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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UNIR AS DUAS MULHERES - MANUAL PRÁTICO

Em meu entender a espiritualidade da Deusa é fundamental para a união das duas mulheres, a santa e a pecadora, em nós. Se queremos que essa união aconteça, para sermos inteiras, precisamos de actuar no cerne da questão e ele reside nos símbolos e nos mitos que a cultura fornece à mulher para a construção da sua identidade.

Nós não unimos as partes cindidas apenas com conversa, tal como da boca dos padres de coração empedernido que na igreja nos mandam amar à e ao proxim@ nunca sairá sentimento algum que se aproxime ao amor, apenas ao temor....

Essa união tem de ser uma construção, uma tessitura que fazemos com vários fios. Os restos esfarrapados das nossas histórias, das nossas lendas e mitos perdidos, indo à procura deles. Pedacinho a pedacinho. Precisamos de escavar, camada a camada para irmos encontrando os tais fiozinhos. Às vezes parece até que encontrámos uma bela porção mas quando olhamos mais de perto verificamos que estão todos emaranhados e cheios da rançosa gordura patriarcal. Precisam de ser limpos e desembaraçados.
Ainda ontem me pareceu ter encontrado mais um fiozinho para tecer a parte de Lilith na nossa tapeçaria.

Depois disso torna-se necessário abençoar o nosso trabalho e colocá-lo no lugar de maior honra e reverência, o altar. Aproximar-me desse altar enquanto sacerdotisa, invocar a Deusa, que está dentro e fora de mim, que é imanente e transcendente, é para mim a nossa cura, a nossa possibilidade de renascermos inteiras depois do golpe mortal do patriarcado quando nos considerou indignas de o fazer. Ser sacerdotisa é na prática quebrar esse interdito, desfazer essa maldição, curar essa ferida, essa cisão.

Quando eu ergo a minha tecitura ao nível do sagrado, ela fica imbuída desse poder supremo. Do poder de gerar mitos que nos favorecem e fortalecem, que nos ajudam a perceber quem somos fora da esfera do utilitarismo patriarcal que nos anulou, obliterando, deturpando os nossos mitos para nos pôr ao seu serviço.

Não esquecer que para isso ele criou outros mitos, como a história de Adão e Eva, que foram contra nós e que isso aconteceu aí na esfera do religioso, do poder supremo…

“A religião é a política ao mais alto nível”, o verdadeiro centro de poder das nossas vidas. Como muitas feministas entenderam, “a religião é um assunto demasiado importante para ser deixado nas mãos dos patriarcas”. Um lugar com essa importância na nossa alma nunca ficará vazio. A sede de sagrado, acredito, é inerente à nossa natureza, e por isso iremos saciá-la com o que houver disponível: Deus, Deusa, Ciência, Consumo, Homem Ideal, alguma coisa para lá mandamos…


©Luiza Frazão

Imagens - fachada do Goddess Hall, Benedict Street, Glastonbury, Inglaterra; a Deusa Anciã no Templo da Deusa de Glastonbury (foto de Anna-Saqqara Price)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

REIS DA CRIAÇÃO POR DIREITO DIVINO

Encontrei há pouco esta foto do Ernest Hemingway e da modelo Jean Petchett e achou-a perfeita para ilustrar este excerto do Segundo Sexo, ou talvez até o livro inteiro...

"Em toda parte e em qualquer época, os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentirem os reis da criação. "Bendito seja Deus nosso Senhor e o Senhor de todos os mundos por não me ter feito
mulher", dizem os judeus nas suas preces matinais, enquanto as suas esposas murmuram com resignação: "Bendito seja o Senhor que me criou segundo a sua vontade". Entre as mercês que
Platão agradecia aos deuses, a maior se lhe afigurava o fato de ter sido criado livre e não escravo e, a seguir, o de ser homem e não mulher. Mas os homens não poderiam gozar plenamente esse privilégio, se não o houvessem considerado alicerçado no
absoluto e na eternidade: de sua supremacia procuraram fazer um direito. "Os que fizeram e compilaram as leis, por serem homens, favoreceram seu próprio sexo, e os jurisconsultos transformaram
as leis em princípios", diz ainda Poulain de Ia Barre.

Legisladores, sacerdotes, filósofos, escritores e sábios empenharam- se em demonstrar que a condição subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa à terra. As religiões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a

teologia a serviço de seus desígnios, como vimos pelas frases citadas de Aristóteles e São Tomás."

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo

terça-feira, 12 de novembro de 2013

MULHERES EM BRANCO - A UNIVERSALIDADE DA BEAN SIDHE DA TRADIÇÃO CELTA


Versão portuguesa:

 MULHERES EM BRANCO

 Uma mulher misteriosa, vestida de branco, anunciadora da morte, em pranto, é uma figura bem conhecida na tradição celta, a Bean Sidhe. No entanto, esta mulher não é um exclusivo do folclore celta. As suas irmãs parecem estar espalhadas por todo o lado, como é o caso de La Llorona no México, de La Sayona na Venezuela, de Paquita Muñoz nos Andes e de a Mulher de Branco no Brasil e em Portugal...
 O branco que ela usa é tudo menos um símbolo de pureza e de inocência e as suas histórias dramáticas e dolorosas parecem estar sempre associadas a um homem de quem ela procura vingar-se. O fantasma desta mulher atormenta e aterroriza incautos condutores em nocturnas estradas isoladas.
 Nesta comunicação tentaremos perceber de que modo estas Mulheres de/em Branco estão conectadas com as profundezas ignoradas da nossa alma.

