Precisamos de estar numa relação para celebrá-lo?
Não estou numa relação, mas isso não me impede de gostar e
de celebrar este dia dedicado ao amor romântico. A ideia desta celebração
parece ser romana, parte do culto à Deusa Juno, Juno Februa, ou Februata, que
também implicava rituais de limpeza espiritual e preparação para o novo ciclo.
Dentro desse contexto, acontecia a Lupercalia, a 15 de Fevereiro, um ritual
arcaico ligado à fertilidade, ao desejo e à renovação da vida após o Inverno. O
que se celebrava não era propriamente o amor romântico, mas antes a força
vital, sexual e regeneradora.
O que acontece depois é o clássico processo romano-cristão,
ou seja, no séc. III–V, a Igreja tenta neutralizar rituais pagãos populares. A
Lupercalia, porém, era particularmente difícil de erradicar, então, em 496
d.C., o Papa Gelásio I condena oficialmente esta celebração pagã e pouco
depois, 14 de Fevereiro passa a ser associado a São Valentim.
Existindo vários Valentins nos martirológios cristãos, e
nenhum tendo ligação clara ao amor romântico, esta associação só aparece muitos
séculos depois, na Idade Média, sobretudo com Chaucer, a poesia cortês e a
ideia de que as aves acasalam em Fevereiro.
Na verdade, Geoffrey Chaucer, um poeta inglês do século XIV
(c. 1343–1400), foi quem, pela primeira vez, ligou o dia de São Valentim ao
amor romântico, ao escrever que nesse dia de 14 de Fevereiro as aves escolhiam
o seu par — uma ideia poética que depois se espalhou pela Europa e acabou por
dar origem à tradição, quando a nobreza inglesa pegou na ocasião e começou a
trocar poemas e a fazer jogos amorosos, apelidando de Valentine a pessoa
amada. Nos séculos XVI–XVII, a prática saiu lentamente para fora da corte; no
século XVIII, tornou-se um costume popular (bilhetes, versos) e entretanto a
industrialização do século XIX, possibilitou a troca de cartões impressos. E o
caso tornou-se mesmo uma tradição nacional.
A Portugal, todavia, a ideia desta celebração chega muito
mais tarde, apenas no século XX. Embora São Valentim fosse um dos santos do
calendário litúrgico, não tinha qualquer tradição amorosa associada. Mas nas
décadas de 1950–60, começa a haver uma influência estrangeira muito discreta,
até que, nos anos 1980–90, a ideia acabou por consolidar-se graças à influência
dos media, da publicidade e do consumismo crescente. Ficámos assim com mais um
dia para celebrar no nosso calendário, uma importação cultural moderna, o “Dia das
e dos Namorados”!
Não é que no nosso calendário anual não existissem já outros
dias especialmente dedicados ao mesmo tema, como o dia 1 de Maio e o dia 13 de Junho. Porém, confesso
que celebrações destas são muito bem-vindas em Fevereiro, por nos ajudarem a melhor
atravessar os rigores do Inverno.
Posto isto, embora à vista desarmada, estas festas pareçam
exigir condições especiais para poderem acontecer (estar numa relação, no
caso), e por isso mesmo poderem ter efeitos contraproducentes e infligir mais
penas do que alegrias e prazeres, se não tivermos cuidado, acho que ninguém se
deve sentir excluído. O que está em honra é demasiado precioso para não ser
festejado.
O meu lema é nunca ficar de fora duma festa que ache que é
por uma boa causa, e inventar uma forma criativa de participar, convertendo
eventual frustração em diversão e até criando a minha própria tradição. Esta
implica receitas especiais para o almoço ou jantar do dia, com os adereços a
combinar; escrever uma carta de amor a mim mesma; comprar rosas vermelhas e uma
prendinha – tudo dependendo do tempo disponível, e da disposição.
Mas é claro que o assunto merece alguma reflexão séria, já que o
amor romântico foi a programação mais debilitante a que fomos sujeitas, pelas
desigualdades e desequilíbrio nas obrigações que implica; pelas expectativas
excessivas que recaem sobre cada uma das partes; pelo mundo de ilusão e
propaganda que nos leva à demanda infrutífera pelo príncipe encantado, ou pela alma
gémea… E isso apesar dos versos das canções mais populares sempre terem expressado
da forma mais simples, ou simplória, a ideia de que existe logo na busca do amor, assim
sem mais, um obstáculo intransponível – uma das partes sonha com o plural e a outra, apenas
e tão somente, com a exclusividade absoluta – Que me voy a morir, que me
muero de amor, que me muero de amor, por las colombianas!...
Mas não é que não acredite; simplesmente o campo do amor é
uma escola sagrada, para gente adulta ou que o quer vir a ser.
E termino com o meu poema de amor preferido:
Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora os seus caminhos sejam
agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com as
suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua
plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai
nele,
Embora a sua voz possa despedaçar
os vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor
vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui
para o vosso crescimento,
Trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança a
vossa altura
E acaricia os vossos ramos mais
tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até às vossas
raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos
aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor a vossa
nudez.
Ele vos peneira para vos libertar
das palhas.
Ele vos mói até à extrema
brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis
maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo
sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará
em vós
Para que conheçais os segredos dos
vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do
banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor
e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que
cobrísseis a vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem
estações,
Onde rireis, mas não todos os
vossos risos,
E chorareis, mas não todas as
vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa
possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não
diga:
"Deus está no meu
coração",
Mas que diga antes:
"Eu estou no coração de
Deus".
E não imagineis que possais
dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso
curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua
plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes
ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes
como um riacho
Que canta a sua melodia para a
noite;
De conhecerdes a dor de sentir
ternura demasiada;
De ficardes feridos pela vossa
própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e
com alegria;
De acordardes na aurora com o
coração alado
E agradecerdes por um novo dia de
amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do
amor;
De voltardes para casa à noite com
gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no
coração para a/o bem-amado,
E nos lábios uma canção de
bem-aventurança.
Gibran Khalil GibranCitações do livro o Profeta.
Khalil Gibran (1883 – 1931), ensaísta, filósofo,
prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa.
©Luiza Frazão