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terça-feira, 29 de agosto de 2017

PROTEÇÃO E AFILIAÇÃO: O MUNDO GOVERNADO PELAS MULHERES SERIA UM LUGAR MAIS SEGURO

Oxitocina vs testosterona... Em situações de ameaça, as mulheres juntam as crianças, defendem @s mais débeis, procuram formas de cooperação com outras mulheres... uma reação tipicamente feminina muito diferente da masculina...


"Apesar da desconstrução do género, iniciada pelas feministas em meados do século XX, ter tomado proporções absurdas na era pós-moderna, quando se defende não existirem diferenças essenciais entre homens e mulheres, um estudo recente sobre a resposta de cada um dos sexos a situações de stresse acrescentou um dado novo que reforça a prova de que existe mesmo uma base biológica significativa para essa diferença.

Os resultados deste importante estudo, conduzido na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) pelas doutoras Laura Cousin Klein e Sherlley Taylor 1, produziu evidências de que o mecanismo de luta-fuga descreve apenas a forma como os homens respondem às situações de ameaça. Em tais situações, os seus organismos produzem testosterona, enquanto nas mulheres essa reação é mitigada pela libertação de oxitocina, que em última análise produz um efeito calmante. Apesar das investigadoras descreverem a resposta feminina ao stresse de forma ligeiramente simplista, “tend and befriend”  (oferta de proteção e procura de afiliação 2), que se traduz na prática por juntar as crianças e colaborar com as outras mulheres, a sua pesquisa documenta mesmo uma diferença significativa na resposta das mulheres ao stresse em relação à do sexo oposto, que é basicamente de luta-fuga. O curioso é que até aqui esta era a resposta considerada ser a norma para qualquer ser humano na mesma situação de ameaça, porque 90 por cento da pesquisa científica das últimas 4 décadas foi feita em indivíduos do sexo masculino. Esse facto levou a que ninguém até à realização desta investigação tivesse reparado no facto das mulheres responderem ao stresse de forma completamente diferente da dos homens.

As investigadoras, entretanto, aprofundaram o seu trabalho e provaram que ter amigas/os mantém as pessoas saudáveis, apontando para, no caso das mulheres, haver mesmo uma necessidade biológica de disporem duma rede de amigas.

As conclusões e interpretações destes estudos que foram publicadas até agora ficaram-se por aqui, mas não precisamos de muito mais para reconhecermos que esta capacidade biológica especial das mulheres - ficarem calmas em situações de stresse e agirem com sabedoria e preocupação em relação às outras pessoas - vai muito para além da simples necessidade de terem amigas: na verdade o que fortemente se infere disto é que o mundo seria um lugar muito melhor se fossem as mulheres a  governá-lo."

1. S. E. Taylor, L. C. Klein, B. P. Lewis, T. L. Gruenewald, R. Gurung, and J. A. Updegraff, “Female Responses to Stress: Tend and Befriend, Not Fight or Flight”, Psychological Review, 107 (3), 41-42 

in The Double Goddess, Vicki Noble

2. Este estudo realizado em Portugal, no âmbito duma tese de mestrado, chega às mesmas conclusões: http://docplayer.com.br/43817558-Seminario-de-investigacao-em-psicologia-clinica-e-do-aconselhamento-julho-2007-resumo.html 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O CONFRONTO ENTRE A RAINHA DO CÉU E O SENHOR DOS EXÉRCITOS OU A DESTRUIÇÃO DA ANTIGA CULTURA PACÍFICA E PRÓSPERA DA DEUSA



 UM ESTRANHO 'AMOR', sem dúvida, o do Deus da Bíblia pelas suas criaturas...

Será que prestamos mesmo atenção suficiente às palavras do Deus de “amor” da Bíblia e seus profetas?… Afinal é este o Livro mais influente da nossa cultura…

“Esta é a palavra do Senhor, que foi dirigida a Jeremias, para todos os judeus que estavam no Egito e viviam em Migdol, Tafnes, Mênfis, e na região de Patros:
"Assim diz o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel: Vocês viram toda a desgraça que eu trouxe sobre Jerusalém e sobre todas as cidades de Judá. Hoje elas estão em ruínas e desabitadas
por causa do mal que fizeram. Seus moradores provocaram a minha ira queimando incenso e prestando culto a outros deuses, que nem eles nem vocês nem seus antepassados jamais conheceram.
Dia após dia, eu lhes enviei meus servos, os profetas, que disseram: ‘Não façam essa abominação detestável! ’
Mas eles não me ouviram nem me deram atenção; não se converteram de sua impiedade nem cessaram de queimar incenso a outros deuses.
Por isso, o meu furor foi derramado e queimou as cidades de Judá e as ruas de Jerusalém, tornando-as na ruína desolada que são no dia de hoje.
Jeremias 44:1-6

