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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

JÁ VAI NA 3.ª EDIÇÃO!


DESCOBRIR A DEUSA NO JARDIM DAS HESPÉRIDES
 A nossa dimensão mítica na Tradição céltica do Arco Atlântico
Curso online  8 módulos  3.ª edição  ano lectivo 2015/16
Início 1 de novembro 2015
Especialmente recomendado para quem deseja iniciar no próximo ano (2016/17) a formação presencial de Sacerdotisa ou de Sacerdote da Deusa do Jardim das Hespérides
Luiza Frazão, Sacerdotisa de Avalon
«A Ilha mágica é como um jardim rodeado de água. No seu centro a árvore e a fonte da vida… Mitos e lendas falam-nos destes jardins frondosos, das suas árvores em flor, dos seus pomares de macieiras. Nas histórias do mundo inteiro tais paraísos situam-se no Oeste» The Language of Ma, Annine Van der Meer
Propostas deste Curso
·        Ressacralização da vida
·        Valorização pessoal pela valorização do modo de ser próprio e do poder feminino
·        TReconexão com a natureza, com os seus ciclos e com o corpo, compreendendo a relação entre a mulher e a natureza
·        Desenvolvimento do gosto pela pesquisa
·        Valorização da criatividade e dos ofícios femininos como facultadores das condições necessárias à Vida
·        Redescoberta de tradições significativas no universo feminino na nossa tradição
·        Valorização dos vínculos entre as mulheres e redescoberta e revalorização do papel da mulher como impulsionadora e criadora de civilização
·        Conhecimento das raízes do Movimento da Deusa e de algumas das suas mentoras
·        Compreensão das relações existentes entre a espiritualidade e a realidade sociopolítica em que vivemos, bem como compreensão do sistema social em que vivemos e sua comparação com sistemas alternativos
·        Conhecimento de algumas das principais culturas do passado e do legado da Deusa

Testemunhos:

Agradeço de coração e alma os momentos mágicos que tenho tido comigo e com o mundo, fruto destas missões
e tarefas que nos propõe.”
 
"Fazer esta formação é a concretização de um sonho, pelo que anseio por cada módulo e entrego-me de forma
responsável mas simultaneamente descontraída a cada um, o que se revela no fim extremamente agradável e
com sentido de missão cumprida."

“Este círculo é para mim neste momento um porto de abrigo, uma fonte inesgotável do Amor da Grande Deusa
Mãe, que sei e sinto me abraçará e protegerá no seu colo. Grata pela força que me dá, mesmo não estando
presente fisicamente.”

“Muito obrigada por tudo Luiza! Por me ajudar neste caminho de retorno! Sou uma nova mulher de certeza
esde que comecei este curso!”

Informações: jardimdashesperidestemplo@gmail.com
http://deusadashesperides.blogspot.co.uk/

sexta-feira, 26 de junho de 2015

CONFERÊNCIA DA DEUSA DE GLASTONBURY - 20 ANOS DE ESTRONDOSO SUCESSO!



A CONFERÊNCIA DA DEUSA DE GLASTONBURY 2015, que este ano celebra o seu 20.º aniversário, está a chegar!

Vim pela primeira vez a esta imensa e incrível celebração da Deusa em 2011 e decidi que a minha vida não teria mais sentido se não pudesse cá estar todos os anos nesta altura… Como eu, muitas outras mulheres e homens sentem o mesmo, o que transforma este evento para além do mais num maravilhoso reencontro anual que dá à nossa vida outro sentido e profundidade… Vivamente recomendo!

Começa na terça.feira 28 de Julho e termina no domingo 2 de Agosto

Com acontecimentos na margem que começam no domingo dia 26 de Julho e vão até segunda-feira 3 de Agosto

Este ano celebra-se ANU, AN CAILLEACH, STELLA NOLAVA, A RAINHA DO CÉU E DA TERRA, A MÃE ESTRELA CÓSMICA

Partilha de práticas espirituais da Deusa

Um leque fantástico de mulheres e de homens da Deusa contribuem para o brilho deste evento:

Da Australia & dos Estados Unidos: ANIQUE RADIANT-HEART, JUDY LAONESSA PIAZZA, PAULA GIRARDI,VICKI NOBLE & YESHE RABBIT

 Da Europa e da Britânia: ANGIE TWYDALL, CHRISTINE WATKINS, DOV TRUBNIK, ERIN MCCAULIFF, HELEN ANTHONY, HELOISE PILKINGTON, IRIS LICAN, ISABELLA VERBRUGGEN, JILL SMITH, JULIE FELIX, KATHY JONES, KATIE HOFFNER, KATINKA SOETENS, KIRSTEN BRUNSGAARD, LUIZA FRAZÃO, LUNA SILVER, MARION VAN EUPEN, MARY BRUCE, MIRIAM RAVEN, SALLY PULLINGER & TERENCE MEADEN

E ainda vári@s Artistas, Músic@s, Performers, Sacerdotisas, Melissas & outr@s maravilhos@s mulheres e homens.

