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sábado, 20 de agosto de 2016

NA REVISTA VISÃO

Revista Visão, 18/08/2016

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

VENHO DA 21.ª CONFERÊNCIA DA DEUSA DE GLASTONBURY!



21.ª CONFERÊNCIA DA DEUSA DE GLASTONBURY 2016

Chegando a casa depois do mais alto momento do ano para mim, a Conferência da Deusa de Glastonbury. Sentindo-me como as antigas e os antigos adoradoras/es da Deusa quando iam participar nos Mistérios de Elêusis. Seis dias imersa na dimensão de Avalon, mais de seis, na verdade, porque enquanto Sacerdotisa do Círculo (designadas este ano por Trove Priestesses), mergulhei mais cedo na atmosfera da Conferência, aliás, estamos todas em estreito contacto há largos meses para juntas tecermos a teia de suporte, conexão e coesão que a nossa intervenção no evento representa.

Esta 21.ª Conferência, com Avalon como tema, foi particularmente fantástica e marcante, até por se ter fechado um ciclo e começado outro. Foi a última organizada por Kathy Jones, que numa cerimónia cheia de emoção, passou a pasta a Katinka Soetens, cuja vinda a Portugal esperamos que aconteça em breve, trazendo-nos o seu maravilhoso trabalho, tão profundo e transformador, e a Marion Brigantia, que também há de vir a seu tempo, já que, como Sacerdotisa e formadora de Sacerdotisas de Brígida, tem tudo a ver com o nosso território. Kathy Jones estabeleceu então formalmente uma linhagem de Sacerdotisas (não confundir com hierarquia). 

É muito difícil apresentar aqui assim tudo o que me maravilha nesta celebração da Deusa, mas vou tentar. Em primeiro lugar, a experiência de imersão num ambiente livre de patriarcado, numa zona não androcrática, em que o feminino está no centro. Isso é imenso e implica, por exemplo, uma extensão da vida ativa e vibrante duma mulher, bem como um profundo respeito por qualquer forma própria de ser de cada uma-a. Julie Felix é só o exemplo duma cantora já mais perto dos 80 do que dos 70, cujo brilho não feneceu, antes pelo contrário, aumenta a cada ano. 
 
Julie Felix é apreciada, acarinhada, incentivada por todas as gerações e por todos os géneros. A propósito de géneros, Starhawk soprou uma brisa de ar fresco na questão ao referir-se à “gender fluidity” e à “gender experimentation”… Mas voltando a Julie Felix, ela é uma joia preciosa na Conferência que nos maravilha a cada canção com o seu espírito vibrante e alerta e a sua alegria sábia e irreverente.

Igualmente a geração mais jovem é valorizada, amada e estimulada, como a deslumbrante Gabrielle O’ Connor, filha e neta das Sacerdotisas Sophie e Sally Pullinger, uma família de musicólogas muito inspiradas, da qual faz parte também o fabuloso Jerome O’Connor. A propósito de Gabrielle, foi ela que fez a belíssima apresentação do espetáculo de quinta-feira à noite, onde cantámos as canções de Sally Pullinger, que têm sido ouvidas ao longo das várias Conferências. Gabrielle evocou os momentos mais marcantes das Conferências anteriores, filtrados pelo crivo da sua memória, da memória de quem pôde e soube tomar consciência da enorme bênção de ter nascido e crescido num ambiente onde os valores da Mãe estão tão vivos e atuantes, um ambiente tão estimulador da criatividade e da expressão da individualidade de cada um-a. Como dizia uma das participantes do meu grupo, enquanto houver jovens como ela, há esperança para o nosso mundo.  