"Assim diz o Senhor, o Deus dos Exércitos, o Deus de Israel: Por que trazer uma desgraça tão grande sobre si mesmos, eliminando de Judá homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, sem deixar remanescente algum?
Por que vocês provocam a minha ira com o que fazem, queimando incenso a outros deuses no Egito, onde vocês vieram residir? Vocês se destruirão a si mesmos e se tornarão objeto de desprezo e afronta entre todas as nações da terra.
Acaso vocês se esqueceram da impiedade cometida por seus antepassados, pelos reis de Judá e as mulheres deles, e da impiedade cometida por vocês e suas mulheres na terra de Judá e nas ruas de Jerusalém?
Até hoje eles não se humilharam nem mostraram reverência, e não têm seguido a minha lei e os decretos que coloquei diante de vocês e dos seus antepassados".
"Portanto, assim diz o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel: Estou decidido a trazer desgraça sobre vocês e a destruir todo o Judá.
Jeremias 44:7-11

Tomarei o remanescente de Judá, que decidiu partir e residir no Egito, e todos morrerão no Egito. Cairão pela espada ou pela fome; desde o menor até o maior, morrerão pela espada ou pela fome. Eles se tornarão objeto de maldição e de pavor, de desprezo e de afronta.
Castigarei aqueles que vivem no Egito com a guerra, a fome e a peste, como castiguei Jerusalém.
Ninguém dentre o remanescente de Judá que foi morar no Egito escapará ou sobreviverá para voltar à terra de Judá, para a qual anseiam voltar e nela anseiam viver; nenhum voltará, exceto uns poucos fugitivos".
Então, todos os homens que sabiam que as suas mulheres queimavam incenso a outros deuses, e todas as mulheres que estavam presentes, em grande número, e todo o povo que morava no Egito, e na região de Patros, disseram a Jeremias:
"Nós não daremos atenção à mensagem que você nos apresenta em nome do Senhor!
Jeremias 44:12-16

É certo que faremos tudo o que dissemos que faríamos: Queimaremos incenso à Rainha dos Céus e derramaremos ofertas de bebidas para ela, tal como fazíamos, nós e nossos antepassados, nossos reis e nossos líderes, nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém. Naquela época tínhamos fartura de comida, éramos prósperos e em nada sofríamos.
Mas, desde que paramos de queimar incenso à Rainha dos Céus e de derramar ofertas de bebidas a ela, nada temos tido e temos perecido pela espada e pela fome".

Jeremias 44:17-19
  

domingo, 13 de agosto de 2017

CONFERÊNCIA DA DEUSA DE GLASTONBURY 2017



22.ª CONFERÊNCIA DA DEUSA DE GLASTONBURY

Incrível esta 22.ª edição da mundialmente famosa Conferência da Deusa de Glastonbury, onde pelo terceiro ano consecutivo fui uma das Sacerdotisas do Círculo, designadas este ano por World Temple Priestesses. Éramos nove Sacerdotisas do Templo do Mundo, cada uma de nós simbolizando um dos pilares do Templo, tema representado graficamente nos nossos respetivos estandartes.  Esta Conferência foi ainda mais incrível pelo facto de ter sido a primeira organizada pela dupla Marion Brigantia, Katinka Soetens, a quem Kathy Jones, a fundadora, passou a pasta no ano passado. O par esforçou-se, trabalhou duro, esmerou-se, imprimiu ao projeto a excelente qualidade que já conhecemos do seu trabalho e o resultado foi para lá de brilhante.

 Pessoalmente, sinto-me grata por também ter feito parte do painel das apresentadoras, com um trabalho sobre a nossa Deusa de Duas Faces.

