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quarta-feira, 22 de maio de 2013

DEUSAS SOLARES



Embora a iconografia ocidental considere geralmente o sol como sendo do género masculino e a lua do género feminino, a antiga tradição oriental fala do sol no feminino. Os clãs que governavam o antigo Japão situam a sua origem na poderosa Deusa Solar, Omikami Amaterasu. Em 238 AD, as tribos japonesas eram governadas por uma rainha chamada Himiko, Filha do Sol.

A Grande Mãe hindu tomou a forma do sol enquanto deusa Aditi, mãe das doze Adityas zodiacais, espíritos cuja luz era revelada no dia do Juízo Final. No Mahanirvanatantra é dito que o sol era a indumentária da Grande Deusa: “O sol, o símbolo mais glorioso no mundo  físico, é a indumentária daquela que está “vestida com o sol”. A mesma deusa, identificada com Maria, aparece nos Evangelhos como a “mulher vestida de sol” (Revelação 12:1).

O Budismo Tântrico reconheceu um precursor da Mari do Oriente Médio, ou Maria, como o sol. Na aurora, os seus monges agradecem-lhe enquanto “a gloriosa, o sol da felicidade… Eu saúdo-te, ó Deusa Marici! Abençoa-me e satisfaz os meus desejos. Protege-me, ó Deusa, de todos os oito medos”.

Quando os japoneses reviram a sua mitologia para adaptá-la às novas ideias patriarcais, a Deusa Marici foi masculinizada e o facto dela ter sido um dia identificada com Omikami Amaterasu foi esquecido. Havia no entanto uma estranha ambivalência envolvendo o “poderoso deus” chamado Marici-deva ou Marici-ten. “Ele” era chamado protetor do sol, aparecendo no entanto sempre vestido com a indumentária duma mulher chinesa, indicando uma origem feminina com raízes a leste do Japão.

Entre os antigos árabes, o sol era uma Deusa, Atthar, por vezes apelidada de Archote dos Deuses.

Os celtas tinham uma Deusa Sol chamada Sulis, nome que vem de suil, que significa ao mesmo tempo “olho” e “sol”. Os povos germânicos chamavam-lhe Sunna. Para os noruegueses, ela era Sol. Na Escandinávia, era igualmente conhecida como “Glória-dos-Elfos”, a Deusa que daria à luz uma filha depois do juízo final, produzindo assim o sol da nova criação. Nos Eddas diz-se “uma filha radiante a brilhante sol conceberá antes de ser engolida por Fenrir; e a donzela trilhará o caminho de sua mãe quando os deuses consumarem a sua própria desgraça”.

A Deusa Sol Sul, Sol, ou Sulis era cultuada na Britânia na famosa colina artificial do complexo megalítico de Avebury, conhecido atualmente como Silbury Hill. Aí ela pariu cada novo Éon, que saiu do seu útero-túmulo, com mais de 130 pés de altura e mais de 500 de diâmetro. “A influência da deusa britânica Sul estendeu-se a grande parte do sudoeste de Inglaterra, e o seu culto parece ter tido praticado no alto de montes com vista para nascentes. Assim, perto da  nascente de Bath temos o monte isolado chamado Solsbury, ou Salisbury, provavelmente o seu lugar de culto”. Em Bath, os romanos identificaram Sul com Minerva e erigiram-lhe altares designando-a por Sul Minerva”.

