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sexta-feira, 26 de junho de 2015

CONFERÊNCIA DA DEUSA DE GLASTONBURY - 20 ANOS DE ESTRONDOSO SUCESSO!



A CONFERÊNCIA DA DEUSA DE GLASTONBURY 2015, que este ano celebra o seu 20.º aniversário, está a chegar!

Vim pela primeira vez a esta imensa e incrível celebração da Deusa em 2011 e decidi que a minha vida não teria mais sentido se não pudesse cá estar todos os anos nesta altura… Como eu, muitas outras mulheres e homens sentem o mesmo, o que transforma este evento para além do mais num maravilhoso reencontro anual que dá à nossa vida outro sentido e profundidade… Vivamente recomendo!

Começa na terça.feira 28 de Julho e termina no domingo 2 de Agosto

Com acontecimentos na margem que começam no domingo dia 26 de Julho e vão até segunda-feira 3 de Agosto

Este ano celebra-se ANU, AN CAILLEACH, STELLA NOLAVA, A RAINHA DO CÉU E DA TERRA, A MÃE ESTRELA CÓSMICA

Partilha de práticas espirituais da Deusa

Um leque fantástico de mulheres e de homens da Deusa contribuem para o brilho deste evento:

Da Australia & dos Estados Unidos: ANIQUE RADIANT-HEART, JUDY LAONESSA PIAZZA, PAULA GIRARDI,VICKI NOBLE & YESHE RABBIT

 Da Europa e da Britânia: ANGIE TWYDALL, CHRISTINE WATKINS, DOV TRUBNIK, ERIN MCCAULIFF, HELEN ANTHONY, HELOISE PILKINGTON, IRIS LICAN, ISABELLA VERBRUGGEN, JILL SMITH, JULIE FELIX, KATHY JONES, KATIE HOFFNER, KATINKA SOETENS, KIRSTEN BRUNSGAARD, LUIZA FRAZÃO, LUNA SILVER, MARION VAN EUPEN, MARY BRUCE, MIRIAM RAVEN, SALLY PULLINGER & TERENCE MEADEN

E ainda vári@s Artistas, Músic@s, Performers, Sacerdotisas, Melissas & outr@s maravilhos@s mulheres e homens.

Exposições:

DREAMS AND VISIONS com TIANA PITMAN com AMBER SKYES, FOOSIYA MILLER, JILL SMITH, & e mais artistas na Glastonbury Assembly Rooms, WENDY ANDREW no Miracles Room e Artistas & Artesãs no Small Town Hall.

Na margem da Conferência da Deusa deGlastonbury: wookshops & concertos. 






domingo, 7 de junho de 2015

MAMMA MIA - O EXCESSO DE MÃE


No filme de grande sucesso Mamma Mia (2008, baseado num original de Catherine Johnson dirigido por Phyllida Lloyd), em que se enfatiza a natureza generosa, acolhedora, liberal da mãe; nessa casa de sonho em que entramos e saímos e andamos à vontade, em que existe sempre lugar para quem chega à mesa, em que a pasta ferve no lume enquanto a pizza e o pão cozem no forno, em que há sempre vozes e animação e alegria, nessa casa vive ou é ela própria, a casa, a nossa Mãe ideal e o seu colo aconchegante. Ela é aquela que nunca fecha a porta e aceita e perdoa e passa a mão pela cabeça com carinho e sabe ouvir e compreender e proteger e em cujo regaço nos sentimos a salvo das agruras do mundo. 

Posso dizer que tenho um conhecimento razoável dessa mãe; que um coletivo de mulheres desempenhou de certa forma a função dessa mãe na minha infância. Eram mulheres com as quais sempre podíamos contar. Para além da mãe natural, nem sempre a mais acessível, diga-se, havia as tias, as avós, as primas ou simplesmente as amigas da casa. Esse conjunto era o mais aproximado possível, creio, da Mãe, do habitat natural que rodeia a Mãe nas sociedades matrifocais, aquilo que Bachofen (antropólogo suiço do século XIX famoso pelas suas teorias sobre as antigas sociedades matriarcais) referia pelo termo alemão Muttertum.
Fonte: Cacilda Rodrigañez Bustos,
http://pulposymedusas.blogspot.pt/2010/08/por-un-feminismo-de-la-recuperacion.html



O estranho é que, apesar de em países como o nosso e de uma forma geral nos países latinos, ainda parecer existir muito este tipo de mãe, tal não é infelizmente garantia nenhuma de estarmos a criar pessoas mais seguras de si, empoderadas e com sentido de responsabilidade social ou cívica, no fundo todas as qualidades de que o termo adulto/a se reveste na sua verdadeira acepção. Diria até que em países com “menos mãe”, ou com mães menos “latinas” essas qualidades parecem florescer melhor. Alguma coisa então não estará a funcionar como deveria com as nossas mães que à partida parecem corresponder tão bem a um ideal de Mãe. 

