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quarta-feira, 22 de maio de 2013

DEUSAS SOLARES



Embora a iconografia ocidental considere geralmente o sol como sendo do género masculino e a lua do género feminino, a antiga tradição oriental fala do sol no feminino. Os clãs que governavam o antigo Japão situam a sua origem na poderosa Deusa Solar, Omikami Amaterasu. Em 238 AD, as tribos japonesas eram governadas por uma rainha chamada Himiko, Filha do Sol.

A Grande Mãe hindu tomou a forma do sol enquanto deusa Aditi, mãe das doze Adityas zodiacais, espíritos cuja luz era revelada no dia do Juízo Final. No Mahanirvanatantra é dito que o sol era a indumentária da Grande Deusa: “O sol, o símbolo mais glorioso no mundo  físico, é a indumentária daquela que está “vestida com o sol”. A mesma deusa, identificada com Maria, aparece nos Evangelhos como a “mulher vestida de sol” (Revelação 12:1).

O Budismo Tântrico reconheceu um precursor da Mari do Oriente Médio, ou Maria, como o sol. Na aurora, os seus monges agradecem-lhe enquanto “a gloriosa, o sol da felicidade… Eu saúdo-te, ó Deusa Marici! Abençoa-me e satisfaz os meus desejos. Protege-me, ó Deusa, de todos os oito medos”.

Quando os japoneses reviram a sua mitologia para adaptá-la às novas ideias patriarcais, a Deusa Marici foi masculinizada e o facto dela ter sido um dia identificada com Omikami Amaterasu foi esquecido. Havia no entanto uma estranha ambivalência envolvendo o “poderoso deus” chamado Marici-deva ou Marici-ten. “Ele” era chamado protetor do sol, aparecendo no entanto sempre vestido com a indumentária duma mulher chinesa, indicando uma origem feminina com raízes a leste do Japão.

Entre os antigos árabes, o sol era uma Deusa, Atthar, por vezes apelidada de Archote dos Deuses.

Os celtas tinham uma Deusa Sol chamada Sulis, nome que vem de suil, que significa ao mesmo tempo “olho” e “sol”. Os povos germânicos chamavam-lhe Sunna. Para os noruegueses, ela era Sol. Na Escandinávia, era igualmente conhecida como “Glória-dos-Elfos”, a Deusa que daria à luz uma filha depois do juízo final, produzindo assim o sol da nova criação. Nos Eddas diz-se “uma filha radiante a brilhante sol conceberá antes de ser engolida por Fenrir; e a donzela trilhará o caminho de sua mãe quando os deuses consumarem a sua própria desgraça”.

A Deusa Sol Sul, Sol, ou Sulis era cultuada na Britânia na famosa colina artificial do complexo megalítico de Avebury, conhecido atualmente como Silbury Hill. Aí ela pariu cada novo Éon, que saiu do seu útero-túmulo, com mais de 130 pés de altura e mais de 500 de diâmetro. “A influência da deusa britânica Sul estendeu-se a grande parte do sudoeste de Inglaterra, e o seu culto parece ter tido praticado no alto de montes com vista para nascentes. Assim, perto da  nascente de Bath temos o monte isolado chamado Solsbury, ou Salisbury, provavelmente o seu lugar de culto”. Em Bath, os romanos identificaram Sul com Minerva e erigiram-lhe altares designando-a por Sul Minerva”.

Barbara Walker, The Woman’s Encyclopedia of Myths and Secrets, HarperSan Francisco, 1983

sexta-feira, 10 de maio de 2013

DEUSAS SOLARES - CAÍDAS E REMETIDAS PARA A NOITE



“(…) a Artemis grega, divindade solar na origem dos tempos,  que perdeu este aspeto e esta função a favor dum deus masculino. Podemos de resto ver como é que esse processo se desenrolou no mundo helénico e relacioná-lo com a tradição celta. Com efeito, primitivamente, Artemis identificava-se com sua mãe, Leto (ou Latona), tal como Core-Perséfone era a dupla da mãe Deméter: ela representava o Sol jovem, o Sol levante, por oposição a Leto que personificava o velho Sol, o Sol poente (tal como Core era a jovem filha, ou seja, a Terra jovem, face a Deméter, a velha Terra, o conhecido mito da renovação).

A partir do momento em que as divindades femininas foram masculinizadas, e também porque era impossível esquecer completamente o seu aspeto feminino, conservou-se a personagem de Artemis, apondo-se-lhe no entanto um paredro macho, o seu irmão Apolo, o qual monopolizou o aspeto solar, ao mesmo tempo que Artemis era remetida para a noite transformando-se em Deusa-Lua.

O mesmo aconteceu no Egipto onde Osiris tomou o lugar de Isis como Sol poente enquanto Hórus se tornava o Sol levante.

Sabemos que primitivamente a Lua era masculina e o Sol feminino, ainda assim é nas línguas semitas, germânicas e celtas e também nas tradições populares (onde se diz que “a Lua engravida as mulheres”).
Houve por conseguinte uma grande reviravolta no simbolismo mítico e religioso: a deusa-mãe Sol, Leto, foi substituída pelo seu filho e pela sua filha, macho e fêmea, e sabemos que Juno-Hera tudo fez para que essas crianças, fruto do adultério de Zeus (e portanto das prerrogativas paternalistas) não nascessem, o que significa que Hera, mulher divina, recusou admitir a mudança de orientação da sociedade, da ginecocracia para o paternalismo”.

Jean Markale, La Femme Celte, Payot (tradução Luiza Frazão)