Outro aspeto que me encanta na Conferência da Deusa de Glastonbury é a qualidade das participações, graças às quais tanta informação e novas ideias recebemos. A brilhante intervenção de Starhawk, por exemplo, que insistiu na necessidade de o Movimento da Deusa assumir um engajamento mais político no verdadeiro sentido da palavra, lembrando-nos o quão determinante é para o nosso mundo um aspeto muito prático, por exemplo, como conhecermos as e os políticas/os em quem votamos e os valores que defendem. Enquanto pessoas que se consideram “espirituais” precisamos de ter os pés mais assentes na terra, afirma ela, e de estar mais atentas/os, para não acontecer por exemplo, que um-a candidato/a a favor da extração hidráulica de gaz de xisto, alta e irremediavelmente nociva para o planeta, seja preferido/a em relação a outro-a que é contra, como já aconteceu num lugar considerado até espiritualmente do mais evoluído… A sua palavra de ordem: “Go into de wild”, incentivando-nos a encontrar o nosso ser mais primordial e indomado.

What serves life will stand

What does not will fall

The power is in our hands

Love changes all

A letra da canção com que bailámos a sua famosa Dança em Espiral.

Digna de referência também a altíssima energia de Alisa Starkweather, criadora do Movimento da Tenda Vermelha. Fantástica energia capaz de mover mundos e montanhas, incentivando-nos a criar… comunidade!

E sempre, sempre uma bênção enorme poder respirar o mesmo ar da fantástica e fora deste mundo Carolyn Hillyer.
No drama sagrado da noite da abertura, o grupo cerimonial incorporou as Sacerdotisas do passado, que na iminência do desastre que foi a destruição dos antigos templos da Deusa e do Seu culto, escondem tesouros, que depois foram encontrados e desenterrados em cerimónia, pelo mesmo grupo sacerdotal, incorporando agora as Sacerdotisas do presente, a céu aberto, num terreno nas proximidades do Tor, ao ritmo dos tambores de Lydia Lyte, e outras, da voz de Julie Felix, de Kellianna, de Sally Pullinger e das nossas próprias vozes. Aí recebemos uma bênção especial da Senhora de Avalon para que saibamos tomar conta dos Seus tesouros; tesouros esses, com forma física, sim, mas sobretudo de enorme significado e carga espiritual, materializando os amorosos e sempre a favor da vida valores da Mãe, da MãeMundo, que precisamos de tornar centrais neste nosso planeta. Esses tesouros foram depois abençoados pelos quatro Elementos, no Chalice Hill, no Chalice Well, onde Iris Lican e Lila Nuit realizaram a sua bela performance,  e depois pelo elemento Fogo, em Bushy Coombe, na fogueira de Lammas, à volta da qual os vários grupos estrangeiros nos ofereceram deliciosas canções nas suas próprias línguas. Enquanto parte do grupo ibérico, cantei à Deusa solar Eguski e a Mari, Filha e Mãe, do País Basco.

Workshops na quinta à tarde, e esta é sempre a parte mais difícil porque queremos ir a todos e não podemos já que acontecem em simultâneo. Então segui o critério de escolher aqueles que mais se relacionam com a minha pesquisa, no caso, a Deusa Hel, da Suécia, por Ma Gita Fireswan Wigren, e Brigântia do Norte, por Lynne Harling, e ainda Starhawk.

Na sexta, jornada meditativa de 10 horas explorando a Ilha de Avalon nas profundidades do nosso inconsciente, com as suas montanhas e vales, lagos e florestas, jardins e recantos insuspeitos, onde tesouros, pérolas de autoconhecimento, autorrevelação, de insights e profecia nos trouxeram cura e integração de aspetos ignorados ou banidos da nossa consciência, transformação e crescimento pessoal. Pela manhã Kathy contara-nos a história da enorme aventura que representou a criação da Conferência e de tudo o mais por ela criado, com ajuda de outras pessoas, óbvio, entre as quais a do seu companheiro de 27 anos e atual marido, Mike Jones (apenas por “coincidência” o apelido é o mesmo).

 
Depois das comunicações de sábado de manhã, entre as quais destaco a de Luciana Percovich, da Itália, que nos recordou a importância da visão e do trabalho das grandes mulheres do Movimento da Deusa, com destaque especial para Mary Daly e para a sua obra “Quintessence… Realizing the Archaic Future: A Radical Elemental Feminist Manifesto”, lembrando-nos a  urgência de passar à fase seguinte: maior concretização dos nossos sonhos e visões no plano físico.

