Conteúdos

Mostrar mensagens com a etiqueta Livros indispensáveis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros indispensáveis. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 14 de abril de 2015

A GRANDE MÃE CÓSMICA

De 1975... mas nunca publicado em Portugal - uma das bíblias do Movimento da Deusa…

THE GREAT COSMIC MOTHER, Rediscovering the Religion of the Earth
(Data da 1.ª edição: Dezembro de 1975)
Monica Sjöö & Barbara Mor

O Primeiro Sexo: “No princípio tod@s fomos criad@s fêmeas”

No princípio era… um oceano feminino. Durante 2 billiões e meio de anos, todas as formas de vida terrestres flutuavam numa espécie de grande útero oceânico, alimentadas e protegidas pelos seus fluidos químicos, embaladas pelo ritmo lunar das marés. Charles Darwin acreditava que o ciclo menstrual teve aqui a sua origem, um eco orgânico do pulsar do oceano ao ritmo da lua. E, por causa deste longo período em que a vida na terra foi dominada por formas marinhas reproduzindo-se por partenogénese, ele concluiu que o princípio feminino é primordial. No princípio, a vida não foi gestada no interior do corpo de nenhuma criatura, mas sim dentro do útero oceânico que continha toda a vida orgânica. Não havia órgãos sexuais diferenciados, mas tão-somente uma existência feminina generalizada que se reproduzia a si mesma dentro do corpo feminino do mar*.

Antes que formas de vida mais complexas se pudessem desenvolver e viver em terra firme, foi necessário minimizar o ambiente oceânico, reproduzi-lo numa escala ínfima e móbil. Ovos frágeis e húmidos depositados na terra seca e expostos aos elementos não poderiam sobreviver, a vida não poderia mover-se para lá do aquoso estádio anfibiano. No decurso da evolução, o oceano – o espaço protetor e nutridor, os fluidos amnióticos, e até o ritmo lunar das marés – foi transferido para o interior do corpo da fêmea. O pénis, um dispositivo mecânico para a reprodução em ambiente terrestre, começou então a desenvolver-se.

O pénis surge primeiro na Idade dos Répteis, há cerca de 200 milhões de anos. A associação arquetípica entre o pénis e a serpente contém sem dúvida essa memória genética.

Este recurso fundamental ocorre com frequência na natureza: a vida é um ambiente feminino onde o macho aparece, muitas vezes periodicamente, criado pela fêmea, para realizar tarefas altamente especializadas relacionadas com a reprodução da espécie no sentido duma evolução mais complexa. Daphnia, um crustáceo de água doce, produz várias gerações de fêmeas por partenogénese: ela gera o ovo e a sua polaridade masculina para produzir um complexo de genes de onde resulta uma cria fêmea. Uma vez por ano, no final do ciclo anual, um grupo de machos de curta duração são produzidos; os machos especializam-se na manufatura de cascas de ovos com a resistência do couro capazes de sobreviver ao inverno. Entre as abelhas, os zangãos são produzidos e regulados pelas crias fêmeas estéreis da rainha fértil. Os zangãos existem para acasalar com a rainha. Uma média de sete zangãos por enxame cumpre esse acto em cada estação, após o que todo o grupo de machos é dizimado pelas abelhas operárias. Na América do Sudoeste, quatro espécies de lagartos reproduzem-se por partenogénese; aí os machos são muitos raros nas pradarias e planaltos.

Entre os mamíferos e mesmo na espécie humana, a partenogénese não é tecnicamente impossível. Cada óvulo feminino contém uma polaridade masculina com um conjunto completo de cromossomas; quando unificados, poderiam criar um embrião do género feminino. Os quistos nos ovários são óvulos não fertilizados que se unem à sua polaridade masculina, implantando-se nas paredes dos ovários onde se começam a desenvolver.

Não quer isto dizer que o macho seja dispensável. A partenogénese é um processo de clonagem. A reprodução sexual, que faz aumentar a variedade e a saúde do conjunto dos genes, é necessária para o tipo de evolução complexa que produziu a espécie humana. O ponto aqui é apenas demonstrar que no que se refere aos dois sexos, um deles anda por cá há muito mais tempo do que o outro.

*The First Sex: “In the Beginning We Were all Created Female”

Helen Diner, Mothers and Amazons (Nova Iorque: Doubleday/Anchor, 1973), 74. Diner refere-se à obra de Charles Darwin Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, volume 1 (Nova Iorque: J. A. Hill and Co., 1904), 164-68; Darwin acreditava que ambos os sexos, eram maternos na origem e que a próstata dos homens seria um útero rudimentar. 

domingo, 20 de abril de 2014

DON JUAN e a Motivação de Poder


“De particular relevância é o trabalho muito mais recente do psicólogo David Winter. Tal como outr@s académic@s modern@s de nomeada, Winter tem vindo a estudar aquilo que no livro do mesmo nome designa de “motivação de poder”. Como psicólogo social, dedicou-se à descoberta de padrões históricos através de medições objectivas. E embora uma vez mais convenha olhar para além daquilo que Winter sublinhou, a partir da perspectiva psicológica convencional centrada no masculino, as suas descobertas documentam decisivamente que atitudes mais repressivas para com as mulheres prenunciam períodos de belicismo agressivo.

