Conteúdos

domingo, 29 de setembro de 2013

TRAZER AO MUNDO A CULTURA DA DEUSA

Numa discussão alguém disse:

" Tenho pensado na 'sociedade' da Deusa... voltará? Os 'moldes' serão os mesmos? ... por vezes julgo q sim outras julgo que não. Sei, entendo as sociedades assentes na deusa mas também não entendo. .. porque falharam. .. por quê? (Nem sei se é necessária esta questão) ... utopia? ?? Será? Sonhos? ?? Realidade?"


A minha opinião e as pesquisas que faço vão no seguinte sentido: existe um elo entre as sociedades que cultuavam a Deusa (por que desapareceram é uma longa história sobre a qual ainda não há certezas incontestáveis, se é que vão alguma vez existir) e o presente. Esse elo são as sociedades matriarcais ou matrifocais que ainda sobrevivem no planeta. São várias, não apenas Mosuo na China. São estas sociedades que, do meu ponto de vista, possuem a chave, o segredo para mudarmos o presente indo buscar os valores que permitiram que sociedades do passado florescessem (a de Creta, Çatal Huyuk na Turquia por exemplo) e durassem por milénios, sociedades de paz como está provado. Neste momento por todo o mundo há congressos sobre estas sociedades de paz do passado que nos podem ensinar muito, é só procurar na Net o testemunho das mulheres porta-vozes dessas sociedades. 


Por outro lado, há um movimento, a Permacultura (e Transição como também se diz) a que vale a pena estar atent@. Como normalmente por aqui as questões de género não são tidas em conta, no movimento em Portugal, digo, afastei-me.

Starhawk é para mim uma das mulheres que têm coisas para nos ensinar nesta junção da Permacultura, sociedades matrifocais e a Deusa...

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

CONFERÊNCIA DA DEUSA – GLASTONBURY 2013

Deep into the Earth we go
Deep into de Earth we know... (canção de Sally la Diosa Pullinger)

A Terra, a Mãe Terra, foi o tema deste ano, direção Oeste

Por momentos mal se cabia no Town Hall, espaço público disponibilizado todos os anos para este evento que já vai na 18.ª edição. A representante do poder local, na sessão de abertura, salientou o papel e a responsabilidade das mulheres na mudança de paradigma no sentido de criarmos sociedades mais equilibradas, justas, muito mais pró-vida do que as que temos na atualidade.

A Visão MãeMundo

Para inundarmos o mundo com os valores da Mãe, os valores Matriarcais, foi finalmente apresentada ao grande público a visão de Kathy Jones, apoiada pela comunidade de sacerdotisas e sacerdotes de Avalon e de outras pessoas que se identificam com o Movimento da Deusa. Para melhor compreender esta visão, sugiro que consulte: em inglês  e na tradução portuguesa.

Curar a Sombra

Para trazer este mundo ao plano físico, torna-se imperioso para nós mulheres enfrentarmos e curarmos os nossos aspetos Sombra, que tantas e tantas vezes nos voltam umas contra as outras, sabotando todo o trabalho que possamos fazer em conjunto. A nossa divisão, interna e que depois se reflete para o exterior, a nossa profunda insegurança cientificamente desenhada para nos manter no estado de colonizadas, de escravatura mais ou menos disfarçada, em que nos encontramos, acabam por nos tornar cúmplices do sistema patriarcal que sem a nossa energia, aliás, não tem como sobreviver…

Na apresentação da sua visão, Kathy Jones enfatizou este aspeto e durante a própria Conferência tivemos ocasião de com humildade visitar ou revisitar os nossos aspetos mais densos e mais difíceis e de publicamente os admitir (dentro do nosso círculo de trabalho), o que já significa curá-los…

Entretanto, tal como aconteceu com o resto d@s participantes que encheram por completo o Tawn Hall na cerimónia de sexta-feira à noite, houve um comprometimento perante a Deusa de dedicação plena a esta via revolucionária no verdadeiro sentido do termo porque se trata de substituir os valores patriarcais vigentes que nos conduzem à destruição pelos valores matriarcais que agem no sentido da Vida.

