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sexta-feira, 1 de maio de 2020

UM REGRESSO À DEUSA: POR QUE AS MULHERES PRECISAM DUMA ESPIRITUALIDADE CENTRADA NUMA DIVINDADE À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA


Encontrei este texto entre o material que não foi seleccionado para o meu primeiro livro... Entretanto acho que, apesar de já tão repetidas, estas são ideias que considero muito válidas...  

Para algumas pessoas parece muito difícil compreenderem por que é tão importante que esta espiritualidade esteja centrada apenas no feminino e na Deusa e não inclua também Deuses masculinos. Acreditam estarmos assim a fomentar o mesmo desequilíbrio criado pelo patriarcado quando excluiu a Deusa e proibiu às mulheres o acesso directo ao sagrado. Para estas pessoas, deveríamos estar a praticar uma espiritualidade integrada, digamos, com igual enfoque nos dois géneros da divindade e não a enfatizar apenas um aspecto. Pessoalmente, compreendo perfeitamente este ponto de vista e esta preocupação, que vejo muito em algumas mulheres, que parecem pouco à vontade por vezes, como se sentissem que estão a abandonar os homens quando os deviam estar a apoiar. Normalmente conhecem inúmeros homens que também se sentem vítimas do sistema patriarcal e parece-lhes injusto exclui-los ou deixá-los em segundo lugar. Para onde deverão ir estes homens tão bem intencionados e que se sentem muito melhor com as mulheres do que no mundo dos homens, e que ao mesmo tempo precisam de cultuar, de se identificar e receber força dos Deuses à semelhança dos quais foram feitos, tal como nós mulheres fomos feitas à semelhança da Deusa?
Admito que a questão seja complexa, e antes de mais é bom não esquecer que existem grupos pagãos que incluem e cultuam Deusas e o Deuses na sua Roda do Ano e portanto parece-me que quem não se identifica com uma espiritualidade apenas focada no Feminino, quem não sente a sua necessidade e vê aí apenas mais desequilíbrio a acrescentar ao desequilíbrio, tem outras opções. Digo isto logo em primeiro lugar porque a espiritualidade da Deusa, e a pagã em geral, e outras como o Budismo, ao que sei, não é, não são, proselitistas, ninguém tenta converter ninguém.

Para mim, entretanto, faz todo o sentido uma espiritualidade centrada apenas na Deusa. Certa vez alguém terá perguntado a Kathy Jones, fundadora do Templo da Deusa de Glastonbury, por que nunca falava em Deus, ao que ela terá respondido que não o faria enquanto houvesse no mundo um tal desequilíbrio entre a Deusa e o Deus. Completamente de acordo. Já tínhamos visto por que é que as mulheres precisam da Deusa e agora vou justificar do meu ponto de vista por que considero tão importante para elas ficarem a sós com a sua Deusa. Quando digo “a sós” não significa que não haja homens neste movimento, conheço vários sacerdotes da Deusa neste movimento, nenhuma porta lhes está vedada, que fique bem claro. Nem sequer são silenciados e apenas remetidos para funções subalternas, embora a sua postura seja discreta por compreenderem o que está em causa e a intenção e as necessidades das mulheres. Admiro e amo esses homens que estão connosco a apoiar-nos e rendo-lhes aqui a minha sincera homenagem. Essa intenção e necessidades das mulheres, em primeiro lugar, como eu compreendo a questão, consistem antes de mais em criar um espaço de confiança e de cura para as feridas, para o corpo de dor do Feminino, criado pela violência patriarcal sobre a mulher a todos os níveis. Níveis que vão do mais óbvio ao mais subtil. Ao nível cultural, ser mulher ou ser homem são programações, digamos, muito diferentes, que implicam papéis diferentes, com níveis de liberdade muito diferentes. Às mulheres foram consignados papéis que se limitavam à esfera da intimidade, da família, enquanto os papéis mais sociais foram reservados aos homens. A mulher, tradicionalmente, lida com o interior e o homem com o exterior, para simplificar, tendo-se as coisas extremado ao ponto de quem está apenas voltada para o interior nada saber nem ter a dizer sobre o que se passa no exterior, acabando por perder poder nas grandes decisões que depois determinam como se vive também na esfera íntima. Isto terá demorado a acontecer mas aconteceu, embora agora haja a sensação para muitas pessoas de que as coisas já não são assim, porque as mulheres têm acesso a praticamente todos os cargos de poder. Menos a religião e a alta finança. O que acontece, entretanto, é que as mulheres têm acesso a uma estrutura de poder criada desde um ponto de vista masculino, tendo perdido toda a noção do que seria um poder centrado na sua forma específica de ser enquanto mulheres, seres que geram vida dentro do seu corpo e que por isso mesmo foram desenhados para cuidar dela em primeiro lugar, o que não acontece com o homem. Há toda uma diferença a nível biológico, hormonal, psíquico entre os dois seres que determina diferentes posturas perante a vida. As mulheres, por exemplo, em caso de ameaça, juntam-se, juntam as crianças, criam união para se fortalecerem, enquanto os homens atacam. Nas mulheres foi identificado um instinto muito especial designado por “instinto de cuidar” que é não apenas usado com as suas crianças mas que se estende a quem precise, a quem se encontre em situação de necessidade.


Ora, compreendemos que os poderes que regem este mundo estão exactamente em contradição com estes princípios, esses poderes não têm a marca feminina, a Mãe foi silenciada e colocada numa posição subalterna. Basta vermos o que se passa na esfera do religioso, que é, como costuma dizer por exemplo a Zsuzsanna Budapeste, a política no mais alto nível. Basta atentarmos na posição da Virgem Maria na Igreja Católica, para percebermos como Ela reflecte exactamente a posição das mulheres neste mundo de homens. Maria, que foi perdendo atributos femininos na iconografia religiosa ao ponto de mais parecer uma adolescente anoréctica, amputada dos seios e do ventre fecundo da Grande Mãe criadora, não tem estatuto divino, e o seu papel é o de interceder pelas suas filhas e filhos junto dum Deus implacável, demasiado importante e ocupado para ter tempo para ninharias. É incrível perceber, se atentarmos na Virgem Maria dos católicos, na Senhora de Fátima, que é onde é mais forte actualmente o seu culto, como Ela espelha exactamente a posição das mulheres, das mães, neste mundo, cuidando de filhas e filhos que são do pai, aguentando a estrutura da Igreja, que sem Ela há muito já teria desaparecido, tal como sobre as mulheres recai todo o trabalho de manter coesa e em funcionamento a estrutura familiar, mas sempre subjugadas a uma autoridade que fala mais alto.

