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quarta-feira, 22 de maio de 2013

DEUSAS SOLARES



Embora a iconografia ocidental considere geralmente o sol como sendo do género masculino e a lua do género feminino, a antiga tradição oriental fala do sol no feminino. Os clãs que governavam o antigo Japão situam a sua origem na poderosa Deusa Solar, Omikami Amaterasu. Em 238 AD, as tribos japonesas eram governadas por uma rainha chamada Himiko, Filha do Sol.

A Grande Mãe hindu tomou a forma do sol enquanto deusa Aditi, mãe das doze Adityas zodiacais, espíritos cuja luz era revelada no dia do Juízo Final. No Mahanirvanatantra é dito que o sol era a indumentária da Grande Deusa: “O sol, o símbolo mais glorioso no mundo  físico, é a indumentária daquela que está “vestida com o sol”. A mesma deusa, identificada com Maria, aparece nos Evangelhos como a “mulher vestida de sol” (Revelação 12:1).

O Budismo Tântrico reconheceu um precursor da Mari do Oriente Médio, ou Maria, como o sol. Na aurora, os seus monges agradecem-lhe enquanto “a gloriosa, o sol da felicidade… Eu saúdo-te, ó Deusa Marici! Abençoa-me e satisfaz os meus desejos. Protege-me, ó Deusa, de todos os oito medos”.

Quando os japoneses reviram a sua mitologia para adaptá-la às novas ideias patriarcais, a Deusa Marici foi masculinizada e o facto dela ter sido um dia identificada com Omikami Amaterasu foi esquecido. Havia no entanto uma estranha ambivalência envolvendo o “poderoso deus” chamado Marici-deva ou Marici-ten. “Ele” era chamado protetor do sol, aparecendo no entanto sempre vestido com a indumentária duma mulher chinesa, indicando uma origem feminina com raízes a leste do Japão.

Entre os antigos árabes, o sol era uma Deusa, Atthar, por vezes apelidada de Archote dos Deuses.

Os celtas tinham uma Deusa Sol chamada Sulis, nome que vem de suil, que significa ao mesmo tempo “olho” e “sol”. Os povos germânicos chamavam-lhe Sunna. Para os noruegueses, ela era Sol. Na Escandinávia, era igualmente conhecida como “Glória-dos-Elfos”, a Deusa que daria à luz uma filha depois do juízo final, produzindo assim o sol da nova criação. Nos Eddas diz-se “uma filha radiante a brilhante sol conceberá antes de ser engolida por Fenrir; e a donzela trilhará o caminho de sua mãe quando os deuses consumarem a sua própria desgraça”.

A Deusa Sol Sul, Sol, ou Sulis era cultuada na Britânia na famosa colina artificial do complexo megalítico de Avebury, conhecido atualmente como Silbury Hill. Aí ela pariu cada novo Éon, que saiu do seu útero-túmulo, com mais de 130 pés de altura e mais de 500 de diâmetro. “A influência da deusa britânica Sul estendeu-se a grande parte do sudoeste de Inglaterra, e o seu culto parece ter tido praticado no alto de montes com vista para nascentes. Assim, perto da  nascente de Bath temos o monte isolado chamado Solsbury, ou Salisbury, provavelmente o seu lugar de culto”. Em Bath, os romanos identificaram Sul com Minerva e erigiram-lhe altares designando-a por Sul Minerva”.

Barbara Walker, The Woman’s Encyclopedia of Myths and Secrets, HarperSan Francisco, 1983

sexta-feira, 10 de maio de 2013

DEUSAS SOLARES - CAÍDAS E REMETIDAS PARA A NOITE



“(…) a Artemis grega, divindade solar na origem dos tempos,  que perdeu este aspeto e esta função a favor dum deus masculino. Podemos de resto ver como é que esse processo se desenrolou no mundo helénico e relacioná-lo com a tradição celta. Com efeito, primitivamente, Artemis identificava-se com sua mãe, Leto (ou Latona), tal como Core-Perséfone era a dupla da mãe Deméter: ela representava o Sol jovem, o Sol levante, por oposição a Leto que personificava o velho Sol, o Sol poente (tal como Core era a jovem filha, ou seja, a Terra jovem, face a Deméter, a velha Terra, o conhecido mito da renovação).

A partir do momento em que as divindades femininas foram masculinizadas, e também porque era impossível esquecer completamente o seu aspeto feminino, conservou-se a personagem de Artemis, apondo-se-lhe no entanto um paredro macho, o seu irmão Apolo, o qual monopolizou o aspeto solar, ao mesmo tempo que Artemis era remetida para a noite transformando-se em Deusa-Lua.

O mesmo aconteceu no Egipto onde Osiris tomou o lugar de Isis como Sol poente enquanto Hórus se tornava o Sol levante.

Sabemos que primitivamente a Lua era masculina e o Sol feminino, ainda assim é nas línguas semitas, germânicas e celtas e também nas tradições populares (onde se diz que “a Lua engravida as mulheres”).
Houve por conseguinte uma grande reviravolta no simbolismo mítico e religioso: a deusa-mãe Sol, Leto, foi substituída pelo seu filho e pela sua filha, macho e fêmea, e sabemos que Juno-Hera tudo fez para que essas crianças, fruto do adultério de Zeus (e portanto das prerrogativas paternalistas) não nascessem, o que significa que Hera, mulher divina, recusou admitir a mudança de orientação da sociedade, da ginecocracia para o paternalismo”.

Jean Markale, La Femme Celte, Payot (tradução Luiza Frazão) 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

HERA, A DEUSA DAS MULHERES


Cantemos agora Hera, a deusa das mulheres,
Que governa o mundo no seu trono de ouro.
Cantemos agora Hera, a filha de Terra, filha da mais antiga das deusas.
Cantemos agora a rainha d@s deus@s,
Cantemos a mais bela de todas as deusas.
Ninguém é mais amada do que tu,
Feminina Hera, ninguém é mais venerada.
Não há ninguém na terra mais respeitad@ do que tu
Ó majestosa Hera, ninguém mais partilha da tua glória.
És acima de todas a mais venerada das deusas.
És acima de tod@s @s deus@s a mais amada de sempre.

Hino Homérico

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Dia de ATHENA

Hoje (17 de janeiro), diante do altar de Athena, tive uma intuição, algo me disse que era um dia importante e peguei no Anuário da Grande Deusa, da Mirella Faur…

Eis o que encontrei relativo a este dia:

17 de Janeiro

Na Grécia, comemoração da Deusa Athena em seu aspeto de guerreira. Athena foi eleita padroeira da cidade de Atenas numa competição com o Deus Poseídon, quando o Deus ofereceu ao povo as ondas do mar e Athena plantou a oliveira, presente que foi mais útil. O mito original descreve Athena como uma antiga Deusa minóica, guardiã da terra e da família, a quem foram acrescentadas as características guerreiras da Deusa Pallas, trazida posteriormente pelas tribos gregas.

Incrível!
Podemos invocar este Arquétipo para ter força redobrada para gerir a nossa carreira, ter maior capacidade de discernimento, inteligência e capacidade estratégica, talento e habilidade.

sábado, 16 de julho de 2011

DESDE QUE DEIXÁMOS DE CULTUAR A RAINHA DOS CÉUS, FICÁMOS SOB A LEI DA ESPADA


“Vieira da Natividade acrescentou às referências da procissão das Candeias na Ataíja: “Por uma tradição cujas origens não atingimos, em todas as casas se fazem filhozes. É como uma prece, um voto à patrona dos olivais que se faz em toda a região serrana. Diz-se que “quem não tem (farinha) que fritar, frita folhinhas de oliveira”. Este costume das mulheres fazerem filhozes a 2 de Fevereiro, era comum às regiões envolventes. Foi uma homenagem à deusa-mãe da Natureza. A Senhora do Fetal (Batalha), é festejada com candeias e também com “cavacas” (bolos de açúcar). Já a Astarté fenícia, que tinha o título de Rainha dos Céus, era cultuada com bolos pelos cananitas (fenícios) e pelos judeus da Grécia e do Egipto em favor da agricultura, no século VII a. C. O livro bíblico de Jeremias, dessa época, até conta a azáfama da feitura dos bolos: “Os filhos apanham a lenha, os pais acendem o fogo e as mulheres amassam a farinha para fazer os bolos à Rainha dos Céus, tudo isto para ofender Yaveh”.

