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quarta-feira, 25 de março de 2026

Portugal tem uma Missão Sagrada?

 

Temos enquanto nação uma missão sagrada?

O conceito de "povo escolhido" ou de "missão sagrada" é muito comum a vários povos e nações, e Portugal também tem o seu. Isto é algo que pode ser visto como positivo, pode ser factor de coesão e motivação do grupo, mas não deixa de representar riscos, podendo ser gerador de conflitos, quando interpretado como superioridade sobre outros - uma realidade que infelizmente muito turva o nosso presente.

Alguns exemplos históricos e culturais são:

- O Povo Judeu (Israelitas/Judeus)

No judaísmo, os judeus são tradicionalmente vistos como o "povo escolhido" por Deus (Yahweh). Essa ideia vem da Torá (especialmente Deuteronómio e Êxodo), onde Deus estabelece uma aliança com os israelitas no Monte Sinai. A missão sagrada é descrita como não sendo exactamente de superioridade ou privilégios (acho que nunca é o caso), mas de “responsabilidade”, sendo a primeira a de “obedecer aos mandamentos”, ser um "reino de sacerdotes e nação santa" e servir como "luz para as nações", proclamando a verdade de Deus e exemplificando ética e justiça ao mundo…

Essa noção de "escolhidos" influenciou profundamente a identidade judaica, sendo interpretada de formas variadas nas diferentes correntes (ortodoxa, conservadora, reformada).

 - Os Cristãos e o conceito de "Novo Israel"

Muitos grupos cristãos ao longo da história se viram como herdeiros ou substitutos espirituais do povo escolhido do Antigo Testamento. Exemplos incluem:

- Puritanos ingleses e colonos da Nova Inglaterra (século XVII): John Winthrop descreveu a colónia como uma "cidade sobre um monte", uma missão divina de criar uma sociedade modelo que iluminasse o mundo com valores cristãos e servisse de exemplo para a Europa.

- Nacionalismo cristão em vários países: Inglaterra, Países Baixos e outros consideraram-se povos eleitos em momentos de conflito (como contra católicos ou muçulmanos), com slogans como "Gott mit uns" (Deus connosco) em contextos alemães.

- No cristianismo evangélico e em missões, há a ideia duma missão global de evangelizar "todos os povos" (Mateus 28:19), com alguns grupos vendo a sua nação como instrumento divino para isso.

- Estados Unidos e o Destino Manifesto (Manifest Destiny)

No século XIX, os americanos (especialmente protestantes brancos) acreditaram que tinham uma “missão divina” de expandir-se de costa a costa na América do Norte, levando "civilização", democracia, protestantismo e progresso aos territórios "selvagens". O termo foi cunhado pelo jornalista John L. O’Sullivan em 1845, mas as raízes vêm dos puritanos.

Essa doutrina justificou a expansão para o Oeste, a Guerra Mexicano-Americana e deslocamento de povos indígenas, vistos como obstáculo à vontade de Deus...

Era vista como "óbvia" (manifest) e certa (destiny), concedida pela Providência divina. Influenciou até visões modernas de "excepcionalismo americano" e intervenções globais. Recentemente, foi citada em contextos políticos como uma forma dos EUA se verem a si mesmos como "nação escolhida".

Outros exemplos históricos e religiosos

- Muçulmanos (em certos contextos expansionistas iniciais): A ummah (comunidade) islâmica via a expansão como jihad (esforço) para trazer a submissão a Deus (islam) ao mundo, dividindo o mundo em Dar al-Islam (casa da paz) e Dar al-Harb (casa da guerra). Entretanto, não é hoje em dia uma visão consensual entre todos os muçulmanos.

- Impérios coloniais europeus (Portugal, Espanha, Inglaterra, França): Muitos justificavam a colonização como missão sagrada de cristianizar "pagãos" e "civilizar" (ligado à Doutrina da Descoberta e bulas papais). Os portugueses e espanhóis falavam em "missão civilizadora" com bênção divina.