Centrando-se numa das figuras românticas mais famosas da literatura e da ópera, o impetuoso sedutor Don Juan, a análise sociopsicológica de Winter baseia-se largamente no estudo da frequência de certos temas em documentos literários. Winter observa que, apesar da obrigatória condenação das acções de Don Juan como “perversas” e “malditas”, ele é de facto idealizado como “o maior sedutor de Espanha”. Assinala também que os motivos subjacentes de Don Juan são a agressão, o ódio e o desejo de humilhar e punir as mulheres – não os impulsos sexuais. Nota ainda algo de profunda importância psicológica e histórica: as atitudes extremamente hostis para com as mulheres são características de épocas em que as mulheres sofrem a máxima repressão por parte dos homens. 

O caso clássico relevante que cita é o da Espanha onde emergiu a lenda de Don Juan, quando os espanhóis das classes superiores haviam adoptado o “costume mourisco de manter as mulheres em isolamento”. A razão psicológica por detrás desta hostilidade acrescida, explica Winter, é o relacionamento mãe-filho tornar-se particularmente tenso em períodos assim – a par da generalidade das relações feminino-masculino.

Contextualmente, torna-se evidente que a “motivação de poder” de Winter é, na nossa terminologia, a pulsão androcrática para conquistar e dominar outros seres humanos. Tendo estabelecido ser o rebaixamento das mulheres por parte de Don Juan uma manifestação desta “motivação de poder”, Winter tabula então a frequência das histórias sobre Don Juan na literatura de uma nação relativamente aos períodos de expansão imperial e de guerra. O que documentam as suas descobertas é aquilo que nós prediríamos socorrendo-nos do modelo de alternância gilânico-androcrático: historicamente, as estórias do mais famoso arquétipo de dominação masculina sobre as mulheres aumentam de frequência antes e durante os períodos de militarismo e imperialismo exacerbados.”


in O Cálice e a Espada, Riane Eisler, Via Óptima
    

terça-feira, 19 de novembro de 2013

REIS DA CRIAÇÃO POR DIREITO DIVINO

Encontrei há pouco uma foto do Ernest Hemingway e da modelo Jean Petchett e achei-a perfeita para ilustrar este excerto do Segundo Sexo, ou talvez até o livro inteiro... 

"Em toda parte e em qualquer época, os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentirem os reis da criação. "Bendito seja Deus nosso Senhor e o Senhor de todos os mundos por não me ter feito
mulher", dizem os judeus nas suas preces matinais, enquanto as suas esposas murmuram com resignação: "Bendito seja o Senhor que me criou segundo a sua vontade". Entre as mercês que
Platão agradecia aos deuses, a maior se lhe afigurava o fato de ter sido criado livre e não escravo e, a seguir, o de ser homem e não mulher. Mas os homens não poderiam gozar plenamente esse privilégio, se não o houvessem considerado alicerçado no
absoluto e na eternidade: de sua supremacia procuraram fazer um direito. "Os que fizeram e compilaram as leis, por serem homens, favoreceram seu próprio sexo, e os jurisconsultos transformaram
as leis em princípios", diz ainda Poulain de Ia Barre.

Legisladores, sacerdotes, filósofos, escritores e sábios empenharam- se em demonstrar que a condição subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa à terra. As religiões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a

teologia a serviço de seus desígnios, como vimos pelas frases citadas de Aristóteles e São Tomás."

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo

domingo, 10 de novembro de 2013

A ÉPOCA PAGÃ NÃO FOI UMA ÉPOCA DE CAOS E DE TREVAS, COMO HABITUALMENTE SE SUPÕE


Por que é que continuamente se infere que a época pagã, o tempo em que eram cultuadas divindades femininas (quando esse tempo é mencionado), é como uma época de trevas, de caos, de mistério e de mal, sem a luz da ordem e sem a razão que supostamente foram depois trazidas pelas religiões masculinas? As pesquisas arqueológicas entretanto confirmam que as primeiras leis, formas de governação, medicina, agricultura, arquitectura, metalurgia, veículos de rodas, cerâmica, têxteis e escrita foram inicialmente desenvolvidas em sociedades que seguiam a religião da Deusa. E finalmente acabamos por nos questionar sobre as razões para a falta de informação facilmente acessível sobre sociedades que, durante milhares de anos, cultuaram a antiga Criadora do Universo. 

Apesar dos muitos obstáculos, consegui reunir a informação existente e comecei a relacionar entre si o que tinha recolhido. À medida que fui investigando, a importância, a longevidade e a complexidade desta religião antiga começou a tomar forma diante de mim. Muitas vezes havia apenas a referência à Deusa, um pedaço de lenda, uma referência obscura ao longo das 400 ou 500 páginas de erudição académica. Um templo abandonado em Creta ou uma estátua no museu de Istambul com escassa informação a acompanhá-la começaram entretanto a encontrar o seu lugar próprio num cenário mais vasto.


