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sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O Segundo Sexo, O Cálice e a Espada e o poder das mulheres do passado

 

(…) Simone de Beauvoir refere categoricamente que as mulheres “(…) não têm os meios concretos de se reunir em uma unidade que se afirmaria em se opondo. Não têm passado, não têm história”. E que “(…)  a divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico e não um momento da história humana”.

Ora, à luz do que atualmente sabemos, e do estudo da obra de Riane Eisler, consideramos agora que estes factos não são exatamente rigorosos. E que houve, efetivamente, civilizações evoluídas e avançadas, em que a “eterna” dependência feminina, que Simone de Beauvoir considera ter sido a sua única condição, pura e simplesmente não existia.

Sociedades “perdidas no tempo”, porque, tal como realça Riane Eisler, “(…) quando havia evidência de um período de tempo anterior em que homem e mulher viviam como iguais, esse período simplesmente era ignorado.”

Sociedades, sendo a Cretense um dos exemplos mais esplendorosos, em que se cultuava a Deusa-Mãe, onde a ordem social surge centrada na mulher e na mãe, que assumiam papéis sociais e religiosos importantes, como sacerdotisas, por exemplo. Onde detinham um elevado status, e uma elevada participação social. Sociedades com uma organização matrifocal e matrilinear, mas não matriarcal. Sociedades cuja base eram os princípios da igualdade, cooperação e de “parceria” entre os sexos, tanto na esfera privada da vida social, como na pública. A obra de Riane Eisler veio detalhar e lançar uma nova luz sobre estas culturas “diferentes”, provavelmente bastante mais igualitárias do que aquela em que De Beauvoir viveu…

O desconhecimento destes factos levaram Simone de Beauvoir a assumir à partida que as mulheres, e passo a citar: “(…) por mais longe que se remonte na história, sempre estiveram subordinadas ao homem”, e também que “(…) a mulher sempre foi, senão a escrava do homem ao menos sua vassala; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade de condições”…

Porém, e apesar dos postulados com que inicia a sua teoria, ainda assim de Beauvoir coloca uma questão, mais pertinente que as duas referidas inicialmente, e que nos fazem associá-la inevitavelmente à tese de Riane Eisler:

“Resta explicar por que o homem venceu desde o início. Parece que as mulheres deveriam ter sido vitoriosas.”

Questão que Riane Eisler nos respondeu, décadas mais tarde, contrariando o que se havia assumido como uma verdade absoluta: a dependência das mulheres em relação aos homens.

Não só, como já verificámos, isto nem sempre foi verdade, como a própria evolução humana deveria, precisamente, ter apontado para uma “saída vitoriosa das mulheres” – ou, pelo menos, para o que Eisler designa de uma “cultura de parceria”, em vez de uma “cultura de dominação”, de acordo com a sua Teoria da Transformação Social.

É muito interessante constatar como as duas teses, sendo contraditórias em alguns aspetos, encontram pontos de encontro surpreendentes.

À questão colocada por Simone de Beauvoir, “Por que este mundo sempre pertenceu aos homens e só hoje as coisas começam a mudar?”, a tese de Eisler responde de forma direta: tudo na evolução cultural humana parecia apontar nesse sentido; mas esta linha evolutiva foi interrompida.

Porque as antigas sociedades onde a Deusa era cultuada, baseada em valores “ditos femininos” de compaixão, paz, estabilidade, partilha, dádiva e parceria, foram sendo suplantadas, num dado momento da história da Humanidade, progressivamente, pelo poder bélico e destruidor de outros grupos sociais, para quem a conquista, a força física e a subjugação eram os valores dominantes.

A frase de Simone de Beauvoir, na página 13 da sua obra, é paradigmática: “Se a mulher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao essencial é porque não opera, ela própria, esse retorno.” E acaba por ser “visionária”, talvez sem o suspeitar. Porque se trata, de facto de um “retorno”, de um “regresso”, no âmbito da evolução humana, ao status quo das sociedades da Deusa, que engloba a mulher numa posição em pé de igualdade em relação ao homem, independente, em todas as vertentes da vida social, e em comunidades onde vigoram os valores “de parceria”.

