O poder da Deusa, que se manifesta por meio das mulheres, é uma matriz emocional que convida a uma fusão ou simbiose inconsciente e transmite uma sensação de chegada a casa.Jean Shinoda Bolen
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
SOMOS NÓS OS PRIMITIVOS CELTAS?
"Verificamos afinal que "a "misteriosa chegada" dos Celtas ao Ocidente da Europa (...) é substituída pelo panorama de uma mais primitiva diferenciação dos Celtas, enquanto grupo indo-europeu mais ocidental da Europa (1). E que a Europa Ocidental deve ter sido sempre céltica" (...)
A estes testemunhos sobre a celticidade do território português temos agora de acrescentar um dos mais recentes estudos sobre a escrita tartéssica (abrangendo todo o Sul de Portugal e boa parte do Sudoeste de Espanha e datável entre 800-550 a. C.) de John T. Koch (2). Este investigador vem, aliás, ao encontro do já aventado Xaverio Ballester (3), um dos mais famosos defensores do novo paradigma da continuidade paleolítica: o tartéssico (tal como o galaico-lusitano, para Ballester) deverá ser talvez acrescentado à lista das línguas célticas mais primitivas. Também nesta obra de Koch se inclui um texto (4), devidamente fundamentado, a questionar seriamente as teorias tradicionais. Mapas muito elucidativos, inseridos neste artigo, apresentam o que hoje, à luz de novos conhecimentos, se considera ser muito mais provável: foi no Extremo Ocidental da Europa que se situou o berço dos povos Celtas.
(1) Alinei, M., A Teoria da Continuidade Paleolítica das Origens Indo-Europeias: Uma Introdução, Lisboa, Apenas Livros, 2008
(2) Koch, John T., Tartessian, Celtic in the South-West at the Dawn of History, Aberystwyth, 2009
(3) Ballester, Xaverio, Sobre el Origen de las Lenguas Indoeuropeas Prerromanas de la Península Ibérica, www.continuitas.com
(4) O'Donnell, Charles James, Celtic Studies Lectures, 2008 (Was the Atlantic Zone the Celts Homeland? e People called Keltoi, the La Tène Style, and Ancient Celtic Languages: the Threefold Celts in the Light of Geography), in Koch, John T., op. cit, pp. 132 a 142
in Portugal, Mundo dos Mortos e das Mouras Encantadas, Vol. I, Fernanda Frazão e Gabriela Morais, Apenas Livros, Lisboa, 2009
Imagem Google
A estes testemunhos sobre a celticidade do território português temos agora de acrescentar um dos mais recentes estudos sobre a escrita tartéssica (abrangendo todo o Sul de Portugal e boa parte do Sudoeste de Espanha e datável entre 800-550 a. C.) de John T. Koch (2). Este investigador vem, aliás, ao encontro do já aventado Xaverio Ballester (3), um dos mais famosos defensores do novo paradigma da continuidade paleolítica: o tartéssico (tal como o galaico-lusitano, para Ballester) deverá ser talvez acrescentado à lista das línguas célticas mais primitivas. Também nesta obra de Koch se inclui um texto (4), devidamente fundamentado, a questionar seriamente as teorias tradicionais. Mapas muito elucidativos, inseridos neste artigo, apresentam o que hoje, à luz de novos conhecimentos, se considera ser muito mais provável: foi no Extremo Ocidental da Europa que se situou o berço dos povos Celtas.
(1) Alinei, M., A Teoria da Continuidade Paleolítica das Origens Indo-Europeias: Uma Introdução, Lisboa, Apenas Livros, 2008
(2) Koch, John T., Tartessian, Celtic in the South-West at the Dawn of History, Aberystwyth, 2009
(3) Ballester, Xaverio, Sobre el Origen de las Lenguas Indoeuropeas Prerromanas de la Península Ibérica, www.continuitas.com
(4) O'Donnell, Charles James, Celtic Studies Lectures, 2008 (Was the Atlantic Zone the Celts Homeland? e People called Keltoi, the La Tène Style, and Ancient Celtic Languages: the Threefold Celts in the Light of Geography), in Koch, John T., op. cit, pp. 132 a 142
in Portugal, Mundo dos Mortos e das Mouras Encantadas, Vol. I, Fernanda Frazão e Gabriela Morais, Apenas Livros, Lisboa, 2009
Imagem Google
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
O SOLSTÍCIO DO INVERNO NA TRADIÇÃO DE AVALON E DA LUSITÂNIA
"Este momento do ano marca o princípio da segunda fase do
Inverno, quando nos movemos para a quietude da hibernação e para o foco na
interioridade que vai até ao Imbolc.
Este é o momento de fazermos
cerimónias para honrarmos a Mãe do Ar. Em Avalon Ela é Nolava do Ar, Danu, a
Morgen Tyronoe, Cailleach, Arianrhod da Roda de Prata. Nesta fase exploramos a nossa vida
espiritual, aprendemos a orar, a criar altares, começamos um diário de sonhos,
aprendemos a limpar a aura e a abençoarmo-nos mutuamente usando o elemento ar.