Pessoalmente, sinto que um dos grandes problemas reside na ideia muito enraizada entre nós de que a Mãe tem de se sacrificar. As mães são aquelas que se sacrificam, um pouco como a vela que arde e se consome até ao fim para que a sua luz nos possa iluminar. As mães sacrificam-se, dizem, pela família. Para que a paz e a harmonia reinem na família, fazem tudo, acreditam muitas delas, esquecendo-se de que a família tem a sua alma própria que tudo regista e tudo sente e tudo vai de alguma forma acabar por revelar e manifestar. Mas então, na sua valorização do sacrifício, a mãe acaba muito por se calar, por fazer de conta, por fingir que não ouve, por desculpar depressa demais, por aceitar muitas vezes o inaceitável. 

Na verdade, se quisermos ser rigorosas/os, o sacrifício da mãe aconteceu já muito antes de ela o ser, uma vez que ele é a base da própria família patriarcal que temos. Já agora, para quem viu o filme que cito no início, é bom lembrar um dos dados mais extraordinários da trama, que é o facto de nessa casa de sonho da Mãe não haver pai, e mais, de a heroína não saber sequer quem é o pai da sua filha e sair incólume desse crime de lesa autoridade patriarcal.... E a subversão continua no filme na forma como os homens com a possibilidade de serem o pai se comportam, prontos e encantados com a ideia de assumirem esse papel, sem competição nem exclusivismo, como acontece nas sociedades matriarcais, ou matrifocais, em que o papel do pai é irrelevante, sendo os homens da família a assumir a função de protetores e de educadores, fornecendo o modelo do masculino de que a criança precisa. Não é minha pretensão aqui incentivar as mulheres a terem filhas e filhos sozinhas sem um pai, sejamos realistas; com o tipo de sociedade em que vivemos, isso tornar-se-ia um peso muito grande tanto para a mulher como para a criança. 

Mas voltando à ideia do sacrifício da Mãe, ele aconteceu quando este modelo em que a mãe era central foi substituído por aquele que temos em que ela está sob a alçada do pai. O poder da Mãe, que refletia ou emanava do tipo de divindade cultuada, a Grande Mãe Criadora, passou para segundo plano quando a divindade mudou de género e passou a ser o Pai. Todo o modelo mudou, os valores que regiam a sociedade mudaram, o imperativo tornando-se agora o domínio e a conquista em vez de a proteção da vida. Fomos expulsas/os do paraíso, acabou-se a Idade de Ouro, pela lei da espada patriarcal, como tão bem nos refere Riane Eisler nessa obra absolutamente ímpar que é O Cálice e a Espada (Via óptima, Porto). Assim, já só por um acaso temos o tipo de maisonnée (um termo popular francês que define não só a casa como o coletivo de pessoas que nela vive ou que gravita à sua volta) do filme Mamma Mia, que nos fornece uma visão, obviamente muito idealizada, do genuíno reino (ou seria raino?) da Mãe, ou tão genuíno quanto o sistema que respiramos permite, e que em resumo é uma Mãe com poder e autoridade. 

Porque, não nos iludamos, não é por vivermos numa família de mulheres nem por lá em casa a última palavra ser a da mãe, que podemos dizer que ela tem poder genuinamente seu. Nenhuma mãe com poder emanado do seu próprio coração e forma de estar no mundo deixaria que um filho seu fosse para a guerra, por exemplo, consentiria numa forma de progresso que implique destruição da natureza, ou aceitaria na sua cama um homem a tresandar a carnificina e a outros abusos de poder e profunda insensibilidade ao sofrimento alheio. O poder que nos parece muitas vezes emanar da mãe no tipo de sociedade em que vivemos é na verdade o poder patriarcal que ela assume como seu sem o ser, tendo perdido o rasto dos verdadeiros valores que em estado selvagem, de antes da domesticação patriarcal, emanariam do seu coração de mulher. 

