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domingo, 20 de abril de 2014

DON JUAN e a Motivação de Poder


“De particular relevância é o trabalho muito mais recente do psicólogo David Winter. Tal como outr@s académic@s modern@s de nomeada, Winter tem vindo a estudar aquilo que no livro do mesmo nome designa de “motivação de poder”. Como psicólogo social, dedicou-se à descoberta de padrões históricos através de medições objectivas. E embora uma vez mais convenha olhar para além daquilo que Winter sublinhou, a partir da perspectiva psicológica convencional centrada no masculino, as suas descobertas documentam decisivamente que atitudes mais repressivas para com as mulheres prenunciam períodos de belicismo agressivo.

Centrando-se numa das figuras românticas mais famosas da literatura e da ópera, o impetuoso sedutor Don Juan, a análise sociopsicológica de Winter baseia-se largamente no estudo da frequência de certos temas em documentos literários. Winter observa que, apesar da obrigatória condenação das acções de Don Juan como “perversas” e “malditas”, ele é de facto idealizado como “o maior sedutor de Espanha”. Assinala também que os motivos subjacentes de Don Juan são a agressão, o ódio e o desejo de humilhar e punir as mulheres – não os impulsos sexuais. Nota ainda algo de profunda importância psicológica e histórica: as atitudes extremamente hostis para com as mulheres são características de épocas em que as mulheres sofrem a máxima repressão por parte dos homens. 

O caso clássico relevante que cita é o da Espanha onde emergiu a lenda de Don Juan, quando os espanhóis das classes superiores haviam adoptado o “costume mourisco de manter as mulheres em isolamento”. A razão psicológica por detrás desta hostilidade acrescida, explica Winter, é o relacionamento mãe-filho tornar-se particularmente tenso em períodos assim – a par da generalidade das relações feminino-masculino.

Contextualmente, torna-se evidente que a “motivação de poder” de Winter é, na nossa terminologia, a pulsão androcrática para conquistar e dominar outros seres humanos. Tendo estabelecido ser o rebaixamento das mulheres por parte de Don Juan uma manifestação desta “motivação de poder”, Winter tabula então a frequência das histórias sobre Don Juan na literatura de uma nação relativamente aos períodos de expansão imperial e de guerra. O que documentam as suas descobertas é aquilo que nós prediríamos socorrendo-nos do modelo de alternância gilânico-androcrático: historicamente, as estórias do mais famoso arquétipo de dominação masculina sobre as mulheres aumentam de frequência antes e durante os períodos de militarismo e imperialismo exacerbados.”


in O Cálice e a Espada, Riane Eisler, Via Óptima
Imagem: Google    

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O PECADO ORIGINAL

“É necessário reconstruir a contradição homem-mulher a partir da negação do corpo da mulher, e portanto aquilo que na Psicanálise tradicional aparece como enfermidade, neurose, desadaptação, etc. converte-se numa contradição material. A mulher encontra-se desde o princípio sem uma forma própria de existir, como se o existir da mulher já se encontrasse numa forma de existência (mulher, mãe, filha, etc.) que a negam enquanto mulher. Ser mãe significa existir e usar o corpo em função do homem, e por isso uma vez mais carecer de sentido e de valor do próprio corpo e da própria existência a todos os níveis. 

Esta negação de si mesma esta interiorizada em níveis tão profundos que é como se as mulheres, ao longo de toda a sua história, não tivessem feito mais do que repetir esta história de autodestruição. Por consequência, o discurso sobre a violência masculina, sobre o vexame, a dominação, sobre os privilégios, etc. continuará sendo um discurso abstracto se não tivermos em conta o aspecto interiorizado desta mesma violência, a violência como autonegação, negação duma existência própria. A negação de si mesma é posta em marcha a partir do nascimento, a partir da primeira relação com a mãe, onde esta já não se encontra presente como mulher com o seu corpo de mulher, estando ali como mulher do homem e para o homem. (…)

O facto da menina viver a relação com a pessoa do seu sexo apenas através do homem, com essa espécie de filtro que existe entre ela e a mãe, é a razão mais profunda da divisão que encontramos entre uma mulher e outra mulher; nós as mulheres estamos divididas na nossa história desde sempre, não apenas porque cada uma de nós está unida socialmente ao marido, às e aos filh@s – este é apenas o aspecto visível da separação – a divisão dá-se a um nível mais profundo, ao não conseguirmos olhar-nos uma à outra, ao não sermos capazes de contemplar o nosso corpo sem termos sempre presente o olhar do homem. (…)

Num artigo em “L’Erba Voglio”… insistia na relação interrompida com a mãe, ou no mínimo deformada desde o começo precisamente porque a mãe não é a mulher, apenas “a mãe”, ou seja, a mulher do homem. Do facto de que a mulher não encontra na relação com a mãe o reconhecimento da sua própria sexualidade, do seu próprio corpo, procede depois toda a história sucessiva da relação com o homem como relação onde a negação de tudo aquilo que tu és, da tua sexualidade, da tua forma de vida, já se produziu.”