Perante isto, o profeta escreveu uma carta aos maridos para que eles impusessem a disciplina religiosa às mulheres. Mas eles, reunidos em assembleia, responderam ao profeta: “Quanto à mensagem que nos mandaste, sobre as ordens de Yaveh (no que toca aos bolos à Rainha dos Céus), nós nem te queremos ouvir. Pelo contrário: continuaremos a fazer como os nossos pais fizeram. No tempo deles havia pão com fartura, eram felizes e sem nenhuma desgraça. Desde que deixámos de oferecer bolos à Rainha dos Céus, começámos a faltar de tudo e morremos pela espada e pela fome.”*

*citando Franz Cumont, “Las Religiones Orientales y el Paganismo Romano”, Madrid, Akal Universitária, 1987

in “Cinco Mil Anos de Cultura a Oeste”, Moisés Espírito Santo, Assírio & Alvim, 2004

domingo, 3 de julho de 2011

TANIT - UMA DAS DEUSAS DAS NOSSAS ORIGENS FENÍCIAS


Tanit was a Phoenician lunar goddess, worshiped as the patron goddess at Carthage where from the fifth century BCE onwards her name is associated with that of Baal Hammon and she is given the epithet pene baal ("face of Baal"). Tanit and Baal Hammon were worshiped in Punic contexts in the Western Mediterranean, from Malta to Gades into Hellenistic times. In North Africa, where the inscriptions and material remains are more plentiful, she was, as well as a consort of Baal, a heavenly goddess of war, a virginal mother goddess and nurse, and, less specifically, a symbol of fertility. Several of the major Greek goddesses were identified with Tanit. Tanit was also a goddess among the ancient Berber people, and so may be one of the ancestral goddesses of ancient North Africa

Encontrei referências ao seu culto na Nazaré, assim como a Isis

ANTIQUÍSSIMA VIRGEM NEGRA EM PORTUGAL - ANTIGO TEMPLO DE ÍSIS?



Hoje, veio até mim uma fantástica Virgem Negra, aqui bem perto naquele que é, ao que consta, o primeiro santuário mariano da Península Ibérica, o SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DA NAZARÉ

Jung dizia que as Virgens Negras eram representações de Ísis, cujo culto abrangeu uma vasta área. Haverá alguma relação entre o culto de Ísis e as 7 saias usadas pelas mulheres da Nazaré? Dois dados muito interessantes que encontrei nestes textos da Wikipedia: o Seu culto estendeu-se por todo o mundo greco-romano e Ela era adorada pelos... pescadores!

O local é poderoso e absolutamente fascinante!

A VIRGEM NEGRA

"Centenas de ícones de Maria, mãe de Jesus de Nazaré, possuem as mãos e o rosto negros. Em França, elas são chamadas “Vièrges Noires” e noutros lugares da Europa “Madonas Negras”. Alguns chamam à sua imagem “a Outra Maria”, Carl Jung dizia que eram representações de Ísis e a sua iconografia remonta ao culto pré-histórico da Mãe Terra. Ela possuia analogia com as Deusas Cybele, Diana e Vénus e associações culturais com Kali, Innana e Lilith. Historicamente, Ela foi introduzida pelos cruzados voltando da Palestina e os conquistadores espanhóis levaram-na para o Novo Mundo. Seguindo as tradições esotéricas, os Templários chamavam-lhe Maria Madalena. Como a negra Sara-la-Kali, ela é reverenciada pelos ciganos em todo o mundo, possuindo a sua data e lugares sagrados: 24 de Maio, Sainte- Marie- de- la-Mer , na região francesa da Camargne.
Para os psicólogos modernos, Ela expressa o Feminino Sombrio. Mas independentemente daquilo que Ela possa parecer, ou daquilo que possam dizer dela, o seu culto continua poderoso e exerce uma estranha fascinação em milhões de devotos em todo o planeta. Os Seus lugares sagrados são centros de energia telúrica, enlaçados com as Linhas Ley e a arquitetura sagrada. Desde os tempos remotos até hoje, multidões peregrinam até aos Seus santuários, entregando-se aos seus milagrosos trabalhos de cura, transformação interior e inspiração. A França possui mais de 300 lugares de Virgens Negras e existem mais de 150 outros no mundo.
Nos meios herméticos e pagãos, incluindo a Wicca, Ela é a imagem da sábio ctónica Anciã."

(Autor(a) desconhecid@)

Mais sobre Virgens Negras

terça-feira, 17 de maio de 2011

MARIA


Me sentindo vazia
Fria
Nua
Fui pra rua
Respirar a Lua
E me vestir de pérolas
E ao raiar do dia
Eu vi Maria
Saindo pra luta
Pra labuta
De toda manhã
De toda tarde
De toda noite
Pra todo gosto
Todo desgosto
Pra qualquer troço
Qualquer troco
Na valentia
Trazer o pão-nosso
De cada dia
Na fábrica
Na calçada
Na empresa
Na mesa
Na cama
Na casa
Na carga
Da dupla jornada
Eu vi Maria
Na tia
Na avó
Na empregada
Na doce amada
Na inocente
Na demente
Na vadia
Eu vi Maria...
Há muitas eras
Em muitas terras
Com muitos nomes
Sagrada
Consagrada
És Senhora da Terra
Senhora das Águas
Senhora dos Céus
Senhora do Mar
Senhora do Escuro
Senhora da Luz...
Me olho no espelho
Me acho sem graça
E o que vejo é Maria
Cheia de graça
Sorrindo pra mim...
Maria dos montes
Das fontes
Das brumas
Maria pagã
Maria cristã
Maria das virgens
Maria das santas
Das meretrizes
Das cicatrizes
Guardadas na alma
Maria que acalma
As filhas
As mães
As avós
Velai por nós...

Ana Paim

http://desombrasedeluzanna-paim.blogspot.com/2011/05/maria.html

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A REPUGNÂNCIA DO CRISTIANISMO PELO CORPO FEMININO


“O povo amava as senhoras pejadas. Ardentemente as veneravam as mulheres. Orando por uma hora “breve”, uma “hora pequenina”, um “bom sucesso” no parto. Apelando à Senhora como seu princípio, o princípio feminino no céu.”

“A Senhora Mãe acalentando o seu filho. Nos braços. No regaço. Ao seio, nessas quase desconhecidas Senhoras do Leite. Mas, além destas imagens expostas, divulgadas, outras há. Durante anos e anos estiveram escondidas. Foram veladas. Foram enterradas. E até destruídas: são imagens das virgens pejadas, prenhadas, as senhoras do Ó ou da Expectação. Virgens grávidas. O repúdio oficial que as atingiu é significativo do que Simone de Beauvoir chama “a repugnância do cristianismo pelo corpo feminino” que “é tal que consente em votar o seu deus a uma morte ignominiosa, mas afasta-o da "mancha” do nascimento”.

Excertos de artigo de Helena Neves

in O Público 2004

Imagem Google (Nossa Senhora do Leite)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

AS DEUSAS DUPLAS - O CULTO DA MÃE E DA FILHA


Entre as inúmeras imagens de deusas antigas, encontram-se com frequência esculturas – em pedra, osso, argila – pinturas ou vasos em forma de deusas duplas ou geminadas. Elas simbolizam a polaridade biológica e oculta do princípio feminino, a eterna dança entre vida e morte, luz e escuridão, as fases da Lua, os ciclos da Natureza e da vida humana. Nos antigos Mistérios Femininos, as deusas duplas - aparecendo como mãe e filha ou irmãs - expressam os elos profundos dos laços de sangue, a solidariedade e parceria femininas, sendo um incentivo para a reformulação dos conceitos contemporâneos de cooperação e competição entre as mulheres.

A dupla de deusas simbolizava a soberania feminina na maioria das culturas pré-patriarcais, no nível espiritual e profano, representada pelos cultos matrifocais e a linhagem matrilinear. Com o passar do tempo, o ícone da Deusa Dupla metamorfoseia-se em Duas Mães, Senhoras, Irmãs ou Rainhas, reafirmando os laços de sangue e a parceria femininas. A iconografia da Deusa Dupla fortalece o conceito da natureza ambivalente da Grande Mãe, cujos polos de vida e morte se complementam numa mandala que mescla as forças de nascimento, crescimento, morte e renascimento. As mulheres espelham esta biologia bipolar, alternando nos seus corpos as fases hormonais (ovulação/menstruação), emocionais (expansão/retração) e espirituais (manifestação/contemplação). Nas culturas antigas ambas as polaridades eram honradas e consagradas, os rituais sendo organizados em função desta dualidade rítmica.