Ora esta é a programação que conhecemos, por muito que estejamos conscientes, é de acordo com ela que funcionamos. Temos inscrita em nós toda uma forma de ser, de nos vermos e de vermos o outro (e a outra), e de com ele interagirmos, que seria bom mudarmos, porque colocámos muito poder fora de nós, em mãos alheias. O pai precede a mãe na nossa alma quando para o bem maior de todas e de todos, para maior segurança da humanidade, deveria ser o contrário, porque e Mãe é que é a criadora e portanto é quem está em melhor posição para agir de forma a proteger a vida. O pai protege os seus interesses, preocupado em manter e aumentar o seu poder e o seu domínio. O uso da palavra foi incentivado nos homens e interditado às mulheres. Os primeiros apóstolos como S. Paulo ou Santo Agostinho tiveram o cuidado de determinar que às mulheres fosse proibido o acesso ao púlpito. E mais tarde a Inquisição destruiu tudo quanto restava do antigo poder das mulheres, daquele que tiveram antes da instalação do domínio patriarcal.
Por muito que achemos que isto é história antiga, vendo bem essa é a programação que subsiste na esfera mais elevada do poder político, que é a igreja dominante na nossa cultura, onde as mulheres continuam sem acesso ao púlpito, sem acesso directo ao sagrado embora sejam elas quem enche as igrejas.

Essa interdição do uso público da palavra e o aniquilamento cirúrgico do seu antigo poder remeteu as mulheres para o silêncio e a invisibilidade. O medo de falar em público, de ser vista, de exprimir a sua opinião, a sensação de nada ter a dizer de importante, de inadequação a todos os níveis enfraqueceu a mulher de um modo que nenhum homem pode sentir na sua própria pele. O que acontece com frequência quando homens e mulheres interagem em grupos mistos é que temos dois tipos de participantes, com posturas completamente diferentes em relação ao uso da palavra, à auto-expressão e à capacidade de liderança. Por um lado temos aqueles que foram estimulados a usar da palavra em público, os que estão habituados a ser ouvidos e a comandar, não temendo a eventual ignorância sobre qualquer assunto, porque é suposto que um homem saiba tudo de tudo. Do outro lado temos aquelas que carregam toda uma história de silenciamento, de proibição do uso da palavra, de desempoderamento, de sensação de irrelevância, de medo de não saber o suficiente, de sensação de que a sua validação como ser humano vem através do homem, do salvador masculino. 

 Sei que muitas pessoas mais jovens se insurgem perante esta forma de ver as coisas, achando que já não é assim. Esta análise seria justa nos anos sessenta, digamos, mas não em dois mil e tais. A minha experiência como professora até 2011, entretanto, lamento, não me permite concluir que tenha havido grande evolução. Pelo contrário, tive suspeitas de um forte e preocupante retrocesso quando certa vez fui assistir com uma turma de adolescentes a um debate entre as duas listas concorrentes à associação de estudantes na escola onde dava aulas. Sobre o palco do pavilhão polivalente, onde ia ter lugar o debate, constatei que na representação duma das listas não havia qualquer rapariga. Ao indagar sobre a razão foi-me dito que sim que também havia raparigas naquela lista mas que elas estavam com vergonha de subir ao palco…

Essa vergonha, essa falta de à vontade para subir ao palco, essa sensação de irrelevância, de falta de poder, de nada saber nem ter a dizer, essa herança feminina, continua portanto viva e actuante. Como se cura? Do meu ponto de vista ela cura-se primeiro com a consciência de que é algo de bem real, sem tentar negar o que é óbvio, como acontece tão frequentemente, como se fosse algo de já resolvido e ultrapassado. E depois cura-se criando circunstâncias seguras para as mulheres se exprimirem, para exprimirem a sua criatividade, o seu talento, a sua forma particular de ser e de ver o mundo, ligadas a um propósito maior que as faça sair da esfera da intimidade, da família, onde estão limitadas, como que aprisionadas, ao serviço de valores de cuja criação no fundo não participaram. Aliás, também é lugar-comum dizer-se que nos países latinos por exemplo as mulheres têm muito poder na família, são as super-mães, o que a meu ver é mais outra falácia. As mulheres usam e aplicam o poder dos homens, agindo como regentes em nome do rei, não como as rainhas que deveriam ser, exercendo um poder centrado no seu útero de grandes criadoras e no seu coração.

UMA ZONA LIVRE DE PATRIARCADO
Basicamente todo e qualquer homem para uma mulher é um representante do sistema patriarcal, quer ele queira quer não, quer ele se regozije ou se entristeça com isso. Esta parece-me ser uma boa base de trabalho a partir da qual poderemos agir no sentido de nos  libertarmos, ambos os géneros, desta programação, negar isto não nos fará avançar um milímetro.


Quando em 2011 assisti à primeira Conferência da Deusa de Glastonbury, compreendi a importância das mulheres criarem coisas por si mesmas, de se apresentarem ao mundo em seu próprio nome. Ver ali grandes mulheres com a sua visão própria do mundo, existindo por sua própria conta e risco, mulheres já meias lendárias, as nossas grandes heras do presente, mulheres que nos servem de modelo, de inspiração para uma maneira de ser verdadeiramente feminina, mestras, foi o melhor bálsamo que a minha alma já experimentou neste mundo. Mulheres que eram, que são, criativas e exuberantes e não mulherzinhas normalizadas, uniformizadas da cabeça aos pés, tanto na forma como pensam e agem como na forma como se vestem e penteiam, sem liberdade para irem mais além, para questionarem nada, prisioneiras, preocupadas apenas em manter coeso um mundo fragmentado em pedaços, ferido de morte.

