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domingo, 6 de maio de 2012

O LUGAR DA MÃE - A RECUPERAÇÃO DA MÃE É A RECUPERAÇÃO DO FEMININO COLETIVO


A MÃE COMO ELEMENTO DETERMINANTE DA SOCIEDADE

“Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós.”

“Com a frase “Dai-me outras mães e eu vos darei outro mundo”, Santo Agostinho revelava o ponto débil do seu projeto de sociedade e a necessidade que tinham de transformar duma vez por todas as mães. Transformar as mães para vencer a natureza humana e a sua predisposição para se organizar e viver como o fez durante muito tempo, sem dominação nem escravatura, em paz e em cooperação (a arqueologia já afastou qualquer dúvida a este respeito, provando que a Idade de Ouro não é um mito mas uma realidade).

Novas mães para reproduzirem os “filia” continuadores das empresas guerreiras, humanos aptos para fazerem a guerra ou para aceitarem tornar-se escravos. Não se podia criar este mundo sem mudar a mãe. A sociedade patriarcal foi erguida sobre um matricídio, acabando com as gerações de mulheres com cujo desaparecimento se sumiu também a paz sobre a Terra (Bachofen). É esta a civilização que perdura ainda hoje, continuando a destruir a vida e a corromper a condição humana, mais competitiva, mais fratricida, mais belicista e mais desapiedada que nunca. Do meu ponto de vista, não é a economia que está em crise, é o modelo de civilização.

Na encruzilhada na qual a humanidade se encontra, o que precisamos de fazer se queremos acabar com este sistema de dominação e sobreviver é recuperar a verdadeira mãe, e com ela as qualidades básicas dos seres humanos, que nos capacitam para a concórdia e nos incapacitam para o fratricídio. Recuperar a mãe verdadeira é recuperar o habitat que a rodeia. Bachofen criou um termo em alemão para o definir: é o Muttertum, sendo que o sufixo “tum” (equivalente ao “dom” em inglês) significa o sítio, o lugar da mãe.

Não se trata apenas dum espaço físico, mas antes dum conjunto de relações travadas com o seu fluxo libidinal específico, o fluido feminino-materno, o hálito materno, porque a produção do nosso sistema orgânico libidinal, desenhado para organizar as relações humanas, é a matéria-prima do tecido social humano original. O Muttertum é assim como a urdidura da tela social, como lhe chamou na sua preciosa metáfora Martha Moia: um conjunto de fios, porque um fio sozinho não consegue fazer a urdidura.

Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós. Segundo Malinowski, as mulheres trobriandesas dum clã (in The Sexual Life of Savages in the Western Melanesia) tinham um nome coletivo, “tábula”, a “tábula” é que se ocupava do parto das mulheres do clã.

Em castelhano há uma aceção do nome "mãe" que é um vestígio dessa mãe ancestral, que se encontra na expressão "salirse de madre", "sair da mãe", que seria sair do Muttertum, que nos faz amadurecer e nos torna consistentes. Há também uma aceção em que a palavra significa "fonte originária de algo" ("a mãe do vinagre", por exemplo), ou como a raiz de algo, quando dizemos que encontrámos a "mãe do cordeiro". Se um rio sai da "madre", tudo se inunda e é o desastre. Pois assim anda a humanidade, "fora da mãe", em permanente estado de esquizofrenia e cada vez com mais ataques de violência..."

Cacilda Rodrigañez Bustos

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quarta-feira, 25 de abril de 2012

A LINGUAGEM DA DEUSA



“A minha tese é que a linguagem do mito poético, corrente na Antiguidade na Europa mediterrânica e setentrional, era uma linguagem mágica vinculada a cerimónias
religiosas populares em honra da deusa da Lua, ou Musa, algumas das quais datam da época paleolítica, e que esta continua a ser a linguagem da verdadeira poesia, «verdadeira» no moderno sentido nostálgico de  «o original inmelhorável e não um substituto sintético”. Essa linguagem foi corrompida no final do período minoico quando invasores procedentes da Ásia Central começaram a substituir las instituições
matrilineares pelas patrilineares e remodelaram ou falsificaram os mitos para justificar as mudanças sociais. 