Lea Melandri, La Infamia Originaria (excertos),
citada por Cacilda Rodrigañez Bustos em El Assalto al Hades

Imagem: Arthur Hughes

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UNIR AS DUAS MULHERES - MANUAL PRÁTICO

Em meu entender a espiritualidade da Deusa é fundamental para a união das duas mulheres, a santa e a pecadora, em nós. Se queremos que essa união aconteça, para sermos inteiras, precisamos de actuar no cerne da questão e ele reside nos símbolos e nos mitos que a cultura fornece à mulher para a construção da sua identidade.

Nós não unimos as partes cindidas apenas com conversa, tal como da boca dos padres de coração empedernido que na igreja nos mandam amar à e ao proxim@ nunca sairá sentimento algum que se aproxime ao amor, apenas ao temor....

Essa união tem de ser uma construção, uma tessitura que fazemos com vários fios. Os restos esfarrapados das nossas histórias, das nossas lendas e mitos perdidos, indo à procura deles. Pedacinho a pedacinho. Precisamos de escavar, camada a camada para irmos encontrando os tais fiozinhos. Às vezes parece até que encontrámos uma bela porção mas quando olhamos mais de perto verificamos que estão todos emaranhados e cheios da rançosa gordura patriarcal. Precisam de ser limpos e desembaraçados.
Ainda ontem me pareceu ter encontrado mais um fiozinho para tecer a parte de Lilith na nossa tapeçaria.

Depois disso torna-se necessário abençoar o nosso trabalho e colocá-lo no lugar de maior honra e reverência, o altar. Aproximar-me desse altar enquanto sacerdotisa, invocar a Deusa, que está dentro e fora de mim, que é imanente e transcendente, é para mim a nossa cura, a nossa possibilidade de renascermos inteiras depois do golpe mortal do patriarcado quando nos considerou indignas de o fazer. Ser sacerdotisa é na prática quebrar esse interdito, desfazer essa maldição, curar essa ferida, essa cisão.

Quando eu ergo a minha tecitura ao nível do sagrado, ela fica imbuída desse poder supremo. Do poder de gerar mitos que nos favorecem e fortalecem, que nos ajudam a perceber quem somos fora da esfera do utilitarismo patriarcal que nos anulou, obliterando, deturpando os nossos mitos para nos pôr ao seu serviço.

Não esquecer que para isso ele criou outros mitos, como a história de Adão e Eva, que foram contra nós e que isso aconteceu aí na esfera do religioso, do poder supremo…

“A religião é a política ao mais alto nível”, o verdadeiro centro de poder das nossas vidas. Como muitas feministas entenderam, “a religião é um assunto demasiado importante para ser deixado nas mãos dos patriarcas”. Um lugar com essa importância na nossa alma nunca ficará vazio. A sede de sagrado, acredito, é inerente à nossa natureza, e por isso iremos saciá-la com o que houver disponível: Deus, Deusa, Ciência, Consumo, Homem Ideal, alguma coisa para lá mandamos…


©Luiza Frazão

Imagens - fachada do Goddess Hall, Benedict Street, Glastonbury, Inglaterra; a Deusa Anciã no Templo da Deusa de Glastonbury (foto de Anna-Saqqara Price)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

REIS DA CRIAÇÃO POR DIREITO DIVINO

Encontrei há pouco esta foto do Ernest Hemingway e da modelo Jean Petchett e achou-a perfeita para ilustrar este excerto do Segundo Sexo, ou talvez até o livro inteiro...