A experiência deste evento criado por mulheres e para mulheres, com a ajuda e o apoio de alguns homens, diga-se, um espaço seguro porque criado a partir da consciência das nossas debilidades e daquilo que nos faz falta, uma zona livre de patriarcado, do pesado olhar do homem que nos mantém numa determinada frequência, marcou para sempre a minha maneira de estar no mundo. Era o nível seguinte, não mais o nível apenas da revolta, da denúncia dum estado de coisas que nos diminui e torna infelizes, mas um espaço de criação de algo de novo usando essa energia da indignação e da revolta. Que fique bem claro o que eu penso sobre esta questão, a força para mudarmos o mundo vem-nos da fúria, da raiva, da recusa em aceitarmos não poder viver plenamente por nós mesmas, como direito à experiência e ao erro, a vida que nos foi dada e de vermos o estado em que o mundo se encontra porque governado desde um ponto em que o poder da Mãe e do Feminino foi abolido e mantido inoperante. Nesta indignação e revolta está a força para criar outra realidade, ela não está em mais lugar nenhum.

Estamos portanto no passo seguinte da criação daquilo que queremos para nós. E queremos aquilo que nos foi tirado e negado: uma Deusa à nossa imagem e semelhança, a Grande Deusa do passado que por mais de 30 000 anos inspirou sociedades pacíficas e sustentáveis. Queremos o poder da Mãe no mundo. O poder da Mãe dá-nos, por essa experiência de milhares de anos, confiança absoluta.
É óbvio que há muitos homens que não se revêm no patriarcado, que compreendem o nosso ponto de vista, que têm a sua parte feminina muito activa, etc. Conheço alguns, convivi com grupos de Permacultura e sei que existem homens com as melhores intenções, e não apenas aí, claro. Acontece que por muito bem-intencionados que sejam esses homens, eles não viveram a nossa história, eles não partilham o nosso corpo de dor, o deles, que também existe, óbvio, é diferente. A experiência deles é outra. Eles não carregam o fardo da culpa, da grande culpa da mulher.
Por outro lado, para nós, eles transporta toda essa carga patriarcal, é impossível não olhar para eles e, mesmo que seja apenas de forma inconsciente, não os ver como estando do lado de quem pode tudo, de quem legitimamente pode usar da palavra, de quem espera de nós lealdade, apoio, de quem tem condições de nos validar, de ser o nosso salvador… Um homem é muito mais do que apenas uma pessoa, ele é todo um programa, assim como a mulher para eles representa igualmente todo um programa.

Será que não existe outra solução senão separarmo-nos, será que não podemos trabalhar lado a lado para tentar ultrapassar estas questões, quebrar as imagens estereotipadas que temos de cada um dos géneros? A minha opinião, o que eu sinto, é que precisamos de solidão para nos conhecermos, as mulheres, solicitadas de todos os lados, ao serviço de todos, precisam de solidão, de fazer outras coisas, de saber o que valem, do que são capazes, de se apaixonar por uma causa, um projecto, em vez de quase exclusivamente por pessoas. Elas precisam de saturar cada pontinho da sua alma faminta de imagens, de símbolos e de mitos que lhes falem do feminino, precisam da Deusa, da sua força e do seu poder.

Queridos homens, não sei de vocês, mas as mulheres estão esvaídas, desnutridas, exauridas, intoxicadas por uma cultura de pura violência de todas as formas possíveis contra a sua essência e a sua alma. Isto é o que eu sinto e o que eu sei. E também sei que vos amamos muito e não queremos desistir de vocês. Então por que não experimentam também essa solidão para se conhecerem fora da programação patriarcal, por que não se juntam entre vós, procurando saber quem são, o que querem, quais são as vossas feridas, trazendo assim cura uns aos outros, àqueles que tal como cada um de vós viveram as mesmas experiências, em vez de continuarem a querer que essa cura venha duma mulher sem poder nem autoridade, esvaída, desnutrida, insegura e assustada que ainda por cima vos aconchega o ego confiando na vossa autoridade e vendo-vos como o salvador? A insalubridade desta situação, convenhamos, exige no mínimo um bom arejamento.

©Luiza Frazão

Imagens: Conferências da Deusa Glastonbury e Sintra (2019)
                                                                                                                                        

sexta-feira, 24 de abril de 2020

ENCONTRAR CALAICA



Podes ir pela rua e de repente encontrar a Cale. Mas para isso acontecer é melhor ires à província, descer ao país profundo. A Cale veste-se de negro, porque toda a gente da sua geração, pelo menos, já desencarnou. Resta ela, a resiliente. Lembro-me de umas quantas epifanias de Cale na minha vida. Numa peregrinação à Cova da Iria, por exemplo, na véspera dum dia 13 de Maio, vimo-la passar, magrinha, sequinha, ultrapassando tudo e toda a gente na rapidez desembaraçada e ritmada do seu passo que já vinha assim desde o Norte. Ainda mal refeitas do nosso espanto, ao vermos como, naquela que era a derradeira etapa do nosso percurso, a famosa e dolorosa “recta de Fátima”, ela, a Cale, magrinha e sequinha, vestida de negro, de lenço atado na cabeça, se movia, antes de podermos articular palavra, já a tínhamos perdido de vista. Devia ter perto de 80 anos, e foi um espanto e um profundo respeito e quase embaraço da nossa parte, por sermos muito mais novas e tão mais lentas, pesadas e cansadiças.