Momento ainda de aprendermos sobre proteção psíquica, de caminharmos pelas
paisagens sagradas d@s noss@s antepassad@s. Momento propício para irmos mais
fundo na nossa árvore genealógica e reivindicarmos a nossa linhagem.
A Mãe do Ar é a respiração
espiritual da Terra, a amorosa essência invisível que permeia todas as formas
criadas, tanto no mundo visível como no invisível. Ela é a Senhora dos Ossos, a
Senhora da Pedra, Calaica/Cale/Beira, a Anciã do Inverno que perdeu toda a
carne, que se tornou luz e imaterialidade.
Enquanto a Deusa Anciã nos conduz
para a morte, Calaica é a própria morte, o espaço entre vidas, entre a morte e
o renascimento. Ela á a quietude absoluta, a experiência do espírito antes da
forma, a antepassada imaterial do nosso povo. Através dela, podemos conectar-nos
com @s antepassad@s primordiais, os seres de Fogo, Gelo, Água, Ar e Terra que
criaram o maravilhoso mundo em que nós vivemos. Em visões ou em transe podemos
voar com os Seus pássaros do ar até Avalon, ou até ao Jardim das Hespérides, no
nosso caso, para encontrarmos @s noss@s antepassad@s remot@s.
A Mãe do Ar é ao mesmo tempo o
ponto da morte e a Eterna Vida que continua entre encarnações. Ela é o Ar e o
Vento, o Movimento do Invisível, Respiração, Ideia e Inspiração, a própria
Sabedoria e todos os seus frutos.
Frequentemente, quando nos
aproximamos d’Ela, o vento da Mãe do Ar sopra nas nossas vidas, limpando as
velhas teias de aranha na nossa mente, mudando o nosso modo habitual de vermos
as coisas. Ela pode ser suave como a brisa num dia de verão, que nos alivia do
calor excessivo, ou assustadora como um furacão, chamando a nossa atenção para o
Seu incomensurável poder. Ela despe as árvores e faz voar as telhas dos
telhados por cima das nossas cabeças, expondo o nosso medo e a nossa
vulnerabilidade. Podemos sentir o Seu toque quando subimos as encostas da Sua
paisagem, de onde por vezes Ela parece querer arrancar-nos. Somos muitas vezes obrigad@s
a dobrar-nos com a força das Suas rajadas e a aconchegar-nos nos Seu abraço
para nos mantermos de pé e no nosso centro. Por vezes, abrindo os braços como
asas, quase nos sentimos voar com Ela.
Os pássaros do ar pertencem-Lhe e
pela noite estrelada voam as Suas corujas, enquanto durante o dia pairam no ar os
abutres. Seus são os bandos de pequenos pássaros que buscam o que comer na
natureza e nos nossos quintais, agradecendo as sementes que deixamos para eles.
Em muitos dias do ano, é possível vê-los voando nas Suas correntes, subindo nos
céus ou descendo sobre a terra, inspirando-nos com o seu mágico poder de voar.
O ar é o elemento mais subtil e
simboliza a nossa natureza espiritual, é o elemento que nos conecta a todas as
criaturas. Human@s, plantas, animais, tod@s respiramos o mesmo ar…
Kathy Jones, Priestess of Avalon,
Priestess of the Goddess (traduzido e adaptado em alguns pontos à Roda do Ano
do Jardim das Hespérides por Luiza Frazão)
Imagens Google:
1. Serra da Estrela
2. Cabeça da Velha, Serra da Estrela
3. Deusa Arianrhod da Roda de Prata
4. Capela dos Ossos, Campo Maior
5. Coruja
5. Coruja
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
UM RITUAL PAGÃO NUNCA INTERROMPIDO
Tigh nam
Bodach (the Hag’s House)
Localizado em Glen Calliche,
perto de Glen Lyon, fica Tig nam Bodach (a Casa da Bruxa). Esta pequena
estrutura em pedra contendo pedras moldadas pela água é conhecida como a "Cailleach e as suas crianças". Nos meses de
verão, do primeiro de maio ao primeiro de novembro, as pedras são colocadas
fora do santuário, até que no começo do inverno elas regressam ao seu interior
pelas mãos dos pastores locais.
Este é considerado o mais antigo
ritual pagão nunca interrompido na Britânia e até mesmo, segundo algumas fontes, em toda a Europa.
Trata-se de rituais relacionados
com a divisão primordial do ano em duas estações, verão e inverno, o tempo da Deusa
enquanto Donzela e o Seu tempo enquanto Anciã.
Fontes:
Sorita d’Este & David Rankin, Visions of the Cailleach)
Imagem: Google
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Faleceu Patricia Monaghan
Faleceu no último dia 10, aos 66 anos, Patricia Monaghan, poeta e feminista, autora entre outros títulos de O Caminho da Deusa, editado em Portugal pela Europa-América, livro que forneceu inspiração a muitas de nós, nomeadamente a mim no meu trabalho com os arquétipos do Feminino.