Exposições:

DREAMS AND VISIONS com TIANA PITMAN com AMBER SKYES, FOOSIYA MILLER, JILL SMITH, & e mais artistas na Glastonbury Assembly Rooms, WENDY ANDREW no Miracles Room e Artistas & Artesãs no Small Town Hall.

Na margem da Conferência da Deusa deGlastonbury: wookshops & concertos. 






domingo, 7 de junho de 2015

MAMMA MIA - O EXCESSO DE MÃE


No filme de grande sucesso Mamma Mia (2008, baseado num original de Catherine Johnson dirigido por Phyllida Lloyd), em que se enfatiza a natureza generosa, acolhedora, liberal da mãe; nessa casa de sonho em que entramos e saímos e andamos à vontade, em que existe sempre lugar para quem chega à mesa, em que a pasta ferve no lume enquanto a pizza e o pão cozem no forno, em que há sempre vozes e animação e alegria, nessa casa vive ou é ela própria, a casa, a nossa Mãe ideal e o seu colo aconchegante. Ela é aquela que nunca fecha a porta e aceita e perdoa e passa a mão pela cabeça com carinho e sabe ouvir e compreender e proteger e em cujo regaço nos sentimos a salvo das agruras do mundo. 

Posso dizer que tenho um conhecimento razoável dessa mãe; que um coletivo de mulheres desempenhou de certa forma a função dessa mãe na minha infância. Eram mulheres com as quais sempre podíamos contar. Para além da mãe natural, nem sempre a mais acessível, diga-se, havia as tias, as avós, as primas ou simplesmente as amigas da casa. Esse conjunto era o mais aproximado possível, creio, da Mãe, do habitat natural que rodeia a Mãe nas sociedades matrifocais, aquilo que Bachofen (antropólogo suiço do século XIX famoso pelas suas teorias sobre as antigas sociedades matriarcais) referia pelo termo alemão Muttertum.
Fonte: Cacilda Rodrigañez Bustos,
http://pulposymedusas.blogspot.pt/2010/08/por-un-feminismo-de-la-recuperacion.html



O estranho é que, apesar de em países como o nosso e de uma forma geral nos países latinos, ainda parecer existir muito este tipo de mãe, tal não é infelizmente garantia nenhuma de estarmos a criar pessoas mais seguras de si, empoderadas e com sentido de responsabilidade social ou cívica, no fundo todas as qualidades de que o termo adulto/a se reveste na sua verdadeira acepção. Diria até que em países com “menos mãe”, ou com mães menos “latinas” essas qualidades parecem florescer melhor. Alguma coisa então não estará a funcionar como deveria com as nossas mães que à partida parecem corresponder tão bem a um ideal de Mãe. 

Pessoalmente, sinto que um dos grandes problemas reside na ideia muito enraizada entre nós de que a Mãe tem de se sacrificar. As mães são aquelas que se sacrificam, um pouco como a vela que arde e se consome até ao fim para que a sua luz nos possa iluminar. As mães sacrificam-se, dizem, pela família. Para que a paz e a harmonia reinem na família, fazem tudo, acreditam muitas delas, esquecendo-se de que a família tem a sua alma própria que tudo regista e tudo sente e tudo vai de alguma forma acabar por revelar e manifestar. Mas então, na sua valorização do sacrifício, a mãe acaba muito por se calar, por fazer de conta, por fingir que não ouve, por desculpar depressa demais, por aceitar muitas vezes o inaceitável. 