Mas voltando à Conferência, vou mencionar aquilo que mais me marcou no meio dum leque de trabalhos de extraordinária qualidade, o que ao nível dos workshops é apenas uma pequena amostra, uma vez que sendo em simultâneo apenas pude escolher 4. O primeiro deles entretanto já teria valido a deslocação a Glastonbury… Foi dinamizado pelas Mothers of the New Time, lideradas por Yeshe Rabbit Matthews, dos Estados Unidos. 12 mulheres (a 13.ª não pôde deslocar-se), todas elas líderes na sua própria comunidade, trabalhando em conjunto, sem perderem pitada do seu poder pessoal, em irmandade e parceria. Muito curador da forma como fomos educadas dentro do sistema patriarcal a competir e a “dividir para reinar”… Destaco ainda a pesquisa sobre a Deusa na República Checa, um trabalho profundo, criativo, inovador e inspirador, coordenado por Lilia Khousnoutdinova. Também foi inspirador ouvir sobre a criação da Roda do Ano da Deusa no Canadá, por Roz Bound, uma pesquisa vasta e delicada, que, garantiu-nos a investigadora, apenas verá a luz do dia caso obtenha d@s líderes das várias etnias indígenas permissão para incluir Deusas que pertencem aos seus panteões, evitando assim uma apropriação cultural que é outra forma de colonialismo…

Adorei o Egyptian Grove, onde trabalhámos com a poderosa energia de várias Deusas egípcias, uma oficina coordenada pela egiptóloga Olivia Kinsman e por Annabelle Markwick-Staff com a participação de outras sacerdotisas da tradição egícia.

Uma das autoras mais famosas da Deusa, a holandesa Annine Van der Meer, que escreveu “The Language of Ma, the Primal Mother”, trouxe-nos o seu mais recente e fascinante trabalho sobre a relação entre a Virgem Negra, Maria Madalena, a França e os lugares de poder do planeta, tema do livro neste momento em fase de tradução para o inglês. E depois a fantástica Jane Meredith, da Austrália, que não apenas nos falou mas nos deu a realizar como os poderosos símbolos da Deusa (romã, espiga de trigo, etc.) são uma imanência da própria Deusa… Sublime!

Destaco por último a sueca Elin Baath, sacerdotisa, professora e co-fundadora do partido Feminista da ilha de Gotland, na Suécia. Sim, precisamos de descer ao concreto, de meter mãos à obra na transformação do mundo, de trazer uma nova forma de lidar com as questões práticas e concretas, de governar o mundo numa perspetiva diferente, pondo o bem comum em primeiro lugar. Get political! E logo a seguir a grande revelação: a visão MotherWorld (MãeMundo), concebida por Kathy Jones e desenvolvida por um grupo ligado ao Templo da Deusa de Glastonbury, será transformada em partido político em Inglaterra! Blessed be!

No meio disto tudo, deixei para trás coisas fantásticas, como o espetáculo de quinta-feira à noite, the Wonderment Evening, com o show de marionetas sagradas das sul-africanas Aja Nomoya Marneweck, Makgathi Mokwena e Noxolo Blandile e a assistência musical de Heloise Pilkington, do UK. A noite acabou com o drama sagrado, um encontro de Deusas do mundo antigo – “The return of the top girls”… deslumbrante e cheio de graça.

É isso, a conferência de Glastonbury é mais do que um evento, é uma escola onde somos incentivadas a alcançar e a dar o melhor de nós mesm@s e por isso reúne cada vez mais o melhor do mundo inteiro. Abençoada seja!

Só acrescentar como é terapêutico estar num evento criado e abrilhantado por mulheres, sentindo e usufruindo do nosso poder, talento, sabedoria e criatividade - zona livre de patriarcado... Vários homens, que entendem que no centro agora é importante e urgente que esteja o Feminino e a Mulher, colaboram neste evento e são bem-vindos e muito amados e estimados, note-se.

Luiza Frazão

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A CONSCIÊNCIA DE AFRODITE

Afrodite, a Deusa Alquímica
Deusa do Amor e da Beleza

 Afrodite inclui-se na categoria muito própria de Deusa Alquímica, uma designação adequada ao processo mágico ou poder transformador que só Ela tinha.

Na mitologia grega, Afrodite era uma presença reverenciada e temida, que levava @s mortais e as divindades (à excepção das três deusas virgens) a apaixonarem-se e a criarem vida. Embora possua algumas características em comum tanto com as deusas virgens como com as deusas vulneráveis, não pertence a nenhum dos grupos.