A Via da Deusa é uma Via Revolucionária

Sei que o termo assusta, sei que já não podemos lutar contra nada, mas tão-somente, enquanto co-criador@s, ser a mudança que queremos que ocorra no mundo e dar-lhe toda a nossa energia… mas no entanto, tal como frisou Yeshe Rabbit, assumirmo-nos na atualidade, quando os fumos da Inquisição ainda não se esbateram completamente na paisagem, como Sacerdotisas da Deusa, ou aderentes à causa/espiritualidade da Deusa, implica que muitos desafios se podem apresentar, e a Guerreira em nós tem de estar preparada para os enfrentar e seguir adiante com determinação. 

A via da Deusa não é apenas glamour e olhinhos doces, roupas coloridas e magníficos altares; a via da Deusa é essencialmente Serviço. A via da Deusa implica além de outras coisas reflexão e estudo, por muito que nos possa assustar a lista de autor@s cujo trabalho é urgente conhecermos. A via da Deusa implica sairmos do nosso mundinho e ganharmos perspetiva, vermos as coisas dum plano mais e mais elevado; implica uma consciência social, e política no grande sentido da palavra. Implica Reeducação.

Yeshe Rabbit, inspiradora presença americana na conferência de Glastonbury 

I dance at the edge of the world
 Like my Ancestresses before me.
 I am a sacred vessel.
 My blood is indomitable.
 Cradling the Now at my breast.
 Nurturing the future unfolding.
 There is nothing to fear.
 I am a Mother of the New Time.

(Eu danço à beira do Mundo
Como @s ancestrais antes de mim
Sou recipiente sagrado
E o meu sangue é indómito
No meu regaço embalo o agora
Nutrindo o futuro que aí vem
Não existe nada a temer
Eu sou mãe do Novo Tempo)

"Conscious Goddess, a Sustainable Feminist Future of Spirituality"

Tive de novo o grande prazer de participar no workshop desta feminista, tal como já tinha sucedido no ano passado. Yeshe Rabbit é co-fundadora da The Bloodroot Honey Priestess Tribe, uma comunidade matriarcal do norte da Califórnia, e a sua proposta e ensinamentos vão no sentido de nos ajudar a criar núcleos matriarcais à nossa volta que paulatinamente substituam as estruturas patriarcais altamente tóxicas, mas felizmente já muito caducas. Desta comunidade de sacerdotisas saiu um projeto muito semelhante ao de Kathy Jones, Mother of the New Time (http://www.cayacoven.org/motnt/index.html).

Eyshe lembrou-nos da maturidade duma espiritualidade, a da Deusa, que esteve ativa no planeta por cerca de 35 000 anos, enquanto o Cristianismo reina há pouco mais de 2 000. Transposto isto para uma vida humana, temos uma criança de 11 anos e a sua premente necessidade de poder, manipulação e controlo… É sob os ditames deste ser imaturo que temos vivido na maior das inconsciências… Se continuarmos a alimentar as suas “birras”, não restará por fim pedra sobre pedra…  Por isso é tão urgente o BASTA! da Mãe.

More fun, more sex, more chocolate!

Sociedades matriarcais proporcionam-nos “more fun, more sex, more chocolate”… é o lema da bem-humorada sacerdotisa californiana. Lá onde patriarcado é Utilitarismo e Transação, o matriarcado é Criatividade e Processo. Para o utilitarismo patriarcal somos recursos a usar e a deitar fora; apenas em sociedades matriarcais temos hipótese de ser uma Pessoa. O princípio do Prazer em sociedades matriarcais é o que nos salvará da escravatura, resultado da ganância patriarcal, com a sua obsessão pelo Crescimento a qualquer preço.  
Nos matriarcados, o círculo substitui a pirâmide hierárquica. O círculo não exclui, pelo contrário, tal como acontece quando nos reunimos numa roda, ele inclui e cura. É assim que sempre colocamos no seu interior quem mais precisa da nossa atenção, como as crianças ou aquelas pessoas que estão a precisar de cura. @s mais necessitad@s colocamo-l@s no interior do círculo, lá onde se concentra o máximo do poder.

