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sexta-feira, 8 de março de 2019

MUDANDO O PARADIGMA DA TROCA PARA A O DA DOAÇÃO: ECONOMIA DA DÁDIVA OU DO DOM



Quando lemos Genevieve Vaughan in Kailo e redescobrimos que “Palavras são presentes sonoros” a esperança reacende. Quando doamos, sem expectativa de retorno, sem a necessidade da troca, apenas como satisfação de uma necessidade básica de doação, voltamos a ser felizes. Ao nutrir nossos filhos, seus corpos e mentes, estamos nutrindo e abastecendo de afeto nossa comunidade. “Essa comunicação sem sinal, envolvendo dar e receber sem retorno, é o que nos torna humanos geração após geração” (Kailo, 2018.)

O texto de Kaarina Kailo ( finlandesa) sobre a Terra Feminarum, a Terra das  Mulheres do Norte (Lapónia) emocionou-me.  Como ela diz, quando perdemos o DOM Imaginário, que são as doações, as dádivas, que doamos ao Outro sem exigir trocas, a Mãe Terra se sente devastada e desonrada. A vida deveria ser entendida como Sementes de Mudanças, o novo precisa de espaço para se manifestar.  Ao mudarmos o paradigma da troca pela doação, neste novo contexto, estaremos Honrando a Mãe Terra, a Mãe Doadora de Vida, a Mãe em Nós. A semente da mudança está nas mãos das Mães. Devemos ensinar às nossas crianças este conceito de DOM, da abundância. 

Percebo que hoje as crianças muito pequenas já tem um novo DNA que as faz mais presentes, mais questionadoras e mais conectadas à Mãe Terra. Não podemos “cortar estas asinhas” com conceitos ultrapassados, mas estimular o novo, o DOM. Saber-se parte de toda a natureza, desta Inteireza de SER.

Carmen Eloah Boff

sábado, 16 de fevereiro de 2019

A GAJA


(Só é válido para o Português de Portugal, mas certamente que o Brasil tem algum termo semelhante...)

“Eu sempre me senti um bocado gaja…” Diz um dos moços que acompanha Ricardo Araújo Pereira em algum dos seus programas que de vez em quando me aparecem à frente no Youtube. Por vezes, admito, a inteligência de RAP fascina-me, a graça com que desmascara o chicoespertismo nacional dos Sócrates, Varas e outros patriarcas de serviço, por exemplo, é irresistível. Neste caso discutia-se algo como o politicamente correcto nas questões de género, ou assim, e um dos participantes, tentando parecer civilizado e disfarçar o machismo que se toma no próprio leite produzido nos prados nacionais, proferiu a frase com que inicio este texto. O termo, como é óbvio, rasgou o éter com a violência do insulto, apesar da intenção... E ouviu-se ao fundo a voz de RAP, pai orgulhoso de duas filhas: “Estás a insultar centenas de mulheres…” ou algo assim, que se perdeu no ar, porque, claro, a assistência feminina ali é toda ela serena, cordata e sorridente, longe daquelas “boas raparigas” sentirem-se ofendidas… Pois, “ofendidas” não seria o termo correcto aqui, “feridas”, sim. Há termos que não ofendem, eles ferem como se de repente naquele número do circo em que o homem atira facas a uma mulher contra uma parede, uma delas tivesse mesmo acertado… não era suposto, mas acertou num nervo qualquer e foi doloroso… Quando paro para sentir, quando “caio em mim”, como se diz, sei que doeu mesmo…

“Gaja”, como sabemos, não é o feminino de “gajo”, tal como “puta” não é o feminino de “puto”… “Gaja” é um pacote… e não cheira bem, tresanda… Analisar este pacote iria tomar-me tempo a mais ou requer mais argúcia e talento do que os que tenho… Mas não é preciso análise de maior para perceber que o sujeito dentro de cuja cabeça este termo foi concebido é homem ou é uma mulher patriarcalmente socializada para hostilizar outra mulher percebida como uma ameaça… “Gaja” é sempre, digamos, um marcador de alteridade. Por isso é que o moço disse aquilo com a desfaçatez de quem não sabe o que diz, ou sabe, mas finge que não sabe para parecer simpático. Vejamos, “gajo” é um termo vulgar, é calão, sim, mas um homem pode perfeitamente dizer: “Estava aqui um gajo muito descansadinho da vida…” falando de si próprio. Uma mulher nunca diz “gaja” referindo-se a si própria, “gaja” é sempre “a outra”, a que lhe quer roubar o homem, por exemplo. E a verdade é que não há termo masculino para isto, os homens, por norma, não temem que lhes roubem as esposas, em vez disso, um homem “vai às gajas”… Pois, é aí nessa zona esconsa que o verdadeiro sentido e todo o sabor deste termo pode ser encontrado, como de resto todas e todos sabemos muito bem.

Ora, depois de Bruxa, cá está mais um termo a reclamar se queremos curar a grande cisão patriarcal do feminino e da mulher... se há uma Gaja nisto tudo, essa sou eu!

Créditos da imagem: Duy Huynh, Blue Moon Expedition