No próximo dia 27 de Março, 2015, na Casa Do Fauno, em Sintra
O poder da Deusa, que se manifesta por meio das mulheres, é uma matriz emocional que convida a uma fusão ou simbiose inconsciente e transmite uma sensação de chegada a casa.Jean Shinoda Bolen
quarta-feira, 18 de março de 2015
domingo, 1 de março de 2015
O EPISÓDIO MÍTICO O "JULGAMENTO DE PÁRIS" E O FIM DO MATRIARCADO
Depois deu-se a derrocada do império hitita relatada na
Ilíada e assim se definiu a fronteira da mitologia greco-romana moderna que
afinal os romanos nem reconheciam muito bem mantendo os seus deuses arcaicos indígenas, di indigetes.
No entanto a modernidade descobriu as mitologias nórdicas e
celtas e as suas estranhas semelhanças com as orientais, factos que nem os
autores das teorias do indo-europeu suspeitavam e queriam admitir.
Ora, é obvio que falta um elo perdido entre essas tradições
extremas e ele só poderia ter sido a cultura cretense que depois veio a ser
herdada pelos fenícios. E fica assim explicada a semelhança com a mitologia
maia e a azteca.
Mas pouco ou nada se sabe da mitologia cretense e tudo o que
se diga dela é muito especulativo. No entanto a intriga do Julgamento de Páris,
que precedeu a guerra de Troia, foi e deve ser encarada como um momento
importante na trama histórica, porque ele marca uma luta de poder entre 3
deusas que precede a primeira guerra mundial da história ocidental, que a
partir daí passou a ser de guerras constantes.
Este episódio do Julgamento de Páris deve ser considerado
como o marco do começo do patriarcado no mundo greco-romano, por ser a visão mítica
de um fenómeno político nunca visto: o fim do domínio absoluto da tríade
política das três fases da vida da mulher e que ia da Anatólia à Irlanda nos barcos
da talassocracia cretense.
Assim, é no que resta dos cultos de Hera, Atena e Afrodite que deve ser reconstruida a
tríade matriarcal, realçando o facto da vitória de Afrodite no julgamento de
Páris fazer parte do processo de capitulação do matriarcado em relação ao
patriarcado.
A TRÍADE MATRIARCAL DO JULGAMENTO DE PÁRIS CHEGOU ATÉ À IRLANDA
Confirmando a ideia de que a talassocracia cretense espalhou pelo mundo o mesmo culto da Deusa, este investigador acrescenta:
©Artur Felisberto
A TRÍADE MATRIARCAL DO JULGAMENTO DE PÁRIS CHEGOU ATÉ À IRLANDA
Confirmando a ideia de que a talassocracia cretense espalhou pelo mundo o mesmo culto da Deusa, este investigador acrescenta:
(...)Na tríade Ériu, Banbha e Fódla...é óbvio que Vénus,
sendo Afrodite, era Fódla porque:
Fódla < Folda < Forda < Afroda + Te > Afrodite
Como esta tíade é seguramente a mesma do julgamento de
Páris e já sabemos quem era Afrodite, fica Eridu como só podendo ser Hera. E resta a Banbha ser Atena:
Banbha < Wan-wika < Kian-Kika < Tianita > Anat
> Atena > Diana.
Porque foi a partir desta epifania que eu dei conta de como
tudo o resto estava interligado!
©Artur Felisberto
Imagem: Rubens, O Julgamento de Páris
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Vou andar pelo campo enquanto cá andar e enquanto o houver
Gosto, dizia, de percorrer esses caminhos, sinto que preciso
deles e que eles precisam de mim. Dizem-nos @s mestr@s que o mundo precisa da
nossa atenção para existir e eu acredito e é quase com um sentimento de dever
ou de missão que sempre que posso percorro os campos, para garantir que
perduram, que continuam a mudar de aparência em cada estação, que ainda rescendem
a ervas mágicas no Verão, que se enchem de flores quando vem a Primavera e de
pássaros nos ninhos e de regatos e poças de água no Inverno e que amarelecem no
Outono quando a Deusa Abundância estende para nós os seus frutos e bagas todas
ao mesmo tempo.