Mas a Cale é de outra dimensão. Por onde passa, ela deixa um rasto, ou um borrifo, de profundo reconhecimento, anagnórise, será o melhor termo para o que acaba de nos acontecer. Sabíamos que ela devia existir porque lemos a respeito nas histórias antigas, mas não tínhamos bem ideia de onde procurar, e de repente acontece qualquer coisa, como uma brisa fresca de liberdade, que faz um upgrade na nossa coragem e alarga a nossa visão da vida, da extensão da duração da vida e da excitação de se estar viva, porque lá no fundo pode estar a Cale.

Uma vez encontrei-a do lado de dentro do balcão de um café para os lados dos Amiais de Cima. Vestia de negro, mas não era uma saia e blusa e um avental qualquer. Era um vestido bem feito, marcado na cintura, com um xaile pelas costas. Tinha um olhar frontal e usava cordão e brincos de ouro e todo o conjunto denunciava uma atitude de quem é muito senhora de si e não precisa de impressionar ninguém. Mas impressionava, sobretudo ali naquele lugar, numa aldeia onde ninguém se veste nunca assim. Apetecia copiar-lhe o estilo, mas ainda era preciso cultivar muito a Cale em si para aquilo cair como caía nela. Há poucos anos lembrei-me e fui de propósito lá só para a ver de novo, mas já tinha partido para o Jardim das Hespérides.

A Nazaré também é um lugar onde ainda se pode encontrar a Cale. Num dia de sorte, podes encontrá-la ocupada com alguma coisa ou simplesmente com nada, sentada no areal à beira da marginal, já me aconteceu. De xaile cobrindo a cabeça. Ou de lenço. Se o teu olhar se encontrar com o dela, é possível que te aconteça viajares em pânico para algum lugar recôndito e mal cheiroso da tua alma que com tanto cuidado pensavas estar preservado, desinfectado e selado.

No Norte também é provável que a encontres. Mas entre os ambientes onde não se dá, o pior deve ser aquele onde um fluxo televisivo ininterrupto mantém a cabeça numa frequência de idiotice, vazia de qualquer ideia ou pensamento original, observando acontecerem coisas mirabolantes em que não se é tida nem achada.

De resto, a Calaica é muito desconfiada, não vais encontrá-la em nenhuma fila de farmácia, sala de médico de família, lar de terceira idade, onde te tratam de “menina” para baixo e te imbecilizam e te provam que não és capaz e te fazem duvidar de que alguma vez sequer o tenhas sido. A Calaica fenece nesses lugares de pura irrelevância. Ela precisa de vida a acontecer na guelra, de movimento, de desafio, de giro, do ar da madrugada, do pó da estrada nas plantas dos pés, da água dos córregos, do vento e da geada, de gravetos para a fogueira, de ir e de vir, de ser tida e achada. Abençoada.

©Luiza Frazão



terça-feira, 17 de março de 2020

MEDITAÇÃO PELA CURA E PELO RESGATE DA DIMENSÃO DO JARDIM DAS HESPÉRIDES


Horário: 21h00

Neste horário, sugiro que te unas a nós acendendo uma vela junto do teu altar - caso tenhas, com a própria Chama do Jardim das Hespérides –, sugiro que encontres o teu centro através da respiração consciente e visualizes a trilogia formada pelas Deusas tutelares do nosso território, Senhoras dos três mundos, do Mundo do Meio, a Anciã Cale; Hespéria/Ibéria, Deusa solar do supramundo; Ophiusa, a Deusa Serpente do inframundo. Visualiza-As emitindo raios da poderosa Luz Dourada do Jardim das Hespérides, a dimensão da Deusa do nosso território,  irradiando puro Amor, Força, Sabedoria, Compaixão, Poder de Transformação, de Transmutação e de Cura. Visualiza essa luz dourada e quente inundando todo o teu corpo, todas as tuas células limpando-as e regenerando-as, e depois sente e visualiza essa energia irradiando para além de ti, indo muito para além de ti e do lugar onde te encontras, limpando, desinfectando, transmutando, curando, regenerando, abrangendo cada vez maiores distâncias até cobrir todo o planeta... Sente o poder do Amor e Compaixão da Deusa e visualiza as pessoas felizes por poderem de novo abraçar-se, festejar em grandes grupos. Sente o alívio e a alegria, vê o sorriso, ouve o riso das pessoas juntas celebrando a vida com prazer, apoiando-se e ajudando-se mutuamente...
Junt@s podemos resgatar ou cocriar, neste momento de profunda mudança, a energia do nosso Jardim Dourado das Hespérides, a nossa dimensão da Deusa. Abençoada seja a Deusa e nós tod@s <3 o:p="">



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

SOBRE O CURSO MAGNA MATER

Lendo o último dos trabalhos, o Módulo 8, enviado por uma aluna do Brasil. Delícia. Quanto trabalho, entrega, discernimento, profundidade… Amo este curso, sim.
Ela diz ”Precisei desse tempo a mais para retirar proveito dos últimos insigths que esse grande estudo pode me proporcionar.
Foi realmente mágico. Digo no termo literal da palavra. Pude experimentar em terceira dimensão cada energia da Deusa, da estação, e a poderosa transformação, ou iniciação, que ia causando em mim e em minha vida. 
Sim somos sacerdotisas... e jamais poderíamos servir se não fôssemos iniciadas nada mais nada menos que pela energia da grande Deusa. 
Senti fortemente grandes trasnformações.
E gostaria de continuar aprofundando os estudos...” 


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

O REGRESSO DAS SACERDOTISAS DA DEUSA DO JARDIM DAS HESPÉRIDES

É muito auspicioso ver que as Sacerdotisas da Grande Deusa ancestral por todo o lado estão a despertar, a regressar, reclamando uma função que foi delas/nossa, por milénios e depois lhes/nos foi usurpada pelo recurso a grande violência e no meio de grande sofrimento. Porém, o tempo é chegado de curarmos essas feridas, as dores e os traumas deixados na nossa alma por esses eventos do passado, cuja memória na verdade está contida nas nossas células, e de, em sororidade e fraternidade, reconstruirmos uma vez mais o Templo da Grande Deusa, sendo o Seu veículo para que sobre o mundo se derramem de novo as Suas bênçãos de Amor, de Abundância, de Paz, de Alegria, de Inclusividade e de Cura. 