Em seguida vieram os primeiros filósofos gregos, que se opunham firmemente à poesia mágica porque ameaçava a sua nova religião da lógica, e sob a sua influência criou-se uma linguagem poética racional (a que agora se chama clássica) em honra do seu patrono Apolo, e impuseram-na ao mundo como a última palavra em iluminação espiritual: opinião que predominou praticamente desde então nas escolas e universidades europeias, onde agora se estudam os mitos unicamente como relíquias arcaicas da era infantil da humanidade. 

Uma das repudiações mais intransigentes da mitologia grega primitiva foi feita por Sócrates. Os mitos assustavam-no e desagradavam-lhe; preferia voltar-lhes as costas e
disciplinar a sua inteligência para pensar cientificamente: «para investigar a razão da existência de tudo, de tudo tal como é, não como parece, e para refutar todas as
opiniões que não se podem explicar».

Robert Graves, A Deusa Branca (traduzido por mim da versão espanhola)

 A DEUSA BRANCA (SINOPSE)

Ao defender suas ideias, Graves empreendeu esta obra singular que constitui uma gramática histórica do mito poético. O escritor argentino Jorge Luis Borges sempre consultava A Deusa Branca, que foi publicado pela primeira vez em 1948. Trata-se de um texto fundamental para a teoria da literatura, mas igualmente importante para a história das religiões, bem como para toda a pessoa que quiser reconsiderar as suas certezas mitológicas ocidentais, cristãs ou não, à luz de uma reflexão erudita e independente. 

Com efeito, é também indispensável para aquel@s que se interessam pelo renascimento da religião da Deusa, por Wicca, por esoterismo e por simbolismo. O autor age como um arqueólogo de crenças e restaura os rudimentos perdidos e os princípios ativos da magia que governa os poetas.

 A sua argumentação parte de um acurado exame de dois poemas galeses do século XIII, nos quais ele encontra as chaves, genialmente ocultas, desse antigo mistério. Robert Graves traz à baila diversos tópicos: as raízes da chamada Tradição Hiperboreal, o cerne da cultura celta; a história evolutiva do alfabeto fonético ocidental; o percurso das principais rotas migratórias durante a Idade do Bronze, na bacia mediterrânea e no continente europeu ocidental; o arcaico culto da Deusa, das origens paleolíticas até ao mundo mariano do cristianismo, passando pela mitologia grega e pela bruxaria medieval; o segredo do número da Besta, o 666; a revelação do secretíssimo Nome do Deus de Israel; além de muitas outras joias preciosas. A sua leitura estimula uma reintegração de diversas tradições mitológicas. 

As teologias monoteístas, que exprimem as crenças judaicas, cristãs e muçulmanas, sempre difundiram uma pretensa rutura radical entre elas e o mundo pagão. Robert Graves reencontra os liames que unem as tradições mitológicas com a elaboração semita das escrituras bíblicas.

Fonte: Editora Record, Brasil (adaptado)


segunda-feira, 2 de abril de 2012

A DEUSA NO CORAÇÃO DA MULHER


A DEUSA NO CORAÇÃO DA MULHER
Curso de 10 semanas sobre Arquétipos do Feminino

Início a 18 de abril 2012, 20:30 às 22:30, espaço Quantum, Rio Maior

“ELA é o autêntico poder da essência feminina do Universo. É ao mesmo tempo uma expressão do que sabemos acerca do mundo humano e um poder muito além da nossa capacidade de expressão.” Patricia Monaghan
Para Carl Jung, arquétipos são padrões de energia, formas nas quais se exprimem naturalmente as forças do Universo. A Psicologia Arquetípica compreendeu que as características das deusas das antigas culturas, como a grega e a romana, entre muitas outras, correspondiam a qualidades da psique feminina.
Tomar consciência da sua força e do seu poder, e equilibrar essas qualidades na nossa alma e na nossa vida, é a proposta deste curso.
Seguir a via dos Arquétipos é descobrir a extraordinária riqueza do Feminino, um manancial de possibilidades que permitem a nossa expressão mais natural e abrem uma libertadora via de expansão e crescimento.
É ainda mergulhar num universo de beleza e de significado, repondo um equilíbrio que se perdeu num mundo excessivamente masculinizado como aquele em que vivemos.
Honrar e celebrar as Deusas é celebrar a vida e os seus ciclos de nascimento e de morte, de ganho e de perda, de luz e de sombra; é sentir que o tempo joga a nosso favor, e que honramos a Vida sempre que aceitamos ser nós mesmas, inteiras e autênticas.