Por que referi então no título que temos “excesso de mãe”? Porque a mãe que temos, desempoderada e desautorizada, e até infantilizada, por ter passado da alçada do pai para a do marido sem saber quem ela própria é nem ter amadurecido como adulta, é essencialmente uma mãe permissiva, que nessa profunda distorção patriarcal que é a ideia do sacrifício, permite tudo aquilo que não deveria permitir, não sabendo impor, com receio de perder o amor da sua descendência, limites nem fronteiras e sem ser senhora do seu verdadeiro sim nem do seu verdadeiro não, incapaz de fornecer qualquer modelo de força, coragem, coerência ou autenticidade, valores que criem cidadãos e cidadãs responsáveis, capazes de governar um mundo. Em vez disso, ela reproduz seres imaturos como ela, mimados pelo seu excesso de proteção sem exigência de contrapartidas de responsabilização pessoal, os egoístas, vaidosos, enfatuados e corruptos dirigentes que temos e os cidadãos impotentes e assustados que em vão procuram refúgio nas saias duma mãe arquetípica, a Nossa Senhora dos templos cristãos, cuja única capacidade que parece ter é a de comungar do seu sofrimento.    

© Luiza Frazão

Imagem: Google




segunda-feira, 11 de maio de 2015

CURAR MEDEA

Hoje, escrevia isto, e quando parei um pouco e fui espreitar o Facebook, tinha precisamente um convite para aderir a um grupo intitulado LA SANACIÓN DE MEDEA


Na verdade, aquilo de que nos falam estes mitos (Medeia e Lilith), é da derrota da mulher face ao ataque do patriarcado, que conquistou e destruiu uma organização social pacífica centrada na Mãe. É óbvio que isso só pôde ter acontecido no meio de muita resistência, de muita luta e com muita dor, e estes mitos dão-nos testemunho precisamente disso. Figuras míticas como Medeia e Lilith, completamente denegridas e amaldiçoadas, são personagens duma história contada pelo vencedor, que glorifica a sua própria ação de cruel destruição e morte e demoniza episódios da violência eventualmente perpetrada por mulheres que lutaram com as únicas armas de que dispunham, tentando resistir à terrível lei da espada e da difamação que se abateu sobre elas. 

Na verdade o que aconteceu, se quisermos fazer justiça neste caso, foi que os patriarcas legitimaram o ato de destruir, matar, saquear, dominar, perpetrado por eles, imbuindo-o de esplendor e de glória, e diabolizaram outros, resultado do puro desespero de mulheres indefesas, sozinhas e muitas vezes com descendência e ascendência a proteger, completamente vulneráveis, projetando nelas a sua sombra, os seus piores medos e fantasmas, transformando-as em perigosos alvos a abater, literal ou moralmente, pelo ridículo, o escárnio e o opróbrio. A mulher, ser mais empático, mais suscetível às emoções, e por isso mais vulnerável perante a frieza emocional do homem, aquela que divide o seu coração pelas/os filhas/os, amantes, mãe e pai, posta agora à total mercê do patriarca, do macho alfa, transformado em seu amo e senhor.

A verdade é que a nossa alma carrega essas memórias, que são parte do Corpo de Dor do Feminino, que muitas vezes não queremos ver nem aceitar, recusando sentir a nossa vulnerabilidade. No entanto acredito que sem revisitarmos essa dor e sem ousarmos corajosamente recontar a hsitória desde outro ponto de vista nunca nos poderemos verdadeiramente curar nem a nós nem ao mundo.

©Luiza Frazão



terça-feira, 14 de abril de 2015

A GRANDE MÃE CÓSMICA

De 1975... mas nunca publicado em Portugal - uma das bíblias do Movimento da Deusa…

THE GREAT COSMIC MOTHER, Rediscovering the Religion of the Earth
(Data da 1.ª edição: Dezembro de 1975)
Monica Sjöö & Barbara Mor

O Primeiro Sexo: “No princípio tod@s fomos criad@s fêmeas”

No princípio era… um oceano feminino. Durante 2 billiões e meio de anos, todas as formas de vida terrestres flutuavam numa espécie de grande útero oceânico, alimentadas e protegidas pelos seus fluidos químicos, embaladas pelo ritmo lunar das marés. Charles Darwin acreditava que o ciclo menstrual teve aqui a sua origem, um eco orgânico do pulsar do oceano ao ritmo da lua. E, por causa deste longo período em que a vida na terra foi dominada por formas marinhas reproduzindo-se por partenogénese, ele concluiu que o princípio feminino é primordial. No princípio, a vida não foi gestada no interior do corpo de nenhuma criatura, mas sim dentro do útero oceânico que continha toda a vida orgânica. Não havia órgãos sexuais diferenciados, mas tão-somente uma existência feminina generalizada que se reproduzia a si mesma dentro do corpo feminino do mar*.

