneros das luminárias
entre culturas, torna-se claro que as nossas antepassadas e os nossos
antepassados pagãos não conseguiam atingir a unanimidade sobre a questão do sol
ser masculino e a lua feminina. Encontramos panteões que cultuavam deuses
solares e deusas lunares e outros que viam o sol como feminino e a lua como
masculina.
Parece que o povo celta não conseguia decidir-se nesta
matéria, tendo numerosas deusas lunares mas também deusas solares, que coexistiam
com deuses solares. De forma semelhante, no Egipto também havia deuses e deusas
solares. Assim sendo, se algumas culturas veneravam o sol como uma deusa e
outras como um deus, e outras ainda como deus ou como deusa, por que razão é
que hoje em dia o conceito de sol feminino nos parece tão pouco familiar?
Em última análise, o conceito do sol como exclusivamente
masculino é bastante recente e a origem desta classificação exclusiva remonta à
época vitoriana.
Apesar da deusa solar parecer um conceito estranho para
muitas e muitos de nós, ela está mais presente no paganismo moderno do que
aquilo que poderíamos supor, apenas não a classificamos como tal. Com efeito,
Brígida, uma das deusas mais populares do panteão celta e cujo festival o
paganismo celebra a cada Imbolc, tem inúmeros atributos solares. Apesar disso,
Brígida é habitualmente referida como deusa do fogo e da inspiração, nunca como
uma deusa solar.
As suas conexões solares permaneceram até nas histórias de
santa Brígida, a versão cristianizada da deusa. Santa Brígida veio ao mundo ao
nascer do sol e a casa onde nasceu brilhava com tal intensidade que a vizinhança
pensou haver um incêndio, mas quando foram ver, essa luz que viam emanava da
própria santa. Também se diz que um dia ela suspendeu a sua capa de um raio de
sol. Era ainda sobejamente conhecida a sua habilidade para curar a cegueira,
uma capacidade comum às deusas solares, uma vez que o sol era considerado uma
espécie de “olho” no céu.
Interessante é ainda o facto de tanto o nome irlandês como aquele
que era usado no inglês antigo para designar o sol era feminino, indicando que
estes povos viam o sol como uma força feminina. Sem esquecer que a cruz de
Brígida não passa duma representação simbólica do sol.
In Drawing Down the Sun, Rekindle the Magic of
the Solar Goddess, Stephanie Woodfield, 2014
Imagens:
Imagem 1 - https://druidry.org/resources/brigid-survival-of-a-goddess
Imagem 2 - https://www.pinterest.co.uk/catnewell1/goddess/
sábado, 31 de outubro de 2020
ARQUÉTIPOS DA SOMBRA - A SOLTEIRONA... depois da BRUXA...
Nesta altura do ano em que é inevitável enfrentarmos a Sombra, é inevitável também falarmos dos aspectos amaldiçoados do feminino, até porque vamos ganhando cada vez mais consciência deles. Esses aspectos têm a ver essencialmente com questões de Liberdade, um direito que é muito prejudicial para o Patriarcado reconhecer plenamente à mulher. Liberdade para fazer escolhas, para se ser independente, inteira e completa em si mesma, para se viver como se quer. Esses aspectos que foram denegridos, como Megera ou Medusa, têm também a ver com força e poder, poder de dizer não, de se autodefender, de não agradar a toda a gente, de estar maldisposta, de não ser a boazinha de serviço, de escolher não entrar numa estrutura, numa instituição em que temos sido (e só por isso mesmo tem sobrevivido) a parte mais fraca…
Verdade que resgatámos com sucesso o título de Bruxa, mas há pelo menos um que continua a não parecer nada bonito: Solteirona! Aquela que "ficou para tia"... Basicamente é sempre bom desconfiar de títulos que não se aplicam ao homem, ou que perdem impacto no masculino... Há quantos anos já a filósofa feminista Mary Daly (1928-2010) levantou do chão esse título maldito entre os malditos dado pelo pensamento patriarcal a uma mulher que não se casou?... Assim, na língua inglesa a palavra Spinster já figura há muito na lista dos epítetos femininos resgatados da ignomínia misógina, precisamente pelas feministas. Título a reclamar sem medo, com alguma ironia, para depois o desvalorizarmos, por aquilo que ele nos diz sobre a forma como temos permitido ser definidas na nossa relação com o homem.
Imagem: https://www.theguardian.com/books/2015/aug/02/spinster-kate-bolick-review-self-indulgent
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
ALEXANDRA DAVID-NEÉL - exploradora, feminista, escritora espiritualista, budista, anarquista, reformadora religiosa
Neste mês de Outubro, a 24, comemora-se o aniversário da escritora e exploradora Alexandra David-Néel, nascida em Saint-Mandé, França, em 1868. Alexandra teve uma infância infeliz, filha única de pais amargos que brigavam constantemente e tentou fugir várias vezes, desde os dois anos de idade. Quando adolescente, viajou sozinha por alguns países europeus, incluindo uma viagem de bicicleta por Espanha. Quando tinha 21 anos, a jovem herdou dinheiro dos pais e usou-o todo para ir ao Sri Lanka, chegando até a trabalhar como cantora de ópera por um tempo para ajudar a financiar as suas viagens. O que lhe interessava especialmente era o budismo.
Alexandra David-Néel disfarçou-se de tibetana e conseguiu entrar na cidade de Lhasa, que na época era proibida a pessoas estrangeiras. Aprendeu a língua e tornou-se fluente em tibetano. Conheceu o Dalai Lama, praticou meditação e ioga e caminhou pelo Himalaia, onde sobreviveu comendo o couro das suas botas e uma vez escapou por um triz de uma tempestade de neve com uma meditação que aumenta a temperatura corporal. Os habitantes locais pensaram que ela poderia ser a encarnação de Thunderbolt Sow, uma divindade budista feminina. Alexandra tornou-se uma lama tântrica no Tibete aos 52 anos.
em O Almanaque do
Escritor e https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandra_David-N%C3%A9el
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