Neste workshop vamos sentir-nos Mulheres completas, com a nossa alegria e a nossa dor, a nossa força e a nossa vulnerabilidade, sabendo que tudo está certo e é necessário e faz parte da Vida. Vamos sentir-nos unas e solidárias umas com as outras, oferecendo-nos mutuamente um colo de confiança e de aceitação, sabendo que a cura começa pela nossa aceitação incondicional do ser Mulher e do Feminino em nós.
A dinâmica do grupo, ao longo das 10 semanas, ajudará cada uma na sua experiência de descoberta tanto das feridas do Feminino como do seu poder profundamente curador e sustentador da vida.

Técnicas de relaxamento, meditação induzida, visualização criativa, auto-expressão e partilha, permitirão um trabalho profundo com a mente e com as emoções, bem como resgatar a consciência e o uso do nosso poder pessoal, encontrando um novo propósito, motivação e renovada vitalidade.

“Grupos conduzidos por e para mulheres são o nosso refúgio psíquico; o nosso local para descobrirmos quem somos ou em quem nos podemos tornar como seres integrais e independentes.” Gloria Steine

Arquétipos com que trabalharemos: DEMÉTER, PERSÉFONE, ÁRTEMIS, HÉSTIA, HERA, ATHENA, HÉCATE, AFRODITE, GAIA, BRIGID, SOPHIA, KALI

quinta-feira, 29 de março de 2012

Sobre Luiza Frazão




Sacerdotisa de Avalon e de Rhiannon, formada pelo Templo da Deusa de Glastonbury, Reino Unido, e Sacerdotisa do Jardim das Hespérides. Licenciada em Línguas e Literaturas pela Universidade Nova de Lisboa, com formação no Método Louise Hay de Desenvolvimento Pessoal, em Programação Neurolinguística, Constelações Familiares, Astrologia e largos anos de experiência em Desenvolvimento Pessoal e Espiritual. Depois de intensa pesquisa na tradição céltica do nosso território, integrado na cultura do Arco Atlântico, reivindica para Portugal a dimensão do Jardim das Hespérides, a nossa dimensão da Deusa. Impulsionada e inspirada pelo seu treino de sacerdotisa de Avalon, e por intensa pesquisa no nosso território, criou uma Roda do Ano e um Templo, de que é Guardiã: a Roda do Ano e o Templo da Deusa do Jardim das Hespérides, localizado em Óbidos.  
Cerimonialista, pesquisadora, facilitadora de Círculos de Mulheres, formadora de Sacerdotisas da Deusa, co-fundadora  e anfitriã da Conferência da Deusa Portugal e autora da obra A Deusa do Jardim das Hespérides: Desvelando a Dimensão 
Encoberta do Sagrado Feminino em 
Portugal.




À direita na imagem, na Conferência da Deusa Portugal 2019,  em Sintra, com Kathy Jones

domingo, 18 de março de 2012

PERDEMOS A MÃE PRIMORDIAL, A GRANDE RAINHA DOS COMEÇOS

O continente e o conteúdo

À força de rejeitar tudo o que a feminilidade representava como solução para a angústia do homem, criou-se uma humanidade perfeitamente neurótica, pois se o rapazinho é obrigado a praticar este acto é porque não lhe vestiram na mais tenra idade uma veste feminina, como se fazia antigamente. Uma concepção estúpida e formal da virilidade impediu a continuação desta prática que, com origem em motivos inconscientes, era muito mais válida que a destruição do amor que educadores desprovidos de educação tentam levar a cabo, criando uma putativa educação sexual. É, uma vez mais, toda a nossa sociedade que está em causa.

