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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O PAÍS DA RAPARIGA BREVE


De Portugal diz-se normalmente que é o país mais antigo, ou um dos mais antigos, do mundo ou pelo menos da Europa. Ele é o país da Anciã, da velha Deusa Cale, Beira, Calaica, uma Velha muito velha, mais antiga que o tempo, e muito sábia porque a sua longuíssima, eterna, vida lhe ensinou tudo o que havia para aprender e sobretudo lhe permitiu viver tudo o que havia para viver, todo o sucesso e toda a derrota, todos os ganhos e todas as perdas, todas as ilusões e desilusões, todas as mortes e renascimentos. Vezes sem conta. Estão a ver a Velha matreira, picante, das histórias populares, a que muda de forma, a sem forma, a que rola encosta abaixo dentro duma cabaça? É Ela, Aquela que coloca desafios e apresenta enigmas insondáveis que fazem perder a pose e a compostura e ter consciência das nossas humanas limitações e ralações, A que foi transformada na Bruxa Má (Bruxa tudo bem, mas “Má” já é simplória desinformação da propaganda patriarcal). Muito sábia e capaz do amor maior e da maior compaixão, pode perceber-se a Sua maravilhosa energia numa Grande Avó que fosse livre e tivesse real poder.

Apesar disso, neste país tão antigo é confrangedor ver o modo como as pessoas se tornaram descartáveis. Todas poderosas na sua juventude, vão paulatinamente perdendo viço e colorido, exuberância e visibilidade, voz e poder à medida que o tempo vai passando. O que viveram e experienciaram não conta mais para nada.

Este tornou-se o país da rapariga, que em vez de sábia é “sabida”, ou arrogante, e sumamente ambiciosa. A sua arrogância e ambição crescem na exacta proporção da sua confrangedora ignorância e falta de mundo. Mas sabe de computadores, de aipades, aipedes e aipodes e telemóveis de última geração e conhece o jargão que permite manter o contacto sem ter de basicamente dizer nada de relevante e muito menos de novo e de pensado. Sabe de celebridades, de marcas, de moda e decoração e fez longos estágios no shopingue. Tudo coisas que a sua mãe desconhecia quando tinha a sua idade, o que lhe dá sobre ela um vertiginoso ascendente. À mãe resta agora a hipertensão, o colesterol e a diabetes, se tiver sorte, e as novelas, que já não são apenas brasileiras, mas sobretudo um glorioso produto nacional de última geração.

Isto não é um exclusivo nem nacional nem das raparigas, óbvio (veja-se o fenómeno futebol) e parece que é o resultado da tal era tecnológica ou tecnocrática em que a técnica e o técnico de informática são quem reunirá as melhores condições para formar governo.

É também o tal culto da juventude. Está tudo ligado, óbvio, e tudo pensado na óptica do mercado, e a situação parece complicar-se dado o poder crescente de que gozam as crianças desde o berço, como se duma forma inesperada e sumamente perversa tivéssemos alcançado já a tal Idade do Espírito Santo, aquela utopia do Joaquim de Fiore em que a imperadora ou o imperador serão… uma criança…

Este estado das coisas, se não é criado por, é pelo menos mantido, entretido e entretecido pela televisão omnipresente. Não existe neste país espaço urbanizado onde se esteja a salvo da estridência duma tvi, com vários ecrãs se for preciso num mesmo espaço. Ora, em tempos e lugares assim não precisamos de ter vida própria, que dá muita chatice, é um enorme gasto de meios, comporta inúmeros perigos e não oferece nenhuma garantia de sucesso, nem dela nunca sairemos viv@s, como se sabe. Basta vê-la na televisão. 

De resto que espécie de vida poderia competir com a excitação, a frescura e o glamur da que aparece nos ecrãs da televisão, devidamente condimentada com doses massivas da adrenalina do crime passional ou dos gangues dos shopingues? Não senhora, podemos viver perfeitamente nas novelas que se sucedem pelo dia fora, e essas sim com gente a sério, viva, jovem e de última geração, lembrando aqueles insectos duma beleza estonteante que subitamente e apenas por um brevíssimo instante eclodem em toda a sua glória à luz do dia.

Se espreitarmos por um bocadinho que seja esses dramas da juventude das novelas, entretanto, como já me aconteceu, havemos de constatar incrédulas que são os mesmíssimos dos respectivos progenitores só que em cenários ligeiramente diferentes, mais modernizados pelos estilo ikeia.