Merlin Stone, When God Was a Woman, traduzido por Luiza Frazão

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A DEUSA NEGRA - A SOMBRA FEMININA

“Não basta dizermos que é preciso uma nova relação com o feminino. Aquilo de que precisamos mesmo é de nos relacionar com o lado negro do feminino.Fred Gustafson, The Black Madonna (Boston, Sigo Press, 1990)

Nas sociedades tradicionais que reverenciavam a lua como Deusa, a 3.ª fase negra era personificada pela Deusa Negra, sábia e compassiva, que governava os mistérios da morte, transformação e renascimento. Com o tempo, sucessivas culturas foram gradualmente esquecendo o antigo culto da lua, e o antigo conhecimento da ciclicidade da realidade, reflectida nas suas fases perdeu-se.

Na nossa sociedade actual a maior parte de nós desconhece o potencial de cura e de renovação que existe como qualidade intrínseca do processo cíclico da fase escura da lua. Em vez disso, associamos a ideia de escuridão à da morte, do mal, da destruição, isolamento e perda. Numa sociedade governada pela clara consciência solar, fomos ensinad@s a temer, rejeitar, desvalorizar e desempoderar tudo quanto se relaciona com os conceitos de escuridão – pessoas de cor, mulheres, sexualidade, menstruação, natureza, o oculto, o paganismo, a noite, o inconsciente, o irracional e a própria morte. Do ponto de vista mítico, associamos todos estes medos da escuridão à imagem do feminino demoníaco conhecido como a Deusa Negra, intimamente relacionada com a lua negra.

Ao longo da história, o poder original da Deusa Negra enquanto renovadora foi esquecido e ela tornou-se assustadora e destruidora. Em muitas mitologias do mundo, ela foi descrita como a Tentadora, a Mãe Terrível, a Anciã que traz a morte. As suas biografias mais tardias descrevem-na como negra, malvada, venenosa, demoníaca, terrível, malevolente, fogosa. À medida que a cultura patriarcal se tornou dominante, ela foi-se transformando num símbolo da devoradora sexualidade feminina que faz com que o homem transgrida as suas convicções morais e religiosas, consumindo-lhe a essência vital no seu abraço mortífero.
Na imaginação mítica das culturas dominadas pelo homem, a sua natureza original foi distorcida e ela tomou proporções horríficas. Enquanto Kali, ela surge nos crematórios adornada com uma grinalda de caveiras, empunhando a cabeça cortada do seu companheiro, Shiva, escorrendo sangue. Enquanto Lilith, ela voa pelos céus nocturnos como uma demoníaca criatura que seduz os homens e mata criancinhas. Enquanto Medusa, a sua bela e abundante cabeleira tornou-se uma coroa de serpentes sibilantes e o seu olhar feroz transforma os homens em pedra. Enquanto Hécate, ela persegue os homens nas encruzilhadas pela noite com os seus ferozes cães do inferno.



Podemos perguntar-nos por que razão a Deusa Negra apresenta uma imagem tão terrífica e de que modo ela e a sua contraparte psicológica, o feminino negro, ameaçam a nossa sociedade e criam destruição nas nossas vidas. E ainda como é que o seu poder destruidor se relaciona com as suas qualidades de cura que permitem a renovação. De que formas a Deusa Negra representa o nosso medo do escuro, do oculto, da morte, da mudança; o nosso medo do sexo, bem como o do confronto com o nosso ser e essencialmente com a nossa essência e a nossa própria interpretação da verdade. As respostas para estas questões podem encontrar-se na transição de uma cultura matriarcal para uma cultura patriarcal que ocorreu há 5 mil anos. As pesquisas actuais sobre a história antiga, nos domínios da teologia, da arqueologia, da história da arte e da mitologia, estão a trazer à evidência que, com início há 3 mil anos AC, ocorreu uma transformação nas estruturas religiosas e políticas que governavam a humanidade. Sociedades matriarcais que cultuavam as Deusas da terra e da lua, como Innana, Ishtar, Ísis, Deméter e Artemis, deram lugar a sociedades patriarcais, seguidoras do deus solar e dos heróis masculinos, como Gilgamesh, Amon Ra, Zeus, Yahweh e Apolo.

 Antes disso, uma conexão entre a morte e o renascimento estava implícita na cíclica renovação da Deusa Lua, cultuada pelos povos antigos. A Deusa ensinava que a morte mais não é do que a precursora do renascimento e que o sexo não serve apenas para a procriação, serve também para o êxtase, a cura, a regeneração e a iluminação espiritual. Quando a humanidade adoptou o culto dos deuses solares, os símbolos da Deusa começaram a desaparecer da cultura e os seus ensinamentos foram esquecidos, distorcidos e reprimidos.