A masculinização da sociedade conduziu a ignorar aquilo que constitui o próprio fundamento de toda a relação psicossocial, a saber, os laços afectivos que unem os membros duma mesma família, dum mesmo clã. E estes repousam muito particularmente na relação mãe-filho (rapaz ou rapariga). Suprimindo a noção de Mãe-Divina, ou submetendo-a à autoridade dum deus-pai, desarticulou-se o mecanismo instintual que estabelecia o primitivo equilíbrio. Daí provêm as neuroses e outros dramas que transtornam as sociedades paternalistas, incluindo aquelas que se consideram mais evoluídas, aquelas que pretendem, com belas palavras, atribuir à mulher um lugar de honra, um lugar escolhido pelo homem.

Na verdade, o homem não pode escolher o lugar da mulher nem o seu próprio lugar face à mulher. Ele deve obedecer a uma lei inelutável, que é, para retomar a definição de Montesquieu, uma lei de natura, contra a qual a lei da razão nada pode. Esta lei de natura concretiza-se no instinto, que não é algo que possamos negar. Negá-lo, como fizeram tantos moralistas e psicólogos, antes de Freud, é abrir a via dos desregulamentos psíquicos, porque todo o comportamento se ressente do facto de não estar apoiado na lei natural.

Esta querela entre natureza e razão, que de resto sempre foi uma falsa questão, é responsável pela cegueira desta sociedade que, ao querer corrigir o instinto, cortou o ser humano daquilo que era a sua natureza. A verdade é que o instinto não se corrige. Sublima-se, transcende-se, e isso graças a uma razão que o dirige, mas que em caso algum o deve encerrar em limites estreitos e negá-lo. E o instinto assusta, porque é forte e porque é inelutável.

Este estudo sistemático do princípio feminino na cultura celta tem pelo menos o mérito de trazer à luz da consciência a ideia de que o instinto é primordial, no sentido etimológico do termo, que ele é necessário, que é um factor de progresso e de evolução. Mas o instinto tem algo de selvagem, de “bárbaro”, mesmo. E é por aí que ele atinge a “grandiosidade”. Ele é o único motor dos nossos sentimentos, da nossa acção. E, tendo em conta os nossos hábitos morais, é por vezes difícil formulá-lo e olhá-lo de frente: a verdade choca-nos.

Quando ousamos afirmar que todas as relações entre homens e mulheres, quaisquer que elas sejam (conjugais, filiais ou outras) são necessariamente relações incestuosas entre mãe e filho, atraímos as mais ásperas críticas e somos tidos por obcecados. E no entanto… O homem é, com efeito, um ser incompleto e tem consciência disso. O seu medo e a sua atracção pelo abismo negro (o nada de onde provém), o seu medo e a sua vertigem diante da morte (o nada que o espera) tornam-no um ser frágil que procura a segurança a todo o custo. Essa segurança é a mãe, tanto para o homem como para a mulher.

Mas o homem, física e afectivamente, possui um meio de reentrar, pelo menos provisoriamente, na mãe. Não é preciso insistir: qualquer tendência da psicanálise já esclareceu suficientemente bem que o pénis, pequena parte do homem, mas uma parte exterior e susceptível de aumentar, constitui o substituto do próprio homem. Ele pode, portanto, em certas ocasiões, reactualizar de modo fantasmagórico o regresso ao paraíso que a mãe representa. E toda a mulher é uma mãe, real ou potencial. O homem está portanto biologicamente sujeito à mulher, quer ele queira, quer não.

Ele é o conteúdo, enquanto a mulher é o continente: isso constitui um estado de inferioridade muito óbvio para o homem e ele passará depois todo o seu tempo a negar tal realidade para provar a si próprio que é superior. É assim que se explica a acção masculina, o facto dos homens serem dotados para a acção, para a violência e o combate. Esta acção é o único meio que lhes resta para tentarem afirmar-se. E se o homem é o conteúdo, portanto um ser inferior, ele arroga-se o direito dum ser superior, mostrando que a sua força activa é a única capaz de proteger a espécie.