Assim como em outras mitologias, no Egito o tema da Deusa Dupla permaneceu durante milénios e era representado por várias deusas como Nekhbet/Wadjet, Tauret/Mut e Ísis/Nepthys.

A conexão complementar entre Ísis e Nephtys é muito antiga, dividindo entre si as regências: a luz lunar, a estrela matutina e o mundo visível e manifesto pertenciam a Ísis enquanto a face negra e oculta da Lua, a estrela vespertina e o mundo invisível e não manifestado eram o domínio de Nephtys. A sua dualidade – como faces opostas mas complementares da Grande Mãe – espelhava a dos seus maridos e irmãos, Osiris, deus da luz e fertilidade da terra e Seth, regente da escuridão e aridez do deserto.

Irmã gémea de Ísis, filha da deusa celeste Nut e do deus da terra Geb, Nepthys – ou Nebet Het - tem uma simbologia complexa e aparentemente contraditória. Ao mesmo tempo em que representa o fim da vida – seu nome simbolizava os “confins da terra e do tempo” - ela também anunciava o renascimento. O Seu tempo sagrado era o anoitecer, quando o barco solar mergulhava nas profundezas da terra, delas ressurgindo na manhã seguinte abençoado pela luz de Ísis. O Seu título era a “Senhora da Casa” reproduzido pelo hieróglifo e a imagem sobre a sua cabeça, o de Ísis sendo “A Senhora do trono”, que adornava a sua cabeça.

Enquanto Ísis governava o céu e a terra, o domínio de Nephtys era o mundo desconhecido e misterioso dos sonhos, do inconsciente e dos fenómenos psíquicos, bem como a realidade desafiadora da transformação dos mortos em seres de luz .O que acontecia no mundo astral (de Nephtys) afetava o mundo natural (de Ísis), assim como também o contrário. A morte era uma passagem estreita da luz para a escuridão, mas a alma precisava de atravessar esta escuridão para alcançar novamente a luz, conforme dizia esta frase gravada nos sarcófagos egípcios: “Que possas acordar para uma nova vida com as bênçãos de Nephtys, que te renovou durante a noite fria e escura”.

Nephtys era a padroeira do sofrimento feminino e também da cura, enviando sonhos curadores e energias de alívio aos doentes, bem como apoiando os moribundos na sua passagem, o que a tornou a deusa guardiã dos ritos fúnebres. Juntamente com Ísis, ela foi a criadora dos rituais de reverência aos deuses e das práticas templárias e mortuárias. Chamadas de Ma’aty – a dupla verdade – as irmãs eram “As Senhoras”, que apareciam em forma de pássaros migratórios nos sarcófagos para descrever o inverno (e a morte), bem como a primavera (e o renascer). Representadas juntas e com as asas estendidas ao lado dos faraós sobre os seus sarcófagos, elas não apenas simbolizavam a sua proteção, mas também o seu renascimento. O espaço entre as suas asas forma o símbolo ka, o abraço divino que contém o todo e todas as suas partes.Isis e Nephtys tornam-se uma deusa só quando juntam as suas energias complementares e assistem Osiris na sua ressurreição, assim como fazem com o Sol (na sua passagem entre noite e dia) e acredita-se que farão com todas as almas na sua transição entre vida/morte e renascimento.

Mirella Faur

in. http://witchclubhouse.blogspot.com/2010/03/o-culto-da-mae-e-da-filha.html

Imagem Google (as deusas egípcias Íris e Nephtys)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O CORPO INVISÍVEL DA DEUSA


As Aves, as Cobras e o corpo invisível da Deusa


"As aves e os objetos do céu formam um aspecto do corpo visível. O ar, no entanto, conduz-nos ao reino do invisível. Podemos senti-lo quando ele sopra sobre nós, e conhecemo-lo no nosso corpo quando respiramos. A respiração transmite vida e espírito, uma palavra que deriva do latim spiritus, que significa "respiração, sopro de vida". Mas na nossa extensão normal dos sentidos, não conseguimos ver nem tocar o ar.


A ideia do corpo invisível da Deusa foi-me sugerida pela primeira vez quando pensei no significado das aves nas religiões e nas mitologias do mundo. Na arte neolítica, descobrimos uma grande série de esculturas, cerâmicas e pinturas de Deusas aladas. Muitas Deusas, como Afrodite e Athena, têm aves como companheiras. Outras Deusas e Deuses transformam-se em aves, ou recebem mensagens de aves, como o Deus escandinavo Odin, cujos corvos gémeos, Hugin e Munin - o Pensamento e a Memória – lhe trazem notícias do mundo inteiro. Também os xamãs de muitas culturas se vestem como aves para viajar pelas regiões dos espíritos.


As aves representam a Deusa porque viajam no ar, o seu corpo invisível, enquanto os humanos só podem viajar no corpo visível da terra; para viajar no mar, precisamos de criar barcos, que com a sua forma semelhante a um útero, adquirem o caráter de fêmeas. E como estas aves "falam" sob a forma de canto, elas podem ser as portadoras da sabedoria codificada da Deusa, assim como a inspiração para a arte, outra maneira do seu corpo invisível se movimentar rumo ao visível.


As aves ligam-nos às cobras, mesmo que apenas através da sua oposição simbólica. Elas movem-se através do ar invisível. Já as cobras, mais que qualquer outra criatura, deslizam através do corpo invisível da imaginação. As mitologias de todo o mundo descrevem a conexão íntima - frequentemente a antipatia - existente entre as aves e as cobras. Em quase todas as culturas, ambas aparecem como as criaturas primárias da Deusa. E nem sempre são inimigas. Muitos mitos e histórias de fadas contam a versão de um herói que prova o sangue de uma cobra e aprende a "linguagem das aves", ou seja, todo o conhecimento. A ave viaja para os mundos invisíveis do alto; as cobras deslizam pelos mistérios que há debaixo da terra.


As aves e as cobras parecem representar a cisão (ou o jogo) entre o consciente e o inconsciente, a racionalidade e o instinto. É fácil compreender o fascínio pelas aves com a sua capacidade de voarem com graça rumo ao céu. Mas o que proporciona às cobras o seu mistério, a sua acalentada resistência em quase toda a mitologia?


Podemos considerar várias possibilidades. Para se desenvolver, as cobras precisam de trocar a sua pele periodicamente, o que lhes proporciona uma aura de imortalidade. As cobras têm uma qualidade andrógina: esticadas, parecem falos; enroladas, assemelham-se às dobras da vulva. (...) Com essa mistura de imagens masculina e feminina, as cobras são a sexualidade encarnada. E quando observamos as cobras enroladas em volta dos braços da Deusa, ou movendo-se através do seu cabelo, vemos a força dos nossos mais antigos primórdios unindo-se à imagem do poder divino."


Rachel Pollack


Imagem: a Deusa Serpente de Creta

domingo, 27 de março de 2011

ANUKET - DEUSA VIRGEM


A MULHER LIVRE É FIEL AO "ARQUÉTIPO DA DEUSA VIRGEM"

"A Deusa Anuket está associada à Lua Crescente e a característica da Deusa desta fase é ser virgem. Mas virgem, no sentido de ser essencialmente uma-em-si-mesma. Isto explica o porquê de ser considerada uma Deusa andrógina. Ela não é, portanto, a contraparte feminina dum deus masculino. Ao contrário, ela tem um papel próprio. Ela é a mais Antiga e Eterna, a Mãe do deus Ra e Mãe de todas as coisas.

Da mesma forma, a mulher contemporânea que incorpora o arquétipo de Anuket é "virgem" na sua conotação psicológica. Uma mulher que é dependente do que outras pessoas pensam, o que a faz dizer e fazer coisas que realmente não aprova, não é virgem no sentido do termo. A mulher virgem é livre para ser como deseja. Ela é o que é.