Barbara Walker, The Woman’s Encyclopedia of Myths and Secrets, HarperSan Francisco, 1983

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A ECONOMIA DA DÁDIVA


Nos mails desta manhã, chega-me um texto da Carol Christ sobre a Economia da Dádiva, inspirando-se no exemplo da sociedade cretense atual com que convive nas suas frequentes deslocações com grupos de mulheres àquela ilha grega. Carol lembra-nos ainda o trabalho da ativista Genevieve Vaughan sobre este modelo económico com provas dadas durante milénios (de outro modo não estaríamos hoje aqui), que surge como uma solução para substituir o modelo económico capitalista patriarcal vigente com o qual muito dificilmente nos vamos safar, nós e o planeta…  

Poucas coisas me dão tanto prazer como o verdadeiro Potlatch de algumas segundas-feiras de mercado com a G, a minha prima L e por vezes a minha irmã… é porque naquele ambiente nós ainda comungamos completamente desse espírito tribal muito familiar e muito antigo, dessa segurança primordial em que nos permitimos relaxar no grande colo coletivo, sabendo que ali a nossa luta solitária e frenética pela sobrevivência encontra um autêntico momento de repouso…



O livro editado pela Genevieve Vaughan é este:

WOMEN AND THE GIFT ECONOMY
 A Radically Different Worldview is Possible
edited by Genevieve Vaughan
















Na Wikipedia encontrei isto na entrada “Economia do Dom”, gosto mais de “Economia da Dádiva”.
Por aqui ainda existem muitos resquícios deste tipo de economia, sobretudo nos meios rurais, onde as bênçãos duma horta são normalmente repartidas por familiares, amigos e vizinhos e outros bens são generosamente partilhados. Quando nos tornámos “ricos” ficámos muito mais egoístas e pobres de coração… acho.

Economia do Dom

"Em Ciências Sociais, economia do dom, economia da doação ou economia da dádiva ou ainda cultura da dádiva é uma forma de organização social na qual os membros fazem doações de bens e serviços valiosos, uns aos outros, sem que haja, formal ou explicitamente, expectativa de reciprocidade imediata ou futura, como no escambo ou num mercado. Todavia, a obrigação de reciprocidade existe, não necessariamente envolvendo as mesmas pessoas, mas como uma corrente contínua de doações.
A economia do dom é uma forma económica baseada sobre o valor de uso dos objetos ou ações. Contrapõe-se portanto à economia de mercado, que se baseia no valor de troca de bens e serviços. A doação é na realidade uma troca recíproca com algumas características definidas por convenções e não por regras escritas: a obrigação de dar, a obrigação de receber, a obrigação de restituir mais do que se recebe.
A economia de dom caracteriza as chamadas economias primitivas. Autossuficientes, elas podem realizar a troca do excedente produzido pelos poucos bens que não conseguem produzir.
Um típico exemplo de economia de dom é a prática do Potlatch dos indígenas americanos, como a economia dos iroqueses ou da Kula, a cerimónia dos habitantes das ilhas Trobriand. (...)"



quinta-feira, 11 de abril de 2013

CÍRCULOS E... RODAS


Resposta de Cacilda Rodrigañez Bustos à editora argentina Madreselva, de Buenos Aires, pela edição que fez da sua obra PARIREMOS COM PRAZER, substituindo a palavra “corro” (roda) por “círculo”, em outubro de 2010.
Tradução do e-mail enviado pela autora à editora:

Pergunto-me a mim mesma se pode haver pessoas que não tenham sentido nunca o desejo de acariciar com a sua mão a mão de outrem, o impulso  imperativo de vincular as mãos com outras mãos e de mantê-las ligadas.  É possível que a rigidez do corpo atinja o ponto de não se ter na memória o registro do toque mais básico? Até que ponto podem os esquemas mentais artificiais esmagar a pulsação orgânica? E a resposta que eu dei a mim mesma é que sim, que existem pessoas domesticadas e  desvitalizadas o suficiente para não sentirem o mais elementar desejo, corpos embutidos de misticismo e do fanatismo, que realizam a sua ginástica para manter se manterem nos limites duma determinada capacidade muscular.