Na verdade, se quisermos ser rigorosas/os, o sacrifício da mãe aconteceu já muito antes de ela o ser, uma vez que ele é a base da própria família patriarcal que temos. Já agora, para quem viu o filme que cito no início, é bom lembrar um dos dados mais extraordinários da trama, que é o facto de nessa casa de sonho da Mãe não haver pai, e mais, de a heroína não saber sequer quem é o pai da sua filha e sair incólume desse crime de lesa autoridade patriarcal.... E a subversão continua no filme na forma como os homens com a possibilidade de serem o pai se comportam, prontos e encantados com a ideia de assumirem esse papel, sem competição nem exclusivismo, como acontece nas sociedades matriarcais, ou matrifocais, em que o papel do pai é irrelevante, sendo os homens da família a assumir a função de protetores e de educadores, fornecendo o modelo do masculino de que a criança precisa. Não é minha pretensão aqui incentivar as mulheres a terem filhas e filhos sozinhas sem um pai, sejamos realistas; com o tipo de sociedade em que vivemos, isso tornar-se-ia um peso muito grande tanto para a mulher como para a criança. 

Mas voltando à ideia do sacrifício da Mãe, ele aconteceu quando este modelo em que a mãe era central foi substituído por aquele que temos em que ela está sob a alçada do pai. O poder da Mãe, que refletia ou emanava do tipo de divindade cultuada, a Grande Mãe Criadora, passou para segundo plano quando a divindade mudou de género e passou a ser o Pai. Todo o modelo mudou, os valores que regiam a sociedade mudaram, o imperativo tornando-se agora o domínio e a conquista em vez de a proteção da vida. Fomos expulsas/os do paraíso, acabou-se a Idade de Ouro, pela lei da espada patriarcal, como tão bem nos refere Riane Eisler nessa obra absolutamente ímpar que é O Cálice e a Espada (Via óptima, Porto). Assim, já só por um acaso temos o tipo de maisonnée (um termo popular francês que define não só a casa como o coletivo de pessoas que nela vive ou que gravita à sua volta) do filme Mamma Mia, que nos fornece uma visão, obviamente muito idealizada, do genuíno reino (ou seria raino?) da Mãe, ou tão genuíno quanto o sistema que respiramos permite, e que em resumo é uma Mãe com poder e autoridade. 

Porque, não nos iludamos, não é por vivermos numa família de mulheres nem por lá em casa a última palavra ser a da mãe, que podemos dizer que ela tem poder genuinamente seu. Nenhuma mãe com poder emanado do seu próprio coração e forma de estar no mundo deixaria que um filho seu fosse para a guerra, por exemplo, consentiria numa forma de progresso que implique destruição da natureza, ou aceitaria na sua cama um homem a tresandar a carnificina e a outros abusos de poder e profunda insensibilidade ao sofrimento alheio. O poder que nos parece muitas vezes emanar da mãe no tipo de sociedade em que vivemos é na verdade o poder patriarcal que ela assume como seu sem o ser, tendo perdido o rasto dos verdadeiros valores que em estado selvagem, de antes da domesticação patriarcal, emanariam do seu coração de mulher. 

Por que referi então no título que temos “excesso de mãe”? Porque a mãe que temos, desempoderada e desautorizada, e até infantilizada, por ter passado da alçada do pai para a do marido sem saber quem ela própria é nem ter amadurecido como adulta, é essencialmente uma mãe permissiva, que nessa profunda distorção patriarcal que é a ideia do sacrifício, permite tudo aquilo que não deveria permitir, não sabendo impor, com receio de perder o amor da sua descendência, limites nem fronteiras e sem ser senhora do seu verdadeiro sim nem do seu verdadeiro não, incapaz de fornecer qualquer modelo de força, coragem, coerência ou autenticidade, valores que criem cidadãos e cidadãs responsáveis, capazes de governar um mundo. Em vez disso, ela reproduz seres imaturos como ela, mimados pelo seu excesso de proteção sem exigência de contrapartidas de responsabilização pessoal, os egoístas, vaidosos, enfatuados e corruptos dirigentes que temos e os cidadãos impotentes e assustados que em vão procuram refúgio nas saias duma mãe arquetípica, a Nossa Senhora dos templos cristãos, cuja única capacidade que parece ter é a de comungar do seu sofrimento.    

© Luiza Frazão

Imagens: Google




segunda-feira, 11 de maio de 2015

CURAR MEDEA

Hoje, escrevia isto, e quando parei um pouco e fui espreitar o Facebook, tinha precisamente um convite para aderir a um grupo intitulado LA SANACIÓN DE MEDEA


Na verdade, aquilo de que nos falam estes mitos (Medeia e Lilith), é da derrota da mulher face ao ataque do patriarcado, que conquistou e destruiu uma organização social pacífica centrada na Mãe. É óbvio que isso só pôde ter acontecido no meio de muita resistência, de muita luta e com muita dor, e estes mitos dão-nos testemunho precisamente disso. Figuras míticas como Medeia e Lilith, completamente denegridas e amaldiçoadas, são personagens duma história contada pelo vencedor, que glorifica a sua própria ação de cruel destruição e morte e demoniza episódios da violência eventualmente perpetrada por mulheres que lutaram com as únicas armas de que dispunham, tentando resistir à terrível lei da espada e da difamação que se abateu sobre elas. 