- Japão imperial, a “Terra dos deuses” (shinkoku) com missão divina, a França revolucionária: Missão laica de espalhar liberdade e direitos humanos e os movimentos seculares do séc. XX: Comunismo (proletariado como redentor) e nazismo (raça ariana como portadora da luz).

- Outros nacionalismos: Nações como a Rússia (com ideias de "Terceira Roma" ortodoxa), a França revolucionária (missão de liberdade) ou até movimentos seculares que adoptam linguagem quase religiosa de "destino histórico".

Agora atenção a este caso dos Povos indígenas:

Muitos grupos nativos (na América, África, Ásia, Austrália) veem a sua terra como sagrada e a sua existência como parte dum equilíbrio cósmico ou missão de custodiar a natureza e as relações com os espíritos/ancestrais. Não é exatamente uma "missão de conquista", mas de harmonia e preservação — oposta à visão expansionista.

Isto é muito importante e faz-nos pensar em quem era mesmo mais civilizado - os invasores ou os invadidos? Porque esta é uma ideia de missão em que não temos resquícios de expansionismo como nas precedentes.

Ora, na perspectiva do cientista Nassim Haramein estes ideais expansionistas são profundamente falocráticas, ou seja, seguem a lógica do falo com a sua urgência no crescimento e na expansão, que é depois seguida de explosão; uma ideia que, segundo a mesma fonte, está no cerne do funcionamento de tudo neste mundo, desde a economia à ciência e tecnologia, dos foguetões ao motor do nosso carro.

Muitas vezes, como é o caso entre nós, estes ideais de “missão sagrada” da nação, estas elucubrações mentais, têm um contexto aristocrático e militarista, reflectindo hierarquias de "poder sobre" que sempre tiveram os meios necessários para dominarem a narrativa.

Uma narrativa que tem justificado o que cada vez fica mais difícil de justificar, que é a nossa pesada herança colonial...

E o feminino aqui acaba por ser sempre relegado para a esfera do ideal, do sagrado, do inatingível (até se fala de na origem ter havido uma grande mãe, Ana...) tudo muito elevado, muito Cristo e Quinto Império, enquanto no mundo real vemos a dominação de elites patriarcais sem escrúpulos, compostas tantas vezes por pedófilos, que nunca puderam crescer emocionalmente, contentes por conservarem a mulher real atrás, num conveniente estádio de impotente e inoperante infantilidade...

Então, tomo como válida a missão sagrada dos povos indígenas que referi acima, sendo que aqui temos um fundo mítico que pode alimentar essa ideia: o retorno ao nosso Jardim das Hespérides, em que feminino e masculino estejam em equilíbrio e parceria, com o soft power do primeiro contendo o segundo, evitando que este aja sozinho e solto pelo mundo, incontido e descontrolado, semeando terror e destruição. 

Assim seja!

@Luiza Frazão

(Fontes de pesquisa: Google)

 Imagens:

1. Cabeça da Velha, Serra da Estrela

2. Santa Iria, Torre da Magueixa

3. Santa Brígida, Monchique

4. Pedra Mãe, Serra da Estrela

5. Gruta das Alcobertas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 22 de março de 2026

Amaterasu - Deusa Sol do Japão

 

Nesta época do ano, Equinócio da Primavera, em que celebramos Trebaruna e outras Deusas solares de outros panteões divinos, lembrar esta que é uma das mais importantes e veneradas até hoje, com o seu mito, santuário e gruta sagrada no Japão.

Amaterasu é uma Deusa do Sol e a Sua história é uma das mais importantes e conhecidas da tradição do Japão. Ela é considerada a ancestral da família imperial japonesa e uma das principais divindades do Xintoísmo, a religião tradicional do país. Esta deusa está ligada ao brilho do sol, à ordem do mundo e ao renascimento da luz.

No mito de Amaterasu, conta-se que a Deusa tinha um irmão tempestuoso, caótico e impulsivo, Susanoo, divindade do mar e das tempestades. Este, num acesso de fúria, destruiu os campos e cometeu actos tão violentos, que perturbaram a ordem e chocaram profundamente Amaterasu.