Antes que formas de vida mais complexas se pudessem desenvolver e viver em terra firme, foi necessário minimizar o ambiente oceânico, reproduzi-lo numa escala ínfima e móbil. Ovos frágeis e húmidos depositados na terra seca e expostos aos elementos não poderiam sobreviver, a vida não poderia mover-se para lá do aquoso estádio anfibiano. No decurso da evolução, o oceano – o espaço protetor e nutridor, os fluidos amnióticos, e até o ritmo lunar das marés – foi transferido para o interior do corpo da fêmea. O pénis, um dispositivo mecânico para a reprodução em ambiente terrestre, começou então a desenvolver-se.

O pénis surge primeiro na Idade dos Répteis, há cerca de 200 milhões de anos. A associação arquetípica entre o pénis e a serpente contém sem dúvida essa memória genética.

Este recurso fundamental ocorre com frequência na natureza: a vida é um ambiente feminino onde o macho aparece, muitas vezes periodicamente, criado pela fêmea, para realizar tarefas altamente especializadas relacionadas com a reprodução da espécie no sentido duma evolução mais complexa. Daphnia, um crustáceo de água doce, produz várias gerações de fêmeas por partenogénese: ela gera o ovo e a sua polaridade masculina para produzir um complexo de genes de onde resulta uma cria fêmea. Uma vez por ano, no final do ciclo anual, um grupo de machos de curta duração são produzidos; os machos especializam-se na manufatura de cascas de ovos com a resistência do couro capazes de sobreviver ao inverno. Entre as abelhas, os zangãos são produzidos e regulados pelas crias fêmeas estéreis da rainha fértil. Os zangãos existem para acasalar com a rainha. Uma média de sete zangãos por enxame cumpre esse acto em cada estação, após o que todo o grupo de machos é dizimado pelas abelhas operárias. Na América do Sudoeste, quatro espécies de lagartos reproduzem-se por partenogénese; aí os machos são muitos raros nas pradarias e planaltos.

Entre os mamíferos e mesmo na espécie humana, a partenogénese não é tecnicamente impossível. Cada óvulo feminino contém uma polaridade masculina com um conjunto completo de cromossomas; quando unificados, poderiam criar um embrião do género feminino. Os quistos nos ovários são óvulos não fertilizados que se unem à sua polaridade masculina, implantando-se nas paredes dos ovários onde se começam a desenvolver.

Não quer isto dizer que o macho seja dispensável. A partenogénese é um processo de clonagem. A reprodução sexual, que faz aumentar a variedade e a saúde do conjunto dos genes, é necessária para o tipo de evolução complexa que produziu a espécie humana. O ponto aqui é apenas demonstrar que no que se refere aos dois sexos, um deles anda por cá há muito mais tempo do que o outro.

*The First Sex: “In the Beginning We Were all Created Female”

Helen Diner, Mothers and Amazons (Nova Iorque: Doubleday/Anchor, 1973), 74. Diner refere-se à obra de Charles Darwin Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, volume 1 (Nova Iorque: J. A. Hill and Co., 1904), 164-68; Darwin acreditava que ambos os sexos, eram maternos na origem e que a próstata dos homens seria um útero rudimentar. 

domingo, 1 de março de 2015

O EPISÓDIO MÍTICO O "JULGAMENTO DE PÁRIS" E O FIM DO MATRIARCADO



(...) De facto a grande cultura que precedeu a grega foi a cretense que subitamente desapareceu no séc. XVI antes de Cristo.

Depois deu-se a derrocada do império hitita relatada na Ilíada e assim se definiu a fronteira da mitologia greco-romana moderna que afinal os romanos nem reconheciam muito bem mantendo os seus deuses arcaicos indígenas, di indigetes.