Sim, há pessoas que não sabem o que é o desejo ou o que é, ou era, uma roda; que a roda era formado assiduamente por mulheres e meninas que entrelaçavam as mãos umas com as outras movidas por um desejo concreto e imediato, por um impulso de prazer e de comprazimento, com as suas brancas mãos, como dizia Gôngora, com um branco desejo, como diria Cernuda. O desejo leve e subtil que nem por o ser é menos intenso, menos complacente, menos prazenteiro. Gente que não sabe o que é uma roda, e que a confunde com um simples círculo, que é uma figura geométrica, a projeção do sol ou de qualquer outro objeto que tenha forma circular. No entanto, a roda, por definição, é formado por corpos vivos, movidos pelas suas pulsões. Por conseguinte, se dizemos “círculo” em vez de roda, estamos a engolir os corpos que formam as rodas. As rodas estão vivas, são compostas por seres vivos, movendo-se com o impulso dos seres vivos que a formam, o que é todo o contrário duma abstração, duma figura imaginária. Nunca melhor metáfora da substituição da vida pela morte. Nunca em toda a história do patriarcado houve exemplo mais claro da sublimação das pulsões sexuais. O movimento dos corpos vivos sobre a terra fossilizado numa figura geométrica.

O fascismo de base são pessoas que têm os corpos encarquilhados e disciplinados, e por isso não sabem o que é uma roda. Em contrapartida, as forças que as controlam, essas sabem bem qual é a diferença entre a roda feminina e o círculo, e por isso escrevem obras de propaganda para que ninguém saiba o que é o desejo e os seus jogos. E como as obras encomendadas não devem ser suficientes, têm de usurpar o trabalho genuíno feito com base na vida e na verdade, para que continuemos a não entender a diferença entre dizer “roda e dizer “círculo”. Os corpos amortalhados, convertidos em figuras geométricas, sobre mortas ardósias.

Não se dão conta de que o meu trabalho é apenas o trabalho de uma pessoa, que o podem perseguir e destruir, como tantos outros trabalhos e tantas outras pessoas. Mas nós apenas falamos e escrevemos sobre os factos da vida, e as coisas continuarão a ser como são sem que nada as afete. Poderão matar e torturar, continuar a matar, mentindo e torturando, aniquilando milhares de milhões de vidas humanas, que a vida, enquanto vida houver, continuará a ser e a funcionar como ela é e sempre foi.

Editorial Madreselva: em vez de se porem a fazer este tipo de “edições”, mais valia sentarem-se à espera de que brote em vós o puro desejo de acariciar um ser humano.

Cacilda Rodrigañez Bustos
11 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

SOMOS NÓS OS PRIMITIVOS CELTAS?

"Verificamos afinal que "a "misteriosa chegada" dos Celtas ao Ocidente da Europa (...) é substituída pelo panorama de uma mais primitiva diferenciação dos Celtas, enquanto grupo indo-europeu mais ocidental da Europa (1). E que a Europa Ocidental deve ter sido sempre céltica" (...)

 A estes testemunhos sobre a celticidade do território português temos agora de acrescentar um dos mais recentes estudos sobre a escrita tartéssica (abrangendo todo o Sul de Portugal e boa parte do Sudoeste de Espanha e datável entre 800-550 a. C.) de John T. Koch (2). Este investigador vem, aliás, ao encontro do já aventado Xaverio Ballester (3), um dos mais famosos defensores do novo paradigma da continuidade paleolítica: o tartéssico (tal como o galaico-lusitano, para Ballester) deverá ser talvez acrescentado à lista das línguas célticas mais primitivas. Também nesta obra de Koch se inclui um texto (4), devidamente fundamentado, a questionar seriamente as teorias tradicionais. Mapas muito elucidativos, inseridos neste artigo, apresentam o que hoje, à luz de novos conhecimentos, se considera ser muito mais provável: foi no Extremo Ocidental da Europa que se situou o berço dos povos Celtas.

