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domingo, 5 de junho de 2016

AS MULHERES SAÍRAM À RUA NUM DIA ASSIM... OU A FUNÇÃO "NORMATIVA" DO ESTUPRO

CUMPRIRIA O ESTUPRO UMA FUNÇÃO "NORMATIVA" NA PERSPETIVA DO HOMEM  PATRIARCAL?
 


O estupro, para além de me indignar e horrorizar, é uma realidade que sempre me intrigou, por implicar que para o homem patriarcal desejo sexual, prazer sexual e violência são coisas compatíveis. Já é mau não haver afeto nem empatia, mas acho mesmo muito grave associar sexo a violência (não consentida e num só sentido). Porém, nas análises que são feitas, não vejo muita ênfase colocada neste aspeto, que a meu ver deveria merecer d@s especialistas comportamentais maior atenção. Trata-se dum comportamento a que nem sequer podemos aplicar o qualificativo de “animalesco” (adjetivo muito em desuso porque extremamente ofensivo para com os pobres dos animais) já que não sei de nenhuma outra espécie que o exerça em circunstância alguma. O mais parecido seria a demarcação do território pela urina, que neste caso seria o esperma, ou as técnicas e manobras extremamente engenhosas usadas pelas plantas para espalharem aos quatro ventos as suas sementes. Mas então, seria o macho da espécie humana, no seu grau menos zero de humanidade, que usaria as técnicas afins às que acabo de referir mais violentas e aberrantes de toda a natureza?!!!

 Assim, em relação ao comportamento de qualquer outra espécie conhecida, é óbvio que o estupro da fêmea pelo macho é pura aberração que coloca o homem patriarcal num grau de desenvolvimento pré-humano (ou seria anti-humano?). 

Aberração pura, pois, só pode ser a qualificação do uso que o homem patriarcal, em determinadas circunstâncias, parece fazer do seu pénis. Para além dos fins normais para que foi feito, o pénis parece ser usado em algumas circunstâncias, como uma arma, de que a espada é um símbolo e uma representação do poder letal (veja-se o uso da violação em cenários de guerra). Quando, entretanto, ficamos a conhecer alguma da patética argumentação machista (tanto de homens quanto de mulheres patriarcais, diga-se) sobre o comportamento culpável e “provocador” das vítimas de violação, ficamos com a impressão de que, sim, o  homem patriarcal, parece cinicamente pretender usar o seu pénis/espada com propósitos que seriam de controlo, quase poderíamos dizer educativos, numa pretensa ânsia de fazer justiça e de impor moral, uma moral que, claro, as mulheres, vistas como sua propriedade e território, postas por Deus no mundo para os servirem, precisam, elas sim, de estritamente observar.O estupro, segundo esta ordem de ideias, teria então, pasme-se, uma função normativa...

A moralidade que o homem patriarcal deseja então impor com o seu pénis transformado em espada justiceira e edificativa, condena a mulher por andar sozinha à noite, isso é uma prerrogativa masculina. Ela não pode beber, nem ter comportamentos excessivos, embriagar-se é outra prerrogativa masculina. Também não pode andar com menos roupa, andar de tronco nu é mais uma regalia masculina, e o corpo da mulher é objeto de tentação, ponto final. O corpo do homem não é objeto de tentação para a mulher, nem para outro homem, porque o sujeito da cultura é o homem patriarcal, que, pelo menos oficialmente, é heterossexual, o CIS, segundo designação mais actual.

Isto vem aturando há milénios a fêmea da espécie, vivendo uma condição, não de ser humano de pleno direito, que é essencialmente um ser experimental, mas sujeita a um estrito programa que lhe tem imposto rigorosos limites, tanto ao autoconhecimento quanto à autoexpressão.

Subitamente, porém, talvez devido à conjuntura astral, explosões de incontida ira de mulheres muito jovens na sua maioria, com consciência de si mesmas enquanto parte dum grupo humano, que sendo maioritário, é tratado como minoritário, secundário, irrelevante e descartável, gritando que “Feminismo é evolução” fazem estremecer as praças. Era tempo. Mas…“As meninas vão exceder-se...”, dizem algumas vozes… Pois, é possível, como seres experimentais que são, que somos; “Vão assumir posturas patriarcais, copiadas dos homens, em relação ao sexo!" A mesma voz de sempre gritando: “Compostura!”, meninas bem-comportadas não fazem… isto ou aquilo. Quase se ouvindo o coro da tragédia: “Esses excessos tiram-vos a razão”… Não tiram, nada lhes tira a razão. Mas lá está... o mesmo nível de exigência de sempre em relação às mulheres, a vontade de as proteger, porque não vão ser capazes… não vão poder manter a pose no retrato de família que alguém fez para elas, não vão poder estar à altura de toda a idealização de que passivamente têm sido objeto ao longo da história patriarcal… ou, pior ainda, não vai haver ninguém sóbrio para nos levar para casa nem para a governar...
 
Pessoalmente, gostei do que vi, e acalento a esperança de que a mesma veemência que põem agora na defesa dos seus corpos de mulheres a apliquem à defesa do corpo da Mãe Terra. Abençoadas!

Luiza Frazão