Académic@s contemporâne@s começam a descobrir evidências de como o culto da Deusa foi suprimido, os seus templos e artefactos destruídos, os seus e as suas seguidr@s perseguid@s e assassinad@s e a sua realidade negada. O novo sistema de crenças das tribos dos conquistadores solares patriarcais renegaram a renovação cíclica, negando assim o ciclo natural do nascimento, morte e regeneração da Deusa Lua, o terceiro aspecto da Deusa Tripla. A Deusa Tripla da Lua, na sua fase nova, cheia e escura, era o modelo da natureza feminina enquanto Donzela, Mãe e Anciã. No seu culto original da Deusa Negra, como o terceiro aspecto desta trilogia lunar, ela era honrada, amada e aceite pela sua sabedoria, pelo seu conhecimento dos mistérios da renovação.
Durante a prevalência da cultura patriarcal, entretanto, ela e os seus ensinamentos foram banidos e remetidos para os recantos escondidos do nosso inconsciente.
(…)
Com a diminuição da luz da lua, ela transforma-se na Anciã Negra na lua escura minguante que recebe @ mort@ e @ prepara para o renascimento. Na sua sabedoria que deriva da experiência, ela relaciona-se com a estação do inverno e o mundo subterrâneo. Enraizada na sua força interior, a Deusa da Lua Negra está repleta de compaixão e de compreensão da fragilidade da natureza humana e o seu conselho é sábio e justo.
Ela governa as artes da magia, o conhecimento secreto, os oráculos. A Anciã da Lua Negra era artisticamente representada como a terrível face da Deusa que devora a vida, e algumas imagens representam a sua vulva como símbolo da subsequente renovação. Rainhas da magia e do submundo, como Hécate, Kali, Eresh-Kigal, são símbolos da fase minguante da Deusa da Lua Negra.
(…)
Os povos antigos sabiam que, tal como ela morria todos os meses com a velha Lua Negra, também renasceria na Lua Nova crescente. Era a Anciã da Lua Negra que tomava a vida no seu útero; mas @s antig@s também sabiam que a Deusa Virgem da Lua Nova daria à luz a nova vida. A anciã era a doadora da morte assim como a virgem era a que trazia o renascimento. A reencarnação era representada pela refertilização da anciã-tonada-virgem. A interacção contínua entre a destruição que se transformava em nova criação é a eterna dança que sustém o cosmos.

A Deusa Negra eliminava e consumia aquilo que estava velho, degradado, desvitalizado e sem préstimo. Tudo isso era transformado no seu caldeirão e oferecido depois como elixir. Como podemos ver nos seus antigos rituais sagrados, as antigas religiões partilhavam o conceito dum submundo para onde a Deusa Negra conduzia a alma através dos negros espaços do sem forma, onde ela exercia os seus secretos poderes de regeneração.

A palavra inglesa “hell” vem do nome da terra subterrânea da Deusa escandinava Hel. O seu subterrâneo não era entretanto um lugar de punição, mas antes o escuro útero, simbolizado pela cave, o caldeirão, o fosso, a cova, o poço. A Deusa Negra não era temida e o seu espaço não era um lugar de tortura. Ela guardava os seus e as suas iniciad@s nos cemitérios, a entrada do seu templo. Através da morte o indivíduo entra no ciclo da fase escura da lua; aí encontra a Deusa Negra que o conduz através da passagem intermédia de volta à vida.

Quando este natural desfecho do tempo de vida era compreendido e aceite, a Deusa Negra era honrada pela sua sabedoria e amada pela sua ilimitada aceitação e compaixão para com os habitantes da terra. Ela não era temida pelos povos que cultuavam a lua, que entendiam a morte como um hiato no tempo entre vidas.

MYSTERIES OF THE DARK MOON – The Healing Power of the Dark Goddess, Demetra George, HarperSanFrancisco, 1992

Traduzido por Luiza Frazão

Imagens: Caroline Hillyer

     


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

De Santa a Rameira - a visão patriarcal da antiga religião da Deusa

De Santa (qadesh) a Rameira (Harlot)

Lendo Merlin Stone, a famosa autora de When God Was a Woman (Quando Deus era Mulher)... A obra que tenho em mãos é The Paradise Papers  - The Suppression of Women’s Rites (Os papéis do Paraíso- a Supressão dos Ritos Femininos). Como se diz na capa, um “clássico feminista”…

Merlin Stone revela aqui o que encontramos quando um novo olhar, um olhar feminino, ou feminista, é lançado sobre documentos antigos. Um crivo de preconceitos patriarcais é usado pelos arqueólogos académicos, segundo aqui se demonstra, para interpretarem dados do passado… muito interessante e revelador.

Fica aqui uma amostra:

“Na maior parte dos textos arqueológicos, a religião centrada numa divindade feminina é referida como um simples “culto de fertilidade”, parecendo tal classificação revelar atitudes em relação à sexualidade que decorrem da influência da visão das religiões contemporâneas professadas pelos próprios autores. No entanto a evidência arqueológica e mitológica da veneração duma divindade feminina enquanto criadora, legisladora, inventora, profetiza, com influência no destino humano, inventora, curadora, caçadora e líder imponente no campo de batalha sugere que a designação “culto de fertilidade” não passa duma simplificação grosseira duma complexa estrutura teológica.
(…)
Nas suas descrições de cidades e de templos há muito soterrados, os académicos homens escreveram sobre a sexualidade activa da Deusa como sendo “indecente”, “intoleravelmente agressiva” “embaraçosamente vazia de moral”, enquanto as divindades masculinas que seduziam e violavam ninfas ou mulheres míticas, são descritas como “brincalhonas” ou até admiravelmente “viris”. A evidente natureza sexual da Deusa, justaposta à Sua sagrada divindade confundiu de tal forma um académico que este acabou por decidir-se pelo desconcertante epíteto de Virgem-Rameira. As mulheres que seguiam os antigos hábitos sexuais do culto da Deusa, designadas na sua própria língua como sagradas ou santas mulheres, foram repetidamente classificadas como “prostitutas ritualísticas”. Esta selecção de palavras é reveladora uma vez mais duma ética etnocêntrica provavelmente baseada em atitudes bíblicas. Acrescente-se ainda que usar o termo “prostituta” para designar mulheres cujo título era na verdade qadesh, que significava santa, revela uma enorme falta de compreensão da verdadeira estrutura social e teológica que estes autores estão a tentar descrever.