E porque os aipades, aipedes e aipodes não têm como explicar as armadilhas onde vão perder a pose e o brilho, as raparigas vão sendo substituídas por outras cada vez mais novas e mais arrogantes e engrossar o lote das mulheres transparentes, hipervulneráveis, serviçais, desautorizadas e resignadas, que suspirando e desculpando-se com os picos da tensão e diabetes se recostam nos sofás da casa deleitando-se com a vida das raparigas das novelas como quem se refastela com os restos dum banquete do qual se foi inexplicavelmente, mas também não faz mal, banid@...

Luiza Frazão




quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Conferência da Deusa de Glastonbury 2014


A Roda do Ano determinou que esta 19.ª edição da Conferência fosse dedicada à Deusa Anciã, que ocupa nessa mesma Roda a direcção Noroeste, o momento em que o ano termina com a morte da natureza anunciada já no Equinócio do Outono. A Deusa Anciã é portanto a Senhora da Morte, a que ceifa a vida que chegou ao seu término, recolhendo-a no Seu caldeirão, o Seu útero, o interior da Terra, onde será transformada para de novo renascer. A Morte, a que sempre se segue um novo começo, um Renascimento, foi portanto o grande tema desta Conferência: the Cauldron and the Loom, o Caldeirão e o Tear, lia-se no título do programa.

E o Tear, onde se entrelaçam os fios da Vida, veio para Glastonbury pela mão da fantástica Carolyn Hyllier, xamã, artesã, autora, compositora e intérprete, pintora… uma mulher única, um potentado, out of this world, como dizia alguém.  Carolyn Hyllier encheu o Assembly Rooms de Glastonbury com a sua instalação, misto de pintura e tecelagem, com a sua própria música de fundo, onde sobressaiam 13 tecedeiras, representantes de várias culturas do mundo que ganhavam vida quando percorríamos cerimoniosamente a instalação, interpelando-nos até às profundidades mais
inconfessadas da alma, fazendo estremecer todas as camadas de esquecimento, menosprezo e abuso com que recobrimos o feminino no mundo, desvalorizando a sua função, na aparência tão humilde mas na verdade tão grandiosa de simplesmente tecer as condições para que a vida seja possível. E de repente percebemos que as fantásticas tecedeiras míticas de Caroline Hyllier são como os grandes pilares em que assenta a própria alma do mundo…

Sob a sua alçada e com orientação da Sacerdotisa Annabel Du Boulay foi criada a Estrada da Morte com a participação de tod@s que na sexta-feira à noite percorremos em cerimónia e que em cerimónia fora transportada em ombros pelas sacerdotisas desde o Assembly Rooms até ao Town Hall nessa tarde num sublime cortejo fúnebre com o qual se pretendeu honrar a morte dando-lhe o peso e o lugar que merece, sabendo que ela é necessária para que a vida se renove e não algo de pavoroso com sabor a derrota que “civilizadamente” escondemos ou tentamos ignorar. Foi um dos momentos mais desafiadores percorrermos um-a por um-a a grande Estrada da Morte, sendo o desafio morrer para aquilo que não queremos mais na nossa vida, aprender o desapego. No fim de tod@s termos passado para o outro lado, fizemos em glória o percurso inverso sobre a grande estrada vermelha da Vida.

Foi muito interessante constatar que nunca vira tanta gente no Town Hall como este ano atraída pela energia da Deusa Anciã que forneceu ainda inspiração para uma cerimónia marcante de coroação das Anciãs, mulheres acima dos 69 anos, que encheram o palco, onde foram apresentadas por alguém íntimo que ressaltava os aspectos mais marcantes da sua vida e personalidade. Foi lindo e poderoso ver contrariar a tendência da cultura dominante para equacionar o avançar da idade com decadência, na lógica do simples mecanismo que se desgasta, em vez de com valor acrescentado, enriquecimento tanto pessoal  como para toda a comunidade.

Nesta Conferência coube-me também a mim, a convite da minha formadora na terceira espiral do meu treino de Sacerdotisa, Kathy Jones, a grande honra de apresentar um workshop sobre um trabalho inspirado pela energia da Bean Sidhe celta em que pudemos trabalhar aspectos relacionadas com a Sombra feminina.

Para muitas mulheres e alguns homens de várias partes do mundo, a Conferência é o grande momento do ano e a pequena cidade de Glastonbury enche-se de gente que vem aqui  celebrar o regresso da Deusa, honrá-La no lugar desde mundo em que a Sua energia está mais presente e mais se faz sentir, o lugar da Senhora de Avalon com a maravilhosa Sua energia de profunda cura e transformação.