Workshops à tarde e pela tardinha o fabuloso Baile de Máscaras, em que cada um-a mostra a face duma Deusa, ou dum Deus, à sua escolha. Sim, como nos antigos Mistérios da Deusa, momentos de profunda interiorização, lágrimas, comoção, alternam com outros de grande extroversão e alegria, de pura diversão – o que não for divertido não é sustentável…

As artes e os ofícios de mulheres de imenso talento são outro dos tópicos fortes deste evento.

No domingo de manhã a procissão animada, colorida e exuberante, no meio da qual encontrei um grupo muito animado de irmãs portuguesas, subiu pela High Street de Glastonbury até ao alto do Tor. Depois a cerimónia de transmissão do poder de criar e de manifestar a Conferência, de Kathy Jones para Katinka Soetens e Marion Brigantia, após o que foi o fecho, com especial reconhecimento e agradecimento pela participação e colaboração do grupo dos maravilhosos homens da Deusa, cada ano mais numeroso, e finalmente a despedida.

Muitas pessoas deixaram a cidade na segunda-feira de manhã, mas mesmo assim a bela cerimónia de Lammas, extra-conferência, no interior do Goddess Hall (chovia copiosamente fora), foi muito concorrida. As abelhas, em gratidão pelo seu papel para que a vida seja possível neste planeta, estiveram no centro desta celebração, em que me coube invocar as energias da Deusa Mãe e da Senhora de Avalon.

Custa regressar à realidade ordinária? Se custa… mas por outro lado quanta inspiração, renovação, entusiasmo, transformação, pela profunda exposição à e imersão na energia da Deusa! Abençoada seja,

abençoada me sinto. Que a chama continue acesa nos nossos corações.

Imagens: 
1.Kathy Jones na sessão de abertura
2. Julie Felix em Avaloka
3. Com Sally Pullinger e Gabrielle O' Connor
4. Com Alisa Starkweather
5. Com Luciana Percovich e Erin McCauliff  (minha querida formadora na primeira e na segunda Espiral em Avalon)
6. Marion Brigantia mostrando-nos o vestido criado pela artista plástica Tiana Pitman , que foi leiloado a favor duma obra social no evento (fotos de Marion Brigantia)
7. Com Alex Reyes-Ortiz, Sacerdote de Avalon do México
8. Marion Brigantia e Katinka Soetens(foto de Sarah Perini)

domingo, 5 de junho de 2016

AS MULHERES SAÍRAM À RUA NUM DIA ASSIM... OU A FUNÇÃO "NORMATIVA" DO ESTUPRO

CUMPRIRIA O ESTUPRO UMA FUNÇÃO "NORMATIVA" NA PERSPETIVA DO HOMEM  PATRIARCAL?
 


O estupro, para além de me indignar e horrorizar, é uma realidade que sempre me intrigou, por implicar que para o homem patriarcal desejo sexual, prazer sexual e violência são coisas compatíveis. Já é mau não haver afeto nem empatia, mas acho mesmo muito grave associar sexo a violência (não consentida e num só sentido). Porém, nas análises que são feitas, não vejo muita ênfase colocada neste aspeto, que a meu ver deveria merecer d@s especialistas comportamentais maior atenção. Trata-se dum comportamento a que nem sequer podemos aplicar o qualificativo de “animalesco” (adjetivo muito em desuso porque extremamente ofensivo para com os pobres dos animais) já que não sei de nenhuma outra espécie que o exerça em circunstância alguma. O mais parecido seria a demarcação do território pela urina, que neste caso seria o esperma, ou as técnicas e manobras extremamente engenhosas usadas pelas plantas para espalharem aos quatro ventos as suas sementes. Mas então, seria o macho da espécie humana, no seu grau menos zero de humanidade, que usaria as técnicas afins às que acabo de referir mais violentas e aberrantes de toda a natureza?!!!