As descrições da divindade feminina como criadora do universo, inventora, dispensadora de cultura, são feitas habitualmente em uma ou duas linhas se tanto; os académicos rapidamente passam por cima destes aspectos da divindade feminina que segundo eles não merecem sequer discussão.
Apesar do facto de o título da Deusa em muitos documentos históricos do Médio Oriente ser Rainha dos Céus, alguns autores apenas parecem dispostos a conhecê-la como Mãe Terra…


A divindade feminina, venerada como guerreira ou caçadora, lutadora corajosa ou ágil atiradora, foi por vezes descrita como possuindo curiosos “atributos masculinos”, implicando isso que a Sua força e valor a tornavam uma espécie de aberração, ou alguém psicologicamente anormal. O professor de Arqueologia Pré-histórica J. Maringer rejeita a ideia de que os crânios de rena fossem troféus de caça duma tribo paleolítica. A razão? Foram encontrados no túmulo duma mulher. Escreve ele: “Aqui o esqueleto era o de uma mulher, uma circunstância que parece descartar a hipótese dos crânios e hastes de rena serem troféus de caça”. Estarão estes autores a julgar a natureza física intrínseca da mulher pelos modernos ideais de esbelteza e fragilidade?”

Merlin Stone, The Paradise Papers (tradução de Luiza Frazão)  

Imagem do centro: Deusa Tanit

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A ECONOMIA DA DÁDIVA


Nos mails desta manhã, chega-me um texto da Carol Christ sobre a Economia da Dádiva, inspirando-se no exemplo da sociedade cretense atual com que convive nas suas frequentes deslocações com grupos de mulheres àquela ilha grega. Carol lembra-nos ainda o trabalho da ativista Genevieve Vaughan sobre este modelo económico com provas dadas durante milénios (de outro modo não estaríamos hoje aqui), que surge como uma solução para substituir o modelo económico capitalista patriarcal vigente com o qual muito dificilmente nos vamos safar, nós e o planeta…  

Poucas coisas me dão tanto prazer como o verdadeiro Potlatch de algumas segundas-feiras de mercado com a G, a minha prima L e por vezes a minha irmã… é porque naquele ambiente nós ainda comungamos completamente desse espírito tribal muito familiar e muito antigo, dessa segurança primordial em que nos permitimos relaxar no grande colo coletivo, sabendo que ali a nossa luta solitária e frenética pela sobrevivência encontra um autêntico momento de repouso…



O livro editado pela Genevieve Vaughan é este:

WOMEN AND THE GIFT ECONOMY
 A Radically Different Worldview is Possible
edited by Genevieve Vaughan
















Na Wikipedia encontrei isto na entrada “Economia do Dom”, gosto mais de “Economia da Dádiva”.
Por aqui ainda existem muitos resquícios deste tipo de economia, sobretudo nos meios rurais, onde as bênçãos duma horta são normalmente repartidas por familiares, amigos e vizinhos e outros bens são generosamente partilhados. Quando nos tornámos “ricos” ficámos muito mais egoístas e pobres de coração… acho.

Economia do Dom

"Em Ciências Sociais, economia do dom, economia da doação ou economia da dádiva ou ainda cultura da dádiva é uma forma de organização social na qual os membros fazem doações de bens e serviços valiosos, uns aos outros, sem que haja, formal ou explicitamente, expectativa de reciprocidade imediata ou futura, como no escambo ou num mercado. Todavia, a obrigação de reciprocidade existe, não necessariamente envolvendo as mesmas pessoas, mas como uma corrente contínua de doações.
A economia do dom é uma forma económica baseada sobre o valor de uso dos objetos ou ações. Contrapõe-se portanto à economia de mercado, que se baseia no valor de troca de bens e serviços. A doação é na realidade uma troca recíproca com algumas características definidas por convenções e não por regras escritas: a obrigação de dar, a obrigação de receber, a obrigação de restituir mais do que se recebe.
A economia de dom caracteriza as chamadas economias primitivas. Autossuficientes, elas podem realizar a troca do excedente produzido pelos poucos bens que não conseguem produzir.
Um típico exemplo de economia de dom é a prática do Potlatch dos indígenas americanos, como a economia dos iroqueses ou da Kula, a cerimónia dos habitantes das ilhas Trobriand. (...)"



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Faleceu Patricia Monaghan

Faleceu no último dia 10, aos 66 anos, Patricia Monaghan, poeta e feminista, autora entre outros títulos de O Caminho da Deusa, editado em Portugal pela Europa-América, livro que forneceu inspiração a muitas de nós, nomeadamente a mim no meu trabalho com os arquétipos do Feminino.