domingo, 10 de novembro de 2013

A ÉPOCA PAGÃ NÃO FOI UMA ÉPOCA DE CAOS E DE TREVAS, COMO HABITUALMENTE SE SUPÕE

 Por que é que continuamente se infere que a época pagã, o tempo em que eram cultuadas divindades femininas (quando esse tempo é mencionado), é como uma época de trevas, de caos, de mistério e de mal, sem a luz da ordem e sem a razão que supostamente foram depois trazidas pelas religiões masculinas? As pesquisas arqueológicas entretanto confirmam que as primeiras leis, formas de governação, medicina, agricultura, arquitectura, metalurgia, veículos de rodas, cerâmica, têxteis e escrita foram inicialmente desenvolvidas em sociedades que seguiam a religião da Deusa. E finalmente acabamos por nos questionar sobre as razões para a falta de informação facilmente acessível sobre sociedades que, durante milhares de anos, cultuaram a antiga Criadora do Universo. 

Apesar dos muitos obstáculos, consegui reunir a informação existente e comecei a relacionar entre si o que tinha recolhido. À medida que fui investigando, a importância, a longevidade e a complexidade desta religião antiga começou a tomar forma diante de mim. Muitas vezes havia apenas a referência à Deusa, um pedaço de lenda, uma referência obscura ao longo das 400 ou 500 páginas de erudição académica. Um templo abandonado em Creta ou uma estátua no museu de Istambul com escassa informação a acompanhá-la começaram entretanto a encontrar o seu lugar próprio num cenário mais vasto.


Merlin Stone, When God Was a Woman, traduzido por Luiza Frazão

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A DEUSA NEGRA - A SOMBRA FEMININA

“Não basta dizermos que é preciso uma nova relação com o feminino. Aquilo de que precisamos mesmo é de nos relacionar com o lado negro do feminino.Fred Gustafson, The Black Madonna (Boston, Sigo Press, 1990)

Nas sociedades tradicionais que reverenciavam a lua como Deusa, a 3.ª fase negra era personificada pela Deusa Negra, sábia e compassiva, que governava os mistérios da morte, transformação e renascimento. Com o tempo, sucessivas culturas foram gradualmente esquecendo o antigo culto da lua, e o antigo conhecimento da ciclicidade da realidade, reflectida nas suas fases perdeu-se.

Na nossa sociedade actual a maior parte de nós desconhece o potencial de cura e de renovação que existe como qualidade intrínseca do processo cíclico da fase escura da lua. Em vez disso, associamos a ideia de escuridão à da morte, do mal, da destruição, isolamento e perda. Numa sociedade governada pela clara consciência solar, fomos ensinad@s a temer, rejeitar, desvalorizar e desempoderar tudo quanto se relaciona com os conceitos de escuridão – pessoas de cor, mulheres, sexualidade, menstruação, natureza, o oculto, o paganismo, a noite, o inconsciente, o irracional e a própria morte. Do ponto de vista mítico, associamos todos estes medos da escuridão à imagem do feminino demoníaco conhecido como a Deusa Negra, intimamente relacionada com a lua negra.

Ao longo da história, o poder original da Deusa Negra enquanto renovadora foi esquecido e ela tornou-se assustadora e destruidora. Em muitas mitologias do mundo, ela foi descrita como a Tentadora, a Mãe Terrível, a Anciã que traz a morte. As suas biografias mais tardias descrevem-na como negra, malvada, venenosa, demoníaca, terrível, malevolente, fogosa. À medida que a cultura patriarcal se tornou dominante, ela foi-se transformando num símbolo da devoradora sexualidade feminina que faz com que o homem transgrida as suas convicções morais e religiosas, consumindo-lhe a essência vital no seu abraço mortífero.
Na imaginação mítica das culturas dominadas pelo homem, a sua natureza original foi distorcida e ela tomou proporções horríficas. Enquanto Kali, ela surge nos crematórios adornada com uma grinalda de caveiras, empunhando a cabeça cortada do seu companheiro, Shiva, escorrendo sangue. Enquanto Lilith, ela voa pelos céus nocturnos como uma demoníaca criatura que seduz os homens e mata criancinhas. Enquanto Medusa, a sua bela e abundante cabeleira tornou-se uma coroa de serpentes sibilantes e o seu olhar feroz transforma os homens em pedra. Enquanto Hécate, ela persegue os homens nas encruzilhadas pela noite com os seus ferozes cães do inferno.