O MEU DESPERTAR PARA A DEUSA

Comecei o meu caminho espiritual no final dos anos 90, quando fui estudar Astrologia para o Quíron, com a Astróloga Maria Flávia de Monsaraz. Essa foi a primeira etapa duma longa caminhada, antes de mais de autodescoberta, que acabou por me conduzir até à Deusa. Depois de várias formações no âmbito do Desenvolvimento Pessoas, foi o encontro com a obra de Jean Shinoda Bolen, nomeadamente, Travessia para Avalon, aí por volta de 1997, que me trouxe a conexão com a Deusa e com Glastonbury/Avalon, onde fui pela primeira vez em 2009. De Jean Shinoda Bolen li também As Deusas em cada Mulher, enquanto fazia um curso sobre Arquétipos do Feminino. Criei depois eu mesma outros, inspirada na mesma obra, mas agora olhando já em outras direcções como foi o caso do trabalho da brasileira Mirella Faur, entre outras. E aí, a magia e o poder da Deusa começaram a revelar-se…

Posso dizer que no Templo da Deusa de Glastonbury, em 2009, a Deusa mudou o meu destino para sempre e quatro anos depois fazia a minha dedicação como Sacerdotisa de Avalon nesse mesmo lugar ,onde vivi por dois anos e onde regresso regularmente, conduzindo até grupos de peregrinas e de peregrinos, como foi recentemente o caso.

ABRINDO O PORTAL DO JARDIM DAS HESPÉRIDES

Logo no início da minha formação senti grande entusiasmo pela pesquisa das tradições da Deusa no território nacional, e o resultado desse trabalho deu um livro: A Deusa do Jardim das Hespérides, edição da Zéfiro. Nas minhas buscas e demandas descobri que, tal como Avalon, também nós temos uma dimensão sagrada, ocultada pelas brumas, designada no mundo antigo por Jardim das Hespérides. Hespéride, da Hespéria, termo com origem na palavra grega que significa Ocidente. Aí se contava maravilhas de um Jardim situado no extremo ocidente da Europa onde havia as famosas maçãs de ouro da imortalidade. E a verdade é que havia mesmo muito ouro e outras riquezas, sendo a paz e a harmonia possivelmente a maior de todas elas. A Idade de Ouro matrifocal, aqui nesta zona periférica da Europa, perdurou até mais tarde, dando origem ao mito que chegou até nós pela pena de alguns autores clássicos.

Esse Jardim pertencia à Deusa Hera, proprietária das maçãs de ouro, que as Nove Irmãs do Poente, homólogas das Nove Musas gregas e de outros grupos de nove mulheres míticas presentes na memória de várias culturas do mundo, guardavam. Eram, entre outras coisas, sacerdotisas da Deusa, da Senhora da Terra, ainda o sacerdócio  no feminino não havia sido interditado. Um dos dez mil milhões de nomes dessa mesma Deusa era o de Hera, ou Héspera, a estrela da tarde, que também tem o nome de Vénus, ou Hespéria/Ibéria. Outro desses nomes e faces é Cale, Calaica, Cailícia, Beira, ou Iria, ou Brígida, Brigântia, Trebaruna, Atégina ou Nábia… e muitos mais. A Deusa, conforme podemos descobrir ao investigar os vestígios deixados no território, foi aqui reconhecida por várias denominações que exprimiam as características do Seu território, do Seu povo, da Sua face, mais jovem ou mais anciã, mais invernosa ou estival.

RESGATAR UMA HERANÇA INSPIRADORA PARA O NOSSO FUTURO

O Jardim das Hespérides é pois a nossa Avalon, a nossa dimensão da Deusa, que nos fala duma Idade de Ouro, duma era de paz, inclusividade, sustentabilidade, harmonia e equilíbrio entre o Feminino e o Masculino, próprio das sociedades onde as mulheres detiveram e detêm real poder, da chamada gilania de que nos fala Riane Eisler na sua obra-prima de leitura indispensável O Cálice e a Espada. Termos esta herança cultural é algo de tão precioso e inspirador que não hesitei em dedicar-lhe a Roda do Ano que entretanto criei, inspirada pela minha pesquisa na tradição do território e pelo meu treino de Sacerdotisa de Avalon feito no Templo da Deusa de Glastonbury, com Kathy Jones e Erin McCaulif.

Baseado nessa mesma Roda, com as suas Deusas, Hespérides, Mouras, Árvores sagradas, animais totémicos, símbolos, mitos, lugares sagrados, tradições, vivências e cerimónias, criei um treino de Sacerdotisa e de Sacerdote da Deusa do Jardim das Hespérides que já vai na terceira edição. Já temos até uma Irmã das Hespérides (título que se consegue após a dedicação que acontece como conclusão da Primeira Espiral/ano de estudos) no Brasil, mais propriamente em Florianópolis, onde no próximo Festival da Deusa, que aí terá lugar a 6 e 7 de Dezembro, ela irá apresentar esta nossa Roda do Ano da Deusa do Jardim das Hespérides, reclamando também esta herança céltica como parte do legado português levado pela colonização para esse vasto território do Hemisfério Sul.

SER UMA SACERDOTISA DA DEUSA

Na verdade, este treino permitir-te-á dinamizares oficinas e vivências, dar palestras e criar cerimónias inspiradas na tradição da Deusa, ancoradas na energia do nosso território. Após os dois anos de formação, a tua função de Sacerdotisa e de Cerimonialista da Deusa possibilita-te dinamizar workshops e cerimónias para as mais diversas finalidades e ocasiões, criar ou participar em inúmeros eventos inspirados na Deusa, permitindo-te expandir a tua criatividade e talentos até… ao infinito!