 Assim, em relação ao comportamento de qualquer outra espécie conhecida, é óbvio que o estupro da fêmea pelo macho é pura aberração que coloca o homem patriarcal num grau de desenvolvimento pré-humano (ou seria anti-humano?). 

Aberração pura, pois, só pode ser a qualificação do uso que o homem patriarcal, em determinadas circunstâncias, parece fazer do seu pénis. Para além dos fins normais para que foi feito, o pénis parece ser usado em algumas circunstâncias, como uma arma, de que a espada é um símbolo e uma representação do poder letal (veja-se o uso da violação em cenários de guerra). Quando, entretanto, ficamos a conhecer alguma da patética argumentação machista (tanto de homens quanto de mulheres patriarcais, diga-se) sobre o comportamento culpável e “provocador” das vítimas de violação, ficamos com a impressão de que, sim, o  homem patriarcal, parece cinicamente pretender usar o seu pénis/espada com propósitos que seriam de controlo, quase poderíamos dizer educativos, numa pretensa ânsia de fazer justiça e de impor moral, uma moral que, claro, as mulheres, vistas como sua propriedade e território, postas por Deus no mundo para os servirem, precisam, elas sim, de estritamente observar.O estupro, segundo esta ordem de ideias, teria então, pasme-se, uma função normativa...

A moralidade que o homem patriarcal deseja então impor com o seu pénis transformado em espada justiceira e edificativa, condena a mulher por andar sozinha à noite, isso é uma prerrogativa masculina. Ela não pode beber, nem ter comportamentos excessivos, embriagar-se é outra prerrogativa masculina. Também não pode andar com menos roupa, andar de tronco nu é mais uma regalia masculina, e o corpo da mulher é objeto de tentação, ponto final. O corpo do homem não é objeto de tentação para a mulher, nem para outro homem, porque o sujeito da cultura é o homem patriarcal, que, pelo menos oficialmente, é heterossexual, o CIS, segundo designação mais actual.

Isto vem aturando há milénios a fêmea da espécie, vivendo uma condição, não de ser humano de pleno direito, que é essencialmente um ser experimental, mas sujeita a um estrito programa que lhe tem imposto rigorosos limites, tanto ao autoconhecimento quanto à autoexpressão.

Subitamente, porém, talvez devido à conjuntura astral, explosões de incontida ira de mulheres muito jovens na sua maioria, com consciência de si mesmas enquanto parte dum grupo humano, que sendo maioritário, é tratado como minoritário, secundário, irrelevante e descartável, gritando que “Feminismo é evolução” fazem estremecer as praças. Era tempo. Mas…“As meninas vão exceder-se...”, dizem algumas vozes… Pois, é possível, como seres experimentais que são, que somos; “Vão assumir posturas patriarcais, copiadas dos homens, em relação ao sexo!" A mesma voz de sempre gritando: “Compostura!”, meninas bem-comportadas não fazem… isto ou aquilo. Quase se ouvindo o coro da tragédia: “Esses excessos tiram-vos a razão”… Não tiram, nada lhes tira a razão. Mas lá está... o mesmo nível de exigência de sempre em relação às mulheres, a vontade de as proteger, porque não vão ser capazes… não vão poder manter a pose no retrato de família que alguém fez para elas, não vão poder estar à altura de toda a idealização de que passivamente têm sido objeto ao longo da história patriarcal… ou, pior ainda, não vai haver ninguém sóbrio para nos levar para casa nem para a governar...
 
Pessoalmente, gostei do que vi, e acalento a esperança de que a mesma veemência que põem agora na defesa dos seus corpos de mulheres a apliquem à defesa do corpo da Mãe Terra. Abençoadas!