Até conseguiu persuadir a própria mulher dessa superioridade, simbolizada pelo reconhecimento do pénis do rapazinho no momento do nascimento, feito pela mãe ou por qualquer outra mulher que ajude no parto. O famoso grito: “É um rapaz!”, repetido geração após geração, é bastante eloquente a esse respeito. Quando nasce uma rapariga, aceita-se; mas quando nasce um rapaz, rejubila-se. No entanto, o continente, a mãe, que é o mesmo que dizer a mulher , é a própria realização do Paraíso. Ela realiza-o sob dois aspectos duma mesma realidade: ela contém o filho e o amante.

De resto, como alguns psicanalistas já referiram, a vagina da rapariga não é reconhecida pela mãe, nem pelo pai, no momento do nascimento. Tal reconhecimento far-se-á, no entanto, um dia, e será o homem a efectuá-lo. Assim, para se afirmar, para tomar consciência de quem é e sobretudo do seu poder, a mulher precisa do homem. Traduzido em linguagem mitológica dá: o homem precisa duma deusa, mas a deusa precisa do homem. É esta a razão pela qual se perpetuaram, sob formas diversas, os antigos cultos da divindade feminina.

Na cultura celta, vimo-la sob os seus diferentes aspectos, ou melhor, sob as diferentes máscaras que os homens lhe atribuíram. Todos os nomes que lhe foram dados, entretanto, não nos devem fazer esquecer que se trata dum ser único, da mãe primordial, da primitiva deusa, da grande rainha dos começos.

Jean Markale, “La Femme Celte”, Petite Bibliothèque Payot (tradução Luiza Frazão)
Imagnes Google - Deusa Mãe Deméter; Adolphe W. Bourguereau; Almada Negreiros

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SANTA BRÍGIDA - THE IBERIAN CONNECTION

A verdade é que talvez não seja assim tão estranha a vinda desta relíquia (a cabeça de santa Brígida) para Portugal e a pedido de D. Dinis, pois afinal este nosso território terá pertencido ao mesmo universo mítico de que fazia parte esta deusa tornada santa, cuja figura e o destacado valor atribuído a cabeça – fenómeno integrado no culto das cabeças – representam apenas a ponta de um icebergue chamado celtismo.

Celtismo esse que reivindicamos como uma possível realidade histórica, assente sobretudo em dados arqueológicos, genéticos, linguísticos, antropológicos ou etnológicos, os mesmos de que nos temos servido ao longo de trabalhos anteriores e que, neste caso, continuam a ser válidos. Desses dados faz parte também a tradição mítica, tanto irlandesa, como escocesa, que diz dever a sua própria fundação a descendentes de príncipes ibéricos, designadamente Gatelo ou Mil, os chamados Milesianos, provenientes da Península Ibérica, onde também tinham fundado Portugal, em 1553 a. C.107.

E a força desta tradição é tanta nos países britânicos que a pedra (dita fadada) onde Gatelo aqui se sentava para fazer justica e receber a vassalagem dos seus súbditos terá sido levada, segundo a lenda, primeiro para a Irlanda, depois para a Escócia e, por fim, para Inglaterra. Tomou o nome de Lia Fail ou Pedra da Coroação e sobre ela se coroavam (e coroam) os reis legítimos: ainda hoje existe, guardada na Escócia, e continua a desempenhar a mesma função, pois será trazida para Inglaterra para coroar o rei sucessor de Isabel II.

Mas recuando, ainda mais, ao “refugio ibérico”, um dos locais mais importantes da Europa onde o Homo sapiens sapiens se reuniu para sobreviver à glaciação, até há 16 ou 17 mil anos, quase nos atrevemos a dizer que a afirmação da vinda da cabeça de Santa Brígida para ser entregue a D. Dinis, rei de Portugal, é o vestígio simbólico de um “regresso às origens” do mito.

Nessa época longínqua e de difícil sobrevivência estávamos “num tempo em que o mito e o rito eram o sistema fundamental de representação e organização do universo mental da humanidade e a consciência assumia de facto a forma e o conteúdo do património tradicional dos contos e dos rituais colectiva e individualmente próprios de uma dada população. [...] o corpo mítico-ritual assegurava, assim, a sobrevivência do grupo[...]”.