Podemos perguntar-nos por que razão a Deusa Negra apresenta uma imagem tão terrífica e de que modo ela e a sua contraparte psicológica, o feminino negro, ameaçam a nossa sociedade e criam destruição nas nossas vidas. E ainda como é que o seu poder destruidor se relaciona com as suas qualidades de cura que permitem a renovação. De que formas a Deusa Negra representa o nosso medo do escuro, do oculto, da morte, da mudança; o nosso medo do sexo, bem como o do confronto com o nosso ser e essencialmente com a nossa essência e a nossa própria interpretação da verdade. As respostas para estas questões podem encontrar-se na transição de uma cultura matriarcal para uma cultura patriarcal que ocorreu há 5 mil anos. As pesquisas actuais sobre a história antiga, nos domínios da teologia, da arqueologia, da história da arte e da mitologia, estão a trazer à evidência que, com início há 3 mil anos AC, ocorreu uma transformação nas estruturas religiosas e políticas que governavam a humanidade. Sociedades matriarcais que cultuavam as Deusas da terra e da lua, como Innana, Ishtar, Ísis, Deméter e Artemis, deram lugar a sociedades patriarcais, seguidoras do deus solar e dos heróis masculinos, como Gilgamesh, Amon Ra, Zeus, Yahweh e Apolo.

 Antes disso, uma conexão entre a morte e o renascimento estava implícita na cíclica renovação da Deusa Lua, cultuada pelos povos antigos. A Deusa ensinava que a morte mais não é do que a precursora do renascimento e que o sexo não serve apenas para a procriação, serve também para o êxtase, a cura, a regeneração e a iluminação espiritual. Quando a humanidade adoptou o culto dos deuses solares, os símbolos da Deusa começaram a desaparecer da cultura e os seus ensinamentos foram esquecidos, distorcidos e reprimidos.

Académic@s contemporâne@s começam a descobrir evidências de como o culto da Deusa foi suprimido, os seus templos e artefactos destruídos, os seus e as suas seguidr@s perseguid@s e assassinad@s e a sua realidade negada. O novo sistema de crenças das tribos dos conquistadores solares patriarcais renegaram a renovação cíclica, negando assim o ciclo natural do nascimento, morte e regeneração da Deusa Lua, o terceiro aspecto da Deusa Tripla. A Deusa Tripla da Lua, na sua fase nova, cheia e escura, era o modelo da natureza feminina enquanto Donzela, Mãe e Anciã. No seu culto original da Deusa Negra, como o terceiro aspecto desta trilogia lunar, ela era honrada, amada e aceite pela sua sabedoria, pelo seu conhecimento dos mistérios da renovação.
Durante a prevalência da cultura patriarcal, entretanto, ela e os seus ensinamentos foram banidos e remetidos para os recantos escondidos do nosso inconsciente.
(…)
Com a diminuição da luz da lua, ela transforma-se na Anciã Negra na lua escura minguante que recebe @ mort@ e @ prepara para o renascimento. Na sua sabedoria que deriva da experiência, ela relaciona-se com a estação do inverno e o mundo subterrâneo. Enraizada na sua força interior, a Deusa da Lua Negra está repleta de compaixão e de compreensão da fragilidade da natureza humana e o seu conselho é sábio e justo.
Ela governa as artes da magia, o conhecimento secreto, os oráculos. A Anciã da Lua Negra era artisticamente representada como a terrível face da Deusa que devora a vida, e algumas imagens representam a sua vulva como símbolo da subsequente renovação. Rainhas da magia e do submundo, como Hécate, Kali, Eresh-Kigal, são símbolos da fase minguante da Deusa da Lua Negra.
(…)
Os povos antigos sabiam que, tal como ela morria todos os meses com a velha Lua Negra, também renasceria na Lua Nova crescente. Era a Anciã da Lua Negra que tomava a vida no seu útero; mas @s antig@s também sabiam que a Deusa Virgem da Lua Nova daria à luz a nova vida. A anciã era a doadora da morte assim como a virgem era a que trazia o renascimento. A reencarnação era representada pela refertilização da anciã-tonada-virgem. A interacção contínua entre a destruição que se transformava em nova criação é a eterna dança que sustém o cosmos.

A Deusa Negra eliminava e consumia aquilo que estava velho, degradado, desvitalizado e sem préstimo. Tudo isso era transformado no seu caldeirão e oferecido depois como elixir. Como podemos ver nos seus antigos rituais sagrados, as antigas religiões partilhavam o conceito dum submundo para onde a Deusa Negra conduzia a alma através dos negros espaços do sem forma, onde ela exercia os seus secretos poderes de regeneração.

A palavra inglesa “hell” vem do nome da terra subterrânea da Deusa escandinava Hel. O seu subterrâneo não era entretanto um lugar de punição, mas antes o escuro útero, simbolizado pela cave, o caldeirão, o fosso, a cova, o poço. A Deusa Negra não era temida e o seu espaço não era um lugar de tortura. Ela guardava os seus e as suas iniciad@s nos cemitérios, a entrada do seu templo. Através da morte o indivíduo entra no ciclo da fase escura da lua; aí encontra a Deusa Negra que o conduz através da passagem intermédia de volta à vida.

Quando este natural desfecho do tempo de vida era compreendido e aceite, a Deusa Negra era honrada pela sua sabedoria e amada pela sua ilimitada aceitação e compaixão para com os habitantes da terra. Ela não era temida pelos povos que cultuavam a lua, que entendiam a morte como um hiato no tempo entre vidas.