 “The Stones of Wonder, Sacred Drama Performance from the Mithos of Eartha”, escrito por Kathy Jones, com encenação de Katie Player

Precisamos como de pão para a boca de ouvir as histórias daquilo que aconteceu a uma cultura baseada nos valores femininos com a brutal invasão patriarcal. Os atores masculinos contaram mais tarde o quão doloroso foi para eles representar os papéis que Kathy Jones lhes destinou… Mas fizeram-no com entrega, amor e compaixão, compreendendo como é importante revisitar estes episódios para nos curarmos a to@s, homens e mulheres, num mundo completamente desequilibrado como o nosso.

Lembrar o que por vezes algumas de nós parecem esquecer ou de que nunca tiveram realmente muita consciência: a importância de fazermos este trabalho nós mulheres, por nós e para nós. Na presença dos homens, rapidamente alteramos o nosso comportamento e com grande facilidade e inconsciência lhes entregamos o nosso poder. O homem tem sido o grande detentor do poder, ele é visto por muitas de nós como o pai provedor, o líder que nos salvará com o poder da sua palavra e da sua espada... Nos céus, nos últimos milénios, tem reinado em exclusivo uma entidade masculina e nos nossos mitos modernos o seu filho homem é o grande salvador... Dá para perceber o quanto estamos imbuídas de masculinidade? Dá para sentir o desequilíbrio? Só o nosso trabalho conjunto pode criar novos mitos que tragam o equilíbrio e a paz a este mundo, um novo mundo!   


Conclusão

Se tivesse que contar-vos tudo o que me maravilhou nesta conferência, nunca mais acabava e ia enfadar-vos por certo, por isso fico por aqui…

Mas deixem-me só dizer-vos isto: não concebo que nenhum anjo, ET ou mestr@ ascenç@ crie um mundo para nós. Por que tal seria necessário quando somos criador@s tão capazes e talentos@s?!!!

©Luiza Frazão 




quarta-feira, 22 de maio de 2013

DEUSAS SOLARES



Embora a iconografia ocidental considere geralmente o sol como sendo do género masculino e a lua do género feminino, a antiga tradição oriental fala do sol no feminino. Os clãs que governavam o antigo Japão situam a sua origem na poderosa Deusa Solar, Omikami Amaterasu. Em 238 AD, as tribos japonesas eram governadas por uma rainha chamada Himiko, Filha do Sol.

A Grande Mãe hindu tomou a forma do sol enquanto deusa Aditi, mãe das doze Adityas zodiacais, espíritos cuja luz era revelada no dia do Juízo Final. No Mahanirvanatantra é dito que o sol era a indumentária da Grande Deusa: “O sol, o símbolo mais glorioso no mundo  físico, é a indumentária daquela que está “vestida com o sol”. A mesma deusa, identificada com Maria, aparece nos Evangelhos como a “mulher vestida de sol” (Revelação 12:1).

O Budismo Tântrico reconheceu um precursor da Mari do Oriente Médio, ou Maria, como o sol. Na aurora, os seus monges agradecem-lhe enquanto “a gloriosa, o sol da felicidade… Eu saúdo-te, ó Deusa Marici! Abençoa-me e satisfaz os meus desejos. Protege-me, ó Deusa, de todos os oito medos”.

Quando os japoneses reviram a sua mitologia para adaptá-la às novas ideias patriarcais, a Deusa Marici foi masculinizada e o facto dela ter sido um dia identificada com Omikami Amaterasu foi esquecido. Havia no entanto uma estranha ambivalência envolvendo o “poderoso deus” chamado Marici-deva ou Marici-ten. “Ele” era chamado protetor do sol, aparecendo no entanto sempre vestido com a indumentária duma mulher chinesa, indicando uma origem feminina com raízes a leste do Japão.

Entre os antigos árabes, o sol era uma Deusa, Atthar, por vezes apelidada de Archote dos Deuses.