Mas romper leis convencionais, não pode levá-la ao egocentrismo, pois deste modo a cura seria pior que a doença. Mas, como pode então a mulher libertar-se da sua orientação egocêntrica? Quando buscar objetivos não-pessoais e relacionar-se corretamente com a sua Deusa Interior, terá como resultado a libertação do egotismo e do egoísmo. Ela deixará então de ser vista como uma egoísta, para consolidar uma personalidade de significação mais profunda. Para tanto, deve ser conhecedora dos ensinamentos antigos da Deusa. É entendendo a conceção primitiva das deidades lunares, que eram tanto provedoras da fertilidade, como destruidoras da vida, que poderemos incorporar os princípios femininos das Deusas, tornando-nos então, "virgens", uma-em-si-mesma. "

Rosane Volpatto, através de Rosa Leonor Pedro (adaptado).

ANUKET : SIGNIFICA AQUELA QUE ABRAÇA...


Imagem: Google

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A DEUSA DO DISCO DE PRATA




“Tu, que deambulas por muitos lugares sagrados e és reverenciada com diferentes rituais;
Tu, cuja luz suave clareia o caminho dos viajantes e nutre as sementes escondidas sob a terra; Tu, que controlas o caminho do Sol e até mesmo a intensidade dos seus raios,
Eu Te imploro, chamando todos os Teus nomes e todos os Teus aspectos,
Eu Te invoco com todas as cerimónias que Te foram dedicadas,
vem a mim e traz-me repouso e paz”


Apuleio, "O Asno Dourado"

"Para a nossa mentalidade atual, baseada em valores solares, pode parecer estranha a afirmação do escritor romano Apuleio (século I) sobre o controlo exercido pela Lua na trajetória e intensidade dos raios do Sol.
No entanto, se voltarmos para o início da história da humanidade, podemos constatar a maior relevância simbólica e mitológica da Lua, bem como a antiguidade dos cultos lunares em relação aos valores e cultos solares. Na Caldeia, os astrólogos ignoravam o Sol e fundamentaram o seu sistema nos movimentos da Lua. Até hoje, na astrologia védica, o peso da interpretação recai sobre o signo lunar natal, os meses são denominados “mansões lunares” e caracterizados pela posição da Lua cheia na respectiva mansão.


Os cultos lunares tiveram origem no paleolítico e os primeiros calendários conhecidos foram os lunares, baseados no ciclo menstrual da mulher. O mais antigo calendário astrológico conhecido foi criado pelos babilónios e chamava-se “As casas da Lua”, estabelecido a partir do ciclo de lunação, com os seus períodos mensais representados pelos signos zodiacais. A principal deusa lunar da Babilónia era Ishtar, cujo cinturão era enfeitado com representações e símbolos do zodíaco.


Inúmeros artefactos neolíticos talhados em pedra, chifre e osso, encontrados em grutas espalhadas por vários países na Europa e Ásia têm inscrições agrupadas em séries alternadas de 28 a 30 traços, demonstrando o antigo conhecimento astronómico dos ciclos lunares. Atualmente está sendo cada vez mais divulgado e utilizado o calendário lunar do povo Maia, com base no ciclo das treze lunações que formam um ciclo solar.


Desde os mais remotos tempos, a Lua foi reverenciada como a manifestação da Grande Mãe Universal, o aspecto feminino da Divindade, a fonte criadora e sustentadora da vida, cuja luz e bênção eram invocadas nos rituais de


fertilidade, no plantio das sementes e no parto das crianças. As suas fases passaram a simbolizar o próprio ciclo da gestação, nascimento, crescimento mas também o amadurecimento, decadência e morte. As suas faces clara e escura foram consideradas os aspectos doadores da vida e destruidores da natureza – a Mãe sendo tanto a Criadora como a Ceifadora.



A Lua foi venerada sob inúmeros nomes nas várias tradições e culturas antigas. Apesar desta diversidade, existe uma similitude em relação aos seus atributos de acordo com as suas fases. A Lua crescente representava a vitalidade da Deusa jovem, o frescor da Donzela, o potencial do crescimento, o início das realizações. Tornando-se cheia, a Lua personifica o ventre grávido da Mãe, o florescimento e abundância da natureza, a concretização das possibilidades. Ao minguar, a Lua assume o aspecto de Anciã, assinalando o fim da colheita, o declínio das energias, a sábia preparação para conhecer os mistérios da morte e do renascimento.
Dificilmente se encontra nas várias mitologias uma única deusa que sintetize a inteira gama do simbolismo lunar. Nos panteões grego e celta, existem inúmeras deusas lunares com características específicas relacionadas aos atributos das fases e representando os arquétipos da Donzela, da Mãe e da Anciã.


Uma Deusa celta pouco conhecida é Arianrhod, descrita na coletânea de textos galeses “Mabinogion” como “A Senhora da Roda de Prata”. Vivendo na longínqua terra encantada de Caer Sidi, ela personificava uma antiga Deusa Mãe celeste, regente da constelação estelar Corona Borealis, cujo nome em galês era “Caer Arianrhod” , ou seja, “O castelo girante de Arianrhod”.
O mito de Arianrhod é muito complexo, com elementos contraditórios e de difícil compreensão, denotando as deturpações decorrentes da interpretação das antigas lendas da tradição oral dos bardos, pelos monges e historiadores cristãos. Há, no entanto, uma passagem muito interessante que descreve de forma metafórica e pitoresca uma mescla de atributos da Deusa como Donzela e Mãe escura. Filha da deusa da terra Don, Arianrhod foi chamada pelo Deus celeste Math para ser sua acompanhante (na verdade, seu dever era segurar os pés do Deus no seu colo enquanto ele descansava). A condição essencial deste encargo era a virgindade da candidata. Mas, ao ser testada pelo bastão mágico de Math, Arianrhod de repente deu a luz à gémeos – um, bem formado, Dylan, que se foi arrastando para o mar (onde se transformou depois em um deus marinho), e outro, ainda em estado embrionário. Arianrhod desapareceu, mas antes amaldiçoou este filho para que ele não tivesse jamais um nome, não pudesse usar armas nem casar. Na cultura celta, era a mãe que dava o nome e abençoava o seu filho nestes rituais de passagem. No presente mito, a criança foi adotada pelo irmão de Arianrhod, o mago Gwydion, que, no devido tempo, conseguiu ludibriar Arianrhod e, usando de recursos mágicos, a convenceu a dar um nome ao filho e permitir-lhe usar armas. O nome Llew Llaw Gyffes, “o brilhante, luminoso e habilidoso”, era o mesmo nome dum famoso herói celta Lugh, personificação dum antigo deus solar. Comprova-se, assim, por metáforas e intrincados simbolismos celtas, a antiguidade das divindades e cultos lunares, a Lua representando as tradições matrifocais da Deusa que deram origem aos cultos e mitos solares posteriores.



Na Ásia - Ocidental e Menor - durante séculos foram reverenciadas inúmeras Deusas Mãe, algumas delas com características lunares. Na Suméria e na Babilónia, a Deusa Anath, Anunith ou Antu era conhecida como a “Senhora da Lua, do Céu e das Montanhas”, representada por um disco prateado com oito raios. Assim como Arianrhod, ela reunia as qualidades da Donzela – regendo o plantio das sementes e o crescimento dos brotos e da Mãe – quando desce para o mundo subterrâneo para resgatar o seu filho/consorte da escura morada de Mot, o deus da morte, e regenera a terra seca com a chuva fertilizadora.
Posteriormente, os atributos de Anath foram absorvidos no mito e no culto de outras deusas, como Ashtar, Astarte e Asherah."



Mirella Faur


Imagens: Google

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

DANU DO NORTE E DO INVERNO


DANU, A GRANDE MÃE IRLANDESA


“No início havia o Vazio, a vastidão do Nada, a supremacia da criatividade não-diferenciada
Do vazio nasceu o Caos,
Da união entre o vazio e o caos originou-se Ana, a Grande Sonhadora, Criadora e Tecelã dos mundos, em cujo ventre fértil resplandeciam estrelas e planetas.
Da união entre Sonho e o nosso Sol foram criados a Mãe Terra, o
Pai Céu e o oceano, os ancestrais primevos.
Do encontro entre o céu e a Terra surgiram os Seres Brilhantes, os
Dakinis e os Dakas que trouxeram a luz ao mundo.
E do ventre de Ana, tocado pela luz das Plêiades, nasceram os Tuatha de
Danann, o povo da deusa Danu.”
Kathy Jones, “The Well of Ana”

Os primeiros relatos escritos sobre as lendas e as crenças dos povos celtas foram feitos pelos romanos, que invadiram a Grã Bretanha em 55 a.C. Na medida das suas conquistas, eles incorporavam ao seu próprio sistema religioso mitos e conceitos dos povos indígenas, registando-os, porém, de forma fragmentada e adaptada, em função da localização geográfica e da similitude entre uma divindade local e uma correspondente romana.