MYSTERIES OF THE DARK MOON – The Healing Power of the Dark Goddess, Demetra George, HarperSanFrancisco, 1992

Traduzido por Luiza Frazão

Imagens: Caroline Hillyer

     


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

De Santa a Rameira - a visão patriarcal da antiga religião da Deusa

De Santa (qadesh) a Rameira (Harlot)

Lendo Merlin Stone, a famosa autora de When God Was a Woman (Quando Deus era Mulher)... A obra que tenho em mãos é The Paradise Papers  - The Suppression of Women’s Rites (Os papéis do Paraíso- a Supressão dos Ritos Femininos). Como se diz na capa, um “clássico feminista”…

Merlin Stone revela aqui o que encontramos quando um novo olhar, um olhar feminino, ou feminista, é lançado sobre documentos antigos. Um crivo de preconceitos patriarcais é usado pelos arqueólogos académicos, segundo aqui se demonstra, para interpretarem dados do passado… muito interessante e revelador.

Fica aqui uma amostra:

“Na maior parte dos textos arqueológicos, a religião centrada numa divindade feminina é referida como um simples “culto de fertilidade”, parecendo tal classificação revelar atitudes em relação à sexualidade que decorrem da influência da visão das religiões contemporâneas professadas pelos próprios autores. No entanto a evidência arqueológica e mitológica da veneração duma divindade feminina enquanto criadora, legisladora, inventora, profetiza, com influência no destino humano, inventora, curadora, caçadora e líder imponente no campo de batalha sugere que a designação “culto de fertilidade” não passa duma simplificação grosseira duma complexa estrutura teológica.
(…)
Nas suas descrições de cidades e de templos há muito soterrados, os académicos homens escreveram sobre a sexualidade activa da Deusa como sendo “indecente”, “intoleravelmente agressiva” “embaraçosamente vazia de moral”, enquanto as divindades masculinas que seduziam e violavam ninfas ou mulheres míticas, são descritas como “brincalhonas” ou até admiravelmente “viris”. A evidente natureza sexual da Deusa, justaposta à Sua sagrada divindade confundiu de tal forma um académico que este acabou por decidir-se pelo desconcertante epíteto de Virgem-Rameira. As mulheres que seguiam os antigos hábitos sexuais do culto da Deusa, designadas na sua própria língua como sagradas ou santas mulheres, foram repetidamente classificadas como “prostitutas ritualísticas”. Esta selecção de palavras é reveladora uma vez mais duma ética etnocêntrica provavelmente baseada em atitudes bíblicas. Acrescente-se ainda que usar o termo “prostituta” para designar mulheres cujo título era na verdade qadesh, que significava santa, revela uma enorme falta de compreensão da verdadeira estrutura social e teológica que estes autores estão a tentar descrever.

As descrições da divindade feminina como criadora do universo, inventora, dispensadora de cultura, são feitas habitualmente em uma ou duas linhas se tanto; os académicos rapidamente passam por cima destes aspectos da divindade feminina que segundo eles não merecem sequer discussão.
Apesar do facto de o título da Deusa em muitos documentos históricos do Médio Oriente ser Rainha dos Céus, alguns autores apenas parecem dispostos a conhecê-la como Mãe Terra…


A divindade feminina, venerada como guerreira ou caçadora, lutadora corajosa ou ágil atiradora, foi por vezes descrita como possuindo curiosos “atributos masculinos”, implicando isso que a Sua força e valor a tornavam uma espécie de aberração, ou alguém psicologicamente anormal. O professor de Arqueologia Pré-histórica J. Maringer rejeita a ideia de que os crânios de rena fossem troféus de caça duma tribo paleolítica. A razão? Foram encontrados no túmulo duma mulher. Escreve ele: “Aqui o esqueleto era o de uma mulher, uma circunstância que parece descartar a hipótese dos crânios e hastes de rena serem troféus de caça”. Estarão estes autores a julgar a natureza física intrínseca da mulher pelos modernos ideais de esbelteza e fragilidade?”

Merlin Stone, The Paradise Papers (tradução de Luiza Frazão)  

Imagem do centro: Deusa Tanit

domingo, 29 de setembro de 2013

TRAZER AO MUNDO A CULTURA DA DEUSA

Numa discussão alguém disse:

" Tenho pensado na 'sociedade' da Deusa... voltará? Os 'moldes' serão os mesmos? ... por vezes julgo q sim outras julgo que não. Sei, entendo as sociedades assentes na deusa mas também não entendo. .. porque falharam. .. por quê? (Nem sei se é necessária esta questão) ... utopia? ?? Será? Sonhos? ?? Realidade?"


A minha opinião e as pesquisas que faço vão no seguinte sentido: existe um elo entre as sociedades que cultuavam a Deusa (por que desapareceram é uma longa história sobre a qual ainda não há certezas incontestáveis, se é que vão alguma vez existir) e o presente. Esse elo são as sociedades matriarcais ou matrifocais que ainda sobrevivem no planeta. São várias, não apenas Mosuo na China. São estas sociedades que, do meu ponto de vista, possuem a chave, o segredo para mudarmos o presente indo buscar os valores que permitiram que sociedades do passado florescessem (a de Creta, Çatal Huyuk na Turquia por exemplo) e durassem por milénios, sociedades de paz como está provado. Neste momento por todo o mundo há congressos sobre estas sociedades de paz do passado que nos podem ensinar muito, é só procurar na Net o testemunho das mulheres porta-vozes dessas sociedades. 