Os celtas tinham uma Deusa Sol chamada Sulis, nome que vem de suil, que significa ao mesmo tempo “olho” e “sol”. Os povos germânicos chamavam-lhe Sunna. Para os noruegueses, ela era Sol. Na Escandinávia, era igualmente conhecida como “Glória-dos-Elfos”, a Deusa que daria à luz uma filha depois do juízo final, produzindo assim o sol da nova criação. Nos Eddas diz-se “uma filha radiante a brilhante sol conceberá antes de ser engolida por Fenrir; e a donzela trilhará o caminho de sua mãe quando os deuses consumarem a sua própria desgraça”.

A Deusa Sol Sul, Sol, ou Sulis era cultuada na Britânia na famosa colina artificial do complexo megalítico de Avebury, conhecido atualmente como Silbury Hill. Aí ela pariu cada novo Éon, que saiu do seu útero-túmulo, com mais de 130 pés de altura e mais de 500 de diâmetro. “A influência da deusa britânica Sul estendeu-se a grande parte do sudoeste de Inglaterra, e o seu culto parece ter tido praticado no alto de montes com vista para nascentes. Assim, perto da  nascente de Bath temos o monte isolado chamado Solsbury, ou Salisbury, provavelmente o seu lugar de culto”. Em Bath, os romanos identificaram Sul com Minerva e erigiram-lhe altares designando-a por Sul Minerva”.

Barbara Walker, The Woman’s Encyclopedia of Myths and Secrets, HarperSan Francisco, 1983

sexta-feira, 10 de maio de 2013

DEUSAS SOLARES - CAÍDAS E REMETIDAS PARA A NOITE



“(…) a Artemis grega, divindade solar na origem dos tempos,  que perdeu este aspeto e esta função a favor dum deus masculino. Podemos de resto ver como é que esse processo se desenrolou no mundo helénico e relacioná-lo com a tradição celta. Com efeito, primitivamente, Artemis identificava-se com sua mãe, Leto (ou Latona), tal como Core-Perséfone era a dupla da mãe Deméter: ela representava o Sol jovem, o Sol levante, por oposição a Leto que personificava o velho Sol, o Sol poente (tal como Core era a jovem filha, ou seja, a Terra jovem, face a Deméter, a velha Terra, o conhecido mito da renovação).

A partir do momento em que as divindades femininas foram masculinizadas, e também porque era impossível esquecer completamente o seu aspeto feminino, conservou-se a personagem de Artemis, apondo-se-lhe no entanto um paredro macho, o seu irmão Apolo, o qual monopolizou o aspeto solar, ao mesmo tempo que Artemis era remetida para a noite transformando-se em Deusa-Lua.

O mesmo aconteceu no Egipto onde Osiris tomou o lugar de Isis como Sol poente enquanto Hórus se tornava o Sol levante.

Sabemos que primitivamente a Lua era masculina e o Sol feminino, ainda assim é nas línguas semitas, germânicas e celtas e também nas tradições populares (onde se diz que “a Lua engravida as mulheres”).
Houve por conseguinte uma grande reviravolta no simbolismo mítico e religioso: a deusa-mãe Sol, Leto, foi substituída pelo seu filho e pela sua filha, macho e fêmea, e sabemos que Juno-Hera tudo fez para que essas crianças, fruto do adultério de Zeus (e portanto das prerrogativas paternalistas) não nascessem, o que significa que Hera, mulher divina, recusou admitir a mudança de orientação da sociedade, da ginecocracia para o paternalismo”.

Jean Markale, La Femme Celte, Payot (tradução Luiza Frazão) 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A ECONOMIA DA DÁDIVA


Nos mails desta manhã, chega-me um texto da Carol Christ sobre a Economia da Dádiva, inspirando-se no exemplo da sociedade cretense atual com que convive nas suas frequentes deslocações com grupos de mulheres àquela ilha grega. Carol lembra-nos ainda o trabalho da ativista Genevieve Vaughan sobre este modelo económico com provas dadas durante milénios (de outro modo não estaríamos hoje aqui), que surge como uma solução para substituir o modelo económico capitalista patriarcal vigente com o qual muito dificilmente nos vamos safar, nós e o planeta…  

Poucas coisas me dão tanto prazer como o verdadeiro Potlatch de algumas segundas-feiras de mercado com a G, a minha prima L e por vezes a minha irmã… é porque naquele ambiente nós ainda comungamos completamente desse espírito tribal muito familiar e muito antigo, dessa segurança primordial em que nos permitimos relaxar no grande colo coletivo, sabendo que ali a nossa luta solitária e frenética pela sobrevivência encontra um autêntico momento de repouso…