"Em toda parte e em qualquer época, os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentirem os reis da criação. "Bendito seja Deus nosso Senhor e o Senhor de todos os mundos por não me ter feito
mulher", dizem os judeus nas suas preces matinais, enquanto as suas esposas murmuram com resignação: "Bendito seja o Senhor que me criou segundo a sua vontade". Entre as mercês que
Platão agradecia aos deuses, a maior se lhe afigurava o fato de ter sido criado livre e não escravo e, a seguir, o de ser homem e não mulher. Mas os homens não poderiam gozar plenamente esse privilégio, se não o houvessem considerado alicerçado no
absoluto e na eternidade: de sua supremacia procuraram fazer um direito. "Os que fizeram e compilaram as leis, por serem homens, favoreceram seu próprio sexo, e os jurisconsultos transformaram
as leis em princípios", diz ainda Poulain de Ia Barre.

Legisladores, sacerdotes, filósofos, escritores e sábios empenharam- se em demonstrar que a condição subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa à terra. As religiões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a

teologia a serviço de seus desígnios, como vimos pelas frases citadas de Aristóteles e São Tomás."

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo

terça-feira, 12 de novembro de 2013

MULHERES EM BRANCO - A UNIVERSALIDADE DA BEAN SIDHE DA TRADIÇÃO CELTA


Versão portuguesa:

 MULHERES EM BRANCO

 Uma mulher misteriosa, vestida de branco, anunciadora da morte, em pranto, é uma figura bem conhecida na tradição celta, a Bean Sidhe. No entanto, esta mulher não é um exclusivo do folclore celta. As suas irmãs parecem estar espalhadas por todo o lado, como é o caso de La Llorona no México, de La Sayona na Venezuela, de Paquita Muñoz nos Andes e de a Mulher de Branco no Brasil e em Portugal...
 O branco que ela usa é tudo menos um símbolo de pureza e de inocência e as suas histórias dramáticas e dolorosas parecem estar sempre associadas a um homem de quem ela procura vingar-se. O fantasma desta mulher atormenta e aterroriza incautos condutores em nocturnas estradas isoladas.
 Nesta comunicação tentaremos perceber de que modo estas Mulheres de/em Branco estão conectadas com as profundezas ignoradas da nossa alma.

domingo, 10 de novembro de 2013

A ÉPOCA PAGÃ NÃO FOI UMA ÉPOCA DE CAOS E DE TREVAS, COMO HABITUALMENTE SE SUPÕE

 Por que é que continuamente se infere que a época pagã, o tempo em que eram cultuadas divindades femininas (quando esse tempo é mencionado), é como uma época de trevas, de caos, de mistério e de mal, sem a luz da ordem e sem a razão que supostamente foram depois trazidas pelas religiões masculinas? As pesquisas arqueológicas entretanto confirmam que as primeiras leis, formas de governação, medicina, agricultura, arquitectura, metalurgia, veículos de rodas, cerâmica, têxteis e escrita foram inicialmente desenvolvidas em sociedades que seguiam a religião da Deusa. E finalmente acabamos por nos questionar sobre as razões para a falta de informação facilmente acessível sobre sociedades que, durante milhares de anos, cultuaram a antiga Criadora do Universo. 

Apesar dos muitos obstáculos, consegui reunir a informação existente e comecei a relacionar entre si o que tinha recolhido. À medida que fui investigando, a importância, a longevidade e a complexidade desta religião antiga começou a tomar forma diante de mim. Muitas vezes havia apenas a referência à Deusa, um pedaço de lenda, uma referência obscura ao longo das 400 ou 500 páginas de erudição académica. Um templo abandonado em Creta ou uma estátua no museu de Istambul com escassa informação a acompanhá-la começaram entretanto a encontrar o seu lugar próprio num cenário mais vasto.


Merlin Stone, When God Was a Woman, traduzido por Luiza Frazão

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A DEUSA NEGRA - A SOMBRA FEMININA

“Não basta dizermos que é preciso uma nova relação com o feminino. Aquilo de que precisamos mesmo é de nos relacionar com o lado negro do feminino.Fred Gustafson, The Black Madonna (Boston, Sigo Press, 1990)

Nas sociedades tradicionais que reverenciavam a lua como Deusa, a 3.ª fase negra era personificada pela Deusa Negra, sábia e compassiva, que governava os mistérios da morte, transformação e renascimento. Com o tempo, sucessivas culturas foram gradualmente esquecendo o antigo culto da lua, e o antigo conhecimento da ciclicidade da realidade, reflectida nas suas fases perdeu-se.