No entanto a modernidade descobriu as mitologias nórdicas e celtas e as suas estranhas semelhanças com as orientais, factos que nem os autores das teorias do indo-europeu suspeitavam e queriam admitir.

Ora, é obvio que falta um elo perdido entre essas tradições extremas e ele só poderia ter sido a cultura cretense que depois veio a ser herdada pelos fenícios. E fica assim explicada a semelhança com a mitologia maia e a azteca.

Mas pouco ou nada se sabe da mitologia cretense e tudo o que se diga dela é muito especulativo. No entanto a intriga do Julgamento de Páris, que precedeu a guerra de Troia, foi e deve ser encarada como um momento importante na trama histórica, porque ele marca uma luta de poder entre 3 deusas que precede a primeira guerra mundial da história ocidental, que a partir daí passou a ser de guerras constantes.

Este episódio do Julgamento de Páris deve ser considerado como o marco do começo do patriarcado no mundo greco-romano, por ser a visão mítica de um fenómeno político nunca visto: o fim do domínio absoluto da tríade política das três fases da vida da mulher e que ia da Anatólia à Irlanda nos barcos da talassocracia cretense.

Assim, é no que resta dos cultos de Hera, Atena e Afrodite que deve ser reconstruida a tríade matriarcal, realçando o facto da vitória de Afrodite no julgamento de Páris fazer parte do processo de capitulação do matriarcado em relação ao patriarcado.

A TRÍADE MATRIARCAL DO JULGAMENTO DE PÁRIS CHEGOU ATÉ À IRLANDA

Confirmando a ideia de que a talassocracia cretense espalhou pelo mundo o mesmo culto da Deusa, este investigador acrescenta: 

(...)Na tríade Ériu, Banbha e Fódla...é óbvio que Vénus, sendo Afrodite, era Fódla porque:

Fódla < Folda < Forda < Afroda + Te > Afrodite

Como esta tíade é seguramente a mesma do julgamento de Páris e já sabemos quem era Afrodite, fica Eridu como só podendo ser Hera. E resta a Banbha ser Atena:

Banbha < Wan-wika < Kian-Kika < Tianita > Anat > Atena > Diana.

Porque foi a partir desta epifania que eu dei conta de como tudo o resto estava interligado!


©Artur Felisberto 

Imagem: Rubens, O Julgamento de Páris




sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Vou andar pelo campo enquanto cá andar e enquanto o houver




Esta manhã acordei com o pensamento nos caminhos da minha terra. São caminhos por onde já quase não se anda, paisagens cujo encanto não impressiona mais ninguém. Não são áreas protegidas, não vêm em nenhum roteiro turístico. De cada vez que lá vou falta mais um pedaço tomado por alguma nova construção. O mais selvagem e avassalador foi o IP não sei quantos que destruiu, entre muitas outras coisas, os carvalhos mais antigos e imponentes da área que oficialmente até seriam árvores protegidas.

Gosto, dizia, de percorrer esses caminhos, sinto que preciso deles e que eles precisam de mim. Dizem-nos @s mestr@s que o mundo precisa da nossa atenção para existir e eu acredito e é quase com um sentimento de dever ou de missão que sempre que posso percorro os campos, para garantir que perduram, que continuam a mudar de aparência em cada estação, que ainda rescendem a ervas mágicas no Verão, que se enchem de flores quando vem a Primavera e de pássaros nos ninhos e de regatos e poças de água no Inverno e que amarelecem no Outono quando a Deusa Abundância estende para nós os seus frutos e bagas todas ao mesmo tempo.
  
Entretanto perguntam-me as pessoas da aldeia que, imagine-se, já não andam pelos campos no meio dos quais construíram as habitações onde vivem, se não tenho medo de andar sozinha pelo campo. A pergunta, mais do que incomodar-me, fere a minha alma como o bulldozer fere a paisagem. Ao indagar dos hipotéticos perigos, dizem-me que vêm basicamente das cobras e dos assaltantes.

Devo dizer entretanto que considero as cobras dos animais mais sagrados de toda a criação. Quanto aos assaltantes, eles estão por todo o lado, toda a paisagem foi tomada de assalto, a cultura foi tomada de assalto, toda a terra foi tomada de assalto. Eu visito apenas o que resta do saque, por enquanto, o que vai sobrevivendo no meio de toda a desolação, e dou-lhe toda a atenção e carinho que posso e perecer nesse acto não vou dizer que seria heróico, mas alguma coisa do género.

