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quinta-feira, 17 de maio de 2018

REPRODUÇÃO HUMANA - ou as imagens distorcidas que têm permeado a nossa perceção


 Se não tivermos uma interpretação da fertilização que nos permita olhar para o óvulo como ativo, nunca iremos procurar as moléculas que podem provar isso. Nós simplesmente não podemos encontrar atividades que não conseguimos visualizar. -Scott Gilbert

Entendendo o milagre da concepção

Para nós, seres humanos, não há nada tão excitante como o milagre da concepção, juntamente com os complexos processos biológicos e práticas culturais que levam à criação de uma nova vida. A relação entre cultura e biologia produz insights infinitos para quem aproveita o tempo para explorar e reflectir. Num mundo governado pela força e pelo poder, com uma longa história de guerra, não é de admirar que a nossa noção de concepção refletisse a noção de que o espermatozoide penetra o óvulo como se estivesse invadindo uma terra estrangeira. É por isso que as descobertas recentes sobre o momento da concepção que nos dizem mais sobre receptividade, cooperação e escolha feminina, em oposição à conquista, podem fornecer uma bela perspectiva sobre como podemos remodelar a nossa cultura de forma a que espelhe melhor a nossa biologia interior.
Como seres sociais, a maioria de nós passa uma boa parte do nosso tempo animad@s pelo amor, a paixão e a atração. Os bardos cantavam, escreviam poemas, oferecia-se flores, fazia-se duelos e muito mais para ganhar o favor duma bela donzela. Existem mecanismos biológicos que moldam esse comportamento, que é central em grande parte de nossos tesouros artísticos e culturais. Na verdade, trata-se dum coquetel sagrado, misterioso, cultural e biológico, de infinitas possibilidades criativas.

Tudo começa com um beijo

O nosso nariz e a nossa boca são cobertas por uma substância oleosa chamada sebo. Pesquisas mostram que essa substância contém feromonas, que são os produtos químicos que transmitem informações sobre a composição biológica duma pessoa. A troca de feromonas durante um beijo faz com que as pessoas envolvidas fiquem mais ou menos sexualmente atraídas uma pela outra, dependendo do que os seus sistemas biológicos detetam. Aparentemente, as pessoas preferem as feromonas de indivíduos que têm um tipo de sistema imunológico diferente do delas. Os biólogos e as biólogas evolucionistas acreditam que essa diferença genética é boa para o sistema imunológico da futura prole.

  Hoje em dia, a teoria mais aceite do beijo é que os seres humanos o praticam porque ele os ajuda a detetar um parceiro ou uma parceira de qualidade. Quando os nossos rostos estão próximos, as nossas feromonas “falam”, trocando informações biológicas sobre se duas pessoas serão ou não fortes criadoras. – Livescience

Seres conscientes continuam a ser governados pela biologia

A neurobiologia do amor e dos relacionamentos mostra-nos que é possível viciarmo-nos nos nossos próprios neurotransmissores, mas o nosso neocórtex permite-nos direcionar a nossa intenção consciente. É esse belo equilíbrio entre o impulso inconsciente e a intenção consciente que nos torna seres humanos tão interessantes (pelo menos para nós mesmos). É aqui que práticas culturais como a sexualidade sagrada e o tantra se tornam a expressão refinada da humanidade que vive em harmonia com a sua natureza biológica.

Se um ovo é quebrado por uma força externa, a vida termina. Se for quebrado pela força interior, a vida começa. Grandes coisas sempre começam de dentro. -Jim Kwik

O Ovo Todo-Poderoso

Conhecemos o estafado mito do exército de esperma guerreiro invadindo o útero para salvar a donzela em perigo (o ovo moribundo), lutando entre si pelo caminho para dominar, com o vencedor penetrando no óvulo e criando vida. A metáfora deu origem a grandes contos de fadas e filmes dos Monty Python, mas na verdade não é muito precisa, biologicamente falando. Os espermatozoides são na verdade nadadores frágeis, e os mais fortes ajudam os mais fracos através da mucosa uterina, semelhante à maneira como as aves migratórias ou uma equipe de ciclistas se revezam na liderança. Quando o espermatozoide chega ao destino, é o óvulo que escolhe o esperma e o atrai para si.