Entretanto perguntam-me as pessoas da aldeia que, imagine-se,
já não andam pelos campos no meio dos quais construíram as habitações onde
vivem, se não tenho medo de andar sozinha pelo campo. A pergunta, mais do que
incomodar-me, fere a minha alma como o bulldozer fere a paisagem. Ao indagar dos
hipotéticos perigos, dizem-me que vêm basicamente das cobras e dos assaltantes.
Devo dizer entretanto que considero as cobras dos animais
mais sagrados de toda a criação. Quanto aos assaltantes, eles estão por todo o
lado, toda a paisagem foi tomada de assalto, a cultura foi tomada de assalto,
toda a terra foi tomada de assalto. Eu visito apenas o que resta do saque, por
enquanto, o que vai sobrevivendo no meio de toda a desolação, e dou-lhe toda a atenção
e carinho que posso e perecer nesse acto não vou dizer que seria heróico, mas alguma
coisa do género.
Luiza Frazão
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Conferência da Deusa de Glastonbury 2014
E o Tear, onde se entrelaçam os fios da Vida, veio para
Glastonbury pela mão da fantástica Carolyn Hyllier, xamã, artesã, autora,
compositora e intérprete, pintora… uma mulher única, um potentado, out of this world, como dizia
alguém. Carolyn Hyllier encheu o
Assembly Rooms de Glastonbury com a sua instalação, misto de pintura e
tecelagem, com a sua própria música de fundo, onde sobressaiam 13 tecedeiras, representantes
de várias culturas do mundo que ganhavam vida quando percorríamos
cerimoniosamente a instalação, interpelando-nos até às profundidades mais
inconfessadas da alma, fazendo estremecer todas as camadas de esquecimento,
menosprezo e abuso com que recobrimos o feminino no mundo, desvalorizando a sua
função, na aparência tão humilde mas na verdade tão grandiosa de simplesmente tecer
as condições para que a vida seja possível. E de repente percebemos que as fantásticas
tecedeiras míticas de Caroline Hyllier são como os grandes pilares em que
assenta a própria alma do mundo…
Sob a sua alçada e com orientação da Sacerdotisa Annabel Du
Boulay foi criada a Estrada da Morte com a participação de tod@s que na sexta-feira
à noite percorremos em cerimónia e que em cerimónia fora transportada em ombros
pelas sacerdotisas desde o Assembly Rooms até ao Town Hall nessa tarde num sublime
cortejo fúnebre com o qual se pretendeu honrar a morte dando-lhe o peso e o
lugar que merece, sabendo que ela é necessária para que a vida se renove e não
algo de pavoroso com sabor a derrota que “civilizadamente” escondemos ou tentamos
ignorar. Foi um dos momentos mais desafiadores percorrermos um-a por um-a a grande
Estrada da Morte, sendo o desafio morrer para aquilo que não queremos mais na
nossa vida, aprender o desapego. No fim de tod@s termos passado para o outro
lado, fizemos em glória o percurso inverso sobre a grande estrada vermelha da
Vida.
Foi muito interessante constatar que nunca vira tanta gente
no Town Hall como este ano atraída pela energia da Deusa Anciã que forneceu
ainda inspiração para uma cerimónia marcante de coroação das Anciãs, mulheres
acima dos 69 anos, que encheram o palco, onde foram apresentadas por alguém
íntimo que ressaltava os aspectos mais marcantes da sua vida e personalidade.
Foi lindo e poderoso ver contrariar a tendência da cultura dominante para
equacionar o avançar da idade com decadência, na lógica do simples mecanismo
que se desgasta, em vez de com valor acrescentado, enriquecimento tanto pessoal
como para toda a comunidade.