Mas não sou assim tão destemida, também tenho os meus medos. Tenho medo duma cultura em que as pessoas se trancam em casa com medo das cobras, dos assaltantes, dos fiscais das finanças, dos banqueiros, dos polícias, daqueles que se dizem seus governantes, e aí ficam embasbacadas à frente da televisão, vendo incessantes novelas e arraiais populares, gouchas, casas de segredos e jogos de futebol, enquanto engolem as pastilhas prescritas pelo médico de família, alternando tudo isso com os vinte crimes seguidos do telejornal das oito, mais as ameaças dos ministros, no meio da euforia de plástico da publicidade. E não é apenas medo, é pavor por ver a forma vil e abjecta como se destrói a alma e se drena a força vital dum país e duma cultura. 

Luiza Frazão

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Conferência da Deusa de Glastonbury 2014


A Roda do Ano determinou que esta 19.ª edição da Conferência fosse dedicada à Deusa Anciã, que ocupa nessa mesma Roda a direcção Noroeste, o momento em que o ano termina com a morte da natureza anunciada já no Equinócio do Outono. A Deusa Anciã é portanto a Senhora da Morte, a que ceifa a vida que chegou ao seu término, recolhendo-a no Seu caldeirão, o Seu útero, o interior da Terra, onde será transformada para de novo renascer. A Morte, a que sempre se segue um novo começo, um Renascimento, foi portanto o grande tema desta Conferência: the Cauldron and the Loom, o Caldeirão e o Tear, lia-se no título do programa.

E o Tear, onde se entrelaçam os fios da Vida, veio para Glastonbury pela mão da fantástica Carolyn Hyllier, xamã, artesã, autora, compositora e intérprete, pintora… uma mulher única, um potentado, out of this world, como dizia alguém.  Carolyn Hyllier encheu o Assembly Rooms de Glastonbury com a sua instalação, misto de pintura e tecelagem, com a sua própria música de fundo, onde sobressaiam 13 tecedeiras, representantes de várias culturas do mundo que ganhavam vida quando percorríamos cerimoniosamente a instalação, interpelando-nos até às profundidades mais
inconfessadas da alma, fazendo estremecer todas as camadas de esquecimento, menosprezo e abuso com que recobrimos o feminino no mundo, desvalorizando a sua função, na aparência tão humilde mas na verdade tão grandiosa de simplesmente tecer as condições para que a vida seja possível. E de repente percebemos que as fantásticas tecedeiras míticas de Caroline Hyllier são como os grandes pilares em que assenta a própria alma do mundo…

Sob a sua alçada e com orientação da Sacerdotisa Annabel Du Boulay foi criada a Estrada da Morte com a participação de tod@s que na sexta-feira à noite percorremos em cerimónia e que em cerimónia fora transportada em ombros pelas sacerdotisas desde o Assembly Rooms até ao Town Hall nessa tarde num sublime cortejo fúnebre com o qual se pretendeu honrar a morte dando-lhe o peso e o lugar que merece, sabendo que ela é necessária para que a vida se renove e não algo de pavoroso com sabor a derrota que “civilizadamente” escondemos ou tentamos ignorar. Foi um dos momentos mais desafiadores percorrermos um-a por um-a a grande Estrada da Morte, sendo o desafio morrer para aquilo que não queremos mais na nossa vida, aprender o desapego. No fim de tod@s termos passado para o outro lado, fizemos em glória o percurso inverso sobre a grande estrada vermelha da Vida.

Foi muito interessante constatar que nunca vira tanta gente no Town Hall como este ano atraída pela energia da Deusa Anciã que forneceu ainda inspiração para uma cerimónia marcante de coroação das Anciãs, mulheres acima dos 69 anos, que encheram o palco, onde foram apresentadas por alguém íntimo que ressaltava os aspectos mais marcantes da sua vida e personalidade. Foi lindo e poderoso ver contrariar a tendência da cultura dominante para equacionar o avançar da idade com decadência, na lógica do simples mecanismo que se desgasta, em vez de com valor acrescentado, enriquecimento tanto pessoal  como para toda a comunidade.

Nesta Conferência coube-me também a mim, a convite da minha formadora na terceira espiral do meu treino de Sacerdotisa, Kathy Jones, a grande honra de apresentar um workshop sobre um trabalho inspirado pela energia da Bean Sidhe celta em que pudemos trabalhar aspectos relacionadas com a Sombra feminina.