Luiza Frazão




   

segunda-feira, 30 de maio de 2016

CONTAR A SUA HISTÓRIA: ABENÇOAR A SUA VIDA

 De uma das irmãs que participaram no meu evento no Brasil, em maio de 2016, recebi este relato, que reflete a vida de tantas e tantas de nós:

A Menarca, a Irmandade e a Sintonia com a Deusa


"Para contextualizar minha experiência e proporcionar um entendimento maior a respeito de quem eu sou, falo um pouco sobre a criança e adolescente sofrida que fui e que se tornou esta mulher em busca de sabedoria, equilibrada e amorosa que sou hoje.
Tive pais simples, mãe dona de casa, pai motorista. Mãe que se viu sozinha ao ficar grávida para eu nascer, já sendo mãe de três filhos, uma menina e dois meninos. Tornou-se costureira para sustentar esses seus quatro filhos e nunca pôde contar com nenhuma contribuição de meu pai, nem emocional e nem financeira. Ele simplesmente não estava lá.
Então eu, ao nascer, tinha um pai totalmente ausente e uma mãe abandonada, sofrida, amargurada, que teve poucas chances de aprender sobre ela mesma e sobre o amor em qualquer de suas faces. Ela sofreu muito com a família, minha avó e meus tios dificultaram bastante a vida dela.

Como as dificuldades eram enormes, tanto as culturais, quanto as financeiras e psicológicas, ela tomou algumas decisões, às vezes pressionada pela família, principalmente minha vó, às vezes inconscientemente movida pelas próprias dores e sentimentos. 
Nesse contexto confuso e sofrido estava eu, a filha caçula, nascida num momento de abandono, de uma mãe destroçada pelo sofrimento, que aos cinco anos foi levada para viver com minha avó. Vivi com ela dos cinco aos sete anos, quando aprendi a ler e aí descobri um dos meus passatempos favoritos. Mas na casa de minha avó não havia nada para uma criança de sete anos ler, então eu lia revista de fotonovelas, de minha tia, às escondidas.
Para resumir um pouco, passei a infância e a adolescência, depois que saí da casa de minha avó, alternando entre estar na casa de minha mãe e indo morar um tempo com cada uma de minhas tias e também num internato católico. Foram muitas experiências traumáticas, entre elas as de ter que me mudar de escola quase todo ano e refazer as relações com colegas e professores. Fui maltratada por parentes, avó, algumas tias e professoras. Minha avó detestava negros e toda minha família materna ainda guarda resquícios com falas tipo: só podia ser preta mesmo! Preto não dá carreira certa. Brincadeiras sem graça que já me entristeceram muito e que hoje, não mais. Fui humilhada por não ter pai, por ser filha de negro – não tendo pai e sendo filha de negro não iria dar nada que prestasse – era uma fala recorrente. Hoje, sei que sofri muito bulling – naquela época nem sabia o que era isto – sem ter a quem recorrer, eu era muito sozinha, me sentia totalmente desamparada. Esta sensação de desamparo me acompanhou pela vida. Eu só me curei muito recentemente, ou melhor, ainda estou em processo de cura. Volta e meia me deparo com mais uma situação, que não lembrava mais e percebo que ainda há feridas a serem curadas.
Mas também tive amigas e algumas pessoas que me acolheram e sei que me amaram.
Todas estas experiências fizeram com que eu me tornasse uma pessoa ousada, flexível e capaz de se enturmar facilmente. Aprendi, a duras penas, a me comunicar e a perceber o ambiente e as pessoas com facilidade.