E a Deusa retirou-se do mundo, escondendo-se na caverna sagrada de Ama-no-Iwato.

Sem o sol, o mundo mergulhou na escuridão total.
As colheitas morreram e o equilíbrio do cosmos foi profundamente alterado.

Desesperadas, as outras divindades reuniram-se para trazer a luz de volta.

Uma deusa chamada Ame-no-Uzume teve uma ideia: fez uma dança selvagem e sagrada, cheia de riso e provocação. Os deuses começaram a rir alto — uma gargalhada que ecoou até à caverna. Curiosa, Amaterasu abriu ligeiramente a porta para ver o que se passava…

Nesse momento, colocaram diante dela um espelho sagrado: Yata no Kagami. Ao ver o seu próprio brilho refletido, Amaterasu ficou fascinada e saiu da caverna. Rapidamente, os Deuses fecharam a entrada, impedindo-A de voltar a esconder-se. E assim a luz regressou ao mundo.

Amaterasu continua a ser venerada no santuário de Ise Grand Shrine, um dos lugares mais sagrados do Japão.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

São Valentim - Um dia para celebrar o Amor

Precisamos de estar numa relação para celebrá-lo?

 Não estou numa relação, mas isso não me impede de gostar e de celebrar este dia dedicado ao amor romântico. A ideia desta celebração parece ser romana, parte do culto à Deusa Juno, Juno Februa, ou Februata, que também implicava rituais de limpeza espiritual e preparação para o novo ciclo. Dentro desse contexto, acontecia a Lupercalia, a 15 de Fevereiro, um ritual arcaico ligado à fertilidade, ao desejo e à renovação da vida após o Inverno. O que se celebrava não era propriamente o amor romântico, mas antes a força vital, sexual e regeneradora.

O que acontece depois é o clássico processo romano-cristão, ou seja, no séc. III–V, a Igreja tenta neutralizar rituais pagãos populares. A Lupercalia, porém, era particularmente difícil de erradicar, então, em 496 d.C., o Papa Gelásio I condena oficialmente esta celebração pagã e pouco depois, 14 de Fevereiro passa a ser associado a São Valentim.

Existindo vários Valentins nos martirológios cristãos, e nenhum tendo ligação clara ao amor romântico, esta associação só aparece muitos séculos depois, na Idade Média, sobretudo com Chaucer, a poesia cortês e a ideia de que as aves acasalam em Fevereiro.

Na verdade, Geoffrey Chaucer, um poeta inglês do século XIV (c. 1343–1400), foi quem, pela primeira vez, ligou o dia de São Valentim ao amor romântico, ao escrever que nesse dia de 14 de Fevereiro as aves escolhiam o seu par — uma ideia poética que depois se espalhou pela Europa e acabou por dar origem à tradição, quando a nobreza inglesa pegou na ocasião e começou a trocar poemas e a fazer jogos amorosos, apelidando de Valentine a pessoa amada. Nos séculos XVI–XVII, a prática saiu lentamente para fora da corte; no século XVIII, tornou-se um costume popular (bilhetes, versos) e entretanto a industrialização do século XIX, possibilitou a troca de cartões impressos. E o caso tornou-se mesmo uma tradição nacional.

A Portugal, todavia, a ideia desta celebração chega muito mais tarde, apenas no século XX. Embora São Valentim fosse um dos santos do calendário litúrgico, não tinha qualquer tradição amorosa associada. Mas nas décadas de 1950–60, começa a haver uma influência estrangeira muito discreta, até que, nos anos 1980–90, a ideia acabou por consolidar-se graças à influência dos media, da publicidade e do consumismo crescente. Ficámos assim com mais um dia para celebrar no nosso calendário, uma importação cultural moderna, o “Dia das e dos Namorados”!

Não é que no nosso calendário anual não existissem já outros dias especialmente dedicados ao mesmo tema, como o  dia 1 de Maio e o dia 13 de Junho. Porém, confesso que celebrações destas são muito bem-vindas em Fevereiro, por nos ajudarem a melhor atravessar os rigores do Inverno.

