De Portugal diz-se normalmente que é o país mais antigo, ou um
dos mais antigos, do mundo ou pelo menos da Europa. Ele é o país da Anciã, da
velha Deusa Cale, Beira, Calaica, uma Velha muito velha, mais antiga que o
tempo, e muito sábia porque a sua longuíssima, eterna, vida lhe ensinou tudo o
que havia para aprender e sobretudo lhe permitiu viver tudo o que havia para
viver, todo o sucesso e toda a derrota, todos os ganhos e todas as perdas,
todas as ilusões e desilusões, todas as mortes e renascimentos. Vezes sem
conta. Estão a ver a Velha matreira, picante, das histórias populares, a que
muda de forma, a sem forma, a que rola encosta abaixo dentro duma cabaça? É Ela,
Aquela que coloca desafios e apresenta enigmas insondáveis que fazem perder a
pose e a compostura e ter consciência das nossas humanas limitações e ralações,
A que foi transformada na Bruxa Má (Bruxa tudo bem, mas “Má” já é simplória desinformação
da propaganda patriarcal). Muito sábia e capaz do amor maior e da maior
compaixão, pode perceber-se a Sua maravilhosa energia numa Grande Avó que fosse
livre e tivesse real poder.
Apesar disso, neste país tão antigo é confrangedor ver o
modo como as pessoas se tornaram descartáveis. Todas poderosas na sua juventude,
vão paulatinamente perdendo viço e colorido, exuberância e visibilidade, voz e
poder à medida que o tempo vai passando. O que viveram e experienciaram não
conta mais para nada.
Este tornou-se o país da rapariga, que em vez de sábia é “sabida”,
ou arrogante, e sumamente ambiciosa. A sua arrogância e ambição crescem na exacta
proporção da sua confrangedora ignorância e falta de mundo. Mas sabe de
computadores, de aipades, aipedes e aipodes e telemóveis de última geração e
conhece o jargão que permite manter o contacto sem ter de basicamente dizer
nada de relevante e muito menos de novo e de pensado. Sabe de celebridades, de
marcas, de moda e decoração e fez longos estágios no shopingue. Tudo coisas que
a sua mãe desconhecia quando tinha a sua idade, o que lhe dá sobre ela um
vertiginoso ascendente. À mãe resta agora a hipertensão, o colesterol e a diabetes,
se tiver sorte, e as novelas, que já não são apenas brasileiras, mas sobretudo um
glorioso produto nacional de última geração.
Isto não é um exclusivo nem nacional nem das raparigas,
óbvio (veja-se o fenómeno futebol) e parece que é o resultado da tal era tecnológica
ou tecnocrática em que a técnica e o técnico de informática são quem reunirá as melhores condições para formar governo.
É também o tal culto da juventude. Está tudo ligado, óbvio,
e tudo pensado na óptica do mercado, e a situação parece complicar-se dado o
poder crescente de que gozam as crianças desde o berço, como se duma forma
inesperada e sumamente perversa tivéssemos alcançado já a tal Idade do Espírito
Santo, aquela utopia do Joaquim de Fiore em que a imperadora ou o imperador
serão… uma criança…
Este estado das coisas, se não é criado por, é pelo menos
mantido, entretido e entretecido pela televisão omnipresente. Não existe neste
país espaço urbanizado onde se esteja a salvo da estridência duma tvi, com
vários ecrãs se for preciso num mesmo espaço. Ora, em tempos e lugares assim
não precisamos de ter vida própria, que dá muita chatice, é um enorme gasto de
meios, comporta inúmeros perigos e não oferece nenhuma garantia de sucesso, nem dela nunca sairemos viv@s, como se sabe. Basta vê-la na televisão.
De resto que
espécie de vida poderia competir com a excitação, a frescura e o glamur da que
aparece nos ecrãs da televisão, devidamente condimentada com doses massivas da
adrenalina do crime passional ou dos gangues dos shopingues? Não senhora, podemos
viver perfeitamente nas novelas que se sucedem pelo dia fora, e essas sim com
gente a sério, viva, jovem e de última geração, lembrando aqueles insectos duma
beleza estonteante que subitamente e apenas por um brevíssimo instante eclodem em
toda a sua glória à luz do dia.
Se espreitarmos por um bocadinho que seja esses dramas da
juventude das novelas, entretanto, como já me aconteceu, havemos de constatar
incrédulas que são os mesmíssimos dos respectivos progenitores só que em
cenários ligeiramente diferentes, mais modernizados pelos estilo ikeia.
E porque os aipades, aipedes e aipodes não têm como explicar
as armadilhas onde vão perder a pose e o brilho, as raparigas vão sendo substituídas
por outras cada vez mais novas e mais arrogantes e engrossar o lote das
mulheres transparentes, hipervulneráveis, serviçais, desautorizadas e
resignadas, que suspirando e desculpando-se com os picos da tensão e diabetes
se recostam nos sofás da casa deleitando-se com a vida das raparigas das
novelas como quem se refastela com os restos dum banquete do qual se foi
inexplicavelmente, mas também não faz mal, banid@...
Luiza Frazão