Afrodite, a deusa que teve mais ligações sexuais, não era definitivamente uma deusa virgem, apesar de se parecer com Ártemis, Athena e Héstia pelo facto de fazer apenas o que lhe agradava. Também não era uma deusa vulnerável, embora se assemelhasse a Hera, Deméter e Perséfone pelo facto de se ligar a divindades do sexo masculino e/ou ter filhos. Todavia, ao contrário dessas deusas, Afrodite nunca foi vítima da paixão indesejada dum homem por ela. Valorizou a experiência emocional com outros mais do que a independência em relação a eles (que movia as deusas virgens) ou os laços permanentes com outr@s, que caracterizam as deusas vulneráveis.

Enquanto Deusa alquímica, Afrodite apresenta algumas semelhanças com as outras duas categorias, apesar de ser intrinsecamente diferente de ambas. Para Afrodite, as relações são importantes, mas não enquanto compromissos a longo prazo com outras pessoas (que caracterizam as deusas vulneráveis). 

Afrodite procura consumar relações e gerar nova vida. Esse arquétipo pode ser expresso por meio de relações físicas ou de um processo criativo.

 O que Ela procura difere do que procuram as deusas virgens, mas Afrodite assemelha-se a elas pelo facto de ser capaz de se focar no que é pessoalmente significativo para Ela; os outros não a conseguem fazer desviar do seu objectivo. E, no facto de o que Ela valoriza ser unicamente subjectivo e não poder ser medido em termos de êxito ou reconhecimento, Afrodite é, paradoxalmente, mais semelhante à anónima e introvertida Héstia que, à superfície, é a Deusa menos parecida com Afrodite.

Qualquer pessoa ou qualquer coisa que Afrodite imbua de beleza é irresistível. Ocorre uma atração magnética entre as pessoas, uma “química”, surgindo um desejo de união acima de tudo. As pessoas sentem um desejo irresistível de se aproximarem, de terem relações, de consumarem a união – ou de “se conhecerem” uma à outra, no sentido bíblico da expressão. Embora essa necessidade possa ser puramente sexual, o impulso é muitas vezes mais profundo, representando uma necessidade tanto psicológica como espiritual. Ter relações é sinónimo de comunicação ou comunhão, consumar pode significar um forte desejo de plenitude ou perfeição, união significa ambas as pessoas fundirem-se numa só e conhecer é realmente compreenderem-se mutuamente. É o desejo de conhecer e de ser conhecida/o que Afrodite gera.

Se conduz à intimidade física, esse desejo pode ser seguido de fecundação e de nova vida. Se a união é também, ou é tão-somente, entre as mentes, os corações ou os espíritos, observa-se um novo desenvolvimento nas esferas psicológicas, emocionais ou espirituais. Quando Afrodite influencia uma relação, o seu efeito não se limita aos aspectos românticos ou sexuais. O amor platónico, a ligação das almas, a amizade profunda, a harmonia ou a compreensão empática são expressões de amor. Sempre que há crescimento, melhoria na compreensão, desenvolvimento do potencial ou estímulo à criatividade (como pode acontecer nas actividades de tutoria, aconselhamento, educação, direção, ensino, psicoterapia), lá está Afrodite, afectando ambas as pessoas envolvidas.

A CONSCIÊNCIA DE AFRODITE 

A qualidade de consciência associada a Afrodite é única. As deusas virgens são associadas à consciência focada e são os arquétipos que permitem às mulheres concentrarem-se no que é importante para elas. A receptividade das deusas vulneráveis equivale à consciência difusa. Afrodite, porém, possui uma qualidade de consciência muito própria, a “consciência de Afrodite”. É focada, embora receptiva; semelhante consciência não só capta aquilo a que presta atenção como é afectada por isso.

 A consciência de Afrodite é mais focada e intensa do que a consciência difusa das deusas vulneráveis. Porém, é mais receptiva e atenta àquilo em que se foca do que a consciência focada das deusas virgens. Por conseguinte não é nem um candeeiro de sala, que ilumina e faz brilhar suavemente tudo o que se encontra no seu raio de alcance, nem um holofote ou um raio laser.

Para Jean Shinoda Bolen, a consciência de Afrodite é semelhante às luzes de teatro que iluminam o palco. O que observamos sob estas luzes da ribalta, acentua, dramatiza ou amplia o impacto que a experiência tem sobre nós. Captamos e reagimos ao que vemos e ouvimos. Essa iluminação especial permite que sejamos transportad@s emocionalmente durante uma sinfonia ou que sejamos tocad@s por uma peça ou pelas palavras dum orador; os sentimentos, as impressões dos sentidos e as memórias brotam de nós em reação ao que vemos e ouvimos. Em contrapartida, as pessoas que estão no palco podem sentir-se inspiradas por uma audiência e estimuladas pela relação que sentem que se está a estabelecer. O que se encontra sob as “luzes da ribalta” absorve a nossa atenção. Somos atraídas/os sem esforço para o que vimos e sentimo-nos descontraídas/os na nossa concentração. Seja o que for que vejamos sob a luz dourada da consciência de Afrodite, torna-se fascinante: o rosto ou o carácter duma pessoa, uma ideia sobre a natureza do universo ou a transparência e forma duma peça de porcelana.

