A ideia da sedução é uma distorção do patriarcado que
sempre viu a mulher como uma perigosa Tentadora. Na verdade a Tentação é sempre
algo que as mulheres exercem sobre os homens e nunca o contrário, porque,
enquanto sujeito da história, tem sido a visão do homem que têm prevalecido na
cultura. Estar sujeito a tentação implica o reconhecimento do homem como ser dotado
de sexualidade legítima e ativa. Ora a questão da mulher ser tentada pelo homem
seria uma aberração inconcebível num ser que tem sido percebido como dotado apenas
duma sexualidade latente, digamos, não ativa, eventualmente ativada pelo homem,
de preferência por aquele a quem ela irá pertencer ou ao serviço de quem se vai
colocar.
Claro que o feminino ferido entrou muito nesse jogo da Sedução que foi
como que legitimada em si por algumas pessoas como fazendo parte duma
sexualidade saudável. Não me parece que assim seja porque o que contém de
artificialismo e portanto de falsidade, de manipulação e de vontade de exercer
o controlo sobre a reação da outra pessoa, do uso da versão patriarcal do
poder, que é o poder sobre, dizem-me que essa não será a via da Deusa do Amor e
da Sexualidade.
Quando Ela se manifesta em nós, e quando aceitamos ser o veículo
para a Sua manifestação, não precisamos de forçar nada, de nos insinuarmos
junto de ninguém, mas apenas de irradiar a Sua energia que nos leva a estar ali
completamente presentes e abertas para aquele ser que atraímos e aos nossos
olhos se torna sumamente atraente, sendo objeto do nosso desejo. E isso pode
acontecer apenas num momento pontual em que a Deusa baixou, como se diz,
permitindo-nos viver aquela experiência maravilhosa de fusão, de absoluta
intimidade com alguém, atingir um estado de êxtase que profundamente nos
transformou e acrescentou, a nós e à outra pessoa e ao mundo pelo amor que
gerámos e irradiámos e pela experiência numinosa que pudemos viver.
Sabemos que
isso acontecia de forma cerimonial nos antigos templos das Deusas do Amor, como
Afrodite, Astarte, Ishtar e Outras, em que as sacerdotisas incorporavam a Deusa
para quem viesse receber a Sua graça.
Não imaginamos, quando uma flor exótica da cor mais
inaudita nos oferece a visão da sua deslumbrante beleza, que ela nos esteja a “seduzir”,
a querer algo de nós. Sabemos que não é assim, sabemos que a flor simplesmente é. E a visão da sua beleza
é um portal de conexão com a energia da alma. E como o seu poder e encanto seriam reduzidos e diminuídos se soubéssemos que a flor queria algo de nós, que ela
tinha para nós algum inconfessado propósito...
©Luiza Frazão
Imagem: Google