Às vezes a mente quer o que o corpo não quer e vice-versa. Às vezes, a mente muda com o fluxo e refluxo de hormonas. Não é de admirar que nós seres humanos tenhamos desenvolvido tradições e mitos culturais tão elaborados para nos ajudar a navegar neste drama tão primitivo. Pode ser uma luta, uma conquista ou mesmo uma dança harmoniosa, dependendo de como gostamos de nos relacionar com ela, mas se for vista com respeito mútuo, ela sempre produzirá resultados positivos.

Os seus esforços (de Emily Martin) para destacar as imagens masculinas distorcidas que permeiam a nossa visão da reprodução colocaram-na no centro de um crescente debate sobre como os mitos culturais podem transformar-se em mitos científicos e vice-versa. Discovery Magazine
Para destruir ainda mais o mito comum, o espermatozoide selecionado realmente tenta nadar para longe do óvulo, mas é amarrado ao óvulo pelas hormonas femininas. A membrana ao redor do ovo literalmente abre-se e engole o espermatozoide. Embora a feroz metáfora da batalha sempre tenha um vencedor dominando, parece que esse processo é mais sobre cooperação por um desejo compartilhado de criar vida. Agora é amplamente conhecido e aceite que a experiência da vida uterina e do nascimento deixam impressões emocionais para a vida inteira, na verdade cada pessoa tem a sua própria história de criação!

Antes da fertilização, uma nuvem de células ao redor do óvulo liberta a progesterona, a hormona sexual feminina, provocando um influxo de cálcio no espermatozoide. Essa enxurrada de cálcio faz com que o espermatozoide bata rapidamente seus flagelos (membranas microscópicas que lhe permitem nadar), uma ação necessária para penetrar através do revestimento de proteína gelatinosa protetora do ovo. A progesterona também foi implicada no fornecimento de um elemento químico pelo qual os espermatozoides podem navegar em direção ao óvulo. – The Scientist

Conquistar ou cooperar?

Manipular e controlar os resultados é algo que os seres humanos fazem muito bem. Cada género tem o seu próprio estilo, pontos fortes e fracos quando se trata de atração no romance que leva à procriação. Como o mito versus a realidade biológica molda a maneira como nos envolvemos nessa dança? O cavaleiro de armadura brilhante e o mito da donzela em perigo foi adotado em dinâmicas sociais bem além dos filmes ou contos de fadas. O mundo é governado por histórias ... Como é que o mundo muda quando mudam as nossas histórias para descrevê-lo?

Emily Martin, Ph.D em Antropologia Cultural, passou muito tempo explorando esse conceito e a maneira como ele influencia a investigação científica, bem como crenças sociais sobre a biologia humana, os nossos corpos e o mundo ao nosso redor. No seu livro, A mulher no corpo: uma análise cultural da reprodução, ela estudou a dialética entre metáforas médicas para os processos reprodutivos das mulheres e as próprias opiniões das mulheres sobre esses processos. Scott Gilbert, um biólogo do desenvolvimento do Swarthmore College "prefere pensar no óvulo em diálogo com o espermatozoide em vez de engolindo-o".

Se não temos uma interpretação da fertilização que nos permita olhar para o óvulo como ativo, nunca iremos procurar as moléculas que podem provar isso. Nós simplesmente não podemos encontrar atividades que não conseguimos visualizar. -Scott Gilbert

Nós prestamos atenção à ciência, mas os e as cientistas também são influenciadas pelos nossos mitos e atitudes culturais. Os seres humanos são convidados a cooperar de maneiras sem precedentes à medida que lidamos com questões climáticas globais. A noção de conquista já não serve como forma de nos relacionarmos entre os géneros nem como nos envolvemos com o meio ambiente. A observação biológica, assim como a atenção e a presença espirituais, podem mostrar-nos novas maneiras de moldar as nossas vidas, a cultura e o mundo. É uma dança subtil e bela que requer partes iguais de escuta, observação e ação. Todos e todas nós somos recipientes deste presente chamado vida, como é que vamos devolver esse presente ao mundo à nossa volta?

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