Imagens da Conferência, a primeira no lugar aonde nos levou a procissão do último dia, junto à imagem da Deusa Anciã; a segunda com o grupo de Espanha, da Ibéria, ao qual se juntou a sacerdotisa de Avalon e de Rhiannon Katinka Soetens; a terceira do altar mexicano dos Mortos que criei para o meu workshop Women in White, the Universality of the Celtic Bean Sidhe, no Camino Center.  

terça-feira, 13 de maio de 2014

RESGATAR MARIA, RESGATAR A MÃE


Hoje em Portugal é o grande dia de
Maria, a Senhora de Fátima, a Nossa Senhora, a Mãe de Jesus, crê-se. Nunca lhe ouvi chamar Deusa, a não ser uma vez na televisão um padre muito preocupado porque o que se passava em Fátima era puro paganismo, adoração da Deusa. Não me lembro do nome dele, já foi há uns 30 anos, mas a verdade é que o indivíduo tinha mesmo razão – quando dizia ser adoração da Deusa, não quando se mostrava preocupado, óbvio. Como muito bem lembra Moisés Espírito Santo e outr@s, a religião popular encontrou maneira de subsistir no seio da viril, seca, sensaborona, rígida e implacável  Igreja de Roma tratando de arranjar nela um lugar de honra para a sua Rica Mãezinha sem a qual hoje em dia não haveria nada na Igreja Católica capaz de ainda mover multidões como a que hoje deve ter estado em Fátima e de que também já fiz parte e adorei a experiência.

Maria de Fátima, entretanto, como os padres a travestiram, que é exactamente uma versão católica portuguesa daquilo que o lobby gay da indústria internacional da moda faz com as manequins: pré-adolescentes, anoréticas, sem resquícios de feminidade no corpo, assexuadas, tendo mais do rapazinho do que da rapariga (mas esperem lá que isto pode levar-nos muito longe se lermos “Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima” do já referido Moisés E. Santo…), Maria, enquanto Senhora de Fátima, dizia eu, sejamos realistas, nada tem de uma Mãe. Só com muito boa vontade e um grande transe de pai-nossos e ave-marias e muita água benta é que conseguimos ver n’Ela a Grande Criadora Toda-Poderosa, a Senhora da Abundância, da Fartura, capaz de proteger, cuidar e alimentar as filhas e os filhos, que era assim que Ela, a Deusa, que o povo levou para a Igreja de Roma, era vista e sentida.

Entretanto o processo por que passou, o lifting, levou-lhe os benéficos e fecundos atributos maternos que apenas em outras Senhoras muito mais esquecidas hoje em dia podemos encontrar, como a Senhora do Ó, a Senhora grávida, e em especial a Senhora do Leite, Essa sim, uma verdadeira Mãe capaz de alimentar o mundo. O lifting, o processo de emagrecimento, a mastectomia e, presumo, também a histerectomia por que passou a Virgem Maria, penso que estarão relacionadas com o profundo ar de apatia depressiva que apresenta e que estranha e, desconfio que, perfidamente se confunde com santidade (iluminação em outros credos). Oficialmente é o sofrimento pelos pecados do mundo, contra o seu Filho, ou seja, todo um programa de manipulação emocional capaz de nos tornar tão apátic@s e depressiv@s como a sua imagem aparenta, se não tomarmos providências.

Misericórdia, dirão, Compaixão. Concedo. Maria, que é a Senhora do Mar, do mar das emoções, é uma Deusa da Compaixão, como a oriental Kuan Yin, uma Mãe capaz de sofrer por nós e de interceder por nós junto do Pai demasiado severo e ocupado com coisas sérias para directamente atender as suas míseras criaturas... Tão interessante…  sobretudo quando se diz com desdém que os deuses do Olimpo grego tinham qualidades demasiado humanas… ahahah! E seriam apenas eles?

Ora ter na cultura como arquétipo feminino dominante uma Mãe, assexuada, anoréctica, mastectomizada, deprimida, que apenas pode oferecer compaixão, misericórdia, piedade (acho que é tudo a mesma coisa) às suas criaturas terrenas, sem qualquer poder para além do de aplacar a insensibilidade da divindade masculina, é extremamente preocupante e a minha preocupação é mesmo genuína. 