Andreia Mendes

Imagem 1: https://educacao.uol.com.br/

Imagem 2: https://www.aneconomyofourown.org/riane-eisler

Imagem 3 : Creta

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele

Diana Vandenberg
https://www.boekwinkeltjes.nl/b/103915124/De-hermetische-schilderkunst-van-Diana/
"Se a função da fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também explicá-la pelo "eterno feminino" e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: que é uma mulher?

O próprio enunciado do problema sugere-me uma primeira resposta. É significativo que eu coloque este problema. Um homem não teria a ideia de escrever um livro sobre a situação singular que ocupam os machos na humanidade. Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: "Sou uma mulher". Essa verdade constitui o fundo sobre o qual se erguerá qualquer outra afirmação. Um homem não começa nunca por se apresentar como um indivíduo de determinado sexo: que ele seja homem é natural. É de maneira formal, nos registos dos cartórios ou nas declarações de identidade que as rubricas, masculino, feminino, aparecem como simétricas. A relação dos dois sexos não é a das duas electricidades, de dois polos. O homem representa a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos "os homens" para designar os seres humanos, tendo-se assimilado ao sentido singular do vocábulo vir o sentido geral da palavra homo. A mulher aparece como o negativo, de modo que toda determinação lhe é imputada como limitação, sem reciprocidade.

Agastou-me, por vezes, no curso de conversações abstractas, ouvir os homens dizerem-me: "Você pensa assim porque é uma mulher". Mas eu sabia que a minha única defesa era responder: "penso-o porque é verdadeiro", eliminando assim a minha subjectividade. Não se tratava, em hipótese alguma, de replicar: "E você pensa o contrário porque é um homem", pois está subentendido que o fato de ser um homem não é uma singularidade; um homem está no seu direito sendo homem, é a mulher que está errada. Praticamente, assim como para os Antigos havia uma vertical absoluta em relação à qual se definia a oblíqua, há um tipo humano absoluto que é o masculino. A mulher tem ovários, um útero; eis as condições singulares que a encerram na sua subjectividade; diz-se de bom grado que ela pensa com as suas glândulas. O homem esquece soberbamente que a sua anatomia também comporta hormonas e testículos. Encara o corpo como uma relação directa e normal com o mundo que acredita apreender na sua objectividade, ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que o especifica: um obstáculo, uma prisão. "A fêmea é fêmea em virtude de certa carência de qualidades", diz Aristóteles. "Devemos considerar o carácter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural". E Sto. Tomás, depois dele, decreta que a mulher é um homem incompleto, um ser "ocasional". É o que simboliza a história do Génese em que Eva aparece como extraída, segundo Bossuet, de um "osso supranumerário" de Adão. A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autónomo. "A mulher, o ser relativo...", diz Michelet. E é por isso que Benda afirma em Rapport d'Uriel: "O corpo do homem tem um sentido em si, abstracção feita do da mulher, ao passo que este parece destituído de significação se não se evoca o macho... O homem é pensável sem a mulher. Ela não, sem o homem". Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o "sexo" para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro.

A categoria do Outro é tão original quanto a própria consciência. Nas mais primitivas sociedades, nas mais antigas mitologias, encontra-se sempre uma dualidade que é a do Mesmo e a do Outro. A divisão não foi estabelecida inicialmente sob o signo da divisão dos sexos, não depende de nenhum dado empírico: é o que se conclui, entre outros, dos trabalhos de Granet sobre o pensamento chinês de Dumézil sobre as índias e Roma. Nos pares Varuna-Mitra, Urano-Zeus, Sol-Lua, Dia-Noite, nenhum elemento feminino se acha implicado a princípio; nem tampouco na oposição do Bem ao Mal, dos princípios fastos e nefastos, da direita e da esquerda, de Deus e Lúcifer; a alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano. Nenhuma coletividade se define nunca como Uma sem colocar imediatamente a Outra diante de si. Basta três viajantes reunidos por acaso num mesmo compartimento para que todos os demais viajantes se tornem "os outros" vagamente hostis. Para os habitantes de uma aldeia, todas as pessoas que não pertencem ao mesmo lugarejo são "outros"' e suspeitos; para os habitantes de um país, os habitantes de outro país são considerados "estrangeiros". Os judeus são "outros" para o antissemita, os negros para os racistas norte-americanos, os indígenas para os colonos, os proletários para as classes dos proprietários."

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo

https://joaocamillopenna.files.wordpress.com/2018/03/beauvoir-o-segundo-sexo-volume-11.pdf