E acerca do fenómeno do mito e da sua transmissão, de forma ritmada e rimada para mais fácil memorização, também as ciências cognitivas afirmam que um povo sem mitos nunca teria sobrevivido às ásperas condições de então. Assim, mito e celtismo serão as duas faces da mesma moeda que estão na base da Historia e da tradição deste vasto território ocidental europeu de que fazemos parte. E que estarão na base deste fenómeno de uma deusa/santa em Lisboa.

O eco que encontrou, aqui em Lisboa, a cabeça da padroeira irlandesa com toda a panóplia dos rituais seus derivados – que a seguir desenvolveremos – enquadra-se, assim, de um modo mais compreensivo, na nossa cultura medieva, herdeira dessa história e tradição.

Gabriela Morais, Lisboa Guarda Segredos Milenares, Santa Brígida, uma Deusa Celta em Lisboa
http://www.continuitas.org/texts/morais_lisboa.pdf

Imagem: Bridget, de Caroline Gully-Lir
http://www.spinningthewheel.com/

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

HERA, A DEUSA DAS MULHERES


Cantemos agora Hera, a deusa das mulheres,
Que governa o mundo no seu trono de ouro.
Cantemos agora Hera, a filha de Terra, filha da mais antiga das deusas.
Cantemos agora a rainha d@s deus@s,
Cantemos a mais bela de todas as deusas.
Ninguém é mais amada do que tu,
Feminina Hera, ninguém é mais venerada.
Não há ninguém na terra mais respeitad@ do que tu
Ó majestosa Hera, ninguém mais partilha da tua glória.
És acima de todas a mais venerada das deusas.
És acima de tod@s @s deus@s a mais amada de sempre.

Hino Homérico

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

JUNO FEBRUA - HONRAR E CELEBRAR O AMOR

A deusa Juno Februata e o dia de S. Valentim
Em Roma, o mês de Fevereiro era dedicado à Deusa Juno Februata ou Juno Februa. A Sua festa era celebrada a 14 de fevereiro. Ela era a Deusa da “febre” de amor tanto quanto das mulheres e do casamento. Na Sua festa, os homens solteiros participavam dum sorteio tirando bilhetinhos de papel de dentro dum recipiente. Nesses bilhetes estavam escritos os nomes das mulheres solteiras da comunidade. O par mantinha uma relação temporária durante os jogos eróticos que tinham lugar durante o festival, permanecendo juntos durante os doze meses seguintes. Estas práticas davam por vezes lugar a relações duradouras.

Nos tempos do Paganismo, esta celebração era conhecida como “Lupercalia”, palavra que deriva de “Lupa” (a Deusa Loba que normalmente encontramos nas representações de Rómulo e Remo aos quais se atribui a fundação mítica de Roma). Nos templos erigidos em honra de Lupa, serviam sacerdotisas chamadas “Rainhas” e também “Lupae”, que atuavam como sacerdotisas do amor, e os ritos realizados na Gruta da Loba asseguravam a fertilidade dos campos durante todo o ano. Quando o imperador Constantino decretou o nascimento “oficial” da religião Cristã e a impôs a todo o território do império Romano, a igreja encarregou-se de rebatizar esta festividade como “Festa da Purificação da Virgem Maria”. Deste modo, o papa Gelásio I, no ano 494, decidiu comemorar nela o momento em que Maria foi “purificada” no Templo, aquando do nascimento de Jesus. Parece que para os patriarcas da igreja todos os atos de amor são impuros, não só os de carácter sexual, mas também o milagroso ato de dar à luz uma nova vida.

Curiosamente, a denominação “Februa”, “Februlis”, “Februta” ou “Februalis” referem-se à Deusa Juno no seu aspeto “Purificadora”, num sentido diametralmente oposto àquele dado posteriormente pelo Cristianismo. A data foi novamente mudada pela igreja para 2 de fevereiro, e o nome da festividade passou a ser “Festa da Candelária”, consagrada à Deusa como “Santa Brígida”. No entanto o regresso da luz está relacionado com os ritos sagrados de carácter sexual celebrados na festa de 14 de fevereiro, os quais eram designados por “ritos do matrimónio espiritual com anjos na câmara nupcial”. Uma fórmula que era hábito recitar-se durante essas cerimónias dizia: “Permite à semente de luz descer até esta câmara da noiva (…) a Graça desça até ela”.