O livro editado pela Genevieve Vaughan é este:

WOMEN AND THE GIFT ECONOMY
 A Radically Different Worldview is Possible
edited by Genevieve Vaughan
















Na Wikipedia encontrei isto na entrada “Economia do Dom”, gosto mais de “Economia da Dádiva”.
Por aqui ainda existem muitos resquícios deste tipo de economia, sobretudo nos meios rurais, onde as bênçãos duma horta são normalmente repartidas por familiares, amigos e vizinhos e outros bens são generosamente partilhados. Quando nos tornámos “ricos” ficámos muito mais egoístas e pobres de coração… acho.

Economia do Dom

"Em Ciências Sociais, economia do dom, economia da doação ou economia da dádiva ou ainda cultura da dádiva é uma forma de organização social na qual os membros fazem doações de bens e serviços valiosos, uns aos outros, sem que haja, formal ou explicitamente, expectativa de reciprocidade imediata ou futura, como no escambo ou num mercado. Todavia, a obrigação de reciprocidade existe, não necessariamente envolvendo as mesmas pessoas, mas como uma corrente contínua de doações.
A economia do dom é uma forma económica baseada sobre o valor de uso dos objetos ou ações. Contrapõe-se portanto à economia de mercado, que se baseia no valor de troca de bens e serviços. A doação é na realidade uma troca recíproca com algumas características definidas por convenções e não por regras escritas: a obrigação de dar, a obrigação de receber, a obrigação de restituir mais do que se recebe.
A economia de dom caracteriza as chamadas economias primitivas. Autossuficientes, elas podem realizar a troca do excedente produzido pelos poucos bens que não conseguem produzir.
Um típico exemplo de economia de dom é a prática do Potlatch dos indígenas americanos, como a economia dos iroqueses ou da Kula, a cerimónia dos habitantes das ilhas Trobriand. (...)"



quinta-feira, 11 de abril de 2013

CÍRCULOS E... RODAS




Resposta de Cacilda Rodrigañez Bustos à editora argentina Madreselva, de Buenos Aires, pela edição que fez da sua obra PARIREMOS COM PRAZER, substituindo a palavra “corro” (roda) por “círculo”, em outubro de 2010.
Tradução do e-mail enviado pela autora à editora:

Pergunto-me a mim mesma se pode haver pessoas que não tenham sentido nunca o desejo de acariciar com a sua mão a mão de outrem, o impulso  imperativo de vincular as mãos com outras mãos e de mantê-las ligadas.  É possível que a rigidez do corpo atinja o ponto de não se ter na memória o registro do toque mais básico? Até que ponto podem os esquemas mentais artificiais esmagar a pulsação orgânica? E a resposta que eu dei a mim mesma é que sim, que existem pessoas domesticadas e  desvitalizadas o suficiente para não sentirem o mais elementar desejo, corpos embutidos de misticismo e do fanatismo, que realizam a sua ginástica para manter se manterem nos limites duma determinada capacidade muscular.


Sim, há pessoas que não sabem o que é o desejo ou o que é, ou era, uma roda; que a roda era formado assiduamente por mulheres e meninas que entrelaçavam as mãos umas com as outras movidas por um desejo concreto e imediato, por um impulso de prazer e de comprazimento, com as suas brancas mãos, como dizia Gôngora, com um branco desejo, como diria Cernuda. O desejo leve e subtil que nem por o ser é menos intenso, menos complacente, menos prazenteiro. Gente que não sabe o que é uma roda, e que a confunde com um simples círculo, que é uma figura geométrica, a projeção do sol ou de qualquer outro objeto que tenha forma circular. No entanto, a roda, por definição, é formado por corpos vivos, movidos pelas suas pulsões. Por conseguinte, se dizemos “círculo” em vez de roda, estamos a engolir os corpos que formam as rodas. As rodas estão vivas, são compostas por seres vivos, movendo-se com o impulso dos seres vivos que a formam, o que é todo o contrário duma abstração, duma figura imaginária. Nunca melhor metáfora da substituição da vida pela morte. Nunca em toda a história do patriarcado houve exemplo mais claro da sublimação das pulsões sexuais. O movimento dos corpos vivos sobre a terra fossilizado numa figura geométrica.