Na verdade o que aconteceu, se quisermos fazer justiça neste caso, foi que os patriarcas legitimaram o ato de destruir, matar, saquear, dominar, perpetrado por eles, imbuindo-o de esplendor e de glória, e diabolizaram outros, resultado do puro desespero de mulheres indefesas, sozinhas e muitas vezes com descendência e ascendência a proteger, completamente vulneráveis, projetando nelas a sua sombra, os seus piores medos e fantasmas, transformando-as em perigosos alvos a abater, literal ou moralmente, pelo ridículo, o escárnio e o opróbrio. A mulher, ser mais empático, mais suscetível às emoções, e por isso mais vulnerável perante a frieza emocional do homem, aquela que divide o seu coração pelas/os filhas/os, amantes, mãe e pai, posta agora à total mercê do patriarca, do macho alfa, transformado em seu amo e senhor.

A verdade é que a nossa alma carrega essas memórias, que são parte do Corpo de Dor do Feminino, que muitas vezes não queremos ver nem aceitar, recusando sentir a nossa vulnerabilidade. No entanto acredito que sem revisitarmos essa dor e sem ousarmos corajosamente recontar a hsitória desde outro ponto de vista nunca nos poderemos verdadeiramente curar nem a nós nem ao mundo.

©Luiza Frazão



quinta-feira, 7 de maio de 2015

SEDUZIR?... NÃO ME PARECE...


A ideia da sedução é uma distorção do patriarcado que sempre viu a mulher como uma perigosa Tentadora. Na verdade a Tentação é sempre algo que as mulheres exercem sobre os homens e nunca o contrário, porque, enquanto sujeito da história, tem sido a visão do homem que têm prevalecido na cultura. Estar sujeito a tentação implica o reconhecimento do homem como ser dotado de sexualidade legítima e ativa. Ora a questão da mulher ser tentada pelo homem seria uma aberração inconcebível num ser que tem sido percebido como dotado apenas duma sexualidade latente, digamos, não ativa, eventualmente ativada pelo homem, de preferência por aquele a quem ela irá pertencer ou ao serviço de quem se vai colocar. 

Claro que o feminino ferido entrou muito nesse jogo da Sedução que foi como que legitimada em si por algumas pessoas como fazendo parte duma sexualidade saudável. Não me parece que assim seja porque o que contém de artificialismo e portanto de falsidade, de manipulação e de vontade de exercer o controlo sobre a reação da outra pessoa, do uso da versão patriarcal do poder, que é o poder sobre, dizem-me que essa não será a via da Deusa do Amor e da Sexualidade. 

Quando Ela se manifesta em nós, e quando aceitamos ser o veículo para a Sua manifestação, não precisamos de forçar nada, de nos insinuarmos junto de ninguém, mas apenas de irradiar a Sua energia que nos leva a estar ali completamente presentes e abertas para aquele ser que atraímos e aos nossos olhos se torna sumamente atraente, sendo objeto do nosso desejo. E isso pode acontecer apenas num momento pontual em que a Deusa baixou, como se diz, permitindo-nos viver aquela experiência maravilhosa de fusão, de absoluta intimidade com alguém, atingir um estado de êxtase que profundamente nos transformou e acrescentou, a nós e à outra pessoa e ao mundo pelo amor que gerámos e irradiámos e pela experiência numinosa que pudemos viver. 

Sabemos que isso acontecia de forma cerimonial nos antigos templos das Deusas do Amor, como Afrodite, Astarte, Ishtar e Outras, em que as sacerdotisas incorporavam a Deusa para quem viesse receber a Sua graça.

Não imaginamos, quando uma flor exótica da cor mais inaudita nos oferece a visão da sua deslumbrante beleza, que ela nos esteja a “seduzir”, a querer algo de nós. Sabemos que não é assim,  sabemos que a flor simplesmente é. E a visão da sua beleza é um portal de conexão com a energia da alma. E como o seu poder e encanto seriam reduzidos e diminuídos se soubéssemos que a flor queria algo de nós, que ela tinha para nós algum inconfessado propósito...