Então chegamos aos dias de hoje. Dia de evento em Florianópolis.
Estamos numa Tenda Vermelha, como parte das atividades da Magia das Ilhas Sagradas tradição Celta – Formação de sacerdotisas, onde, mais uma vez, me proponho a trabalhar e curar o feminino. Como em tudo que faço mergulhei fundo e inteiramente na experiência.
Luisa Frazão Guardiã e Sacerdotisa Celta propõe que cada mulher fale como foi a sua primeira menstruação.
Estabelece-se um momento de partilha de uma beleza emocionante. Ouvi muitos relatos, e o que mais me impressionou foi que a maioria tinha histórias lindas de acolhimento e celebração, bem diferentes da minha. Até aquele momento eu não tinha ideia do quanto estive machucada por este episódio, durante muitos anos de minha vida.
Aos 13 anos eu estava num dos intervalos que passava na casa de minha mãe. Era um dia como outro qualquer. Não me lembro do momento exato que fiquei menstruada, mas me lembro bem, ainda tenho nítida, a sensação de inadequação e de que, como sempre, eu estava fazendo alguma coisa errada. Lembro-me de minha mãe dizendo asperamente que a vida continuava e que tudo estava normal. Então, eu deveria ir à aula. Lembro-me de me sentir muito envergonhada, de tudo, de estar suja, de que havia algo errado e eu não sabia o que era. Para mim era impossível sair de casa e enfrentar o olhar das pessoas, parecia que todos sabiam que eu estava suja de sangue.

Naquele dia, foi muito difícil vestir o lindo uniforme que eu adorava. Era uma blusa branca de botões e uma saia azul cobalto, com dois machos na frente e dois atrás, que davam movimento à saia quando eu andava. Eu sempre me sentia linda dentro dele, eu adorava usar uniformes de modo geral. Mas naquele dia eu queria que ele fosse feio pra ninguém me notar. Queria estar invisível, queria não existir para não ter que sair à rua. Lembro-me de implorar à mamãe para ficar em casa, mas ela se manteve irredutível como normalmente ela fazia quando emitia qualquer opinião ou ordem a ser cumprida. Vá pra aula e não me amole! Eu fui.
Andei pelas ruas chorando e tentando disfarçar, peguei o ônibus e não me sentei. Assistir aula foi uma tortura. Sentei tirando a saia de debaixo de mim, para que não se sujasse. E o recreio que não acabava mais? Enfim, não me lembro se isso aconteceu só no primeiro dia ou nos demais e nos meses seguintes até eu me acostumar, mas a sensação de solidão e de estar fazendo algo errado ficou.
Não relatei esta parte, mas lembro-me, também, da raiva que eu tinha de ter que lavar os panos sujos de sangue. Aquilo me incomodava muito. Lembro-me, também, de sentir muita raiva e inveja da minha irmã que é seis anos mais velha que eu e já trabalhava e comprava absorvente higiênico – o Modess – só pra ela. Eu tinha que continuar lavando os panos e muitos deles eu joguei fora, escondido de minha mãe.

Falar disso na Tenda Vermelha não foi difícil, mas foi doloroso. Eu falava e sentia de novo aquela frustração, aquele desamparo, aquela humilhação de ter que sair à rua. Foi uma dor profunda, que eu nem sabia que ainda existia em mim. Estava guardada e de repente veio à tona.
E aí, fui acolhida pelas outras mulheres, que me abraçaram, me perfumaram e me fizeram sentir que eu não estava sozinha, que eu tinha braços a me enlaçarem, mãos que me acariciavam, doces vozes que me diziam de seu amor por mim. Tudo que eu gostaria de ter vivido lá atrás e que não foi possível. Então o milagre da cura é possível e acontece! Ele não foi imediato, foi um processo que se iniciou ali e continuou com uma dor terrível na coluna. Terminou à noite, comigo sozinha no quarto do hotel, com um choro convulsivo que lavou minha alma. Adormeci de tanto chorar e dormi toda a noite. Acordei, no outro dia, me sentindo bem. As lágrimas ainda apareceram de manhã, mas já não eram de dor, eram de emoção por relembrar toda aquela experiência maravilhosa.

Eu já vivi muitos processos de cura, porque venho buscando isso em minha vida de várias formas, este foi um dos mais marcantes e especiais.
Agradeço a todas as mulheres que estiveram comigo naquele momento, as que eu conheço e as que eu não conheço; as que me abraçaram e as que choraram comigo. Foi um momento de irmandade total, onde me senti amparada e em total sintonia com a Deusa que habita em mim."

Inanna

Imagem:  http://www.flickriver.com/photos/senditas/6390886721/