Nesta Conferência coube-me também a mim, a convite da minha
formadora na terceira espiral do meu treino de Sacerdotisa, Kathy Jones, a
grande honra de apresentar um workshop sobre um trabalho inspirado pela energia
da Bean Sidhe celta em que pudemos trabalhar aspectos relacionadas com a Sombra
feminina.
terça-feira, 13 de maio de 2014
RESGATAR MARIA, EMPODERAR A MÃE
Hoje em Portugal é o grande dia de Maria, a Senhora de
Fátima, a Nossa Senhora, a Mãe de Jesus, crê-se. Nunca lhe ouvi chamar Deusa, a
não ser uma vez na televisão um padre muito preocupado porque o que se passava
em Fátima era puro paganismo, adoração da Deusa. Não me lembro do nome dele, já
foi há uns 30 anos, mas a verdade é que o indivíduo tinha mesmo razão – quando dizia
ser adoração da Deusa, não quando se mostrava preocupado, óbvio. Como muito bem
lembra Moisés Espírito Santo e outr@s, a religião popular encontrou maneira de
subsistir no seio da viril, seca, sensaborona, rígida e implacável Igreja de Roma
tratando de arranjar nela um lugar de honra para a sua Rica Mãezinha sem a qual
hoje em dia não haveria nada na Igreja Católica capaz de ainda mover multidões
como a que hoje deve ter estado em Fátima e de que também já fiz parte e adorei
a experiência.
Maria de Fátima, entretanto, como os padres a travestiram,
que é exactamente uma versão católica portuguesa daquilo que o lobby gay da
indústria internacional da moda faz com as manequins: pré-adolescentes,
anoréticas, sem resquícios de feminidade no corpo, assexuadas, tendo mais do
rapazinho do que da rapariga (mas esperem lá que isto pode levar-nos muito
longe se lermos “Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima” do já referido Moisés
E. Santo…), Maria, enquanto Senhora de Fátima, dizia eu, sejamos realistas,
nada tem de uma Mãe. Só com muito boa vontade e um grande transe de pai-nossos
e ave-marias e muita água benta é que conseguimos ver n’Ela a Grande Criadora
Toda-Poderosa, a Senhora do Grão, da Abundância, da Fartura, capaz de proteger, cuidar e
alimentar as filhas e os filhos, que era assim que Ela, a Deusa, que o povo
levou para a Igreja de Roma, era vista e sentida.
Entretanto o processo por que passou, o lifting, levou-lhe
os benéficos e fecundos atributos maternos que apenas em outras Senhoras muito
mais esquecidas hoje em dia podemos encontrar, como a Senhora do Ó, a Senhora
grávida, e em especial a Senhora do Leite, Essa sim, uma verdadeira Mãe capaz
de alimentar o mundo. O lifting, o processo de emagrecimento, a mastectomia e,
presumo, também a histerectomia por que passou a Virgem Maria, penso que
estarão relacionadas com o profundo ar de apatia depressiva que apresenta e que
estranha e, desconfio que perfidamente, se confunde com santidade (iluminação
em outros credos). Oficialmente é o sofrimento pelos pecados do mundo, contra o
seu Filho, ou seja, todo um programa de manipulação emocional capaz de nos tornar
tão apátic@s e depressiv@s como a sua imagem aparenta, se não tomarmos providências.
Misericórdia, dirão, Compaixão. Concedo. Maria, que é a
Senhora do Mar, do mar das emoções, é uma Deusa da Compaixão, como a oriental
Kuan Yin, uma Mãe capaz de sofrer por nós e de interceder por nós junto do Pai demasiado
severo e ocupado com coisas sérias para directamente atender as suas míseras
criaturas... Tão interessante… sobretudo
quando se diz com desdém que os deuses do Olimpo grego tinham qualidades
demasiado humanas… ahahah! E seriam apenas eles?
Ora ter na cultura como arquétipo feminino dominante uma Mãe,
assexuada, anoréctica, mastectomizada, deprimida, que apenas pode oferecer
compaixão, misericórdia, piedade (acho que é tudo a mesma coisa) às suas
criaturas terrenas, sem qualquer poder para além do de aplacar a
insensibilidade da divindade masculina, é extremamente preocupante e a minha
preocupação é mesmo genuína.