©Luiza Frazão

Imagem: Google

terça-feira, 14 de abril de 2015

A GRANDE MÃE CÓSMICA

De 1975... mas nunca publicado em Portugal - uma das bíblias do Movimento da Deusa…

THE GREAT COSMIC MOTHER, Rediscovering the Religion of the Earth
(Data da 1.ª edição: Dezembro de 1975)
Monica Sjöö & Barbara Mor

O Primeiro Sexo: “No princípio tod@s fomos criad@s fêmeas”

No princípio era… um oceano feminino. Durante 2 billiões e meio de anos, todas as formas de vida terrestres flutuavam numa espécie de grande útero oceânico, alimentadas e protegidas pelos seus fluidos químicos, embaladas pelo ritmo lunar das marés. Charles Darwin acreditava que o ciclo menstrual teve aqui a sua origem, um eco orgânico do pulsar do oceano ao ritmo da lua. E, por causa deste longo período em que a vida na terra foi dominada por formas marinhas reproduzindo-se por partenogénese, ele concluiu que o princípio feminino é primordial. No princípio, a vida não foi gestada no interior do corpo de nenhuma criatura, mas sim dentro do útero oceânico que continha toda a vida orgânica. Não havia órgãos sexuais diferenciados, mas tão-somente uma existência feminina generalizada que se reproduzia a si mesma dentro do corpo feminino do mar*.

Antes que formas de vida mais complexas se pudessem desenvolver e viver em terra firme, foi necessário minimizar o ambiente oceânico, reproduzi-lo numa escala ínfima e móbil. Ovos frágeis e húmidos depositados na terra seca e expostos aos elementos não poderiam sobreviver, a vida não poderia mover-se para lá do aquoso estádio anfibiano. No decurso da evolução, o oceano – o espaço protetor e nutridor, os fluidos amnióticos, e até o ritmo lunar das marés – foi transferido para o interior do corpo da fêmea. O pénis, um dispositivo mecânico para a reprodução em ambiente terrestre, começou então a desenvolver-se.

O pénis surge primeiro na Idade dos Répteis, há cerca de 200 milhões de anos. A associação arquetípica entre o pénis e a serpente contém sem dúvida essa memória genética.

Este recurso fundamental ocorre com frequência na natureza: a vida é um ambiente feminino onde o macho aparece, muitas vezes periodicamente, criado pela fêmea, para realizar tarefas altamente especializadas relacionadas com a reprodução da espécie no sentido duma evolução mais complexa. Daphnia, um crustáceo de água doce, produz várias gerações de fêmeas por partenogénese: ela gera o ovo e a sua polaridade masculina para produzir um complexo de genes de onde resulta uma cria fêmea. Uma vez por ano, no final do ciclo anual, um grupo de machos de curta duração são produzidos; os machos especializam-se na manufatura de cascas de ovos com a resistência do couro capazes de sobreviver ao inverno. Entre as abelhas, os zangãos são produzidos e regulados pelas crias fêmeas estéreis da rainha fértil. Os zangãos existem para acasalar com a rainha. Uma média de sete zangãos por enxame cumpre esse acto em cada estação, após o que todo o grupo de machos é dizimado pelas abelhas operárias. Na América do Sudoeste, quatro espécies de lagartos reproduzem-se por partenogénese; aí os machos são muitos raros nas pradarias e planaltos.

Entre os mamíferos e mesmo na espécie humana, a partenogénese não é tecnicamente impossível. Cada óvulo feminino contém uma polaridade masculina com um conjunto completo de cromossomas; quando unificados, poderiam criar um embrião do género feminino. Os quistos nos ovários são óvulos não fertilizados que se unem à sua polaridade masculina, implantando-se nas paredes dos ovários onde se começam a desenvolver.

Não quer isto dizer que o macho seja dispensável. A partenogénese é um processo de clonagem. A reprodução sexual, que faz aumentar a variedade e a saúde do conjunto dos genes, é necessária para o tipo de evolução complexa que produziu a espécie humana. O ponto aqui é apenas demonstrar que no que se refere aos dois sexos, um deles anda por cá há muito mais tempo do que o outro.

*The First Sex: “In the Beginning We Were all Created Female”

Helen Diner, Mothers and Amazons (Nova Iorque: Doubleday/Anchor, 1973), 74. Diner refere-se à obra de Charles Darwin Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, volume 1 (Nova Iorque: J. A. Hill and Co., 1904), 164-68; Darwin acreditava que ambos os sexos, eram maternos na origem e que a próstata dos homens seria um útero rudimentar.