O fascismo de base são pessoas que têm os corpos encarquilhados e disciplinados, e por isso não sabem o que é uma roda. Em contrapartida, as forças que as controlam, essas sabem bem qual é a diferença entre a roda feminina e o círculo, e por isso escrevem obras de propaganda para que ninguém saiba o que é o desejo e os seus jogos. E como as obras encomendadas não devem ser suficientes, têm de usurpar o trabalho genuíno feito com base na vida e na verdade, para que continuemos a não entender a diferença entre dizer “roda e dizer “círculo”. Os corpos amortalhados, convertidos em figuras geométricas, sobre mortas ardósias.

Não se dão conta de que o meu trabalho é apenas o trabalho de uma pessoa, que o podem perseguir e destruir, como tantos outros trabalhos e tantas outras pessoas. Mas nós apenas falamos e escrevemos sobre os factos da vida, e as coisas continuarão a ser como são sem que nada as afete. Poderão matar e torturar, continuar a matar, mentindo e torturando, aniquilando milhares de milhões de vidas humanas, que a vida, enquanto vida houver, continuará a ser e a funcionar como ela é e sempre foi.

Editorial Madreselva: em vez de se porem a fazer este tipo de “edições”, mais valia sentarem-se à espera de que brote em vós o puro desejo de acariciar um ser humano.

Cacilda Rodrigañez Bustos
11 de fevereiro de 2011

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

IMBOLC 2013 EM AVALON

Dancing trees
Priestess training correspondence group
Sweet Way
Bridie's Swans
Isle of Avalon
Chalice Hill
The Tor

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

SOMOS NÓS OS PRIMITIVOS CELTAS?

"Verificamos afinal que "a "misteriosa chegada" dos Celtas ao Ocidente da Europa (...) é substituída pelo panorama de uma mais primitiva diferenciação dos Celtas, enquanto grupo indo-europeu mais ocidental da Europa (1). E que a Europa Ocidental deve ter sido sempre céltica" (...)

 A estes testemunhos sobre a celticidade do território português temos agora de acrescentar um dos mais recentes estudos sobre a escrita tartéssica (abrangendo todo o Sul de Portugal e boa parte do Sudoeste de Espanha e datável entre 800-550 a. C.) de John T. Koch (2). Este investigador vem, aliás, ao encontro do já aventado Xaverio Ballester (3), um dos mais famosos defensores do novo paradigma da continuidade paleolítica: o tartéssico (tal como o galaico-lusitano, para Ballester) deverá ser talvez acrescentado à lista das línguas célticas mais primitivas. Também nesta obra de Koch se inclui um texto (4), devidamente fundamentado, a questionar seriamente as teorias tradicionais. Mapas muito elucidativos, inseridos neste artigo, apresentam o que hoje, à luz de novos conhecimentos, se considera ser muito mais provável: foi no Extremo Ocidental da Europa que se situou o berço dos povos Celtas.

(1) Alinei, M., A Teoria da Continuidade Paleolítica das Origens Indo-Europeias: Uma Introdução, Lisboa, Apenas Livros, 2008

(2) Koch, John T., Tartessian, Celtic in the South-West at the Dawn of History, Aberystwyth, 2009

(3) Ballester, Xaverio, Sobre el Origen de las Lenguas Indoeuropeas Prerromanas de la Península Ibérica, www.continuitas.com

(4) O'Donnell, Charles James, Celtic Studies Lectures, 2008 (Was the Atlantic Zone the Celts Homeland? e People called Keltoi, the La Tène Style, and Ancient Celtic Languages: the Threefold Celts in the Light of Geography), in Koch, John T., op. cit, pp. 132 a 142

in Portugal, Mundo dos Mortos e das Mouras Encantadas, Vol. I,  Fernanda Frazão e Gabriela Morais, Apenas Livros, Lisboa, 2009

Imagem Google