Por que terá Maria, entretanto, esse poder junto
de Deus Pai também é um mistério, uma vez que Ela é tão-somente a Mãe do Seu
Filho, ou seja, Deus é um Pai solteiro que usou o ventre de Maria como única tecnologia
de reprodução disponível. Óbvio que Ela seria de qualidade superior, enquanto
Deus, ele só podia escolher o melhor. Podemos imaginar, por exemplo, o Michael
Jackson a escolher a Mãe que daria à luz os seus preciosos rebentos com um
rigor o mais semelhante que a sua simples humanidade torna possível. Só me
espanta no meio disto tudo é que os cristãos se insurjam tanto contra o direito
dos gays de adoptarem crianças…
E enquanto isso o que
eu faço é procurar as nossas antigas Deusas Mães capazes de nos valerem, ajudando
a empoderar a Mãe em nós e no mundo para ver se pomos alguma ordem na grande casa
humana.
©Luiza Frazão
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domingo, 20 de abril de 2014
DON JUAN e a Motivação de Poder
“De particular relevância é o trabalho muito mais recente do
psicólogo David Winter. Tal como outr@s académic@s modern@s de nomeada, Winter
tem vindo a estudar aquilo que no livro do mesmo nome designa de “motivação de
poder”. Como psicólogo social, dedicou-se à descoberta de padrões históricos
através de medições objectivas. E embora uma vez mais convenha olhar para além
daquilo que Winter sublinhou, a partir da perspectiva psicológica convencional
centrada no masculino, as suas descobertas documentam decisivamente que
atitudes mais repressivas para com as mulheres prenunciam períodos de belicismo
agressivo.
Centrando-se numa das figuras românticas mais famosas da
literatura e da ópera, o impetuoso sedutor Don Juan, a análise sociopsicológica
de Winter baseia-se largamente no estudo da frequência de certos temas em documentos
literários. Winter observa que, apesar da obrigatória condenação das acções de
Don Juan como “perversas” e “malditas”, ele é de facto idealizado como “o maior
sedutor de Espanha”. Assinala também que os motivos subjacentes de Don Juan são
a agressão, o ódio e o desejo de humilhar e punir as mulheres – não os impulsos
sexuais. Nota ainda algo de profunda importância psicológica e histórica: as
atitudes extremamente hostis para com as mulheres são características de épocas
em que as mulheres sofrem a máxima repressão por parte dos homens.
O caso
clássico relevante que cita é o da Espanha onde emergiu a lenda de Don Juan,
quando os espanhóis das classes superiores haviam adoptado o “costume mourisco
de manter as mulheres em isolamento”. A razão psicológica por detrás desta
hostilidade acrescida, explica Winter, é o relacionamento mãe-filho tornar-se
particularmente tenso em períodos assim – a par da generalidade das relações
feminino-masculino.
Contextualmente, torna-se evidente que a “motivação de poder”
de Winter é, na nossa terminologia, a pulsão androcrática para conquistar e
dominar outros seres humanos. Tendo estabelecido ser o rebaixamento das mulheres
por parte de Don Juan uma manifestação desta “motivação de poder”, Winter
tabula então a frequência das histórias sobre Don Juan na literatura de uma
nação relativamente aos períodos de expansão imperial e de guerra. O que
documentam as suas descobertas é aquilo que nós prediríamos socorrendo-nos do
modelo de alternância gilânico-androcrático: historicamente, as estórias do
mais famoso arquétipo de dominação masculina sobre as mulheres aumentam de
frequência antes e durante os períodos de militarismo e imperialismo
exacerbados.”
in O Cálice e a Espada, Riane Eisler, Via Óptima
sexta-feira, 18 de abril de 2014
O PECADO ORIGINAL
“É necessário reconstruir a contradição homem-mulher a
partir da negação do corpo da mulher, e portanto aquilo que na Psicanálise
tradicional aparece como enfermidade, neurose, desadaptação, etc. converte-se
numa contradição material. A mulher encontra-se desde o princípio sem uma forma
própria de existir, como se o existir da mulher já se encontrasse numa forma de
existência (mulher, mãe, filha, etc.) que a negam enquanto mulher. Ser mãe
significa existir e usar o corpo em função do homem, e por isso uma vez mais
carecer de sentido e de valor do próprio corpo e da própria existência a todos
os níveis.