RECONSTRUINDO O SEU TEMPLO

É maravilhoso ver como as Sacerdotisas da Grande Deusa ancestral por todo o lado estão a despertar, a regressar, reclamando uma função que foi nossa, por milénios e depois nos foi usurpada pelo recurso a grande violência e no meio de grande sofrimento. Porém, o tempo é chegado de curarmos essas feridas, dores e traumas deixados na nossa alma por esses eventos do passado, cuja memória na verdade está contida nas nossas células, e de, em sororidade e fraternidade, reconstruirmos uma vez mais o Templo da Grande Deusa, sendo o Seu veículo para que sobre o mundo se derramem de novo as Suas bênçãos de Amor, de Abundância, de Paz, de Alegria, de Inclusividade e de Cura. 

Lembrando que a Primeira Espiral recomeça no próximo dia 2 e 3 de Novembro.
Se sentes o apelo contacta-nos através do email: jardimdashespéridestemplo@gmail.com.



Abençoada seja!

domingo, 15 de setembro de 2019

A INSPIRAÇÃO DE CRETA PARA UM JARDIM DAS HESPÉRIDES


Este texto já foi escrito há alguns anos, numa altura em que apenas sonhava com Creta, não sabendo bem como e quando conseguiria concretizar o meu sonho... Ele entretanto concretizou-se em junho de 2015 e estas são as fotos tiradas na altura. Na última, estou deitada sobre a areia da praia de Malia e quando olho sobre a minha esquerda lá está a Deusa recostada na paisagem... pura epifania...

Foi este livro, O Cálice e a Espada, e a sua autora, Riana Eisler, que me ajudaram a perceber por que é que no Movimento da Deusa toda a gente, ou já foi a Creta e a Çatal Hüyük, ou se prepara para ir, ou quer repetir a experiência.
Estas sociedades aparecem como o grande momento de glória das sociedades ginocêntricas - muito mais correcto, na perspectiva da autora, do que dizer “matriarcais”. Na verdade não havia domínio das mulheres sobre os homens, mas sim parceria, cooperação, entre os dois géneros, embora os valores que regiam a sociedade tivessem a ver com o feminino e as mulheres detivessem grande autonomia, liberdade e poder.
A sociedade cretense é na realidade o tal Eldorado, porque aí se encontraram vestígios dum modelo de organização social que funcionou muito bem, e tudo leva a crer que isso se deveu ao exercício do poder no feminino.
Aqui a religião estava altamente ligada à arte a à recreação e ocupava uma parte muito considerável da vida. A alegria de viver é reconhecível em cada objecto de arte, o desenvolvimento económico é grande, a distribuição da riqueza é muito equitativa e o nível de conforto muito elevado.
Não se nota que haja ambição pessoal nem o culto da personalidade: nenhum-a autor-a assina as suas obras, nenhum rei regista em crónicas, ou através de estátuas imponentes, os seus feitos heróicos. Daí pensar-se que não seriam reis, mas sim… rainhas!
Não se verifica qualquer sinal de idealização da violência masculina nem da força destruidora. Nestas sociedades o poder era interpretado como responsabilidade, como cuidado com o bem comum, que era o mais importante.
Estou fascinada com Creta! A nossa Meca! Também quero lá ir logo que possa, ainda por cima, as praias são lindíssimas…

O NOSSO JARDIM DOURADO

Será que também nós aqui poderíamos estar agora a desbravar e a mostrar ao mundo a luz vibrante e inspiradora duma sociedade ginocêntrica florescente do tipo da de Creta ou de Çatal Hüyük? A nossa querida Dalila Lello Pereira da Costa acha que sim. Para ela, nunca nós conhecemos verdadeiro progresso nem desenvolvimento como no Neolítico, em que a sociedade era… ia dizer “matriarcal”, mas não digo, era ginocêntrica.
Ginocêntrica, diz a Riane Eisler, é muito mais correcto.

UMA HISTÓRIA QUE NÃO É NOSSA

Qual séc. XVI, qual quê! Como é que nós mulheres podemos enaltecer um tempo em que os homens (não confundir, foram eles!) saíram daqui para impor a outros povos que estavam sossegadinhos no seu canto, a sua Lei da Espada, a escravatura, a conquista, a dominação?!
Essa não é a nossa história, queridas irmãs, e precisamos de nos distanciar dela se queremos chegar a algum lado. Não esquecer que primeiro, antes de agirem dessa maneira reprovável em todos os sentidos, tiveram eles de nos dominar e escravizar a nós!
Essa história que nos contam na escola é aquilo que inglês se designa por “history” (a história dele), diferente de “herstory” (a história dela).
Enquanto mulheres, precisamos de nos dissociar dessa história oficial, da qual mais legítimo seria sentirmos vergonha do que orgulho e voltarmo-nos para a nossa história, aquela de quando éramos nós a dizer como se devia fazer.
E é aqui que a Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo”, não tem razão quando afirma que o domínio do homem sobre a mulher sempre foi uma constante na história humana. Não foi. Graças a arqueólogas feministas, como a Marija Gimbutas, e às descobertas de sociedades do passado altamente desenvolvidas e prósperas que cultuavam a Deusa  e em que as mulheres detiveram papéis muito importante, não dominando ninguém nem sendo dominadas, sabemos que nem sempre os homens dominaram as mulheres.

 AS NOSSAS ANTEPASSADAS DO NEOLÍTICO

Então, a Dalila Pereira da Costa, que é muito discreta em relação às reivindicações feministas, diga-se, mas supereficaz na defesa dos valores femininos, dá-nos esta ideia de irmos atrás da nossa glória de mulheres, descobrindo a força e o valor das nossas antepassadas, as mulheres do Neolítico. E onde estão elas? Pois, muito perto… é lerem a Dalila (parece difícil mas ultrapassado o medo de não percebermos nada, torna-se do mais fascinante que já li nesta vida…) é lerem a Dalila, repito, com este objectivo concreto: perceber aonde andam as nossas mulheres poderosas do Neolítico, aquelas que não foram trucidadas, difamadas ou tornadas invisíveis pelos patriarcas (romanos e cristãos e outros igualmente pouco recomendáveis), as nossas Irmãs das Hespérides, que bailam felizes, livres e formosas como na gruta de Cogul, nos vasos de Creta, nos templos de Çatal Hüyük… Aqui, segundo reza a lenda, elas eram tão fortes que, ao mesmo tempo que fiavam, podiam transportar à cabeça as tais “pedras formosas”...