Por outro lado, há um movimento, a Permacultura (e Transição como também se diz) a que vale a pena estar atent@. Como normalmente por aqui as questões de género não são tidas em conta, no movimento em Portugal, digo, afastei-me.

Starhawk é para mim uma das mulheres que têm coisas para nos ensinar nesta junção da Permacultura, sociedades matrifocais e a Deusa...

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

CONFERÊNCIA DA DEUSA – GLASTONBURY 2013

Deep into the Earth we go
Deep into de Earth we know... (canção de Sally la Diosa Pullinger)

A Terra, a Mãe Terra, foi o tema deste ano, direção Oeste

Por momentos mal se cabia no Town Hall, espaço público disponibilizado todos os anos para este evento que já vai na 18.ª edição. A representante do poder local, na sessão de abertura, salientou o papel e a responsabilidade das mulheres na mudança de paradigma no sentido de criarmos sociedades mais equilibradas, justas, muito mais pró-vida do que as que temos na atualidade.

A Visão MãeMundo

Para inundarmos o mundo com os valores da Mãe, os valores Matriarcais, foi finalmente apresentada ao grande público a visão de Kathy Jones, apoiada pela comunidade de sacerdotisas e sacerdotes de Avalon e de outras pessoas que se identificam com o Movimento da Deusa. Para melhor compreender esta visão, sugiro que consulte: em inglês  e na tradução portuguesa.

Curar a Sombra

Para trazer este mundo ao plano físico, torna-se imperioso para nós mulheres enfrentarmos e curarmos os nossos aspetos Sombra, que tantas e tantas vezes nos voltam umas contra as outras, sabotando todo o trabalho que possamos fazer em conjunto. A nossa divisão, interna e que depois se reflete para o exterior, a nossa profunda insegurança cientificamente desenhada para nos manter no estado de colonizadas, de escravatura mais ou menos disfarçada, em que nos encontramos, acabam por nos tornar cúmplices do sistema patriarcal que sem a nossa energia, aliás, não tem como sobreviver…

Na apresentação da sua visão, Kathy Jones enfatizou este aspeto e durante a própria Conferência tivemos ocasião de com humildade visitar ou revisitar os nossos aspetos mais densos e mais difíceis e de publicamente os admitir (dentro do nosso círculo de trabalho), o que já significa curá-los…

Entretanto, tal como aconteceu com o resto d@s participantes que encheram por completo o Tawn Hall na cerimónia de sexta-feira à noite, houve um comprometimento perante a Deusa de dedicação plena a esta via revolucionária no verdadeiro sentido do termo porque se trata de substituir os valores patriarcais vigentes que nos conduzem à destruição pelos valores matriarcais que agem no sentido da Vida.

A Via da Deusa é uma Via Revolucionária

Sei que o termo assusta, sei que já não podemos lutar contra nada, mas tão-somente, enquanto co-criador@s, ser a mudança que queremos que ocorra no mundo e dar-lhe toda a nossa energia… mas no entanto, tal como frisou Yeshe Rabbit, assumirmo-nos na atualidade, quando os fumos da Inquisição ainda não se esbateram completamente na paisagem, como Sacerdotisas da Deusa, ou aderentes à causa/espiritualidade da Deusa, implica que muitos desafios se podem apresentar, e a Guerreira em nós tem de estar preparada para os enfrentar e seguir adiante com determinação. 

A via da Deusa não é apenas glamour e olhinhos doces, roupas coloridas e magníficos altares; a via da Deusa é essencialmente Serviço. A via da Deusa implica além de outras coisas reflexão e estudo, por muito que nos possa assustar a lista de autor@s cujo trabalho é urgente conhecermos. A via da Deusa implica sairmos do nosso mundinho e ganharmos perspetiva, vermos as coisas dum plano mais e mais elevado; implica uma consciência social, e política no grande sentido da palavra. Implica Reeducação.

Yeshe Rabbit, inspiradora presença americana na conferência de Glastonbury 

I dance at the edge of the world
 Like my Ancestresses before me.
 I am a sacred vessel.
 My blood is indomitable.
 Cradling the Now at my breast.
 Nurturing the future unfolding.
 There is nothing to fear.
 I am a Mother of the New Time.

(Eu danço à beira do Mundo
Como @s ancestrais antes de mim
Sou recipiente sagrado
E o meu sangue é indómito
No meu regaço embalo o agora
Nutrindo o futuro que aí vem
Não existe nada a temer
Eu sou mãe do Novo Tempo)

"Conscious Goddess, a Sustainable Feminist Future of Spirituality"

Tive de novo o grande prazer de participar no workshop desta feminista, tal como já tinha sucedido no ano passado. Yeshe Rabbit é co-fundadora da The Bloodroot Honey Priestess Tribe, uma comunidade matriarcal do norte da Califórnia, e a sua proposta e ensinamentos vão no sentido de nos ajudar a criar núcleos matriarcais à nossa volta que paulatinamente substituam as estruturas patriarcais altamente tóxicas, mas felizmente já muito caducas. Desta comunidade de sacerdotisas saiu um projeto muito semelhante ao de Kathy Jones, Mother of the New Time (http://www.cayacoven.org/motnt/index.html).