Na nossa sociedade actual a maior parte de nós desconhece o potencial de cura e de renovação que existe como qualidade intrínseca do processo cíclico da fase escura da lua. Em vez disso, associamos a ideia de escuridão à da morte, do mal, da destruição, isolamento e perda. Numa sociedade governada pela clara consciência solar, fomos ensinad@s a temer, rejeitar, desvalorizar e desempoderar tudo quanto se relaciona com os conceitos de escuridão – pessoas de cor, mulheres, sexualidade, menstruação, natureza, o oculto, o paganismo, a noite, o inconsciente, o irracional e a própria morte. Do ponto de vista mítico, associamos todos estes medos da escuridão à imagem do feminino demoníaco conhecido como a Deusa Negra, intimamente relacionada com a lua negra.

Ao longo da história, o poder original da Deusa Negra enquanto renovadora foi esquecido e ela tornou-se assustadora e destruidora. Em muitas mitologias do mundo, ela foi descrita como a Tentadora, a Mãe Terrível, a Anciã que traz a morte. As suas biografias mais tardias descrevem-na como negra, malvada, venenosa, demoníaca, terrível, malevolente, fogosa. À medida que a cultura patriarcal se tornou dominante, ela foi-se transformando num símbolo da devoradora sexualidade feminina que faz com que o homem transgrida as suas convicções morais e religiosas, consumindo-lhe a essência vital no seu abraço mortífero.
Na imaginação mítica das culturas dominadas pelo homem, a sua natureza original foi distorcida e ela tomou proporções horríficas. Enquanto Kali, ela surge nos crematórios adornada com uma grinalda de caveiras, empunhando a cabeça cortada do seu companheiro, Shiva, escorrendo sangue. Enquanto Lilith, ela voa pelos céus nocturnos como uma demoníaca criatura que seduz os homens e mata criancinhas. Enquanto Medusa, a sua bela e abundante cabeleira tornou-se uma coroa de serpentes sibilantes e o seu olhar feroz transforma os homens em pedra. Enquanto Hécate, ela persegue os homens nas encruzilhadas pela noite com os seus ferozes cães do inferno.



Podemos perguntar-nos por que razão a Deusa Negra apresenta uma imagem tão terrífica e de que modo ela e a sua contraparte psicológica, o feminino negro, ameaçam a nossa sociedade e criam destruição nas nossas vidas. E ainda como é que o seu poder destruidor se relaciona com as suas qualidades de cura que permitem a renovação. De que formas a Deusa Negra representa o nosso medo do escuro, do oculto, da morte, da mudança; o nosso medo do sexo, bem como o do confronto com o nosso ser e essencialmente com a nossa essência e a nossa própria interpretação da verdade. As respostas para estas questões podem encontrar-se na transição de uma cultura matriarcal para uma cultura patriarcal que ocorreu há 5 mil anos. As pesquisas actuais sobre a história antiga, nos domínios da teologia, da arqueologia, da história da arte e da mitologia, estão a trazer à evidência que, com início há 3 mil anos AC, ocorreu uma transformação nas estruturas religiosas e políticas que governavam a humanidade. Sociedades matriarcais que cultuavam as Deusas da terra e da lua, como Innana, Ishtar, Ísis, Deméter e Artemis, deram lugar a sociedades patriarcais, seguidoras do deus solar e dos heróis masculinos, como Gilgamesh, Amon Ra, Zeus, Yahweh e Apolo.

 Antes disso, uma conexão entre a morte e o renascimento estava implícita na cíclica renovação da Deusa Lua, cultuada pelos povos antigos. A Deusa ensinava que a morte mais não é do que a precursora do renascimento e que o sexo não serve apenas para a procriação, serve também para o êxtase, a cura, a regeneração e a iluminação espiritual. Quando a humanidade adoptou o culto dos deuses solares, os símbolos da Deusa começaram a desaparecer da cultura e os seus ensinamentos foram esquecidos, distorcidos e reprimidos.