Estes registos referem-se aos antigos mitos irlandeses, galeses e escoceses, acrescentando, também, lendas das tribos celtas que tinham chegado posteriormente à Grã Bretanha (cerca de 500 a.C.), provavelmente vindas da França central. Ocultas nas histórias encontram-se reminiscências das tradições pré-celtas, dos povos neolíticos, construtores dos círculos de menires e das câmaras subterrâneas, encontradas em inúmeros lugares nas ilhas Britânicas e na Bretanha (região do Oeste da França).


Esta herança ancestral, preservada durante milénios pela tradição oral e pelas práticas religiosas pagãs, parcialmente registada por historiadores romanos, foi aproveitada, reinterpretada, deturpada e truncada nos relatos dos monges cristãos ao longo dos séculos. Mantendo somente o que convinha à moral e aos dogmas cristãos, os monges reduziram o vasto panteão e a rica simbologia celta a relatos épicos de guerras, invasões, intrigas, traições e atos imorais, perpetrados pelas várias raças e tribos, diferenciados apenas pela localização geográfica. Mesmo preservando resquícios das verdades originais, as histórias cristãs minimizaram ou ignoraram a beleza e a sabedoria do legado celta, reduzindo ou distorcendo o seu valor mítico e espiritual. Na visão patriarcal dos monges, as Deusas foram vistas como Rainhas e princesas, os deuses como Reis e Heróis e o significado transcendental foi diluído, modificado ou perdido.


No século XI foi publicado “O Livro das Invenções”, que descreve uma sucessão de 5 povos que teriam vivido na Irlanda antes da chegada dos celtas, os ancestrais dos habitantes atuais.
Nas lendas, estas raças diferentes são descritas duma forma ambígua, tendo tanto características divinas quanto humanas e sendo apresentadas como deusas, deuses, gigantes, devas e seres elementais (seres análogos aos de tantos outros mitos de várias culturas e países).


Sem precisar de entrar em detalhes da complexa nomenclatura e das vastas descrições das batalhas, o importante é saber que cada uma dessas raças foi vencida e seguida pela seguinte, alternando-se assim os seus mitos, as suas divindades e a sua organização social e religiosa.
A quarta raça - Tuatha de Danann ou povo da deusa Danu -, apareceu de forma misteriosa: não da terra, de uma direção definida, como outros invasores, mas do céu, simultaneamente das 4 direções. Aterraram no dia do Sabbat de Beltane e depois fundaram 4 cidades que se tornaram os centros espirituais da Irlanda.


Tanto a sua natureza, quanto a sua origem permanecem envoltas em mistério, mas sabe-se que os seus atributos eram de bondade e luz. Por terem vencido a “escura” e agressiva raça anterior, foram por isso chamados “ seres brilhantes”. Trouxeram ensinamentos e objetos de magia, arte, sabedoria e cura e deixaram como marcos os círculos de menires e os monumentos megalíticos. Após um longo e pacífico reinado, eles também foram vencidos pela última raça, os precursores dos celtas; depois da sua derrota retiraram-se para o interior das colinas sagradas, tornando-se o assim chamado “Povo das Fadas”. É importantíssimo ressaltar que apesar de se traduzir fairy por “fada”, este termo não descreve uma “diáfana figura feminina sobrevoando as flores”. O sentido arcaico de Fairy People refere-se a seres sobrenaturais, com aparência etérica, sim, mas pertencendo a ambos os sexos, jovens que gostavam de música, danças, cores, flores, e abominavam o ferro (comprovação da sua origem anterior à Idade do Ferro).

O maior legado dos Tuatha de Danann foi o culto da deusa Dana (também conhecida como Danu , Anu ou Ana), considerada a Deusa Mãe, progenitora das outras divindades. Representando a força ancestral da Terra, a fertilidade, a vida e a morte, Dana foi posteriormente considerada como a representação da tríplice manifestação divina, da qual sobreviveu até hoje somente o culto à Brighid, cristianizada e fervorosamente venerada como a milagreira Santa Brígida.


Apesar de o seu culto ter sido proibido pelo cristianismo e de o seu nome aos poucos ter sido esquecido, Danu está presente em toda a parte na Irlanda, seja nos verdes campos, no perfil arredondado das montanhas, no sussurro dos riachos. O Seu lugar sagrado no Condado de Kerry, chamado Paps of Anu, reproduz, na forma de duas colinas, os Seus fartos seios, cujos mamilos são formados por cairns, os antigos amontoados de pedras que foram formados pelas oferendas de pedras levadas pelos peregrinos ao longo dos tempos, em sinal de reverência e gratidão.


Atualmente, com o ressurgimento do Sagrado Feminino, Danu, assim como as Deusas de outras tradições, estão a ser lembradas e reverenciadas como Senhora da Terra, da Água, da Abundância, da plenitude da Natureza e da Soberania.

Mirella Faur
http://sitioremanso.multiply.com/journal/item/29

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

CAILLEACH DO INVERNO


Cailleach fala:

"Meus ossos são frios, meu sangue é ralo.
Eu busco o que é meu.
Eu busco o que ainda não foi semeado.
Eu busco os animais para cavernas quentes e mando meus pássaros para o sul.
Eu ponho meus ursos para dormir e mudo o pelo de meus gatos e cães para algo mais quente.
Meus lobos me guiam, seu uivo anuncia minha chegada.
Os cães, lobos e raposas cantam a canção da noite, a serenata da Anciã, a minha canção.
Eu disse sim à vida e agora digo sim à Morte.
E serei a primeira a ir para o outro lado.
Eu trago o frio e a morte, sim, pois este é meu legado.
Eu trouxe a colheita e se você não colheu suas maçãs eu as cobrirei de gelo.
Após o Samhain, tudo o que fica nos campos me pertence."

Cailleach é a própria terra. Ela é as rochas cobertas de musgo e o pico das montanhas. Ela é a terra coberta de gelo e neve. Ela é a mais antiga ancestral, velada pela passagem do tempo. Ela é a Deusa da Morte, que deixa morrer tudo o que não é mais necessário. Mas é tb ela quem encontra as sementes da próxima estação. Ela é a guardiã da semente, a protetora da força vital essencial ao ressurgimento da vida após o inverno. Ela guarda a própria essência do poder da vida. Ela é o poder essencial da Terra. Nos mitos Celtas Ela representa a Soberania sobre a terra e um rei só podia reinar após realizar o casamento sagrado com Ela, que representa o Espírito da terra.

Cailleach é uma das maiores e mais antigas Deusas da humanidade. Ela é um aspecto da Deusa como a Anciã, principalmente na Escócia. Um derivativo de seu nome, Caledonia, foi dado àquele país. Seu nome, assim como seu título de Mãe Negra, é muito próximo ao nome Kalika, um dos títulos de Kali.
Alguns estudiosos acreditam que ambas sejam derivadas de uma Deusa ainda mais antiga, talvez uma das primeiras expressões da face negra da Deusa já cultuadas pela humanidade. Ela foi e é conhecida por inúmeros nomes: Cailleach Bheur or Carlin, na Escócia; Cally Berry ou Cailleach Beara, na Irlanda; Cailleah ny Groamch, na ilha de Man; Black Annis, na Bretanha e Digne, no país de Gales, todas equivalentes a Kali.