Eyshe lembrou-nos da maturidade duma espiritualidade, a da Deusa, que esteve ativa no planeta por cerca de 35 000 anos, enquanto o Cristianismo reina há pouco mais de 2 000. Transposto isto para uma vida humana, temos uma criança de 11 anos e a sua premente necessidade de poder, manipulação e controlo… É sob os ditames deste ser imaturo que temos vivido na maior das inconsciências… Se continuarmos a alimentar as suas “birras”, não restará por fim pedra sobre pedra…  Por isso é tão urgente o BASTA! da Mãe.

More fun, more sex, more chocolate!

Sociedades matriarcais proporcionam-nos “more fun, more sex, more chocolate”… é o lema da bem-humorada sacerdotisa californiana. Lá onde patriarcado é Utilitarismo e Transação, o matriarcado é Criatividade e Processo. Para o utilitarismo patriarcal somos recursos a usar e a deitar fora; apenas em sociedades matriarcais temos hipótese de ser uma Pessoa. O princípio do Prazer em sociedades matriarcais é o que nos salvará da escravatura, resultado da ganância patriarcal, com a sua obsessão pelo Crescimento a qualquer preço.  
Nos matriarcados, o círculo substitui a pirâmide hierárquica. O círculo não exclui, pelo contrário, tal como acontece quando nos reunimos numa roda, ele inclui e cura. É assim que sempre colocamos no seu interior quem mais precisa da nossa atenção, como as crianças ou aquelas pessoas que estão a precisar de cura. @s mais necessitad@s colocamo-l@s no interior do círculo, lá onde se concentra o máximo do poder.

 “The Stones of Wonder, Sacred Drama Performance from the Mithos of Eartha”, escrito por Kathy Jones, com encenação de Katie Player

Precisamos como de pão para a boca de ouvir as histórias daquilo que aconteceu a uma cultura baseada nos valores femininos com a brutal invasão patriarcal. Os atores masculinos contaram mais tarde o quão doloroso foi para eles representar os papéis que Kathy Jones lhes destinou… Mas fizeram-no com entrega, amor e compaixão, compreendendo como é importante revisitar estes episódios para nos curarmos a to@s, homens e mulheres, num mundo completamente desequilibrado como o nosso.

Lembrar o que por vezes algumas de nós parecem esquecer ou de que nunca tiveram realmente muita consciência: a importância de fazermos este trabalho nós mulheres, por nós e para nós. Na presença dos homens, rapidamente alteramos o nosso comportamento e com grande facilidade e inconsciência lhes entregamos o nosso poder. O homem tem sido o grande detentor do poder, ele é visto por muitas de nós como o pai provedor, o líder que nos salvará com o poder da sua palavra e da sua espada... Nos céus, nos últimos milénios, tem reinado em exclusivo uma entidade masculina e nos nossos mitos modernos o seu filho homem é o grande salvador... Dá para perceber o quanto estamos imbuídas de masculinidade? Dá para sentir o desequilíbrio? Só o nosso trabalho conjunto pode criar novos mitos que tragam o equilíbrio e a paz a este mundo, um novo mundo!   


Conclusão

Se tivesse que contar-vos tudo o que me maravilhou nesta conferência, nunca mais acabava e ia enfadar-vos por certo, por isso fico por aqui…

Mas deixem-me só dizer-vos isto: não concebo que nenhum anjo, ET ou mestr@ ascenç@ crie um mundo para nós. Por que tal seria necessário quando somos criador@s tão capazes e talentos@s?!!!

©Luiza Frazão 




quarta-feira, 22 de maio de 2013

DEUSAS SOLARES



Embora a iconografia ocidental considere geralmente o sol como sendo do género masculino e a lua do género feminino, a antiga tradição oriental fala do sol no feminino. Os clãs que governavam o antigo Japão situam a sua origem na poderosa Deusa Solar, Omikami Amaterasu. Em 238 AD, as tribos japonesas eram governadas por uma rainha chamada Himiko, Filha do Sol.

A Grande Mãe hindu tomou a forma do sol enquanto deusa Aditi, mãe das doze Adityas zodiacais, espíritos cuja luz era revelada no dia do Juízo Final. No Mahanirvanatantra é dito que o sol era a indumentária da Grande Deusa: “O sol, o símbolo mais glorioso no mundo  físico, é a indumentária daquela que está “vestida com o sol”. A mesma deusa, identificada com Maria, aparece nos Evangelhos como a “mulher vestida de sol” (Revelação 12:1).

O Budismo Tântrico reconheceu um precursor da Mari do Oriente Médio, ou Maria, como o sol. Na aurora, os seus monges agradecem-lhe enquanto “a gloriosa, o sol da felicidade… Eu saúdo-te, ó Deusa Marici! Abençoa-me e satisfaz os meus desejos. Protege-me, ó Deusa, de todos os oito medos”.

Quando os japoneses reviram a sua mitologia para adaptá-la às novas ideias patriarcais, a Deusa Marici foi masculinizada e o facto dela ter sido um dia identificada com Omikami Amaterasu foi esquecido. Havia no entanto uma estranha ambivalência envolvendo o “poderoso deus” chamado Marici-deva ou Marici-ten. “Ele” era chamado protetor do sol, aparecendo no entanto sempre vestido com a indumentária duma mulher chinesa, indicando uma origem feminina com raízes a leste do Japão.