Esta negação de si mesma esta interiorizada em níveis tão profundos
que é como se as mulheres, ao longo de toda a sua história, não tivessem feito
mais do que repetir esta história de autodestruição. Por consequência, o
discurso sobre a violência masculina, sobre o vexame, a dominação, sobre os
privilégios, etc. continuará sendo um discurso abstracto se não tivermos em
conta o aspecto interiorizado desta mesma violência, a violência como
autonegação, negação duma existência própria. A negação de si mesma é posta em
marcha a partir do nascimento, a partir da primeira relação com a mãe, onde
esta já não se encontra presente como mulher com o seu corpo de mulher, estando
ali como mulher do homem e para o homem. (…)
O facto da menina viver a relação com a pessoa do seu sexo
apenas através do homem, com essa espécie de filtro que existe entre ela e a
mãe, é a razão mais profunda da divisão que encontramos entre uma mulher e
outra mulher; nós as mulheres estamos divididas na nossa história desde sempre,
não apenas porque cada uma de nós está unida socialmente ao marido, às e aos
filh@s – este é apenas o aspecto visível da separação – a divisão dá-se a um
nível mais profundo, ao não conseguirmos olhar-nos uma à outra, ao não sermos
capazes de contemplar o nosso corpo sem termos sempre presente o olhar do
homem. (…)
Num artigo em “L’Erba Voglio”… insistia na relação
interrompida com a mãe, ou no mínimo deformada desde o começo precisamente
porque a mãe não é a mulher, apenas “a mãe”, ou seja, a mulher do homem. Do
facto de que a mulher não encontra na relação com a mãe o reconhecimento da sua
própria sexualidade, do seu próprio corpo, procede depois toda a história
sucessiva da relação com o homem como relação onde a negação de tudo aquilo que
tu és, da tua sexualidade, da tua forma de vida, já se produziu.”
Lea Melandri, La Infamia Originaria (excertos),
citada por Cacilda Rodrigañez Bustos em El Assalto al Hades
Imagem: Arthur Hughes
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
UNIR AS DUAS MULHERES - MANUAL PRÁTICO
Em meu entender a espiritualidade da Deusa é fundamental para a
união das duas mulheres, a santa e a pecadora, em nós. Se queremos que essa
união aconteça, para sermos inteiras, precisamos de actuar no cerne da questão e
ele reside nos símbolos e nos mitos que a cultura fornece à mulher para a
construção da sua identidade.
Nós não unimos as partes cindidas apenas com conversa, tal como da boca dos padres de coração
empedernido que na igreja nos mandam amar à e ao proxim@ nunca sairá sentimento algum que se aproxime ao amor, apenas ao temor....
Essa união tem de ser uma construção, uma tessitura que fazemos com vários fios. Os restos esfarrapados das nossas histórias, das nossas lendas e mitos perdidos, indo à procura deles. Pedacinho a pedacinho. Precisamos de escavar, camada a camada para irmos encontrando os tais fiozinhos. Às vezes parece até que encontrámos uma bela porção mas quando olhamos mais de perto verificamos que estão todos emaranhados e cheios da rançosa gordura patriarcal. Precisam de ser limpos e desembaraçados.
Essa união tem de ser uma construção, uma tessitura que fazemos com vários fios. Os restos esfarrapados das nossas histórias, das nossas lendas e mitos perdidos, indo à procura deles. Pedacinho a pedacinho. Precisamos de escavar, camada a camada para irmos encontrando os tais fiozinhos. Às vezes parece até que encontrámos uma bela porção mas quando olhamos mais de perto verificamos que estão todos emaranhados e cheios da rançosa gordura patriarcal. Precisam de ser limpos e desembaraçados.
Ainda ontem me pareceu ter encontrado mais um fiozinho para tecer a parte de Lilith na nossa tapeçaria.
Depois disso torna-se necessário abençoar o nosso trabalho e
colocá-lo no lugar de maior honra e reverência, o altar. Aproximar-me desse
altar enquanto sacerdotisa, invocar a Deusa, que está dentro e fora de mim, que
é imanente e transcendente, é para mim a nossa cura, a nossa possibilidade de renascermos inteiras depois do golpe mortal do patriarcado quando nos considerou indignas de o fazer. Ser
sacerdotisa é na prática quebrar esse interdito, desfazer essa maldição, curar
essa ferida, essa cisão.