Para muitas mulheres e alguns homens de várias partes do mundo, a Conferência é o grande momento do ano e a pequena cidade de Glastonbury enche-se de gente que vem aqui  celebrar o regresso da Deusa, honrá-La no lugar desde mundo em que a Sua energia está mais presente e mais se faz sentir, o lugar da Senhora de Avalon com a maravilhosa Sua energia de profunda cura e transformação.



Imagens da Conferência, a primeira no lugar aonde nos levou a procissão do último dia, junto à imagem da Deusa Anciã; a segunda com o grupo de Espanha, da Ibéria, ao qual se juntou a sacerdotisa de Avalon e de Rhiannon Katinka Soetens; a terceira do altar mexicano dos Mortos que criei para o meu workshop Women in White, the Universality of the Celtic Bean Sidhe, no Camino Center.  

terça-feira, 13 de maio de 2014

RESGATAR MARIA, EMPODERAR A MÃE


Hoje em Portugal é o grande dia de Maria, a Senhora de Fátima, a Nossa Senhora, a Mãe de Jesus, crê-se. Nunca lhe ouvi chamar Deusa, a não ser uma vez na televisão um padre muito preocupado porque o que se passava em Fátima era puro paganismo, adoração da Deusa. Não me lembro do nome dele, já foi há uns 30 anos, mas a verdade é que o indivíduo tinha mesmo razão – quando dizia ser adoração da Deusa, não quando se mostrava preocupado, óbvio. Como muito bem lembra Moisés Espírito Santo e outr@s, a religião popular encontrou maneira de subsistir no seio da viril, seca, sensaborona, rígida e implacável  Igreja de Roma tratando de arranjar nela um lugar de honra para a sua Rica Mãezinha sem a qual hoje em dia não haveria nada na Igreja Católica capaz de ainda mover multidões como a que hoje deve ter estado em Fátima e de que também já fiz parte e adorei a experiência.

Maria de Fátima, entretanto, como os padres a travestiram, que é exactamente uma versão católica portuguesa daquilo que o lobby gay da indústria internacional da moda faz com as manequins: pré-adolescentes, anoréticas, sem resquícios de feminidade no corpo, assexuadas, tendo mais do rapazinho do que da rapariga (mas esperem lá que isto pode levar-nos muito longe se lermos “Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima” do já referido Moisés E. Santo…), Maria, enquanto Senhora de Fátima, dizia eu, sejamos realistas, nada tem de uma Mãe. Só com muito boa vontade e um grande transe de pai-nossos e ave-marias e muita água benta é que conseguimos ver n’Ela a Grande Criadora Toda-Poderosa, a Senhora do Grão, da Abundância, da Fartura, capaz de proteger, cuidar e alimentar as filhas e os filhos, que era assim que Ela, a Deusa, que o povo levou para a Igreja de Roma, era vista e sentida.

Entretanto o processo por que passou, o lifting, levou-lhe os benéficos e fecundos atributos maternos que apenas em outras Senhoras muito mais esquecidas hoje em dia podemos encontrar, como a Senhora do Ó, a Senhora grávida, e em especial a Senhora do Leite, Essa sim, uma verdadeira Mãe capaz de alimentar o mundo. O lifting, o processo de emagrecimento, a mastectomia e, presumo, também a histerectomia por que passou a Virgem Maria, penso que estarão relacionadas com o profundo ar de apatia depressiva que apresenta e que estranha e, desconfio que perfidamente, se confunde com santidade (iluminação em outros credos). Oficialmente é o sofrimento pelos pecados do mundo, contra o seu Filho, ou seja, todo um programa de manipulação emocional capaz de nos tornar tão apátic@s e depressiv@s como a sua imagem aparenta, se não tomarmos providências.

Misericórdia, dirão, Compaixão. Concedo. Maria, que é a Senhora do Mar, do mar das emoções, é uma Deusa da Compaixão, como a oriental Kuan Yin, uma Mãe capaz de sofrer por nós e de interceder por nós junto do Pai demasiado severo e ocupado com coisas sérias para directamente atender as suas míseras criaturas... Tão interessante…  sobretudo quando se diz com desdém que os deuses do Olimpo grego tinham qualidades demasiado humanas… ahahah! E seriam apenas eles?