(1) Alinei, M., A Teoria da Continuidade Paleolítica das Origens Indo-Europeias: Uma Introdução, Lisboa, Apenas Livros, 2008

(2) Koch, John T., Tartessian, Celtic in the South-West at the Dawn of History, Aberystwyth, 2009

(3) Ballester, Xaverio, Sobre el Origen de las Lenguas Indoeuropeas Prerromanas de la Península Ibérica, www.continuitas.com

(4) O'Donnell, Charles James, Celtic Studies Lectures, 2008 (Was the Atlantic Zone the Celts Homeland? e People called Keltoi, the La Tène Style, and Ancient Celtic Languages: the Threefold Celts in the Light of Geography), in Koch, John T., op. cit, pp. 132 a 142

in Portugal, Mundo dos Mortos e das Mouras Encantadas, Vol. I,  Fernanda Frazão e Gabriela Morais, Apenas Livros, Lisboa, 2009

Imagem Google

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

UM RITUAL PAGÃO NUNCA INTERROMPIDO



Tigh nam Bodach (the Hag’s House)

Localizado em Glen Calliche, perto de Glen Lyon, fica Tig nam Bodach (a Casa da Bruxa). Esta pequena estrutura em pedra contendo pedras moldadas pela água é conhecida como a  "Cailleach e as suas crianças". Nos meses de verão, do primeiro de maio ao primeiro de novembro, as pedras são colocadas fora do santuário, até que no começo do inverno elas regressam ao seu interior pelas mãos dos pastores locais.

Este é considerado o mais antigo ritual pagão nunca interrompido na Britânia e até mesmo, segundo algumas fontes,  em toda a Europa.

Trata-se de rituais relacionados com a divisão primordial do ano em duas estações, verão e inverno, o tempo da Deusa enquanto Donzela e o Seu tempo enquanto Anciã.

Fontes:
Sorita d’Este & David Rankin, Visions of the Cailleach)

Imagem: Google

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Faleceu Patricia Monaghan

Faleceu no último dia 10, aos 66 anos, Patricia Monaghan, poeta e feminista, autora entre outros títulos de O Caminho da Deusa, editado em Portugal pela Europa-América, livro que forneceu inspiração a muitas de nós, nomeadamente a mim no meu trabalho com os arquétipos do Feminino.

Patricia Monaghan Ph.D. publicou mais de 15 títulos, incluindo um sobre vinhos, matéria em que era perita, e os 2 volumes da Enciclopédia das Deusas e Heroínas. Foi uma das fundadoras do Black Earth Institut, no Wisconsin, onde vivia, apesar de também ter a nacionalidade irlandesa.

Considerada por muit@s uma verdadeira força da natureza, que entre outras atividades também se dedicava à agricultura biológica, Patricia Monaghan foi uma das primeiras autoras através das quais aprendi antigos rituais da religião da Deusa. Onde quer que estejas, irmã, a minha profunda gratidão pela tua força, inspiração e generosidade. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SAMHAIN - CELEBRAR O FIM DUM CICLO



Este é o momento do ano em que o ciclo da vida termina, tudo o que a terra produziu já foi colhido e armazenado, o grão, os frutos, os vegetais (resta-nos a azeitona, a nós, mas está quase...!). Tudo o que resta vai agora ser cortado rente pela foice da morte da Anciã e retornar ao útero da Mãe Terra para aí ser transformado. O caldeirão simboliza esse útero da Mãe onde tudo é recriado para voltar a nascer. Na natureza, vão acontecer processos de decomposição, de putrefação, de transmutação; pétalas, folhagem, galhos secos transformar-se-ão em húmus suculento, enquanto das sementes nova vida germinará para que o ciclo recomece. O tempo circular, o tempo da Deusa.
 