Patricia Monaghan Ph.D. publicou mais de 15 títulos, incluindo um sobre vinhos, matéria em que era perita, e os 2 volumes da Enciclopédia das Deusas e Heroínas. Foi uma das fundadoras do Black Earth Institut, no Wisconsin, onde vivia, apesar de também ter a nacionalidade irlandesa.

Considerada por muit@s uma verdadeira força da natureza, que entre outras atividades também se dedicava à agricultura biológica, Patricia Monaghan foi uma das primeiras autoras através das quais aprendi antigos rituais da religião da Deusa. Onde quer que estejas, irmã, a minha profunda gratidão pela tua força, inspiração e generosidade. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

CRISE NO PATRIARCADO



A estrutura caractereológica do homem atual (que vem perpetuando uma cultura patriarcal e autoritária desde há entre 4 a 6 mil anos) caracteriza-se por um encouraçamento contra a natureza dentro de si mesmo e contra a m
iséria social que o rodeia. Este encouraçamento do carácter está na base da solidão, do desamparo, do insaciável desejo de autoridade, do medo, da angústia mística, da miséria sexual, da rebelião impotente, assim como duma resignação artificial e patológica. Os seres humanos adotaram uma atitude hostil àquilo que dentro deles mesmos está vivo, mas de que se afastaram. A origem desta alienação não é biológica, mas social e económica e não é detetável na história humana antes do surgimento da ordem social patriarcal.

WILHEM REICH
La Función del Orgasmo
citado por Cacilda Rodrigañez Bustos, em El Assalto al Hades


Imagem:  René Magritte

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

FILHAS DO PATRIARCADO


“É precisamente na mulher que tem uma relação pobre com a mãe que o arquétipo do si mesmo primeiro se constela, naquela que tende a buscar a sua plenitude através do pai ou do homem amado. […] Uma mulher expressou isso quase como um manifesto no começo da análise:
“Eu insisto em ter o carinho dum homem. Qualquer fonte feminina me enfurece. O homem é responsável pelo universo. As mulheres  não passam dum segundo lugar. Odeio túneis, Kali, minha mãe e este corpo de mulher. O que eu quero é um homem.”

O problema é que nós, mulheres muito feridas na relação com o feminino, quase sempre temos uma persona muito eficiente, uma boa imagem pública. Crescemos como filhas dóceis do patriarcado, frequentemente intelectuais e dotadas daquilo que denominarei “egos-animus”. Lutamos por defender as virtudes e ideais estéticos a nós apresentados pelo superego patriarcal. Mas enchemo-nos de autorrejeição e de uma sensação de profunda feiura e fracasso quando não conseguimos satisfazer nem aliviar as exigências de perfeição do superego.

Uma mulher com mais de dez anos de análise junguiana disse-me: “Passei anos tentando relativizar uma coisa que nunca tive: um ego verdadeiro”. Realmente, ela tem apenas um ego-animus, e não um que seja verdadeiramente seu para se relacionar com o inconsciente e com o mundo exterior. A sua identidade baseia-se em adaptações da persona àquilo que o animus lhe diz que deve ser feito; assim, ela a um só tempo, adapta-se às projeções que lhe impingem e revolta-se contra elas. 

Consequentemente, essa mulher quase não tem o sentido do seu núcleo pessoal de identidade, do valor e do ponto de vista femininos. Isto acontece por se terem valorizado, em relação às mulheres ocidentais, virtudes que frequentemente apenas se definem pela sua relação com o masculino: a mãe e esposa fecunda e bondosa; a filha agradável, dócil e delicada; a companheira diligente, discretamente encorajadora ou brilhante.

Como tantas escritoras feministas declararam pelos tempos afora, esse modelo coletivo e o comportamento daí resultante é inadequado para a vida; nós mutilamo-nos, enfraquecemo-nos, silenciamo-nos e enfurecemo-nos, tentando comprimir os nossos espíritos dentro dele, na certa exatamente como as nossas avós deformaram os seus corpos sensíveis dentro de espartilhos, por causa dum ideal.”

Sylvia Brinton Perera, Caminho para a Iniciação Feminina, Edições Paulinas, São Paulo, 1985 (adaptado)

Imagem: Liv Tyler em "O Senhor dos Anéis" (clique sobre a imagem para uma definição de consceitos junguianos como "anima" e "animus")


quarta-feira, 25 de abril de 2012

A LINGUAGEM DA DEUSA



“A minha tese é que a linguagem do mito poético, corrente na Antiguidade na Europa mediterrânica e setentrional, era uma linguagem mágica vinculada a cerimónias
religiosas populares em honra da deusa da Lua, ou Musa, algumas das quais datam da época paleolítica, e que esta continua a ser a linguagem da verdadeira poesia, «verdadeira» no moderno sentido nostálgico de  «o original inmelhorável e não um substituto sintético”. Essa linguagem foi corrompida no final do período minoico quando invasores procedentes da Ásia Central começaram a substituir las instituições
matrilineares pelas patrilineares e remodelaram ou falsificaram os mitos para justificar as mudanças sociais. 