No ano de 496, o papa GelásioI instituiu o dia de S. Valentim para acabar com aquilo que era então considerado como “lascivos costumes selvagens”. Como muitos outros santos que substituíram antigos deuses pagãos, a história de São Valentim conta com inúmeras versões, todas confusas e contraditórias, e os homens da igreja tentaram substituir as antigas mensagens de amor por outras de carácter moral e doutrinário e incluir nelas nomes de santos. A verdade é que as pessoas rapidamente as transformaram em mensagens de amor, tendo São Valentim sido nomeado “patrono dos namorados”, enquanto os antigos rituais foram secretamente mantidos, apesar de todos os esforços realizados pela igreja para os eliminar. Ao trazerem a Deusa Juno para a Península, os Romanos trouxeram seguramente os rituais em Sua honra… ou então já cá existiam, a julgar pela forma como se celebram hoje em dia festas que supostamente são de carácter religioso, mas que no entanto são abundantes em comida, bebida e… jogos de carácter amoroso e sexual.

In Deusas de Sangue e de Sol, Sandra Román, Mandala Ediciones (traduzido e adaptado por Luiza Frazão)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

IEMANJÁ, É HOJE O SEU DIA


Esta Deusa Lunar das Mudanças, é considerada Rainha dos Mares e dos Mundos, a sua abrangência na Vida é bastante ampla. Ela rege o destino das coisas que precisam de ser modificadas, e traz novo alento a tod@s aquel@s que estão submergidos em problemas.

Iemanjá rege a mudança no ritmo da Vida, pois ela está ligada ao Elemento Água. Ela preside aos rituais relacionados com o nascimento e o regresso às, que é a morte, e também aos movimentos que se caraterizam pelo desenvolvimento das coisas, e dos projetos, assim como a expansão e a propagação de novas ideias.

Os rituais que Lhe são dedicados, celebram-se no dia 2 de Fevereiro.

O arquétipo de Iemanjá, assim como o da Deusa Ártemis, é responsável pela consciência que as mulheres experimentam de si mesmas, e que as leva à sua própria individualidade. Quando a Deusa Iemanjá dança, ela corta o ar com uma espada na mão, simbolizando com esse corte um ato psíquico que conduz à individualização, pois ao separar as coisas, deixa somente aquilo que é necessário para que a consciência de si aconteça.

A Sua Espada, símbolo do Poder Cortante, que permite discriminar e ordenar os aspectos da psique, também pode levar ao abraço de sereia da Deusa, que é a morte. Quando dança, a Deusa coloca a mão na cabeça, indicando assim a sua individualidade e por isso, é chamada de”Yá Ori”, ou “Mãe de Cabeça”. No ritmo dos tambores, Ela toca a nuca com a mão esquerda, simbolizando o passado da humanidade, o “Mar do Inconsciente Cósmico”, a nossa origem eterna, e a testa com a mão direita, significando o futuro em direção à consciência e à individuação, de cada um(a) de nós.

A Deusa Iemanjá dança o seu Poder representando a origem mitológica da humanidade, unindo o passado e o futuro, materializando um presente sempre eterno, através do despertar da consciência do que somos aqui e o agora, neste exato momento da nossa existência, pois sem passado não há futuro, sem saber de onde viemos não sabemos o que somos, nem para onde vamos.

Sendo assim, Ela nos lembra em seus rítmicos passos, que a totalidade está na união dos opostos, do consciente com o inconsciente, do passado com o futuro, e dos aspectos masculinos com os femininos, que existem em tod@s nós.

As mulheres que estão em íntima conexão com esta Deusa, conhecem os seus ciclos lunares, e como eles afetam as suas vidas ao relacioná-las com as fases do astro prateado, aceitando em si mesmas a presença inegável do vai e vem das marés da Vida e do Amor, berço do rico psiquismo feminino.