Cailleach também é considerada uma outra forma das Deusas Scathach e Skadi. Na Irlanda ela era conhecida como uma divindade que podia trazer e curar doenças, principalmente de crianças. O nome Caillech significa mulher velha, bruxa ou mulher velada. Sua imagem velada a relaciona com os mistérios de se conhecer o futuro, particularmente a hora da morte de cada um. Nas lendas Medievais ela era a Rainha Negra do Paraíso, aquela a quem os espanhóis chamavam de Califia; a palavra Califórnia vem deste nome.
Cailleach rege o céu, a terra, o Sol e a Lua, o tempo e as estações. Ela criava as montanhas com as pedras que carregava em seu avental, mas também trazia aos homens as doenças, a velhice a morte. Ela era também um espírito protetor dos rios e lagos, garantindo que eles não secariam. Ela controla os meses de inverno, trazendo o frio, as chuvas e a neve. Mas um de seus principais títulos é Rainha da Tempestade, pois com seu cajado ela trazia e controlava as tempestades, particularmente as nevascas e furacões.
Cailleach é a guardiã do portal que leva à parte escura do ano, iniciada no Samhain e é invocada nos rituais de morte e transformação. Nos mitos da troca de poder entre as faces da Deusa ela recebe o bastão branco dos meses de luz e o torna negro para os meses de trevas, devolvendo-o à Donzela no Imbolc. Em alguns mitos diz-se que Ela retorna à terra no Imbolc, tornando-se pedra para acordar somente no próximo Samhain.

Como o Seu nome não aparece nos mitos escritos da Irlanda, mas apenas em histórias antigas e nomes de lugar, presume-se que Ela era uma divindade pré-celta, trazida pelos povos colonizadores das ilhas Britânicas, vindos do leste Europeu, possivelmente da Índia. Ela era tão poderosa e amada que mesmo quando os recém-chegados trouxeram suas divindades, como Brigit, Cailleach ainda continuou sendo lembrada.
Apesar de ser considerada uma Deusa Anciã, Ela é quase sempre representada com um rosto jovem, mostra de seu poder de se rejuvenescer constantemente. Ela possui um aspecto Donzela parecido com Diana, sendo a protetora dos animais selvagens contra caçadores. Ele protege principalmente o cervo e o lobo, assegurando bandos saudáveis. Há um mito antigo que conta que os caçadores oravam a Cailleach para saber onde encontrar os cervos e quantos matar. Ela os guiava para aqueles que podiam ser mortos, desobedecê-la trazia a sua fúria, em forma de ataques de alcateias para a vila dos desobedientes.

Ela também possui um aspecto Mãe, sendo aquela a quem as mães pediam que curasse seus filhos das doenças do inverno. O Gato é um de seus animais sagrados. Em algumas lendas ela toma a forma de gato para testar o caráter das pessoas. Em sua forma humana, ela costumava ir de casa em casa no inverno pedindo abrigo e comida. Os que a acolhiam contavam com sua eterna bênção e proteção e os outros eram amaldiçoados e não atravessavam o inverno incólumes. São também sagrados para ela o corvo e a gralha.
Seu rosto é azul e seus cabelos sempre são representados soltos e brancos, escapando de seu manto e capuz. Ela carrega um caldeirão em uma das mãos e um cajado na outra. O seu cajado ou bastão conferia-lhe o poder sobre o tempo, fazendo dela uma das Deusas mais importantes para a manutenção da vida no planeta. Ela é também uma Deusa associada à crua honestidade e à verdade, doa a quem doer.
Também aparece como uma mulher velha que pede ao herói que durma com ela. Se o herói concorda em dormir com ela, ela se transforma em uma linda donzela.
O Livro de Lecam (cerca de 1400 E.C.) alega que Cailleach Beara era a Deusa da qual se originaram os povos da região de Kerry. Na Escócia ela representa a personificação do inverno, nasce velha no Samhain e fica cada vez mais jovem até se tornar uma linda Donzela em Beltane.
O contacto com esta Deusa ajuda-nos a redescobrir a soberania sobre a nossa própria vida, um tipo especial de poder e confiança. Cailleach, violenta como pode parecer, vive em todos nós. Ela traz-nos a sabedoria para deixar ir aquilo de que não mais precisamos e manter as sementes do que está para vir. Ela vive no limite entre a Vida e a Morte.

http://www.luzemhisterio.com.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=134%3Anovembro&catid=15&Itemid=25

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

AS FACES MENOS CONHECIDAS DA DEUSA


O aspecto menos compreendido da Grande Mãe - e, por isso, o mais temido - é a Deusa Negra, a Face Ceifadora.
Assim como a Donzela, a Mãe e a Anciã regem etapas do eterno ciclo da vida - do nascimento (plantio), amadurecimento (florescimento e frutificação) e do inevitável declínio, a Deusa Negra encerra o ciclo e representa a decomposição e a morte.

Como Ceifadora, ela é a destruidora de tudo o que esgotou o seu tempo, de tudo o que cumpriu a sua finalidade e não serve mais. É ela quem limpa a terra após a colheita para o repouso necessário à germinação de novas sementes. O seu poder é o da Lua Negra, dos mistérios ocultos na escuridão, do vazio e do silêncio que antecedem o surgimento da luz, o raiar do dia e o começo dum novo ciclo. Ela ensina que sem morte não há renascimento, sem fim não pode haver um novo começo, sem dissolução do velho não há a renovação.

Como mestra da escuridão, ela orienta e conduz ao encontro da “sombra”, o aspecto perturbador e renegado do próprio ser. Se pedir a sua ajuda e tiver a coragem de mergulhar nas profundezas do seu mundo interior para descobrir, encarar, reconhecer e aceitar a sua sombra, encontrará a sua autêntica identidade, livre das máscaras da personalidade. Confrontar, contemplar e assimilar o poder da sombra representam a verdadeira iniciação nos mistérios da Deusa Escura e da Lua Negra, iniciação que exige, como preço, mudanças, transformações e novos rumos.

"Abraçar a sombra" significa aceitar-se assim como você realmente é - mescla de dor e alegria, medo e coragem, conquistas e perdas, sucessos e fracassos, acertos e erros, luz e sombra. Somente assim encontrará o seu verdadeiro e completo poder de mulher e a integração da sua totalidade.
São manifestações da Deusa Negra: Hécate, Kali, Baba Yaga, Lilith, Cailleach, Morrigan, Hel, Ran, Sekhmet, Ereshkigal, Coatlicue.

Outro aspecto que foge da costumeira manifestação da Deusa Tríplice, relacionada com a Lua Crescente, Cheia e Minguante, é a Rainha, conhecida como a Imperatriz e as rainhas dos naipes do Tarot.
Esta face da Deusa corresponde à fase da Lua Balsâmica, entre a Lua Minguante e a Negra. Ela rege a maturidade, entre os 40 e os 50 ou mais anos, da mulher que ultrapassou ou negou a fase da maternidade, que está no auge e plenitude da sua expressão, afirmação e realização, mas que ainda não atingiu a sabedoria da Anciã.

Nesta fase, chamada de pré-climatério, ocorrem mudanças no corpo físico, a mente torna-se inquieta, os pensamentos são voláteis e tumultuosos, a percepção é aguda, a sensibilidade exacerbada, as emoções em conflito. É um período de inquietação e aparentes contradições, de mudanças de gostos e atitudes, de busca de “algo” vago ou indefinido no campo espiritual, profissional ou afetivo. Surgem temores em relação ao futuro, o medo do desconhecido, a preocupação com o envelhecimento, ainda mais numa sociedade que enaltece o valor e o viço da juventude.

Dependerá da mulher passar por esta fase com dor ou com a alegria de quem já venceu batalhas, cumpriu deveres, plantou e colheu e está a aproximar-se dum tempo de paz e realização interior, com a segurança da experiência e as promessas de futura sabedoria. Abençoar esta fase, rever o passado e transmutar os resíduos com o auxílio da Deusa Negra, agradecer à Donzela e à Mãe pelo plantação e a colheita, são medidas recomendáveis que abrem as portas para a Grande Mudança, quando o seu sangue não mais for vertido, mas retido no seu ventre, e quando o tempo assinalar a sua coroação – agora já não como Rainha, mas como uma Sábia Mulher Coroada, herdeira das Matriarcas e das Mães de Clã do passado ancestral.