Quem se tenha apaixonado por uma pessoa, um lugar, uma ideia ou um objeto, foca-se neles e capta-os com a consciência de Afrodite. Porém, nem todas as pessoas que usam a consciência de Afrodite estão apaixonadas. A forma “apaixonada”, típica de Afrodite, de prestar atenção a outra pessoa, se ela é fascinante e bela, é característica das mulheres que personificam o arquétipo e é uma maneira natural de relacionamento e de recolha de informações para muitas mulheres (e homens) que gostam de pessoas e focam toda a sua atenção nelas de uma forma intencional.

ma mulher assim apreende as pessoas da mesma forma que um conhecedor de vinhos presta atenção às características dum vinho interessante e desconhecido e se apercebe delas. Para apreciar plenamente a metáfora, imaginemos um entusiasta de vinhos a gozar o prazer de se familiarizar com um vinho desconhecido. Ergue o recipiente contra a luz para observar a cor e a transparência do vinho. Inala o bouquet e sorve lentamente um golo para captar o carácter e a suavidade do vinho; chega a saborear o travo que fica na boca. Porém, seria um erro partir do princípio de que a “atenção afectuosa” e o interesse que revela pelo vinho significam que esse vinho em particular é especial, valorizado ou mesmo apreciado. 

Trata-se do erro que as pessoas cometem frequentemente quando reagem a uma mulher com a consciência de Afrodite. Expostas ao brilho do seu foco, sentem-se atraentes e interessantes à medida que ela as estimula e reage com afeto ou apoio (em vez de com avaliações ou críticas). É o seu estilo de se envolver genuína e momentaneamente com seja o que for que a interesse. O efeito sobre a outra pessoa pode ser sedutor e enganoso, se a sua maneira de interagir dá a impressão de que está fascinada ou enamorada, quando não é esse o caso. 



CONSCIÊNCIA, CRIATIVIDADE E COMUNICAÇÃO DE AFRODITE

Jean Shinoda Bolen refere que descobriu a consciência de Afrodite quando compreendeu que nem a “consciência focada” nem a “consciência difusa” descreviam o que ela própria fazia no seu trabalho de psicoterapeuta.

Ao estabelecer a comparação com artistas e escritores, apercebeu-se de que, no trabalho criativo, funcionava um terceiro modo, que passou a denominar “consciência de Afrodite”. “Numa sessão de terapia, reparei na ocorrência de vários processos em simultâneo. Estou absorta a escutar o meu doente, que tem toda a minha atenção e compaixão. Ao mesmo tempo, a minha mente está ativa, estabelecendo associações mentais com aquilo que ouço. Ocorrem-me coisas que já sei sobre a pessoa: talvez um sonho passado, informações sobre a família, um incidente anterior ou acontecimentos correntes na sua vida que podem estar relacionados. Às vezes surge uma imagem ou uma metáfora. Posso ainda ter uma reação emocional, quer ao material quer à forma como é expresso, reação essa que anoto. A minha mente trabalha ativamente, mas de uma forma recetiva, estimulada pelo facto de estar absorta na outra pessoa (…).”

A consciência de Afrodite está presente em todo o trabalho criativo, incluindo naquele que se realiza na solidão. O diálogo da “relação” processa-se pois entre a pessoa e o trabalho, do qual emerge qualquer coisa nova. É uma troca entre o artista e a tela e o resultado é a criação de qualquer coisa que antes não existia. 

 Fonte: Jean Shinoda Bolen, AS DEUSAS EM CADA MULHER, Planeta Editora

Imagens: altar de Afrodite
              Alexander Rokoff
              Vénus Verticórdia, Dante Gabriel Rosseti
              Afrodite Urânia, Christian Griepenkerl
              Herman Smorenburg
              Laurie Blank

Tudo sobre Afrodite/Vénus: http://pt.fantasia.wikia.com/wiki/Afrodite