Compreender e aceitar Iemanjá, equivale a compreender e aceitarmo-nos a nós mesmas, porque este entendimento, nos encaminha até à nossa individualidade, à descoberta dos Ser único que somos, como somos e o porquê da nossa existência. O mito desta Deusa das Águas, é o mito de toda a mulher, enquanto Criadora e força motriz de toda a Vida, que não só começa na água, como depende dos ciclos da Lua, intensamente vividos por nós, e que propaga a existência, nas mudanças de todas as coisas, num interminável nascer, viver, morrer, e novamente renascer, nas “Águas da Mãe Iemanjá”.

http://magiabruxa.com/serie-deusas-iemanja/

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

AMANHÃ É A FESTA DA CANDELÁRIA, O IMBOLC

 Amanhã celebra-se o Imbolc, ou Candelária, um festival muito importante, por representar o momento em que o aspeto Anciã da Deusa dá lugar ao aspeto Donzela, sendo portanto uma altura propícia  a novos começos, a um renascer depois do sono invernal.

Na tradição celta e na de Avalon, a divindade do momento é Brigid, ou Bride, Bridie, Brígida para nós, deusa muito importante por representar praticamente a totalidade dos atributos da Grande Deusa. Ela foi muito cultuada por quase toda a Europa e possivelmente, segundo tudo consta, teve origem aqui, mas isso é uma longa história para onde aponta aquele documento da autoria da investigadora Fernanda Frazão de que aqui deixei um pedacinho. Repare-se que um dos nomes que esta Deusa já teve foi Brigantia, que depois deu outra Deusa que representa mais o aspeto soberania da terra. Mas Brigantia foi um dos primeiros nomes de… Bragança, que, só por “acaso”, também é o nome da nossa actual dinastia… Bom, mas voltando a Brigid, Ela é então na Roda do Ano de Avalon a representante do aspeto Donzela, e é uma deusa ligada ao Fogo, da Cura, da Alquimia, da Transformação, da Forja, da Lareira e da Inspiração. É matrona da forja e da poesia e das artes em geral, sobretudo as artes domésticas, femininas, aquelas que contribuem para que a nossa casa seja um Lar.

É um momento para criarmos objetos de poder com as nossas mãos, que na tradição celta e de Avalon são as famosas “cruzes de Brigid”, os “olhos de Brigid” (uma das partes do corpo que esta Deusa cura especialmente são os olhos), as bonecas, os “cintos de cura de Brigid”. Objetos realizados com a intenção de curarmos as partes de nós que precisam, ou de obtermos a proteção da Deusa ou a sua Inspiração.

Brigid está também muito associada às Águas, sobretudo às águas de Cura, mas também ao aspeto fertilizador da água. É um bom momento para visitarmos fontes, rios, lagos, o mar e reverenciarmos esse elemento, com o qual nos podemos lavar, banhar, com a intenção de obter cura para nós, desejando-a igualmente para as águas da Terra, tão maltratadas. Ela é também a protetora dos rebanhos e o leite de ovelha é o leite sagrado que os povos que o têm à sua disposição facilmente Lhe oferecem agora. Os seus animais sagrados são o Cisne, a Serpente, a Vaca e o Lobo.

Que dizer-vos mais? Esta é uma Deusa com uma energia tão magnífica e poderosa, que é difícil saber o que selecionar para dizer. Sugiro que à vossa maneira celebrem este festival da Luz, criando um altar, por exemplo, fazendo a vossa boneca de Brigid, ou a Cruz ou o Olho, acendendo velas, oferecendo à Deusa singelas flores do campo, por exemplo, as primeiras a despontarem, as mais simples, como evoca o aspeto Donzela da Deusa. Investiguem sobre esta Deusa, há muita informação e muita proposta de atividade, porque este aspeto Donzela tem a ver essencialmente com a nossa criatividade, alegria, vontade de iniciar novos projetos, de festejar…

Muitas bênçãos de Brigid, a Donzela, ou a Menina, para tod@s!