Este é o momento da hibernação, quando a vida se recolhe para o interior da terra, quando a nós humanos também apetece ficar em recolhimento no interior das nossas casas, no aconchego do calor da lareira, honrando esta época de introspeção, de avaliação daquilo que na nossa vida também precisa de morrer, de ser transformado. Momento ainda de confronto com a Sombra... Quando aceitamos fluir com a Vida, com a Natureza, quando compreendemos que dela fazemos parte enquanto criações da Deusa, aprendemos a aceitar, respeitar, valorizar, honrar e celebrar o processo da morte. Sabemos que somos energia eterna, que como dizia Lavoisier, na Natureza nada se perde, tudo se transforma e que por isso também nós estamos envolvidas e envolvidos neste ciclo de morte e renascimento. Assim aquelas e aqueles que nos precederam, que continuam a viver noutra dimensão, e a quem naturalmente na nossa cultura nós recordamos e honramos neste momento do ano. 

Pessoalmente, gosto de ir ao cemitério visitar o túmulo da minha mãe, do meu pai, das minhas avós e avôs, das tias e dos tios já falecidos. Levo-lhes flores e uma prece de gratidão pela herança que me legaram. No meu altar coloco um bolo para elas e para eles, aquilo a que agora chamamos bolo dos santos, herança duma tradição muito antiga, pagã, que como tantas outras o cristianismo teve de assimilar para conseguir impor-se e dominar enquanto religião. É óbvio que elas e eles não irão comer esse bolo de uma forma física, mas a energia amorosa que foi colocada na sua confeção e na intenção desta oferenda tocará a energia que são agora, e sempre foram, e que conecta os nossos corações.

Neste festival honremos a Deusa Anciã, a Deusa Negra do Mundo de Baixo e peçamos-lhe que nos ajuda a transmutar dentro do Seu caldeirão ou na fogueira que Lhe acendemos, aquilo que não queremos mais na nossa vida. 
E depois celebremos a Vida com muita alegria!

©Maria Luiza Oliveira Frazão

terça-feira, 30 de outubro de 2012

CRISE NO PATRIARCADO



A estrutura caractereológica do homem atual (que vem perpetuando uma cultura patriarcal e autoritária desde há entre 4 a 6 mil anos) caracteriza-se por um encouraçamento contra a natureza dentro de si mesmo e contra a m
iséria social que o rodeia. Este encouraçamento do carácter está na base da solidão, do desamparo, do insaciável desejo de autoridade, do medo, da angústia mística, da miséria sexual, da rebelião impotente, assim como duma resignação artificial e patológica. Os seres humanos adotaram uma atitude hostil àquilo que dentro deles mesmos está vivo, mas de que se afastaram. A origem desta alienação não é biológica, mas social e económica e não é detetável na história humana antes do surgimento da ordem social patriarcal.

WILHEM REICH
La Función del Orgasmo
citado por Cacilda Rodrigañez Bustos, em El Assalto al Hades


Imagem:  René Magritte

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

FILHAS DO PATRIARCADO


“É precisamente na mulher que tem uma relação pobre com a mãe que o arquétipo do si mesmo primeiro se constela, naquela que tende a buscar a sua plenitude através do pai ou do homem amado. […] Uma mulher expressou isso quase como um manifesto no começo da análise:
“Eu insisto em ter o carinho dum homem. Qualquer fonte feminina me enfurece. O homem é responsável pelo universo. As mulheres  não passam dum segundo lugar. Odeio túneis, Kali, minha mãe e este corpo de mulher. O que eu quero é um homem.”

O problema é que nós, mulheres muito feridas na relação com o feminino, quase sempre temos uma persona muito eficiente, uma boa imagem pública. Crescemos como filhas dóceis do patriarcado, frequentemente intelectuais e dotadas daquilo que denominarei “egos-animus”. Lutamos por defender as virtudes e ideais estéticos a nós apresentados pelo superego patriarcal. Mas enchemo-nos de autorrejeição e de uma sensação de profunda feiura e fracasso quando não conseguimos satisfazer nem aliviar as exigências de perfeição do superego.

Uma mulher com mais de dez anos de análise junguiana disse-me: “Passei anos tentando relativizar uma coisa que nunca tive: um ego verdadeiro”. Realmente, ela tem apenas um ego-animus, e não um que seja verdadeiramente seu para se relacionar com o inconsciente e com o mundo exterior. A sua identidade baseia-se em adaptações da persona àquilo que o animus lhe diz que deve ser feito; assim, ela a um só tempo, adapta-se às projeções que lhe impingem e revolta-se contra elas. 