Académic@s contemporâne@s começam a descobrir evidências de como o culto da Deusa foi suprimido, os seus templos e artefactos destruídos, os seus e as suas seguidr@s perseguid@s e assassinad@s e a sua realidade negada. O novo sistema de crenças das tribos dos conquistadores solares patriarcais renegaram a renovação cíclica, negando assim o ciclo natural do nascimento, morte e regeneração da Deusa Lua, o terceiro aspecto da Deusa Tripla. A Deusa Tripla da Lua, na sua fase nova, cheia e escura, era o modelo da natureza feminina enquanto Donzela, Mãe e Anciã. No seu culto original da Deusa Negra, como o terceiro aspecto desta trilogia lunar, ela era honrada, amada e aceite pela sua sabedoria, pelo seu conhecimento dos mistérios da renovação.
Durante a prevalência da cultura patriarcal, entretanto, ela e os seus ensinamentos foram banidos e remetidos para os recantos escondidos do nosso inconsciente.
(…)
Com a diminuição da luz da lua, ela transforma-se na Anciã Negra na lua escura minguante que recebe @ mort@ e @ prepara para o renascimento. Na sua sabedoria que deriva da experiência, ela relaciona-se com a estação do inverno e o mundo subterrâneo. Enraizada na sua força interior, a Deusa da Lua Negra está repleta de compaixão e de compreensão da fragilidade da natureza humana e o seu conselho é sábio e justo.
Ela governa as artes da magia, o conhecimento secreto, os oráculos. A Anciã da Lua Negra era artisticamente representada como a terrível face da Deusa que devora a vida, e algumas imagens representam a sua vulva como símbolo da subsequente renovação. Rainhas da magia e do submundo, como Hécate, Kali, Eresh-Kigal, são símbolos da fase minguante da Deusa da Lua Negra.
(…)
Os povos antigos sabiam que, tal como ela morria todos os meses com a velha Lua Negra, também renasceria na Lua Nova crescente. Era a Anciã da Lua Negra que tomava a vida no seu útero; mas @s antig@s também sabiam que a Deusa Virgem da Lua Nova daria à luz a nova vida. A anciã era a doadora da morte assim como a virgem era a que trazia o renascimento. A reencarnação era representada pela refertilização da anciã-tonada-virgem. A interacção contínua entre a destruição que se transformava em nova criação é a eterna dança que sustém o cosmos.

A Deusa Negra eliminava e consumia aquilo que estava velho, degradado, desvitalizado e sem préstimo. Tudo isso era transformado no seu caldeirão e oferecido depois como elixir. Como podemos ver nos seus antigos rituais sagrados, as antigas religiões partilhavam o conceito dum submundo para onde a Deusa Negra conduzia a alma através dos negros espaços do sem forma, onde ela exercia os seus secretos poderes de regeneração.

A palavra inglesa “hell” vem do nome da terra subterrânea da Deusa escandinava Hel. O seu subterrâneo não era entretanto um lugar de punição, mas antes o escuro útero, simbolizado pela cave, o caldeirão, o fosso, a cova, o poço. A Deusa Negra não era temida e o seu espaço não era um lugar de tortura. Ela guardava os seus e as suas iniciad@s nos cemitérios, a entrada do seu templo. Através da morte o indivíduo entra no ciclo da fase escura da lua; aí encontra a Deusa Negra que o conduz através da passagem intermédia de volta à vida.

Quando este natural desfecho do tempo de vida era compreendido e aceite, a Deusa Negra era honrada pela sua sabedoria e amada pela sua ilimitada aceitação e compaixão para com os habitantes da terra. Ela não era temida pelos povos que cultuavam a lua, que entendiam a morte como um hiato no tempo entre vidas.

MYSTERIES OF THE DARK MOON – The Healing Power of the Dark Goddess, Demetra George, HarperSanFrancisco, 1992

Traduzido por Luiza Frazão

Imagens: Caroline Hillyer

     


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

De Santa a Rameira - a visão patriarcal da antiga religião da Deusa

De Santa (qadesh) a Rameira (Harlot)

Lendo Merlin Stone, a famosa autora de When God Was a Woman (Quando Deus era Mulher)... A obra que tenho em mãos é The Paradise Papers  - The Suppression of Women’s Rites (Os papéis do Paraíso- a Supressão dos Ritos Femininos). Como se diz na capa, um “clássico feminista”…

Merlin Stone revela aqui o que encontramos quando um novo olhar, um olhar feminino, ou feminista, é lançado sobre documentos antigos. Um crivo de preconceitos patriarcais é usado pelos arqueólogos académicos, segundo aqui se demonstra, para interpretarem dados do passado… muito interessante e revelador.

