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quinta-feira, 11 de abril de 2013

CÍRCULOS E... RODAS




Resposta de Cacilda Rodrigañez Bustos à editora argentina Madreselva, de Buenos Aires, pela edição que fez da sua obra PARIREMOS COM PRAZER, substituindo a palavra “corro” (roda) por “círculo”, em outubro de 2010.
Tradução do e-mail enviado pela autora à editora:

Pergunto-me a mim mesma se pode haver pessoas que não tenham sentido nunca o desejo de acariciar com a sua mão a mão de outrem, o impulso  imperativo de vincular as mãos com outras mãos e de mantê-las ligadas.  É possível que a rigidez do corpo atinja o ponto de não se ter na memória o registro do toque mais básico? Até que ponto podem os esquemas mentais artificiais esmagar a pulsação orgânica? E a resposta que eu dei a mim mesma é que sim, que existem pessoas domesticadas e  desvitalizadas o suficiente para não sentirem o mais elementar desejo, corpos embutidos de misticismo e do fanatismo, que realizam a sua ginástica para manter se manterem nos limites duma determinada capacidade muscular.


Sim, há pessoas que não sabem o que é o desejo ou o que é, ou era, uma roda; que a roda era formado assiduamente por mulheres e meninas que entrelaçavam as mãos umas com as outras movidas por um desejo concreto e imediato, por um impulso de prazer e de comprazimento, com as suas brancas mãos, como dizia Gôngora, com um branco desejo, como diria Cernuda. O desejo leve e subtil que nem por o ser é menos intenso, menos complacente, menos prazenteiro. Gente que não sabe o que é uma roda, e que a confunde com um simples círculo, que é uma figura geométrica, a projeção do sol ou de qualquer outro objeto que tenha forma circular. No entanto, a roda, por definição, é formado por corpos vivos, movidos pelas suas pulsões. Por conseguinte, se dizemos “círculo” em vez de roda, estamos a engolir os corpos que formam as rodas. As rodas estão vivas, são compostas por seres vivos, movendo-se com o impulso dos seres vivos que a formam, o que é todo o contrário duma abstração, duma figura imaginária. Nunca melhor metáfora da substituição da vida pela morte. Nunca em toda a história do patriarcado houve exemplo mais claro da sublimação das pulsões sexuais. O movimento dos corpos vivos sobre a terra fossilizado numa figura geométrica.

O fascismo de base são pessoas que têm os corpos encarquilhados e disciplinados, e por isso não sabem o que é uma roda. Em contrapartida, as forças que as controlam, essas sabem bem qual é a diferença entre a roda feminina e o círculo, e por isso escrevem obras de propaganda para que ninguém saiba o que é o desejo e os seus jogos. E como as obras encomendadas não devem ser suficientes, têm de usurpar o trabalho genuíno feito com base na vida e na verdade, para que continuemos a não entender a diferença entre dizer “roda e dizer “círculo”. Os corpos amortalhados, convertidos em figuras geométricas, sobre mortas ardósias.

Não se dão conta de que o meu trabalho é apenas o trabalho de uma pessoa, que o podem perseguir e destruir, como tantos outros trabalhos e tantas outras pessoas. Mas nós apenas falamos e escrevemos sobre os factos da vida, e as coisas continuarão a ser como são sem que nada as afete. Poderão matar e torturar, continuar a matar, mentindo e torturando, aniquilando milhares de milhões de vidas humanas, que a vida, enquanto vida houver, continuará a ser e a funcionar como ela é e sempre foi.

Editorial Madreselva: em vez de se porem a fazer este tipo de “edições”, mais valia sentarem-se à espera de que brote em vós o puro desejo de acariciar um ser humano.

Cacilda Rodrigañez Bustos
11 de fevereiro de 2011

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