Mirella Faur
http://sitioremanso.multiply.com/journal/item/4

domingo, 28 de novembro de 2010

A AUTORIDADE ESPIRITUAL FEMININA


HAGIA SOPHIA, A SABEDORIA SAGRADA

..Há milénios fui pelo Senhor criada, no começo de tudo, como Seu primeiro ato criador, antes mesmo da Terra, quando não existia o abismo profundo, nem fontes de água, montanhas, colinas ou campos. Quando Ele estabeleceu os céus Eu estava lá, também quando traçou um círculo na superfície do abismo e firmou a abóbada celeste, quando delimitou as margens dos mares e a fundação da Terra. Eu estava sempre ao seu lado como uma Mestra criadora e parceira, sendo o seu deleite e me alegrando ao lado dele no mundo habitado... Livro dos provérbios, 8:22-31


Inúmeros textos (“livros da sabedoria”) da bíblia hebraica descrevem Hokhmah, a Sabedoria feminina, de forma complexa e desafiadora, dando origem a inúmeras interpretações e contradizendo o conhecido monoteísmo judaico. Ela – assim como Yahweh - era invisível e transcendente, a sua origem retrocedendo ao “inicio dos tempos antes da Terra existir”. Mas também era imanente, pois além de consorte de Deus e construtora do Universo, ela fazia parte da criação e caminhava no meio da humanidade. A controvérsia gira em torno da sua aparição, vista ora como primeiro ato de criação de Deus, ora como entidade pré-existente, herdeira de Zoé, arquétipo da própria existência. Filósofos modernos argumentam que a Sabedoria representa a ordem oculta do mundo, sendo uma lei cósmica, um pré-requisito da criação e portanto percebida e reconhecida por Deus, mas sem ser por ele criada. Como princípio espiritual e força transcendental, Hokhmah é a mediadora entre Deus e o mundo e proporciona à humanidade a sua redenção. O seu surgimento (do abismo profundo, sinónimo do ventre primordial, de uma Deusa mãe) confirma a sua origem e natureza feminina e co-participante no processo de criação. A natureza de Hokhmah é a própria Lei da Vida, mescla de amor e conhecimento que traz à humanidade tanto a alegria, quanto o sofrimento. Ela é o espírito invisível que guia a vida dos humanos e os convida através das mulheres a participarem da sua hospitalidade e buscarem os seus conselhos, como é descrito nestes versos:

A sabedoria construiu a Sua casa sobre sete pilares, preparou uma farta mesa e enviou as Suas mulheres para convidar aqueles que queriam ter a visão para partilhar do seu pão e do seu vinho (Provérbios 9:1-6).

....saibam que não dedico os meus esforços apenas a mim, mas a todos aqueles que buscam sabedoria. Os Meus pensamentos são mais amplos que o mar e os meus conselhos mais profundos que o grande vazio... (Livro de Ben Sirach 24:3-6)

Os livros mais antigos da Bíblia que falam sobre a sabedoria baseados em compilações de textos arcaicos da Suméria, Babilónia e Egipto, preservam as qualidades de sabedoria de deusas como Nammu, Inanna, Cibele, Isis, as Rainhas do céu e da Terra que antecederam por dois milénios a cultura hebraica e grega. Muitas destas imagens e atributos constituíram a base dos textos do Velho Testamento, em que a sabedoria aparece como uma árvore com fruto, um manto que envolve e protege, uma figura velada e misteriosa, um símbolo mítico da divindade feminina.
A sua mudança da representação metafórica da sabedoria no judaísmo, personalizada nos textos posteriores (hebraicos, gnósticos, cabalísticos e helenísticos) para Espírito Santo e Logos foi embasada em distorções de palavras e géneros na língua hebraica e grega. De Hokhmah - palavra feminina em hebraico - chegou-se ao termo grego neutro Hagion Pneuma e ao masculino Logos, depois ao conceito latino e masculino do Spiritus Sanctus, apesar de a sua imagem ser a pomba, totem da Deusa Mãe. A transição da sabedoria como atributo da Mãe Deusa até à sua transformação no Espírito Santo dos evangelhos gnósticos e cristãos aparece nos Livros dos provérbios (400 a.C), Ben Sirach (200 a.C.), O canto de Salomão, o Livro de Enoch (100 a.C.). No livro de Ben Sirach “a sabedoria é criada da boca do Altíssimo, que fez sozinho a abóbada celeste, os mares e a terra, e que lhe determinou morar somente em Israel”, privando assim o resto da humanidade da qualidade universal da Sabedoria. A real fonte da compreensão intelectual, do esforço e da realização foi transformada no Torah, que à sua vez passou a ser declarado o receptáculo da própria Sabedoria identificada pelo Logos, a palavra. A jornada da Sabedoria da Terra para o céu foi descrita desta forma:

A Sabedoria tentou fazer sua morada no meio dos filhos dos homens, mas não encontrou lugar para ficar e retornou à sua origem, entre os anjos (Livro de Enoch, 42:1).


Como punição pela perda, os pecadores seriam punidos, as pessoas comuns não mais podiam reverenciar as leis da natureza, que iriam ser interpretadas por mestres, padres homens de lei, os únicos autorizados para compreender os escritos sagrados. O Torah foi visto como escrito pelo próprio Deus e a natureza feminina e universal da Sabedoria foi abolida, considerada um compromisso com a lei de punição e recompensa.


O verdadeiro significado da sabedoria não se perdeu mas ressurgiu de outra forma, como Sophia, no Livro de Sabedoria de Salomão, escrito em grego no primeiro século a.C. em Alexandria, por autores judeus não tradicionais com orientação helenística e com comentários de mulheres de um grupo místico chamado Therapeutae. Nele a descrição de Sophia (“a qualidade elevada da alma”) é muito semelhante a Hokhmah bíblica, mas com poderes expandidos, como podemos ver nos versos a seguir:
Ele deu-me o conhecimento de tudo o que existe, para compreender a ordem do mundo e a ação dos elementos, o início, meio e final do tempo, a mudança das estações, os ciclos dos anos e a posição das estrelas, a natureza dos animais, as espécies das plantas, as virtudes das raízes, as forças dos espíritos e o raciocínio dos homens. (Livro de Sabedoria do Salomão, 7:17-20).


Sophia revela-se uma divindade feminina, atributo de sabedoria da natureza acessível às mulheres, que ficou degradada ao tornar-se possessão humana e apenas um veículo para a grandeza masculina e por isso aos poucos desaparecendo. Interpretações posteriores consideram a Sabedoria o Espírito Divino, um atributo radiante e reflexo luminoso de Deus ou o próprio espírito criador, a centelha divina presente nos humanos e em toda a natureza. Ela pode ser vista como criadora por ter feito o mundo e conhecer as suas leis, que partilha com os seres humanos. A atividade mental, a capacidade criativa portanto pertencem também às mulheres, permitindo-lhes assim confiar no seu intelecto e raciocínio lógico. Deus é considerado a fonte do conhecimento, mas cuja origem é a própria sabedoria, contida nas leis naturais e não confinada a um livro bíblico. A sabedoria é definida como: inteligente, sagrada, única, diversa na manifestação, sutil, móvel, clara, pura, singela, bondosa, invulnerável, beneficente, irresistível, perspicaz, humana, firme, segura, livre da ansiedade, poderosa, vê tudo e permeia os espíritos inteligentes, puros e bondosos. Porém, depois dos capítulos iniciais do livro em que se enumeram as vinte e uma qualidades de Sophia, ela passa a ser vista como uma mulher com que os homens desejam se casar e considerá-la uma maneira para aumentar seu próprio poder. A Sabedoria tornou-se assim um objeto a ser possuído pelos sábios, garantindo-lhes poder e vitória sobre os inimigos, sucesso nos negócios e felicidade doméstica, perdendo os seus aspectos universais e sagrados. Especula-se que os capítulos foram escritos por pessoas em épocas diferentes, mas o mistério não foi resolvido.

Reflexos da Hockhma hebraica são encontrados nos hinos órficos, 80 poemas que honravam várias divindades gregas, atribuídos a Orfeu e usados em rituais entre 300 a.C. e 500 d.C. Independentemente dos seus nomes, as deusas honradas eram manifestações da Grande Mãe, o princípio divino feminino universal, existente e manifestado nas leis da natureza, conhecido como Hockhma ou Sofia, a Sabedoria, com os mesmos atributos e qualidades citados nos livros hebraicos. Todavia, a mudança histórica do sagrado feminino para o monoteísmo patriarcal levou aos poucos ao esquecimento e diminuição de status das deusas do Oriente próximo e da Grécia, antes cultuadas e honradas. Expandindo a noção da divindade acima da compreensão humana a Sabedoria perdeu o seu aspecto telúrico, a mulher foi dissociada da imagem da Deusa e passou a ser menosprezada como manifestação do pecado e do mal. Espírito e natureza tornaram-se polaridades opostas e simbolizadas pela Sophia celeste e a Eva terrestre.