Por que terá Maria, entretanto, esse poder junto de Deus Pai também é um mistério, uma vez que Ela é tão-somente a Mãe do Seu Filho, ou seja, Deus é um Pai solteiro que usou o ventre de Maria como única tecnologia de reprodução disponível. Óbvio que Ela seria de qualidade superior, enquanto Deus, ele só podia escolher o melhor. Podemos imaginar, por exemplo, o Michael Jackson a escolher a Mãe que daria à luz os seus preciosos rebentos com um rigor o mais semelhante que a sua simples humanidade torna possível. Só me espanta no meio disto tudo é que os cristãos se insurjam tanto contra o direito dos gays adoptarem crianças…

Mas Maria nunca poderá aspirar ao estatuto de Deusa, a menos que nós o decidamos. Nós, mulheres, que há que ter mão nisto, e foi o que fez ontem Marion Brigantia numa cerimónia no Templo da Deusa de Glastonbury em que eu não participei por ainda não ter sentido que para mim chegou esse momento. Só para mim, só eu sentir-me mais conectada com a energia de Maria. Processos que às vezes podem demorar.

 E enquanto isso o que eu faço é procurar as nossas antigas Deusas Mães capazes de nos valerem, ajudando a empoderar a Mãe em nós e no mundo para ver se pomos alguma ordem na grande casa humana.
©Luiza Frazão

Imagens: Google
1.ª Senhora de Fátima
2.ª Senhora do Ó, orago da minha aldeia, juntamente com S. Mateus
3.ª Senhora de Leite, retirada daqui: http://rezairezairezai.blogspot.co.uk/2011/02/imagens-e-oracoes-nossa-senhora-do.html e parecida com a minha bela e fecunda tia Carolina que foi Mãe de 6 filhas e filhos! Uma Mãe que nos merece confiança por ter para dar.
  

domingo, 20 de abril de 2014

DON JUAN e a Motivação de Poder


“De particular relevância é o trabalho muito mais recente do psicólogo David Winter. Tal como outr@s académic@s modern@s de nomeada, Winter tem vindo a estudar aquilo que no livro do mesmo nome designa de “motivação de poder”. Como psicólogo social, dedicou-se à descoberta de padrões históricos através de medições objectivas. E embora uma vez mais convenha olhar para além daquilo que Winter sublinhou, a partir da perspectiva psicológica convencional centrada no masculino, as suas descobertas documentam decisivamente que atitudes mais repressivas para com as mulheres prenunciam períodos de belicismo agressivo.

Centrando-se numa das figuras românticas mais famosas da literatura e da ópera, o impetuoso sedutor Don Juan, a análise sociopsicológica de Winter baseia-se largamente no estudo da frequência de certos temas em documentos literários. Winter observa que, apesar da obrigatória condenação das acções de Don Juan como “perversas” e “malditas”, ele é de facto idealizado como “o maior sedutor de Espanha”. Assinala também que os motivos subjacentes de Don Juan são a agressão, o ódio e o desejo de humilhar e punir as mulheres – não os impulsos sexuais. Nota ainda algo de profunda importância psicológica e histórica: as atitudes extremamente hostis para com as mulheres são características de épocas em que as mulheres sofrem a máxima repressão por parte dos homens. 

O caso clássico relevante que cita é o da Espanha onde emergiu a lenda de Don Juan, quando os espanhóis das classes superiores haviam adoptado o “costume mourisco de manter as mulheres em isolamento”. A razão psicológica por detrás desta hostilidade acrescida, explica Winter, é o relacionamento mãe-filho tornar-se particularmente tenso em períodos assim – a par da generalidade das relações feminino-masculino.

Contextualmente, torna-se evidente que a “motivação de poder” de Winter é, na nossa terminologia, a pulsão androcrática para conquistar e dominar outros seres humanos. Tendo estabelecido ser o rebaixamento das mulheres por parte de Don Juan uma manifestação desta “motivação de poder”, Winter tabula então a frequência das histórias sobre Don Juan na literatura de uma nação relativamente aos períodos de expansão imperial e de guerra. O que documentam as suas descobertas é aquilo que nós prediríamos socorrendo-nos do modelo de alternância gilânico-androcrático: historicamente, as estórias do mais famoso arquétipo de dominação masculina sobre as mulheres aumentam de frequência antes e durante os períodos de militarismo e imperialismo exacerbados.”


in O Cálice e a Espada, Riane Eisler, Via Óptima
Imagem: Google    

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O PECADO ORIGINAL

“É necessário reconstruir a contradição homem-mulher a partir da negação do corpo da mulher, e portanto aquilo que na Psicanálise tradicional aparece como enfermidade, neurose, desadaptação, etc. converte-se numa contradição material. A mulher encontra-se desde o princípio sem uma forma própria de existir, como se o existir da mulher já se encontrasse numa forma de existência (mulher, mãe, filha, etc.) que a negam enquanto mulher. Ser mãe significa existir e usar o corpo em função do homem, e por isso uma vez mais carecer de sentido e de valor do próprio corpo e da própria existência a todos os níveis. 