UMA VISÃO QUE VALE A PENA

Algumas pessoas podem dizer que tudo isto é mentira, que nunca existiu, que é pura invenção… Mas seja como for, acho que a uma invenção desta natureza vale a pena darmos toda a nossa atenção e foco!


terça-feira, 3 de setembro de 2019

A GILANIA DE JESUS



Comentário sobre a gilania de Jesus defendida pela autora Riane Eisler em O CÁLICE E A ESPADA

“Jesus pregava o amor universal, a igualdade entre todos. Ele denunciava as classes dominantes, não apenas os ricos e poderosos, mas também as autoridades religiosas. A autora fala que a partir da nova perspectiva da Teoria da Transformação Cultural é possível discernir um tema espantoso e unificador: a visão da liberação de toda a humanidade através da substituição dos valores androcráticos por valores gilânicos. Em toda a trajectória de Jesus, fica evidente a presença de mulheres como discípulas e líderes cristãs. Não parece que ele tenha feito diferenciação entre homens e mulheres, pelo contrário, para os padrões androcráticos da época em que viveu, ele defendia valores de igualdade entre todos.
Como em outras ocasiões de ressurgimento gilânico, a resistência do sistema da época de Jesus foi muito forte. E os patriarcas da Igreja nos deixaram um Novo Testamento, onde essa ideologia pregada por Jesus ficou sufocada pela superposição de dogmas contraditórios, que foram necessários para justificar a posterior estrutura e objectivos androcráticos da igreja.
Para conhecermos a verdadeira natureza do cristianismo primitivo é necessário sair das escrituras oficiais e recorrer a outros antigos documentos cristãos. Entre eles, o mais importante e revelador é o conjunto de 52 evangelhos gnósticos desenterrados em 1945. Esses ficaram enterrados por quase 1600 anos e são anteriores aos evangelhos do Novo Testamento. O que de mais importante encontrado nesses evangelhos, é o que fez com que Jesus fosse morto, ou seja, o acesso à divindade não depende de uma hierarquia religiosa encabeçada por um alto rabino, bispo ou papa. Esse contacto divino é possível directamente através do conhecimento divino.
Nesses documentos fica claro também que Maria Madalena foi uma das figuras mais importantes para o movimento cristão primitivo. Isso talvez seja o que mais incomodou a igreja ortodoxa hierárquica, o fato de Jesus colocar em posição de igualdade as mulheres.
Esses primeiros cristãos e cristãs ameaçavam o poder crescente dos patriarcas da igreja e constituíam um grande desafio à forma como as famílias patriarcais estavam estruturadas: dominadas pelos homens. O que defendiam ameaçava a autoridade do homem sobre a mulher como fruto de ordenamento divino. O cristianismo primitivo era visto como uma ameaça pelas autoridades hebraicas e romanas e não apenas porque esses cristãos se recusavam a adorar o imperador e prestar lealdade ao Estado, mas principalmente porque eles questionavam s tradições das famílias vigentes, considerando as mulheres como pessoas com seus próprios direitos.
Como antes e a maioria das que vieram depois, o cristianismo tornou-se uma religião androcrática. E o evangelho do amor do cristianismo original desandou terrivelmente. O Império Romano foi substituído pelo Sagrado Império Romano.”
Já no ano 200 d. C o cristianismo estava se tornando exactamente o tipo de sistema hierárquico e calcado na violência que Jesus tanto se rebelou contra. E depois da conversão do Imperador Constantino, o cristianismo se tornou um braço oficial, ou servo, do Estado.
Os líderes da igreja passaram a comandar pessoalmente a tortura e execução de todos que não aceitassem a “nova ordem”. Em vez de ser um espírito absoluto, como mãe e pai, Deus tornou-se explicitamente masculino.” JSF

Imagem: Josefa d'Óbidos, Santa Catarina, igreja de Santa Maria, Óbidos

sábado, 31 de agosto de 2019

A GRANDE MÃE PRIMORDIAL - O Continente e o Conteúdo



A masculinização da sociedade conduziu a ignorar aquilo que constitui o próprio fundamento de toda a relação psicossocial, a saber, os laços afetivos que unem os membros duma mesma família, dum mesmo clã. E estes repousam muito particularmente na relação mãe-filh@ (rapaz ou rapariga). Suprimindo a noção de Mãe-Divina, ou submetendo-a à autoridade dum deus-pai, desarticulou-se o mecanismo instintual que estabelecia o primitivo equilíbrio. Daí provêm as neuroses e outros dramas que transtornam as sociedades paternalistas, incluindo aquelas que se consideram mais evoluídas, aquelas que pretendem, com belas palavras, atribuir à mulher um lugar de honra, um lugar escolhido pelo homem. Na verdade, o homem não pode escolher o lugar da mulher nem o seu próprio lugar face à mulher. Ele deve obedecer a uma lei inelutável, que é, para retomar a definição de Montesquieu, uma lei de natura, contra a qual a lei da razão nada pode. Esta lei de natura concretiza-se no instinto, que não é algo que possamos negar. Negá-lo, como fizeram tantos moralistas e psicólogos, antes de Freud, é abrir a via dos desregulamentos psíquicos, porque todo o comportamento se ressente do facto de não estar apoiado na lei natural.

Esta querela entre natureza e razão, que de resto sempre foi uma falsa questão, é responsável pela cegueira desta sociedade que, ao querer corrigir o instinto, cortou o ser humano daquilo que era a sua natureza.