Em seguida vieram os primeiros filósofos gregos, que se opunham firmemente à poesia mágica porque ameaçava a sua nova religião da lógica, e sob a sua influência criou-se uma linguagem poética racional (a que agora se chama clássica) em honra do seu patrono Apolo, e impuseram-na ao mundo como a última palavra em iluminação espiritual: opinião que predominou praticamente desde então nas escolas e universidades europeias, onde agora se estudam os mitos unicamente como relíquias arcaicas da era infantil da humanidade. 

Uma das repudiações mais intransigentes da mitologia grega primitiva foi feita por Sócrates. Os mitos assustavam-no e desagradavam-lhe; preferia voltar-lhes as costas e
disciplinar a sua inteligência para pensar cientificamente: «para investigar a razão da existência de tudo, de tudo tal como é, não como parece, e para refutar todas as
opiniões que não se podem explicar».

Robert Graves, A Deusa Branca (traduzido por mim da versão espanhola)

 A DEUSA BRANCA (SINOPSE)

Ao defender suas ideias, Graves empreendeu esta obra singular que constitui uma gramática histórica do mito poético. O escritor argentino Jorge Luis Borges sempre consultava A Deusa Branca, que foi publicado pela primeira vez em 1948. Trata-se de um texto fundamental para a teoria da literatura, mas igualmente importante para a história das religiões, bem como para toda a pessoa que quiser reconsiderar as suas certezas mitológicas ocidentais, cristãs ou não, à luz de uma reflexão erudita e independente. 

Com efeito, é também indispensável para aquel@s que se interessam pelo renascimento da religião da Deusa, por Wicca, por esoterismo e por simbolismo. O autor age como um arqueólogo de crenças e restaura os rudimentos perdidos e os princípios ativos da magia que governa os poetas.

 A sua argumentação parte de um acurado exame de dois poemas galeses do século XIII, nos quais ele encontra as chaves, genialmente ocultas, desse antigo mistério. Robert Graves traz à baila diversos tópicos: as raízes da chamada Tradição Hiperboreal, o cerne da cultura celta; a história evolutiva do alfabeto fonético ocidental; o percurso das principais rotas migratórias durante a Idade do Bronze, na bacia mediterrânea e no continente europeu ocidental; o arcaico culto da Deusa, das origens paleolíticas até ao mundo mariano do cristianismo, passando pela mitologia grega e pela bruxaria medieval; o segredo do número da Besta, o 666; a revelação do secretíssimo Nome do Deus de Israel; além de muitas outras joias preciosas. A sua leitura estimula uma reintegração de diversas tradições mitológicas. 

As teologias monoteístas, que exprimem as crenças judaicas, cristãs e muçulmanas, sempre difundiram uma pretensa rutura radical entre elas e o mundo pagão. Robert Graves reencontra os liames que unem as tradições mitológicas com a elaboração semita das escrituras bíblicas.

Fonte: Editora Record, Brasil (adaptado)


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

MARY DALY - RECUPERAR UMA ANTIGA REALIDADE CENTRADA NA MULHER

Mary Daly, teóloga feminista, morreu aos 81 anos (em 2010)

Daly deu aulas de teologia, ética feminista e patriarcado no Boston College durante 33 anos. Seu primeiro livro, "The Church and the Second Sex" [A Igreja e o segundo sexo], publicado em 1968, fez com que ela fosse demitida por pouco tempo de sua posição de ensino na instituição. Mas, como resultado do apoio do corpo de estudantes (então todo masculino) e do público em geral, ela obteve no fim a estabilidade no emprego. Mary E. Hunt, co-fundadora e co-diretora da Women's Alliance for Theology, Ethics and Ritual (WATER), anunciou a sua morte no dia 03 de janeiro pelo boletim online The Feminist Studies in Religion: "Com o coração pesado, embora agradecida além das palavras por sua vida e pelo seu trabalho, eu anuncio que Mary Daly morreu nesta manhã, dia 03 de janeiro de 2010, em Massachusetts.

Ela estava com sua saúde enfraquecida nos últimos dois anos. "Suas contribuições à teologia, filosofia e teoria feminista foram muitas, únicas, e, se eu posso assim dizer, mudaram o mundo. Ela criou um espaço intelectual; ela levantou a barreira. Mesmo aqueles que dela discordavam estão em dívida com ela pelos desafios que ofereceu. Ela sempre aconselhou as mulheres a lançar nossas vidas o mais longe que pudessem ir. Eu posso dizer sem medo de exagerar que ela mesma viveu dessa forma". Daly escreveu: "Há e haverá aqueles que pensam que eu exagerei. Deixem-nos ficarem certos de que essa avaliação está correta, provavelmente além de sua imaginação mais selvagem, e eu continuarei fazendo isso".

Ela foi uma participante exuberante e formadora do movimento feminista dos anos 70 e 80. Única filha de uma família de pais católicos irlandeses da classe trabalhadora do norte de Nova York, Daly cresceu com um grande senso de sua herança étnica e religiosa. Como jovem, ela desenvolveu um desejo de se tornar filósofa e teóloga. Encorajada por seus pais e especialmente por sua mãe, Daly buscou seu sonho intelectual, tornando-se finalmente uma vencedora, em um sistema educacional católico que evitava que mulheres obtivessem graus académicos em filosofia, ao estudar na Universidade de Freiburg, onde ela se graduou em filosofia e teologia. Daly foi influenciada por pensadores que vão de Tomás de Aquino à feminista francesa Simone de Beauvoir e Virginia Woolf. De fato, Daly, a feminista, desenvolveu uma espécie de afeição perversa por Aquino, ao qual ela chamava de "velho monge gordo".