Esta negação de si mesma esta interiorizada em níveis tão profundos que é como se as mulheres, ao longo de toda a sua história, não tivessem feito mais do que repetir esta história de autodestruição. Por consequência, o discurso sobre a violência masculina, sobre o vexame, a dominação, sobre os privilégios, etc. continuará sendo um discurso abstracto se não tivermos em conta o aspecto interiorizado desta mesma violência, a violência como autonegação, negação duma existência própria. A negação de si mesma é posta em marcha a partir do nascimento, a partir da primeira relação com a mãe, onde esta já não se encontra presente como mulher com o seu corpo de mulher, estando ali como mulher do homem e para o homem. (…)

O facto da menina viver a relação com a pessoa do seu sexo apenas através do homem, com essa espécie de filtro que existe entre ela e a mãe, é a razão mais profunda da divisão que encontramos entre uma mulher e outra mulher; nós as mulheres estamos divididas na nossa história desde sempre, não apenas porque cada uma de nós está unida socialmente ao marido, às e aos filh@s – este é apenas o aspecto visível da separação – a divisão dá-se a um nível mais profundo, ao não conseguirmos olhar-nos uma à outra, ao não sermos capazes de contemplar o nosso corpo sem termos sempre presente o olhar do homem. (…)

Num artigo em “L’Erba Voglio”… insistia na relação interrompida com a mãe, ou no mínimo deformada desde o começo precisamente porque a mãe não é a mulher, apenas “a mãe”, ou seja, a mulher do homem. Do facto de que a mulher não encontra na relação com a mãe o reconhecimento da sua própria sexualidade, do seu próprio corpo, procede depois toda a história sucessiva da relação com o homem como relação onde a negação de tudo aquilo que tu és, da tua sexualidade, da tua forma de vida, já se produziu.”

Lea Melandri, La Infamia Originaria (excertos),
citada por Cacilda Rodrigañez Bustos em El Assalto al Hades

Imagem: Arthur Hughes

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UNIR AS DUAS MULHERES - MANUAL PRÁTICO

Em meu entender a espiritualidade da Deusa é fundamental para a união das duas mulheres, a santa e a pecadora, em nós. Se queremos que essa união aconteça, para sermos inteiras, precisamos de actuar no cerne da questão e ele reside nos símbolos e nos mitos que a cultura fornece à mulher para a construção da sua identidade.

Nós não unimos as partes cindidas apenas com conversa, tal como da boca dos padres de coração empedernido que na igreja nos mandam amar à e ao proxim@ nunca sairá sentimento algum que se aproxime ao amor, apenas ao temor....

Essa união tem de ser uma construção, uma tessitura que fazemos com vários fios. Os restos esfarrapados das nossas histórias, das nossas lendas e mitos perdidos, indo à procura deles. Pedacinho a pedacinho. Precisamos de escavar, camada a camada para irmos encontrando os tais fiozinhos. Às vezes parece até que encontrámos uma bela porção mas quando olhamos mais de perto verificamos que estão todos emaranhados e cheios da rançosa gordura patriarcal. Precisam de ser limpos e desembaraçados.
Ainda ontem me pareceu ter encontrado mais um fiozinho para tecer a parte de Lilith na nossa tapeçaria.

Depois disso torna-se necessário abençoar o nosso trabalho e colocá-lo no lugar de maior honra e reverência, o altar. Aproximar-me desse altar enquanto sacerdotisa, invocar a Deusa, que está dentro e fora de mim, que é imanente e transcendente, é para mim a nossa cura, a nossa possibilidade de renascermos inteiras depois do golpe mortal do patriarcado quando nos considerou indignas de o fazer. Ser sacerdotisa é na prática quebrar esse interdito, desfazer essa maldição, curar essa ferida, essa cisão.

Quando eu ergo a minha tecitura ao nível do sagrado, ela fica imbuída desse poder supremo. Do poder de gerar mitos que nos favorecem e fortalecem, que nos ajudam a perceber quem somos fora da esfera do utilitarismo patriarcal que nos anulou, obliterando, deturpando os nossos mitos para nos pôr ao seu serviço.