Entre os antigos árabes, o sol era uma Deusa, Atthar, por vezes apelidada de Archote dos Deuses.

Os celtas tinham uma Deusa Sol chamada Sulis, nome que vem de suil, que significa ao mesmo tempo “olho” e “sol”. Os povos germânicos chamavam-lhe Sunna. Para os noruegueses, ela era Sol. Na Escandinávia, era igualmente conhecida como “Glória-dos-Elfos”, a Deusa que daria à luz uma filha depois do juízo final, produzindo assim o sol da nova criação. Nos Eddas diz-se “uma filha radiante a brilhante sol conceberá antes de ser engolida por Fenrir; e a donzela trilhará o caminho de sua mãe quando os deuses consumarem a sua própria desgraça”.

A Deusa Sol Sul, Sol, ou Sulis era cultuada na Britânia na famosa colina artificial do complexo megalítico de Avebury, conhecido atualmente como Silbury Hill. Aí ela pariu cada novo Éon, que saiu do seu útero-túmulo, com mais de 130 pés de altura e mais de 500 de diâmetro. “A influência da deusa britânica Sul estendeu-se a grande parte do sudoeste de Inglaterra, e o seu culto parece ter tido praticado no alto de montes com vista para nascentes. Assim, perto da  nascente de Bath temos o monte isolado chamado Solsbury, ou Salisbury, provavelmente o seu lugar de culto”. Em Bath, os romanos identificaram Sul com Minerva e erigiram-lhe altares designando-a por Sul Minerva”.

Barbara Walker, The Woman’s Encyclopedia of Myths and Secrets, HarperSan Francisco, 1983

sexta-feira, 10 de maio de 2013

DEUSAS SOLARES - CAÍDAS E REMETIDAS PARA A NOITE



“(…) a Artemis grega, divindade solar na origem dos tempos,  que perdeu este aspeto e esta função a favor dum deus masculino. Podemos de resto ver como é que esse processo se desenrolou no mundo helénico e relacioná-lo com a tradição celta. Com efeito, primitivamente, Artemis identificava-se com sua mãe, Leto (ou Latona), tal como Core-Perséfone era a dupla da mãe Deméter: ela representava o Sol jovem, o Sol levante, por oposição a Leto que personificava o velho Sol, o Sol poente (tal como Core era a jovem filha, ou seja, a Terra jovem, face a Deméter, a velha Terra, o conhecido mito da renovação).

A partir do momento em que as divindades femininas foram masculinizadas, e também porque era impossível esquecer completamente o seu aspeto feminino, conservou-se a personagem de Artemis, apondo-se-lhe no entanto um paredro macho, o seu irmão Apolo, o qual monopolizou o aspeto solar, ao mesmo tempo que Artemis era remetida para a noite transformando-se em Deusa-Lua.

O mesmo aconteceu no Egipto onde Osiris tomou o lugar de Isis como Sol poente enquanto Hórus se tornava o Sol levante.

Sabemos que primitivamente a Lua era masculina e o Sol feminino, ainda assim é nas línguas semitas, germânicas e celtas e também nas tradições populares (onde se diz que “a Lua engravida as mulheres”).
Houve por conseguinte uma grande reviravolta no simbolismo mítico e religioso: a deusa-mãe Sol, Leto, foi substituída pelo seu filho e pela sua filha, macho e fêmea, e sabemos que Juno-Hera tudo fez para que essas crianças, fruto do adultério de Zeus (e portanto das prerrogativas paternalistas) não nascessem, o que significa que Hera, mulher divina, recusou admitir a mudança de orientação da sociedade, da ginecocracia para o paternalismo”.

Jean Markale, La Femme Celte, Payot (tradução Luiza Frazão) 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A ECONOMIA DA DÁDIVA


Nos mails desta manhã, chega-me um texto da Carol Christ sobre a Economia da Dádiva, inspirando-se no exemplo da sociedade cretense atual com que convive nas suas frequentes deslocações com grupos de mulheres àquela ilha grega. Carol lembra-nos ainda o trabalho da ativista Genevieve Vaughan sobre este modelo económico com provas dadas durante milénios (de outro modo não estaríamos hoje aqui), que surge como uma solução para substituir o modelo económico capitalista patriarcal vigente com o qual muito dificilmente nos vamos safar, nós e o planeta…  

Poucas coisas me dão tanto prazer como o verdadeiro Potlatch de algumas segundas-feiras de mercado com a G, a minha prima L e por vezes a minha irmã… é porque naquele ambiente nós ainda comungamos completamente desse espírito tribal muito familiar e muito antigo, dessa segurança primordial em que nos permitimos relaxar no grande colo coletivo, sabendo que ali a nossa luta solitária e frenética pela sobrevivência encontra um autêntico momento de repouso…



O livro editado pela Genevieve Vaughan é este:

WOMEN AND THE GIFT ECONOMY
 A Radically Different Worldview is Possible
edited by Genevieve Vaughan
















Na Wikipedia encontrei isto na entrada “Economia do Dom”, gosto mais de “Economia da Dádiva”.
Por aqui ainda existem muitos resquícios deste tipo de economia, sobretudo nos meios rurais, onde as bênçãos duma horta são normalmente repartidas por familiares, amigos e vizinhos e outros bens são generosamente partilhados. Quando nos tornámos “ricos” ficámos muito mais egoístas e pobres de coração… acho.

