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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

São Valentim - Um dia para celebrar o Amor

Precisamos de estar numa relação para celebrá-lo?

 Não estou numa relação, mas isso não me impede de gostar e de celebrar este dia dedicado ao amor romântico. A ideia desta celebração parece ser romana, parte do culto à Deusa Juno, Juno Februa, ou Februata, que também implicava rituais de limpeza espiritual e preparação para o novo ciclo. Dentro desse contexto, acontecia a Lupercalia, a 15 de Fevereiro, um ritual arcaico ligado à fertilidade, ao desejo e à renovação da vida após o Inverno. O que se celebrava não era propriamente o amor romântico, mas antes a força vital, sexual e regeneradora.

O que acontece depois é o clássico processo romano-cristão, ou seja, no séc. III–V, a Igreja tenta neutralizar rituais pagãos populares. A Lupercalia, porém, era particularmente difícil de erradicar, então, em 496 d.C., o Papa Gelásio I condena oficialmente esta celebração pagã e pouco depois, 14 de Fevereiro passa a ser associado a São Valentim.

Existindo vários Valentins nos martirológios cristãos, e nenhum tendo ligação clara ao amor romântico, esta associação só aparece muitos séculos depois, na Idade Média, sobretudo com Chaucer, a poesia cortês e a ideia de que as aves acasalam em Fevereiro.

Na verdade, Geoffrey Chaucer, um poeta inglês do século XIV (c. 1343–1400), foi quem, pela primeira vez, ligou o dia de São Valentim ao amor romântico, ao escrever que nesse dia de 14 de Fevereiro as aves escolhiam o seu par — uma ideia poética que depois se espalhou pela Europa e acabou por dar origem à tradição, quando a nobreza inglesa pegou na ocasião e começou a trocar poemas e a fazer jogos amorosos, apelidando de Valentine a pessoa amada. Nos séculos XVI–XVII, a prática saiu lentamente para fora da corte; no século XVIII, tornou-se um costume popular (bilhetes, versos) e entretanto a industrialização do século XIX, possibilitou a troca de cartões impressos. E o caso tornou-se mesmo uma tradição nacional.

A Portugal, todavia, a ideia desta celebração chega muito mais tarde, apenas no século XX. Embora São Valentim fosse um dos santos do calendário litúrgico, não tinha qualquer tradição amorosa associada. Mas nas décadas de 1950–60, começa a haver uma influência estrangeira muito discreta, até que, nos anos 1980–90, a ideia acabou por consolidar-se graças à influência dos media, da publicidade e do consumismo crescente. Ficámos assim com mais um dia para celebrar no nosso calendário, uma importação cultural moderna, o “Dia das e dos Namorados”!

Não é que no nosso calendário anual não existissem já outros dias especialmente dedicados ao mesmo tema, como o  dia 1 de Maio e o dia 13 de Junho. Porém, confesso que celebrações destas são muito bem-vindas em Fevereiro, por nos ajudarem a melhor atravessar os rigores do Inverno.

Posto isto, embora à vista desarmada, estas festas pareçam exigir condições especiais para poderem acontecer (estar numa relação, no caso), e por isso mesmo poderem ter efeitos contraproducentes e infligir mais penas do que alegrias e prazeres, se não tivermos cuidado, acho que ninguém se deve sentir excluído. O que está em honra é demasiado precioso para não ser festejado.

O meu lema é nunca ficar de fora duma festa que ache que é por uma boa causa, e inventar uma forma criativa de participar, convertendo eventual frustração em diversão e até criando a minha própria tradição. Esta implica receitas especiais para o almoço ou jantar do dia, com os adereços a combinar; escrever uma carta de amor a mim mesma; comprar rosas vermelhas e uma prendinha – tudo dependendo do tempo disponível, e da disposição.

Mas é claro que o assunto merece alguma reflexão séria, já que o amor romântico foi a programação mais debilitante a que fomos sujeitas, pelas desigualdades e desequilíbrio nas obrigações que implica; pelas expectativas excessivas que recaem sobre cada uma das partes; pelo mundo de ilusão e propaganda que nos leva à demanda infrutífera pelo príncipe encantado, ou pela alma gémea… E isso apesar dos versos das canções mais populares sempre terem expressado da forma mais simples, ou simplória, a ideia de que existe logo na busca do amor, assim sem mais, um obstáculo intransponível –  uma das partes sonha com o plural e a outra, apenas e tão somente, com a exclusividade absoluta – Que me voy a morir, que me muero de amor, que me muero de amor, por las colombianas!...

Mas não é que não acredite; simplesmente o campo do amor é uma escola sagrada, para gente adulta ou que o quer vir a ser.

E termino com o meu poema de amor preferido:

Quando o amor vos chamar, segui-o, 

Embora os seus caminhos sejam agrestes e escarpados;

E quando ele vos envolver com as suas asas, cedei-lhe,

Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;

E quando ele vos falar, acreditai nele,

Embora a sua voz possa despedaçar os vossos sonhos

Como o vento devasta o jardim.

Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,

Assim ele vos crucifica.

E da mesma forma que contribui para o vosso crescimento,

Trabalha para vossa poda.

 

E da mesma forma que alcança a vossa altura

E acaricia os vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,

Assim também desce até às vossas raízes

E as sacode no seu apego à terra.

Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.

Ele vos debulha para expor a vossa nudez.

Ele vos peneira para vos libertar das palhas.

Ele vos mói até à extrema brancura.

Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.

Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma

No pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas, o amor operará em vós

Para que conheçais os segredos dos vossos corações

E, com esse conhecimento,

Vos convertais no pão místico do banquete divino.

 

Todavia, se no vosso temor,

Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,

Então seria melhor para vós que cobrísseis a vossa nudez

E abandonásseis a eira do amor,

Para entrar num mundo sem estações,

Onde rireis, mas não todos os vossos risos,

E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.

O amor nada dá senão de si próprio

E nada recebe senão de si próprio.

O amor não possui, nem se deixa possuir.

Porque o amor basta-se a si mesmo.

Quando um de vós ama, que não diga:

"Deus está no meu coração",

Mas que diga antes:

"Eu estou no coração de Deus".

 

E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,

Pois o amor, se vos achar dignos,

Determinará ele próprio o vosso curso.

 

O amor não tem outro desejo

Senão o de atingir a sua plenitude.

Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,

Sejam estes os vossos desejos:

De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho

Que canta a sua melodia para a noite;

De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;

De ficardes feridos pela vossa própria compreensão do amor

E de sangrardes de boa vontade e com alegria;

De acordardes na aurora com o coração alado

E agradecerdes por um novo dia de amor;

De descansardes ao meio-dia

E meditardes sobre o êxtase do amor;

De voltardes para casa à noite com gratidão;

 

E de adormecerdes com uma prece no coração para a/o bem-amado,

E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

 

Gibran Khalil Gibran
Citações do livro o Profeta.

 

Khalil Gibran (1883 – 1931), ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa.

©Luiza Frazão