Consequentemente, essa mulher quase não tem o sentido do seu núcleo pessoal de identidade, do valor e do ponto de vista femininos. Isto acontece por se terem valorizado, em relação às mulheres ocidentais, virtudes que frequentemente apenas se definem pela sua relação com o masculino: a mãe e esposa fecunda e bondosa; a filha agradável, dócil e delicada; a companheira diligente, discretamente encorajadora ou brilhante.

Como tantas escritoras feministas declararam pelos tempos afora, esse modelo coletivo e o comportamento daí resultante é inadequado para a vida; nós mutilamo-nos, enfraquecemo-nos, silenciamo-nos e enfurecemo-nos, tentando comprimir os nossos espíritos dentro dele, na certa exatamente como as nossas avós deformaram os seus corpos sensíveis dentro de espartilhos, por causa dum ideal.”

Sylvia Brinton Perera, Caminho para a Iniciação Feminina, Edições Paulinas, São Paulo, 1985 (adaptado)

Imagem: Liv Tyler em "O Senhor dos Anéis" (clique sobre a imagem para uma definição de consceitos junguianos como "anima" e "animus")


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

HOJE, 11 DE OUTUBRO, PRIMEIRO DIA INTERNACIONAL DA RAPARIGA

A CÉLULA "RAPARIGA" É UM CHIP QUE PODE MUDAR A NOSSA CONSCIÊNCIA COLECTIVA

A célula “menina”, ou “rapariga”, é uma célula, ou um conjunto de células, central para a evolução da espécie humana. Essa célula existe em tod@s nós, mas entretanto os poderes em vigência compreenderam a necessidade de a suprimir, reinterpretando-a, negando o seu valor, levando-nos a tomá-la por fraqueza, reduzindo-a, erradicando-a, matando a célula “rapariga” em nós.

 Imaginemos que a rapariga é um chip no macrocosmos da consciência colectiva, e que é preciso repensar e equilibrar o futuro de tod@s nós. Imaginemos que essa célula “rapariga” é compaixão, empatia, paixão, intensidade, vulnerabilidade, sinceridade, capacidade de associação, de relacionamento, intuição.

 Compreendamos que da compaixão decorre grande sabedoria, a vulnerabilidade pode ser a nossa maior fortaleza e as emoções têm a sua lógica própria que nos leva a tomar as medidas mais certas, radicais e salvadoras. Os poderes instituídos, no entanto, sempre nos disseram o contrário, que a compaixão turva o raciocínio, que atrapalha, que vulnerabilidade é igual a fraqueza, que não nos devemos deixar guiar pelas nossas emoções, que não devemos tomar as coisas a peito, pessoalmente.

 O mundo foi criado para evitar sermos uma rapariga. 

O que significará então ser um rapaz? Ser um rapaz significa não ser uma rapariga, ser um homem significa não ser uma rapariga, ser uma mulher significa não ser uma rapariga, ser um líder significa não ser uma rapariga. Ser uma rapariga é então algo de tão poderoso que é preciso treinar as pessoas para não o serem!

A ironia é que negar, suprimir, a rapariga, recusar o sentimento, nos trouxe até onde nos encontramos agora, a um mundo onde as mais extremas formas de violência, a pobreza mais terrível, a violação, o genocídio, a destruição do planeta e dos seus recursos, tudo está fora de controlo. Por termos suprimido as nossas células “rapariga”, não sentimos mais o que está a acontecer, não conseguimos sentir o peso do que está a acontecer connosco e com o planeta…

No Congo, por exemplo, uma terrível guerra que já matou mais de 6 milhões de pessoas dura há mais de 12 anos relacionada com a exploração de minério para exportar para o Ocidente. Os sentimentos são contrários aos interesses dos impérios, interferem com a exploração desenfreada, com o esventrar da Terra e com a exploração desenfreada e destrutiva das suas riquezas.