Com o advento do cristianismo o arquétipo feminino foi totalmente eliminado da ligação com o divino, a matéria decretada inferior ao espírito, o atributo de sabedoria associado com Jesus e depois transformado na terceira figura da trindade masculina, o Espírito Santo. A conexão entre Sophia, a Mãe Divina e seu filho Cristo é perdida, Jesus nasce como filho de Deus Pai e de Maria (simples mortal) e assume as qualidades de Sophia, a Sabedoria passando a ser atributo masculino. Hockhma hebraica ou Sophia gnóstica são totalmente negadas como aspectos divinos femininos e jamais é feita alguma menção à sua existência prévia nas escrituras cristãs. A Sabedoria é personificada por Jesus como o mediador entre o plano divino e material e cuja missão era salvar as almas e não mais orientá-las para se tornarem “moradas da Sabedoria”. Jesus, apesar da sua associação pelo apóstolo posterior pelo apóstolo Paulo com os atributos e títulos da sabedoria, nunca afirmou ser ele a Sabedoria divina. O enfoque passou a ser a salvação, conseguida ao pertencer ao cristianismo, que privou assim a alma da união mística do criador com a criação, separando os processos físicos, mentais e espirituais e levando ao distanciamento da natureza e à inferiorização da mulher.


As seitas gnósticas que preservaram a associação mítica entre a Deusa e a imagem de Sophia como personificação da sabedoria divina feminina, foram proibidas no ano 326 pelo imperador Constantino. Sophia ou Sapientia (que emerge do mar e de cujos seios jorram o vinho vermelho e branco da iluminação pela união das polaridades) reaparece apenas na Idade Média nas obras de vários filósofos, ordens iniciáticas (Templários, Cátaros, Graal) alquimistas e trovadores. A natureza lunar de Sapientia é representada nas suas duas faces, uma clara, outra escura e que está presente nas figuras das duas Marias, a Mãe (doadora da luz) e a consorte (Madalena que detém o conhecimento da sabedoria oculta). A igreja ortodoxa preservou por um bom tempo o título grego de Sophia como sendo a sabedoria divina (Hagia Sophia) dedicando-lhe inúmeras igrejas, inclusive a basílica bizantina. Santa Sofia foi uma adaptação da Grande Mãe gnóstica simbolizada pela pomba de Afrodite e depois transformada no Espírito Santo.


Por ser a natureza desvalorizada na comparação com a salvação e as mulheres sendo a ela associados, surgiu a doutrina do controle e autoridade masculina, a dominação do mundo material e exploração das mulheres. Esta teoria foi reforçada pela culpa atribuída à mulher pelo pecado original e a origem dos males no mundo.A demonização das mulheres e da natureza enfatizou a supremacia masculina, divina e humana, premissa que incentivou as horrendas e cruéis perseguições da Inquisição na Idade Média.

O que importa para nós mulheres é lembrar que Hagia Sophia é uma energia divina feminina, mediadora entre o céu e a Terra, que detém e compartilha o conhecimento universal do Logos e da sabedoria ancestral. Ela existe em todas nós mulheres e agora chegou a hora de prestar atenção à sua voz e agir de acordo com as leis da natureza, onde é sua morada, buscando inspiração, conhecimento intelectual e sintonia espiritual. Quanto mais conscientes agirmos na nossa vida, mais poderoso e recompensador será o conhecimento que encontraremos, fruto da árvore da sabedoria e verdade. Conscientes do nosso poder e da habilidade de criar, poderemos assumir a nossa condição inata de Filhas de Sophia, sacerdotisas da dança sagrada da vida e da Terra, artesãs dos nossos sonhos e realizações, reconhecendo e honrando a unidade e a interdependência da luz e escuridão, silêncio e palavra, razão e intuição, Espírito e matéria.

http://sitioremanso.multiply.com/journal/item/84
Imagens: Google

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

DEUSAS PRÉ-ISLÂMICAS


Al-Lat


Trata-se duma deusa pré-islâmica da Arábia central e do norte, uma divindade complexa com associações variadas. Representava a Terra e foi considerada como uma Deusa-Mãe. A tradução do seu nome é “deusa”, e acredita-se que tenha sido associada ao Sol.
Al-Lat forma uma tríade com a Al-Uzza e Manat. Alguns dizem que é a versão feminina de Deus, e até é mencionada no Alcorão como sendo uma das três filhas de Deus. Esta deusa mítica de grande antiguidade representava a terra e os seus frutos; Al-Uzza era a Deusa da estrela da manhã, e Manat, a deusa do destino e do tempo.

Ela é a Mãe última da Terra, proporcionando aos Seus filhos do deserto a alimentação necessária. Os seus símbolos são o disco solar embalado pela lua crescente e pedras e cristais em forma de quadrado. O seu número sagrado é o sete.

Juramentos em Meca foram selados com votos pelo sal, pelo fogo, e por Al-Lat, que é a maior de todos. Os Seus seguidores foram mais proeminentes no Ta’if, que fica perto de Meca. Aqui Ela era adorada na forma dum bloco de granito branco, e as mulheres, em particular, faziam um círculo à volta desta pedra em honra da Deusa. Para além do Seu papel de uma Deusa-Mãe, acredita-se que Al-Lat tenha também sido associada ao Sol, à Lua ou ao planeta Vénus.

http://reclaimingthedarkgoddess.blogspot.com/

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

AFRODITE HETERA

Li há dias numa revista cor-de-rosa as declarações da mulher do escritor e apresentador de televisão José Rodrigues dos Santos sobre as condições em que decorre o seu trabalho e o apoio que lhe dá, que tem tudo a ver com o que diz Jean Shinoda Bolen sobre o papel da mulher no trabalho criativo dum homem, a tal "grande mulher" por trás do "grande homem"... Infelizmente, o contrário raramente se verifica...


"PORTADORAS DE VISÕES"

AFRODITE ENQUANTO A HETERA

“Para que um sonho se realize, temos de o ter, de acreditar nele e de trabalhar por ele. Muitas vezes é essencial que outra pessoa significativa acredite que o sonho é possível: essa pessoa é uma portadora de visões, cuja fé é frequentemente crucial. Daniel levinson, em Seasons of a Man’s Life, descreve a função duma “mulher especial” na fase de transição que representa a entrada dum jovem no mundo adulto. Segundo Levinson, uma mulher desse tipo possui uma relação especial com a realização do sonho do jovem. Ajuda-o a moldá-lo e a vivê-lo. Partilha-o, acredita no jovem como o herói do sonho, dá-lhe a sua bênção, junta-se a ele na jornada e proporciona um santuário onde as aspirações dele podem ser imaginadas e as suas esperanças alimentadas.


Essa mulher especial é semelhante à descrição que Toni Wolf faz da “mulher hetera” (do grego antigo hetaira, que quer dizer cortesã, mulher educada, culta e invulgarmente livre para a sua época; em alguns aspectos, assemelhava-se à gueixa japonesa), um tipo de mulher cujas relações com os homens possuem qualidades tanto eróticas como de companheirismo. Pode ser a sua femme inspiratrice ou musa. Segundo Wolf, uma analista jungiana que foi doente de Jung, era sua colega e, segundo alguns, a sua amante também. Pode ter sido a “mulher especial” de Jung, a mulher hetera que inspirou a teoria jungiana.

Por vezes, uma mulher possui o dom de atrair alguns ou muitos homens, que a consideram a mulher especial; é capaz de descobrir o seu potencial, de acreditar nos seus sonhos e de os inspirar. Lou Salomé Andreas, por exemplo, foi a mulher especial, a musa, a colega e a companheira de muitos homens famosos e criativos como Rilke, Nietzsche e Freud.

Tanto as mulheres como os homens precisam de ser capazes de imaginar que o seu sonho é possível e de ter outra pessoa que olhe para elas/es e para o seu sonho com a consciência de Afrodite, estimuladora do desenvolvimento. Especula-se acerca das razões que levam à existência dum número tão reduzido de mulheres artistas, líderes, maestras ou filósofas: talvez as mulheres não tenham portadores do sonho. As mulheres têm alimentado o sonho dos homens, ao passo que os homens, em geral, não têm alimentado muito bem o sonho das mulheres da sua vida.”
Jean Shinoda Bolen, AS DEUSAS EM CADA MULHER
Imagem: Laurie Blank