Não esquecer que para isso ele criou outros mitos, como a história de Adão e Eva, que foram contra nós e que isso aconteceu aí na esfera do religioso, do poder supremo…

“A religião é a política ao mais alto nível”, o verdadeiro centro de poder das nossas vidas. Como muitas feministas entenderam, “a religião é um assunto demasiado importante para ser deixado nas mãos dos patriarcas”. Um lugar com essa importância na nossa alma nunca ficará vazio. A sede de sagrado, acredito, é inerente à nossa natureza, e por isso iremos saciá-la com o que houver disponível: Deus, Deusa, Ciência, Consumo, Homem Ideal, alguma coisa para lá mandamos…


©Luiza Frazão

Imagens - fachada do Goddess Hall, Benedict Street, Glastonbury, Inglaterra; a Deusa Anciã no Templo da Deusa de Glastonbury (foto de Anna-Saqqara Price)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

REIS DA CRIAÇÃO POR DIREITO DIVINO

Encontrei há pouco esta foto do Ernest Hemingway e da modelo Jean Petchett e achou-a perfeita para ilustrar este excerto do Segundo Sexo, ou talvez até o livro inteiro...

"Em toda parte e em qualquer época, os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentirem os reis da criação. "Bendito seja Deus nosso Senhor e o Senhor de todos os mundos por não me ter feito
mulher", dizem os judeus nas suas preces matinais, enquanto as suas esposas murmuram com resignação: "Bendito seja o Senhor que me criou segundo a sua vontade". Entre as mercês que
Platão agradecia aos deuses, a maior se lhe afigurava o fato de ter sido criado livre e não escravo e, a seguir, o de ser homem e não mulher. Mas os homens não poderiam gozar plenamente esse privilégio, se não o houvessem considerado alicerçado no
absoluto e na eternidade: de sua supremacia procuraram fazer um direito. "Os que fizeram e compilaram as leis, por serem homens, favoreceram seu próprio sexo, e os jurisconsultos transformaram
as leis em princípios", diz ainda Poulain de Ia Barre.

Legisladores, sacerdotes, filósofos, escritores e sábios empenharam- se em demonstrar que a condição subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa à terra. As religiões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a

teologia a serviço de seus desígnios, como vimos pelas frases citadas de Aristóteles e São Tomás."

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo

terça-feira, 12 de novembro de 2013

MULHERES EM BRANCO - A UNIVERSALIDADE DA BEAN SIDHE DA TRADIÇÃO CELTA


Versão portuguesa:

 MULHERES EM BRANCO

 Uma mulher misteriosa, vestida de branco, anunciadora da morte, em pranto, é uma figura bem conhecida na tradição celta, a Bean Sidhe. No entanto, esta mulher não é um exclusivo do folclore celta. As suas irmãs parecem estar espalhadas por todo o lado, como é o caso de La Llorona no México, de La Sayona na Venezuela, de Paquita Muñoz nos Andes e de a Mulher de Branco no Brasil e em Portugal...
 O branco que ela usa é tudo menos um símbolo de pureza e de inocência e as suas histórias dramáticas e dolorosas parecem estar sempre associadas a um homem de quem ela procura vingar-se. O fantasma desta mulher atormenta e aterroriza incautos condutores em nocturnas estradas isoladas.
 Nesta comunicação tentaremos perceber de que modo estas Mulheres de/em Branco estão conectadas com as profundezas ignoradas da nossa alma.

domingo, 10 de novembro de 2013

A ÉPOCA PAGÃ NÃO FOI UMA ÉPOCA DE CAOS E DE TREVAS, COMO HABITUALMENTE SE SUPÕE

 Por que é que continuamente se infere que a época pagã, o tempo em que eram cultuadas divindades femininas (quando esse tempo é mencionado), é como uma época de trevas, de caos, de mistério e de mal, sem a luz da ordem e sem a razão que supostamente foram depois trazidas pelas religiões masculinas? As pesquisas arqueológicas entretanto confirmam que as primeiras leis, formas de governação, medicina, agricultura, arquitectura, metalurgia, veículos de rodas, cerâmica, têxteis e escrita foram inicialmente desenvolvidas em sociedades que seguiam a religião da Deusa. E finalmente acabamos por nos questionar sobre as razões para a falta de informação facilmente acessível sobre sociedades que, durante milhares de anos, cultuaram a antiga Criadora do Universo. 