A célula “menina” foi suprimida tanto nas mulheres como nos homens, e nos homens os estragos foram ainda maiores. A educação dos rapazes, no sentido de os tornar “fortes”, obriga-os a distanciarem-se de si próprios, dos seus sentimentos, a não chorarem. Na verdade, as balas que eles usam na guerra são as suas lágrimas endurecidas… Quando não permitimos que os homens tenham acesso à sua Menina Interior, à sua vulnerabilidade, à compaixão, eles embrutecem, tornam-se agressivos e violentos. Ensinamos-lhes que devem sentir-se seguros quando não o estão, que devem fingir que sabem tudo quando não é o caso. Sem isso não teríamos chegado aonde nos encontramos…


Se é mau aquilo que fazemos com a menina dentro de nós, é terrível aquilo que fazemos com as raparigas por esse mundo fora.

elas são espancadas
queimadas com pontas de cigarros acesas
tratadas como lixo
espancadas pela mãe, o pai, os irmãos, os tios
passam fome deliberadamente, nos países ricos, para se assemelharem à imagem idealizada que têm de si próprias
são controladas
mutiladas
 vítimas de analfabetismo
levadas a sentirem-se mal por serem tão inteligentes e talentosas
silenciadas culpabilizadas
queremo-las suaves, com bons modos, menos intensas
são mortas no estado embrionários por serem raparigas
são escravizadas
violadas...

Elas estão tão habituadas a ser espoliadas de tudo aquilo que as torna humanas, que acabamos por transformá-las em objectos, em mercadorias. O comércio de raparigas é uma realidade em todo o mundo e em alguns países elas valem menos que as vacas ou as cabras…

Actualmente, uma em cada oito pessoas no mundo é uma rapariga entre os 10 e os 24 anos de idade. Elas são portanto a chave para o futuro da humanidade. Mas estão em sérios apuros porque enfrentam muitas desvantagens que as mantêm exactamente lá onde a sociedade quer que elas estejam: à míngua de cuidados médicos adequados, de educação, de comida saudável, de participação na força laboral, sobrecarregadas com toda a carga de tarefas domésticas e muitas vezes com a criação dos irmãos mais novos…

No entanto, é a condição das raparigas no mundo e da rapariga dentro de nós que vai determinar a nossa sobrevivência ou não enquanto espécie. 

A palavra de ordem que é imposta às raparigas de todo o mundo é o verbo “agradar”, as raparigas são treinadas para agradarem. Torna-se urgente mudar este verbo para “educar”, “activar”, “ocupar-se”, “confrontar”, “desafiar”, “criar”. Se ensinarmos as raparigas a mudar as suas palavras de ordem, vamos fortalecer, empoderar a rapariga dentro de nós tod@s.

Alguns exemplos de raparigas que abraçaram a sua Menina Interior, apesar de todas as circunstâncias negativas à sua volta:

uma rapariga holandesa que quer dar a volta ao mundo no seu barco sozinha

uma rapariga que quis tatuar 56 estrelas no lado direito do seu rosto

Julia Butterfly Hill, que passou um ano em cima duma árvore para defender velhos carvalhos que iam ser abatidos

uma rapariga afegã de 17 anos, que com uma câmara escondida na burca, filmou cenas de violência contra as mulheres no seu país, que deram a volta ao mundo

Rachel Corrie, uma rapariga israelita que se pôs à frente dum tanque de guerra gritando pelo fim da ocupação, sabendo o risco que corria

uma rapariga congolesa que engravidou do seu violador e que me disse amar o seu bebé, porque o seu bebé estava cheio de amor…

A capacidade destas raparigas para suplantarem situações adversas e ultrapassar limites é espantosa. (…)

Eve Ensler (tradução livre)

Veja o vídeo