Economia do Dom

"Em Ciências Sociais, economia do dom, economia da doação ou economia da dádiva ou ainda cultura da dádiva é uma forma de organização social na qual os membros fazem doações de bens e serviços valiosos, uns aos outros, sem que haja, formal ou explicitamente, expectativa de reciprocidade imediata ou futura, como no escambo ou num mercado. Todavia, a obrigação de reciprocidade existe, não necessariamente envolvendo as mesmas pessoas, mas como uma corrente contínua de doações.
A economia do dom é uma forma económica baseada sobre o valor de uso dos objetos ou ações. Contrapõe-se portanto à economia de mercado, que se baseia no valor de troca de bens e serviços. A doação é na realidade uma troca recíproca com algumas características definidas por convenções e não por regras escritas: a obrigação de dar, a obrigação de receber, a obrigação de restituir mais do que se recebe.
A economia de dom caracteriza as chamadas economias primitivas. Autossuficientes, elas podem realizar a troca do excedente produzido pelos poucos bens que não conseguem produzir.
Um típico exemplo de economia de dom é a prática do Potlatch dos indígenas americanos, como a economia dos iroqueses ou da Kula, a cerimónia dos habitantes das ilhas Trobriand. (...)"



quinta-feira, 11 de abril de 2013

CÍRCULOS E... RODAS




Resposta de Cacilda Rodrigañez Bustos à editora argentina Madreselva, de Buenos Aires, pela edição que fez da sua obra PARIREMOS COM PRAZER, substituindo a palavra “corro” (roda) por “círculo”, em outubro de 2010.
Tradução do e-mail enviado pela autora à editora:

Pergunto-me a mim mesma se pode haver pessoas que não tenham sentido nunca o desejo de acariciar com a sua mão a mão de outrem, o impulso  imperativo de vincular as mãos com outras mãos e de mantê-las ligadas.  É possível que a rigidez do corpo atinja o ponto de não se ter na memória o registro do toque mais básico? Até que ponto podem os esquemas mentais artificiais esmagar a pulsação orgânica? E a resposta que eu dei a mim mesma é que sim, que existem pessoas domesticadas e  desvitalizadas o suficiente para não sentirem o mais elementar desejo, corpos embutidos de misticismo e do fanatismo, que realizam a sua ginástica para manter se manterem nos limites duma determinada capacidade muscular.


Sim, há pessoas que não sabem o que é o desejo ou o que é, ou era, uma roda; que a roda era formado assiduamente por mulheres e meninas que entrelaçavam as mãos umas com as outras movidas por um desejo concreto e imediato, por um impulso de prazer e de comprazimento, com as suas brancas mãos, como dizia Gôngora, com um branco desejo, como diria Cernuda. O desejo leve e subtil que nem por o ser é menos intenso, menos complacente, menos prazenteiro. Gente que não sabe o que é uma roda, e que a confunde com um simples círculo, que é uma figura geométrica, a projeção do sol ou de qualquer outro objeto que tenha forma circular. No entanto, a roda, por definição, é formado por corpos vivos, movidos pelas suas pulsões. Por conseguinte, se dizemos “círculo” em vez de roda, estamos a engolir os corpos que formam as rodas. As rodas estão vivas, são compostas por seres vivos, movendo-se com o impulso dos seres vivos que a formam, o que é todo o contrário duma abstração, duma figura imaginária. Nunca melhor metáfora da substituição da vida pela morte. Nunca em toda a história do patriarcado houve exemplo mais claro da sublimação das pulsões sexuais. O movimento dos corpos vivos sobre a terra fossilizado numa figura geométrica.

O fascismo de base são pessoas que têm os corpos encarquilhados e disciplinados, e por isso não sabem o que é uma roda. Em contrapartida, as forças que as controlam, essas sabem bem qual é a diferença entre a roda feminina e o círculo, e por isso escrevem obras de propaganda para que ninguém saiba o que é o desejo e os seus jogos. E como as obras encomendadas não devem ser suficientes, têm de usurpar o trabalho genuíno feito com base na vida e na verdade, para que continuemos a não entender a diferença entre dizer “roda e dizer “círculo”. Os corpos amortalhados, convertidos em figuras geométricas, sobre mortas ardósias.

Não se dão conta de que o meu trabalho é apenas o trabalho de uma pessoa, que o podem perseguir e destruir, como tantos outros trabalhos e tantas outras pessoas. Mas nós apenas falamos e escrevemos sobre os factos da vida, e as coisas continuarão a ser como são sem que nada as afete. Poderão matar e torturar, continuar a matar, mentindo e torturando, aniquilando milhares de milhões de vidas humanas, que a vida, enquanto vida houver, continuará a ser e a funcionar como ela é e sempre foi.

Editorial Madreselva: em vez de se porem a fazer este tipo de “edições”, mais valia sentarem-se à espera de que brote em vós o puro desejo de acariciar um ser humano.

Cacilda Rodrigañez Bustos
11 de fevereiro de 2011

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

IMBOLC 2013 EM AVALON

Dancing trees
Priestess training correspondence group
Sweet Way
Bridie's Swans
Isle of Avalon
Chalice Hill
The Tor