Fica aqui uma amostra:

“Na maior parte dos textos arqueológicos, a religião centrada numa divindade feminina é referida como um simples “culto de fertilidade”, parecendo tal classificação revelar atitudes em relação à sexualidade que decorrem da influência da visão das religiões contemporâneas professadas pelos próprios autores. No entanto a evidência arqueológica e mitológica da veneração duma divindade feminina enquanto criadora, legisladora, inventora, profetiza, com influência no destino humano, inventora, curadora, caçadora e líder imponente no campo de batalha sugere que a designação “culto de fertilidade” não passa duma simplificação grosseira duma complexa estrutura teológica.
(…)
Nas suas descrições de cidades e de templos há muito soterrados, os académicos homens escreveram sobre a sexualidade activa da Deusa como sendo “indecente”, “intoleravelmente agressiva” “embaraçosamente vazia de moral”, enquanto as divindades masculinas que seduziam e violavam ninfas ou mulheres míticas, são descritas como “brincalhonas” ou até admiravelmente “viris”. A evidente natureza sexual da Deusa, justaposta à Sua sagrada divindade confundiu de tal forma um académico que este acabou por decidir-se pelo desconcertante epíteto de Virgem-Rameira. As mulheres que seguiam os antigos hábitos sexuais do culto da Deusa, designadas na sua própria língua como sagradas ou santas mulheres, foram repetidamente classificadas como “prostitutas ritualísticas”. Esta selecção de palavras é reveladora uma vez mais duma ética etnocêntrica provavelmente baseada em atitudes bíblicas. Acrescente-se ainda que usar o termo “prostituta” para designar mulheres cujo título era na verdade qadesh, que significava santa, revela uma enorme falta de compreensão da verdadeira estrutura social e teológica que estes autores estão a tentar descrever.

As descrições da divindade feminina como criadora do universo, inventora, dispensadora de cultura, são feitas habitualmente em uma ou duas linhas se tanto; os académicos rapidamente passam por cima destes aspectos da divindade feminina que segundo eles não merecem sequer discussão.
Apesar do facto de o título da Deusa em muitos documentos históricos do Médio Oriente ser Rainha dos Céus, alguns autores apenas parecem dispostos a conhecê-la como Mãe Terra…


A divindade feminina, venerada como guerreira ou caçadora, lutadora corajosa ou ágil atiradora, foi por vezes descrita como possuindo curiosos “atributos masculinos”, implicando isso que a Sua força e valor a tornavam uma espécie de aberração, ou alguém psicologicamente anormal. O professor de Arqueologia Pré-histórica J. Maringer rejeita a ideia de que os crânios de rena fossem troféus de caça duma tribo paleolítica. A razão? Foram encontrados no túmulo duma mulher. Escreve ele: “Aqui o esqueleto era o de uma mulher, uma circunstância que parece descartar a hipótese dos crânios e hastes de rena serem troféus de caça”. Estarão estes autores a julgar a natureza física intrínseca da mulher pelos modernos ideais de esbelteza e fragilidade?”

Merlin Stone, The Paradise Papers (tradução de Luiza Frazão)  

Imagem do centro: Deusa Tanit

domingo, 29 de setembro de 2013

TRAZER AO MUNDO A CULTURA DA DEUSA

Numa discussão alguém disse:

" Tenho pensado na 'sociedade' da Deusa... voltará? Os 'moldes' serão os mesmos? ... por vezes julgo q sim outras julgo que não. Sei, entendo as sociedades assentes na deusa mas também não entendo. .. porque falharam. .. por quê? (Nem sei se é necessária esta questão) ... utopia? ?? Será? Sonhos? ?? Realidade?"


A minha opinião e as pesquisas que faço vão no seguinte sentido: existe um elo entre as sociedades que cultuavam a Deusa (por que desapareceram é uma longa história sobre a qual ainda não há certezas incontestáveis, se é que vão alguma vez existir) e o presente. Esse elo são as sociedades matriarcais ou matrifocais que ainda sobrevivem no planeta. São várias, não apenas Mosuo na China. São estas sociedades que, do meu ponto de vista, possuem a chave, o segredo para mudarmos o presente indo buscar os valores que permitiram que sociedades do passado florescessem (a de Creta, Çatal Huyuk na Turquia por exemplo) e durassem por milénios, sociedades de paz como está provado. Neste momento por todo o mundo há congressos sobre estas sociedades de paz do passado que nos podem ensinar muito, é só procurar na Net o testemunho das mulheres porta-vozes dessas sociedades. 


Por outro lado, há um movimento, a Permacultura (e Transição como também se diz) a que vale a pena estar atent@. Como normalmente por aqui as questões de género não são tidas em conta, no movimento em Portugal, digo, afastei-me.

Starhawk é para mim uma das mulheres que têm coisas para nos ensinar nesta junção da Permacultura, sociedades matrifocais e a Deusa...