Apesar dos muitos obstáculos, consegui reunir a informação existente e comecei a relacionar entre si o que tinha recolhido. À medida que fui investigando, a importância, a longevidade e a complexidade desta religião antiga começou a tomar forma diante de mim. Muitas vezes havia apenas a referência à Deusa, um pedaço de lenda, uma referência obscura ao longo das 400 ou 500 páginas de erudição académica. Um templo abandonado em Creta ou uma estátua no museu de Istambul com escassa informação a acompanhá-la começaram entretanto a encontrar o seu lugar próprio num cenário mais vasto.


Merlin Stone, When God Was a Woman, traduzido por Luiza Frazão

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A DEUSA NEGRA - A SOMBRA FEMININA

“Não basta dizermos que é preciso uma nova relação com o feminino. Aquilo de que precisamos mesmo é de nos relacionar com o lado negro do feminino.Fred Gustafson, The Black Madonna (Boston, Sigo Press, 1990)

Nas sociedades tradicionais que reverenciavam a lua como Deusa, a 3.ª fase negra era personificada pela Deusa Negra, sábia e compassiva, que governava os mistérios da morte, transformação e renascimento. Com o tempo, sucessivas culturas foram gradualmente esquecendo o antigo culto da lua, e o antigo conhecimento da ciclicidade da realidade, reflectida nas suas fases perdeu-se.

Na nossa sociedade actual a maior parte de nós desconhece o potencial de cura e de renovação que existe como qualidade intrínseca do processo cíclico da fase escura da lua. Em vez disso, associamos a ideia de escuridão à da morte, do mal, da destruição, isolamento e perda. Numa sociedade governada pela clara consciência solar, fomos ensinad@s a temer, rejeitar, desvalorizar e desempoderar tudo quanto se relaciona com os conceitos de escuridão – pessoas de cor, mulheres, sexualidade, menstruação, natureza, o oculto, o paganismo, a noite, o inconsciente, o irracional e a própria morte. Do ponto de vista mítico, associamos todos estes medos da escuridão à imagem do feminino demoníaco conhecido como a Deusa Negra, intimamente relacionada com a lua negra.

Ao longo da história, o poder original da Deusa Negra enquanto renovadora foi esquecido e ela tornou-se assustadora e destruidora. Em muitas mitologias do mundo, ela foi descrita como a Tentadora, a Mãe Terrível, a Anciã que traz a morte. As suas biografias mais tardias descrevem-na como negra, malvada, venenosa, demoníaca, terrível, malevolente, fogosa. À medida que a cultura patriarcal se tornou dominante, ela foi-se transformando num símbolo da devoradora sexualidade feminina que faz com que o homem transgrida as suas convicções morais e religiosas, consumindo-lhe a essência vital no seu abraço mortífero.
Na imaginação mítica das culturas dominadas pelo homem, a sua natureza original foi distorcida e ela tomou proporções horríficas. Enquanto Kali, ela surge nos crematórios adornada com uma grinalda de caveiras, empunhando a cabeça cortada do seu companheiro, Shiva, escorrendo sangue. Enquanto Lilith, ela voa pelos céus nocturnos como uma demoníaca criatura que seduz os homens e mata criancinhas. Enquanto Medusa, a sua bela e abundante cabeleira tornou-se uma coroa de serpentes sibilantes e o seu olhar feroz transforma os homens em pedra. Enquanto Hécate, ela persegue os homens nas encruzilhadas pela noite com os seus ferozes cães do inferno.



Podemos perguntar-nos por que razão a Deusa Negra apresenta uma imagem tão terrífica e de que modo ela e a sua contraparte psicológica, o feminino negro, ameaçam a nossa sociedade e criam destruição nas nossas vidas. E ainda como é que o seu poder destruidor se relaciona com as suas qualidades de cura que permitem a renovação. De que formas a Deusa Negra representa o nosso medo do escuro, do oculto, da morte, da mudança; o nosso medo do sexo, bem como o do confronto com o nosso ser e essencialmente com a nossa essência e a nossa própria interpretação da verdade. As respostas para estas questões podem encontrar-se na transição de uma cultura matriarcal para uma cultura patriarcal que ocorreu há 5 mil anos. As pesquisas actuais sobre a história antiga, nos domínios da teologia, da arqueologia, da história da arte e da mitologia, estão a trazer à evidência que, com início há 3 mil anos AC, ocorreu uma transformação nas estruturas religiosas e políticas que governavam a humanidade. Sociedades matriarcais que cultuavam as Deusas da terra e da lua, como Innana, Ishtar, Ísis, Deméter e Artemis, deram lugar a sociedades patriarcais, seguidoras do deus solar e dos heróis masculinos, como Gilgamesh, Amon Ra, Zeus, Yahweh e Apolo.