Ela aprendeu a "decodificar" o pensamento de um homem que, admitia ela alegremente, concebia as mulheres como "homens bastardos". Finalmente, em sua vida pessoal e académica, ela desenvolveu uma ampla análise do "patriarcado" como a raiz da opressão das mulheres e de todos os problemas sociais em que as pessoas são tratadas como objetos. Depois de "The Church and the Second Sex", ela disse que, de "reformista cristã", passou a ser a uma feminista "radical e pós-cristã". Estudar as formas arquetípicas e a religião pré-patriarcal convenceu Daly que a doutrina da Igreja consistia em uma série de "reversões" significativas.

Ela os explicou à escritora Jeanette Batz em 1996:

•a Trindade, da deusa tripla uma vez celebrada em todo o mundo;

•o nascimento virgem, da partenogénese que uma vez gerou as filhas divinas;

•Adão que dava a luz a Eva.

As mulheres, agindo nos limites do patriarcado, escreveu ela, podem escalar até a liberdade ao renomear e recuperar uma antiga realidade centrada na mulher que foi roubada e erradicada pelo patriarcado. Ela obteve um grande prazer ao castigar os "oito pecados mortais dos Padres da Igreja": procissões, profissões, possessão, agressão, obsessão, assimilação, eliminação e fragmentação. "Riam abertamente", conclamava ela, "de suas pomposas procissões penianas". Assim como para Deus, simplesmente não existe nenhuma maneira de se livrar da linguagem de alusão, escreveu.

Então, "se você deve ser antropomórfico", ela preferia "Deusa". Daly muito frequentemente contemplou a essência divina como um verbo, "Be-ing itself" [Ser si mesmo], então esse louvor não é "ajoelhar-se diante de um Fulano, mas sim circular em energia". Sua linguagem fez eco à física quântica, e ela ficaria agradecida se você lhe dissesse isso: "Eu realmente penso em espaço-tempo como uma grande coisa", admitia ela. "É uma espécie de misticismo que também é político".

Essas atitudes com relação à vida e à religião foram refletidas na edição do dia 26 de fevereiro de 1996 da revista The New Yorker, na qual ela escreveu: "Sempre, desde minha infância, eu tenho aprimorado minhas habilidades para viver a vida de uma pirata feminista radical e cultivar a coragem para vencer. A palavra 'sin' [pecado] deriva-se da raiz indo-europeia 'es-', no sentido de 'to be' [ser].

Quando eu descobri essa etimologia, eu intuitivamente entendi que, para uma mulher presa ao patriarcado, que é a religião do planeta inteiro, 'ser' no sentido mais pleno é 'pecar'". "Mulheres que são piratas em uma sociedade falocrática estão envolvidas em uma operação complexa. Primeiro, é necessário saquear – isto é, remover com retidão as pedras preciosas de conhecimento que os patriarcas roubaram de nós. Segundo, devemos contrabandear para outras mulheres os nossos tesouros saqueados. Para inventar estratégias que sejam grandes e fortes o suficientes para o próximo milénio, é crucial que as mulheres compartilhem suas experiências: as mudanças pelas quais passamos e as escolhas que nos mantiveram vivas. Elas são minhas palavras de guerra de pirata e o toque de despertar para as mulheres que querem ouvi-las".

E então Daly disse: "Eu lhe convoco para Pecar. Mas não contra essas religiões diminutas, Cristianismo, Judaísmo, Islão, Hinduísmo, Budismo – ou seus derivados seculares, Marxismo, Maoísmo, Freudianismo e Junguianismo – que são todos derivativos da grande religião do patriarcado. Pequem contra a própria infraestrutura!". Daly verteu muita energia sobre a quebra dos velhos limites do pensamento crítico. Seu trabalho ajudou a montar o palco para outras teólogas feministas que surgiram no século XX para oferecer críticas à teologia dominada pelo masculino que iriam dar nova forma ao pensamento cristão.

Essas mulheres extremamente inovadoras incluiam Rosemary Radford Ruether, Elisabeth Schussler Fiorenza e Rosemary Haughton.

Outros livros publicados por Daly são:

•"Gyn/Ecology: The Metaethics of Radical Feminism", que definiu categorias de teoria política e filosofia da religião.
•"Pure Lust: Elemental Feminist Philosophy", um estudo exploratório do patriarcado e da visão feminista. •"Websters' First New Intergalactic Wickedary of the English Language", um trabalho bem humorado de palavras voltadas a "libertar a língua inglesa" de suas raízes patriarcais.
•"Outercourse: The Be-Dazzling Voyage", uma autobiografia filosófica.
•"Quintessence... Realizing the Archiac Future: A Radical Elemental Feminist Manifesto", outra consideração sobre o pensamento feminista.
•"Amazon Grace: Re-Calling the Courage to Sin Big" Autor: Thomas C. Fox. A tradução é de Moisés Sbardelotto

http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_canal=39&cod_noticia=14062