Posto isto, embora à vista desarmada, estas festas pareçam exigir condições especiais para poderem acontecer (estar numa relação, no caso), e por isso mesmo poderem ter efeitos contraproducentes e infligir mais penas do que alegrias e prazeres, se não tivermos cuidado, acho que ninguém se deve sentir excluído. O que está em honra é demasiado precioso para não ser festejado.

O meu lema é nunca ficar de fora duma festa que ache que é por uma boa causa, e inventar uma forma criativa de participar, convertendo eventual frustração em diversão e até criando a minha própria tradição. Esta implica receitas especiais para o almoço ou jantar do dia, com os adereços a combinar; escrever uma carta de amor a mim mesma; comprar rosas vermelhas e uma prendinha – tudo dependendo do tempo disponível, e da disposição.

Mas é claro que o assunto merece alguma reflexão séria, já que o amor romântico foi a programação mais debilitante a que fomos sujeitas, pelas desigualdades e desequilíbrio nas obrigações que implica; pelas expectativas excessivas que recaem sobre cada uma das partes; pelo mundo de ilusão e propaganda que nos leva à demanda infrutífera pelo príncipe encantado, ou pela alma gémea… E isso apesar dos versos das canções mais populares sempre terem expressado da forma mais simples, ou simplória, a ideia de que existe logo na busca do amor, assim sem mais, um obstáculo intransponível –  uma das partes sonha com o plural e a outra, apenas e tão somente, com a exclusividade absoluta – Que me voy a morir, que me muero de amor, que me muero de amor, por las colombianas!...

Mas não é que não acredite; simplesmente o campo do amor é uma escola sagrada, para gente adulta ou que o quer vir a ser.

E termino com o meu poema de amor preferido:

Quando o amor vos chamar, segui-o, 

Embora os seus caminhos sejam agrestes e escarpados;

E quando ele vos envolver com as suas asas, cedei-lhe,

Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;

E quando ele vos falar, acreditai nele,

Embora a sua voz possa despedaçar os vossos sonhos

Como o vento devasta o jardim.

Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,

Assim ele vos crucifica.

E da mesma forma que contribui para o vosso crescimento,

Trabalha para vossa poda.

 

E da mesma forma que alcança a vossa altura

E acaricia os vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,

Assim também desce até às vossas raízes

E as sacode no seu apego à terra.

Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.

Ele vos debulha para expor a vossa nudez.

Ele vos peneira para vos libertar das palhas.

Ele vos mói até à extrema brancura.

Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.

Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma

No pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas, o amor operará em vós

Para que conheçais os segredos dos vossos corações

E, com esse conhecimento,

Vos convertais no pão místico do banquete divino.

 

Todavia, se no vosso temor,

Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,

Então seria melhor para vós que cobrísseis a vossa nudez

E abandonásseis a eira do amor,

Para entrar num mundo sem estações,

Onde rireis, mas não todos os vossos risos,

E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.

O amor nada dá senão de si próprio

E nada recebe senão de si próprio.

O amor não possui, nem se deixa possuir.

Porque o amor basta-se a si mesmo.

Quando um de vós ama, que não diga:

"Deus está no meu coração",

Mas que diga antes:

"Eu estou no coração de Deus".

 

E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,

Pois o amor, se vos achar dignos,

Determinará ele próprio o vosso curso.

 

O amor não tem outro desejo

Senão o de atingir a sua plenitude.

Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,

Sejam estes os vossos desejos:

De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho

Que canta a sua melodia para a noite;

De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;

De ficardes feridos pela vossa própria compreensão do amor

E de sangrardes de boa vontade e com alegria;

De acordardes na aurora com o coração alado

E agradecerdes por um novo dia de amor;

De descansardes ao meio-dia

E meditardes sobre o êxtase do amor;

De voltardes para casa à noite com gratidão;

 

E de adormecerdes com uma prece no coração para a/o bem-amado,

E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

 

Gibran Khalil Gibran
Citações do livro o Profeta.

 

Khalil Gibran (1883 – 1931), ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa.

©Luiza Frazão