 Antes disso, uma conexão entre a morte e o renascimento estava implícita na cíclica renovação da Deusa Lua, cultuada pelos povos antigos. A Deusa ensinava que a morte mais não é do que a precursora do renascimento e que o sexo não serve apenas para a procriação, serve também para o êxtase, a cura, a regeneração e a iluminação espiritual. Quando a humanidade adoptou o culto dos deuses solares, os símbolos da Deusa começaram a desaparecer da cultura e os seus ensinamentos foram esquecidos, distorcidos e reprimidos.

Académic@s contemporâne@s começam a descobrir evidências de como o culto da Deusa foi suprimido, os seus templos e artefactos destruídos, os seus e as suas seguidr@s perseguid@s e assassinad@s e a sua realidade negada. O novo sistema de crenças das tribos dos conquistadores solares patriarcais renegaram a renovação cíclica, negando assim o ciclo natural do nascimento, morte e regeneração da Deusa Lua, o terceiro aspecto da Deusa Tripla. A Deusa Tripla da Lua, na sua fase nova, cheia e escura, era o modelo da natureza feminina enquanto Donzela, Mãe e Anciã. No seu culto original da Deusa Negra, como o terceiro aspecto desta trilogia lunar, ela era honrada, amada e aceite pela sua sabedoria, pelo seu conhecimento dos mistérios da renovação.
Durante a prevalência da cultura patriarcal, entretanto, ela e os seus ensinamentos foram banidos e remetidos para os recantos escondidos do nosso inconsciente.
(…)
Com a diminuição da luz da lua, ela transforma-se na Anciã Negra na lua escura minguante que recebe @ mort@ e @ prepara para o renascimento. Na sua sabedoria que deriva da experiência, ela relaciona-se com a estação do inverno e o mundo subterrâneo. Enraizada na sua força interior, a Deusa da Lua Negra está repleta de compaixão e de compreensão da fragilidade da natureza humana e o seu conselho é sábio e justo.
Ela governa as artes da magia, o conhecimento secreto, os oráculos. A Anciã da Lua Negra era artisticamente representada como a terrível face da Deusa que devora a vida, e algumas imagens representam a sua vulva como símbolo da subsequente renovação. Rainhas da magia e do submundo, como Hécate, Kali, Eresh-Kigal, são símbolos da fase minguante da Deusa da Lua Negra.
(…)
Os povos antigos sabiam que, tal como ela morria todos os meses com a velha Lua Negra, também renasceria na Lua Nova crescente. Era a Anciã da Lua Negra que tomava a vida no seu útero; mas @s antig@s também sabiam que a Deusa Virgem da Lua Nova daria à luz a nova vida. A anciã era a doadora da morte assim como a virgem era a que trazia o renascimento. A reencarnação era representada pela refertilização da anciã-tonada-virgem. A interacção contínua entre a destruição que se transformava em nova criação é a eterna dança que sustém o cosmos.

A Deusa Negra eliminava e consumia aquilo que estava velho, degradado, desvitalizado e sem préstimo. Tudo isso era transformado no seu caldeirão e oferecido depois como elixir. Como podemos ver nos seus antigos rituais sagrados, as antigas religiões partilhavam o conceito dum submundo para onde a Deusa Negra conduzia a alma através dos negros espaços do sem forma, onde ela exercia os seus secretos poderes de regeneração.

A palavra inglesa “hell” vem do nome da terra subterrânea da Deusa escandinava Hel. O seu subterrâneo não era entretanto um lugar de punição, mas antes o escuro útero, simbolizado pela cave, o caldeirão, o fosso, a cova, o poço. A Deusa Negra não era temida e o seu espaço não era um lugar de tortura. Ela guardava os seus e as suas iniciad@s nos cemitérios, a entrada do seu templo. Através da morte o indivíduo entra no ciclo da fase escura da lua; aí encontra a Deusa Negra que o conduz através da passagem intermédia de volta à vida.

Quando este natural desfecho do tempo de vida era compreendido e aceite, a Deusa Negra era honrada pela sua sabedoria e amada pela sua ilimitada aceitação e compaixão para com os habitantes da terra. Ela não era temida pelos povos que cultuavam a lua, que entendiam a morte como um hiato no tempo entre vidas.

MYSTERIES OF THE DARK MOON – The Healing Power of the Dark Goddess, Demetra George, HarperSanFrancisco, 1992

Traduzido por Luiza Frazão

Imagens: Caroline Hillyer