Quando eu ergo a minha tecitura ao nível do sagrado, ela fica
imbuída desse poder supremo. Do poder de gerar mitos que nos favorecem e fortalecem, que nos ajudam a perceber quem somos fora da esfera do utilitarismo
patriarcal que nos anulou, obliterando, deturpando os nossos mitos para nos pôr ao seu serviço.
Não esquecer que para isso ele criou outros mitos, como a história de Adão e Eva, que foram contra nós e que isso aconteceu aí na esfera do religioso, do poder supremo…
Não esquecer que para isso ele criou outros mitos, como a história de Adão e Eva, que foram contra nós e que isso aconteceu aí na esfera do religioso, do poder supremo…
“A religião é a política ao mais alto nível”, o verdadeiro
centro de poder das nossas vidas. Como muitas feministas entenderam, “a
religião é um assunto demasiado importante para ser deixado nas mãos dos
patriarcas”. Um lugar com essa importância na nossa alma nunca ficará vazio. A
sede de sagrado, acredito, é inerente à nossa natureza, e por isso iremos
saciá-la com o que houver disponível: Deus, Deusa, Ciência, Consumo, Homem
Ideal, alguma coisa para lá mandamos…
©Luiza Frazão
Imagens - fachada do Goddess Hall, Benedict Street, Glastonbury, Inglaterra; a Deusa Anciã no Templo da Deusa de Glastonbury (foto de Anna-Saqqara Price)
terça-feira, 19 de novembro de 2013
REIS DA CRIAÇÃO POR DIREITO DIVINO
Encontrei há pouco uma foto do Ernest Hemingway e da modelo Jean Petchett e achei-a perfeita para ilustrar este excerto do Segundo Sexo, ou talvez até o livro inteiro...
"Em toda parte e em qualquer
época, os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentirem os reis da
criação. "Bendito seja Deus nosso Senhor e o Senhor de todos os
mundos por não me ter feito
mulher", dizem os judeus nas
suas preces matinais, enquanto as suas esposas murmuram com resignação: "Bendito seja o Senhor que me criou segundo a sua
vontade". Entre as mercês que
Platão agradecia aos deuses, a
maior se lhe afigurava o fato de ter sido criado livre e não
escravo e, a seguir, o de ser homem e não mulher. Mas os homens não
poderiam gozar plenamente esse privilégio, se não o
houvessem considerado alicerçado no
absoluto e na eternidade: de sua
supremacia procuraram fazer um direito. "Os que fizeram
e compilaram as leis, por serem homens, favoreceram seu próprio
sexo, e os jurisconsultos transformaram
as leis em princípios", diz
ainda Poulain de Ia Barre.
Legisladores, sacerdotes,
filósofos, escritores e sábios empenharam- se em demonstrar que a condição
subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa à
terra. As religiões forjadas pelos homens refletem essa
vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora,
puseram a filosofia e a
teologia a serviço de seus desígnios, como vimos
pelas frases citadas de Aristóteles e São Tomás."
Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo
terça-feira, 12 de novembro de 2013
MULHERES EM BRANCO - A UNIVERSALIDADE DA BEAN SIDHE DA TRADIÇÃO CELTA
Versão portuguesa:
MULHERES EM BRANCO
Uma mulher misteriosa, vestida de branco, anunciadora da morte, em pranto, é uma figura bem conhecida na tradição celta, a Bean Sidhe. No entanto, esta mulher não é um exclusivo do folclore celta. As suas irmãs parecem estar espalhadas por todo o lado, como é o caso de La Llorona no México, de La Sayona na Venezuela, de Paquita Muñoz nos Andes e de a Mulher de Branco no Brasil e em Portugal...
O branco que ela usa é tudo menos um símbolo de pureza e de inocência e as suas histórias dramáticas e dolorosas parecem estar sempre associadas a um homem de quem ela procura vingar-se. O fantasma desta mulher atormenta e aterroriza incautos condutores em nocturnas estradas isoladas.
Nesta comunicação tentaremos perceber de que modo estas Mulheres de/em Branco estão conectadas com as profundezas ignoradas da nossa alma.
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