Ora ter na cultura como arquétipo feminino dominante uma Mãe, assexuada, anoréctica, mastectomizada, deprimida, que apenas pode oferecer compaixão, misericórdia, piedade (acho que é tudo a mesma coisa) às suas criaturas terrenas, sem qualquer poder para além do de aplacar a insensibilidade da divindade masculina, é extremamente preocupante e a minha preocupação é mesmo genuína. 

Por que terá Maria, entretanto, esse poder junto de Deus Pai também é um mistério, uma vez que Ela é tão-somente a Mãe do Seu Filho, ou seja, Deus é um Pai solteiro que usou o ventre de Maria como única tecnologia de reprodução disponível. Óbvio que Ela seria de qualidade superior, enquanto Deus, ele só podia escolher o melhor. Podemos imaginar, por exemplo, o Michael Jackson a escolher a Mãe que daria à luz os seus preciosos rebentos com um rigor o mais semelhante que a sua simples humanidade torna possível. Só me espanta no meio disto tudo é que os cristãos se insurjam tanto contra o direito dos gays de adoptarem crianças…

Mas Maria nunca poderá aspirar ao estatuto de Deusa, a menos que nós o decidamos. Nós, mulheres, que há que ter mão nisto, e foi o que fez ontem Marion Brigantia numa cerimónia no Templo da Deusa de Glastonbury em que eu não participei por ainda não ter sentido que para mim chegou esse momento. Só para mim, só eu sentir-me mais conectada com a energia de Maria. Processos que às vezes podem demorar.

 E enquanto isso o que eu faço é procurar as nossas antigas Deusas Mães capazes de nos valerem, ajudando a empoderar a Mãe em nós e no mundo para ver se pomos alguma ordem na grande casa humana.
©Luiza Frazão

domingo, 20 de abril de 2014

DON JUAN e a Motivação de Poder


“De particular relevância é o trabalho muito mais recente do psicólogo David Winter. Tal como outr@s académic@s modern@s de nomeada, Winter tem vindo a estudar aquilo que no livro do mesmo nome designa de “motivação de poder”. Como psicólogo social, dedicou-se à descoberta de padrões históricos através de medições objectivas. E embora uma vez mais convenha olhar para além daquilo que Winter sublinhou, a partir da perspectiva psicológica convencional centrada no masculino, as suas descobertas documentam decisivamente que atitudes mais repressivas para com as mulheres prenunciam períodos de belicismo agressivo.

Centrando-se numa das figuras românticas mais famosas da literatura e da ópera, o impetuoso sedutor Don Juan, a análise sociopsicológica de Winter baseia-se largamente no estudo da frequência de certos temas em documentos literários. Winter observa que, apesar da obrigatória condenação das acções de Don Juan como “perversas” e “malditas”, ele é de facto idealizado como “o maior sedutor de Espanha”. Assinala também que os motivos subjacentes de Don Juan são a agressão, o ódio e o desejo de humilhar e punir as mulheres – não os impulsos sexuais. Nota ainda algo de profunda importância psicológica e histórica: as atitudes extremamente hostis para com as mulheres são características de épocas em que as mulheres sofrem a máxima repressão por parte dos homens. 

O caso clássico relevante que cita é o da Espanha onde emergiu a lenda de Don Juan, quando os espanhóis das classes superiores haviam adoptado o “costume mourisco de manter as mulheres em isolamento”. A razão psicológica por detrás desta hostilidade acrescida, explica Winter, é o relacionamento mãe-filho tornar-se particularmente tenso em períodos assim – a par da generalidade das relações feminino-masculino.

Contextualmente, torna-se evidente que a “motivação de poder” de Winter é, na nossa terminologia, a pulsão androcrática para conquistar e dominar outros seres humanos. Tendo estabelecido ser o rebaixamento das mulheres por parte de Don Juan uma manifestação desta “motivação de poder”, Winter tabula então a frequência das histórias sobre Don Juan na literatura de uma nação relativamente aos períodos de expansão imperial e de guerra. O que documentam as suas descobertas é aquilo que nós prediríamos socorrendo-nos do modelo de alternância gilânico-androcrático: historicamente, as estórias do mais famoso arquétipo de dominação masculina sobre as mulheres aumentam de frequência antes e durante os períodos de militarismo e imperialismo exacerbados.”


in O Cálice e a Espada, Riane Eisler, Via Óptima