A verdade é que o instinto não se corrige. Sublima-se, transcende-se, e isso graças a uma razão que o dirige, mas que em caso algum o deve encerrar em limites estreitos e negá-lo. E o instinto assusta, porque é forte e porque é inelutável. Este estudo sistemático do princípio feminino na cultura celta tem pelo menos o mérito de trazer à luz da consciência a ideia de que o instinto é primordial, no sentido etimológico do termo, que ele é necessário, que é um fator de progresso e de evolução.

Mas o instinto tem algo de selvagem, de “bárbaro”, mesmo. E é por aí que ele atinge a “grandiosidade”. Ele é o único motor dos nossos sentimentos, da nossa ação. E, tendo em conta os nossos hábitos morais, é por vezes difícil formulá-lo e olhá-lo de frente: a verdade choca-nos. Quando ousamos afirmar que todas as relações entre homens e mulheres, quaisquer que elas sejam (conjugais, filiais ou outras) são necessariamente relações incestuosas entre mãe e filho, atraímos as mais ásperas críticas e somos tidos por obcecados. E no entanto…
 O homem é, com efeito, um ser incompleto e tem consciência disso. O seu medo e a sua atracção pelo abismo negro (o nada de onde provém), o seu medo e a sua vertigem diante da morte (o nada que o espera) tornam-no um ser frágil que procura a segurança a todo o custo. Essa segurança é a mãe, tanto para o homem como para a mulher. Mas o homem, física e afetivamente, possui um meio de reentrar, pelo menos provisoriamente, na mãe. Não é preciso insistir: qualquer tendência da psicanálise já esclareceu suficientemente bem que o pénis, pequena parte do homem, mas uma parte exterior e suscetível de aumentar, constitui o substituto do próprio homem. Ele pode, portanto, em certas ocasiões, reatualizar de modo fantasmagórico o regresso ao paraíso que a mãe representa.

E toda a mulher é uma mãe, real ou potencial. O homem está portanto biologicamente sujeito à mulher, quer ele queira, quer não. Ele é o conteúdo, enquanto a mulher é o continente: isso constitui um estado de inferioridade muito óbvio para o homem e ele passará depois todo o seu tempo a negar tal realidade para provar a si próprio que é superior. É assim que se explica a ação masculina, o facto dos homens serem dotados para a ação, para a violência e o combate. Esta ação é o único meio que lhes resta para tentarem afirmar-se.

E se o homem é o conteúdo, portanto um ser inferior, ele arroga-se o direito dum ser superior, mostrando que a sua força ativa é a única capaz de proteger a espécie. Até conseguiu persuadir a própria mulher dessa superioridade, simbolizada pelo reconhecimento do pénis do rapazinho no momento do nascimento, feito pela mãe ou por qualquer outra mulher que ajude no parto. O famoso grito: “É um rapaz!”, repetido geração após geração, é bastante eloquente a esse respeito. Quando nasce uma rapariga, aceita-se; mas quando nasce um rapaz, rejubila-se.

No entanto, o continente, a mãe, que é o mesmo que dizer a mulher, é a própria realização do Paraíso. Ela realiza-o sob dois aspectos duma mesma realidade: ela contém o filho e o amante. De resto, como alguns psicanalistas já referiram, a vagina da rapariga não é reconhecida pela mãe, nem pelo pai, no momento do nascimento. Tal reconhecimento far-se-á, no entanto, um dia, e será o homem a efetuá-lo. Assim, para se afirmar, para tomar consciência de quem é e sobretudo do seu poder, a mulher precisa do homem. Traduzido em linguagem mitológica dá: o homem precisa duma deusa, mas a deusa precisa do homem. É esta a razão pela qual se perpetuaram, sob formas diversas, os antigos cultos da divindade feminina.

Na cultura celta, vimo-la sob os seus diferentes aspectos, ou melhor, sob as diferentes máscaras que os homens lhe atribuíram. Todos os nomes que lhe foram dados, entretanto, não nos devem fazer esquecer que se trata dum ser único, da mãe primordial, da primitiva deusa, da grande rainha dos começos.

Jean Markale, “La Femme Celte”

Imagem: Senhora de Avalon, Cheryl Yambrach Rose

sexta-feira, 8 de março de 2019

MUDANDO O PARADIGMA DA TROCA PARA A O DA DOAÇÃO: ECONOMIA DA DÁDIVA OU DO DOM



Quando lemos Genevieve Vaughan in Kailo e redescobrimos que “Palavras são presentes sonoros” a esperança reacende. Quando doamos, sem expectativa de retorno, sem a necessidade da troca, apenas como satisfação de uma necessidade básica de doação, voltamos a ser felizes. Ao nutrir nossos filhos, seus corpos e mentes, estamos nutrindo e abastecendo de afeto nossa comunidade. “Essa comunicação sem sinal, envolvendo dar e receber sem retorno, é o que nos torna humanos geração após geração” (Kailo, 2018.)

O texto de Kaarina Kailo ( finlandesa) sobre a Terra Feminarum, a Terra das  Mulheres do Norte (Lapónia) emocionou-me.  Como ela diz, quando perdemos o DOM Imaginário, que são as doações, as dádivas, que doamos ao Outro sem exigir trocas, a Mãe Terra se sente devastada e desonrada. A vida deveria ser entendida como Sementes de Mudanças, o novo precisa de espaço para se manifestar.  Ao mudarmos o paradigma da troca pela doação, neste novo contexto, estaremos Honrando a Mãe Terra, a Mãe Doadora de Vida, a Mãe em Nós. A semente da mudança está nas mãos das Mães. Devemos ensinar às nossas crianças este conceito de DOM, da abundância. 

Percebo que hoje as crianças muito pequenas já tem um novo DNA que as faz mais presentes, mais questionadoras e mais conectadas à Mãe Terra. Não podemos “cortar estas asinhas” com conceitos ultrapassados, mas estimular o novo, o DOM. Saber-se parte de toda a natureza, desta Inteireza de SER.

Carmen Eloah Boff