Patricia Monaghan Ph.D. publicou mais de 15 títulos, incluindo um sobre vinhos, matéria em que era perita, e os 2 volumes da Enciclopédia das Deusas e Heroínas. Foi uma das fundadoras do Black Earth Institut, no Wisconsin, onde vivia, apesar de também ter a nacionalidade irlandesa.
Considerada por muit@s uma verdadeira força da natureza, que entre outras atividades também se dedicava à agricultura biológica, Patricia Monaghan foi uma das primeiras autoras através das quais aprendi antigos rituais da religião da Deusa. Onde quer que estejas, irmã, a minha profunda gratidão pela tua força, inspiração e generosidade.
Patricia Monaghan Ph.D. publicou mais de 15 títulos, incluindo um sobre vinhos, matéria em que era perita, e os 2 volumes da Enciclopédia das Deusas e Heroínas. Foi uma das fundadoras do Black Earth Institut, no Wisconsin, onde vivia, apesar de também ter a nacionalidade irlandesa.
Considerada por muit@s uma verdadeira força da natureza, que entre outras atividades também se dedicava à agricultura biológica, Patricia Monaghan foi uma das primeiras autoras através das quais aprendi antigos rituais da religião da Deusa. Onde quer que estejas, irmã, a minha profunda gratidão pela tua força, inspiração e generosidade.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
SAMHAIN - CELEBRAR O FIM DUM CICLO
Este é o momento do ano em que o
ciclo da vida termina, tudo o que a terra produziu já foi colhido e armazenado, o grão, os frutos, os vegetais (resta-nos a azeitona, a nós, mas está quase...!). Tudo o que resta vai agora ser cortado rente pela
foice da morte da Anciã e retornar ao útero da Mãe Terra para aí ser transformado.
O caldeirão simboliza esse útero da Mãe onde tudo é recriado para voltar a
nascer. Na natureza, vão acontecer processos de decomposição, de putrefação, de transmutação;
pétalas, folhagem, galhos secos transformar-se-ão em húmus suculento, enquanto
das sementes nova vida germinará para que o ciclo recomece. O tempo circular, o
tempo da Deusa.
Este é o momento da hibernação,
quando a vida se recolhe para o interior da terra, quando a nós humanos também
apetece ficar em recolhimento no interior das nossas casas, no aconchego do
calor da lareira, honrando esta época de introspeção, de avaliação daquilo que
na nossa vida também precisa de morrer, de ser transformado. Momento ainda de confronto com a Sombra... Quando aceitamos
fluir com a Vida, com a Natureza, quando compreendemos que dela fazemos parte
enquanto criações da Deusa, aprendemos a aceitar, respeitar, valorizar, honrar
e celebrar o processo da morte. Sabemos que somos energia eterna, que como
dizia Lavoisier, na Natureza nada se perde, tudo se transforma e que por isso
também nós estamos envolvidas e envolvidos neste ciclo de morte e renascimento.
Assim aquelas e aqueles que nos precederam, que continuam a viver noutra
dimensão, e a quem naturalmente na nossa cultura nós recordamos e honramos
neste momento do ano.
Pessoalmente, gosto de ir ao cemitério visitar o túmulo
da minha mãe, do meu pai, das minhas avós e avôs, das tias e dos tios já
falecidos. Levo-lhes flores e uma prece de gratidão pela herança que me
legaram. No meu altar coloco um bolo para elas e para eles, aquilo a que agora
chamamos bolo dos santos, herança
duma tradição muito antiga, pagã, que como tantas outras o cristianismo teve de
assimilar para conseguir impor-se e dominar enquanto religião. É óbvio que elas
e eles não irão comer esse bolo de uma forma física, mas a energia amorosa que
foi colocada na sua confeção e na intenção desta oferenda tocará a energia que
são agora, e sempre foram, e que conecta os nossos corações.
Neste festival honremos a Deusa
Anciã, a Deusa Negra do Mundo de Baixo e peçamos-lhe que nos ajuda a transmutar dentro do Seu caldeirão ou na fogueira que Lhe acendemos, aquilo que não queremos mais na nossa vida.
E depois celebremos a Vida com
muita alegria!
©Maria Luiza Oliveira Frazão
terça-feira, 30 de outubro de 2012
CRISE NO PATRIARCADO
A estrutura caractereológica do homem atual (que vem perpetuando uma cultura patriarcal e autoritária desde há entre 4 a 6 mil anos) caracteriza-se por um encouraçamento contra a natureza dentro de si mesmo e contra a m
iséria social que o rodeia. Este encouraçamento do carácter está na base da solidão, do desamparo, do insaciável desejo de autoridade, do medo, da angústia mística, da miséria sexual, da rebelião impotente, assim como duma resignação artificial e patológica. Os seres humanos adotaram uma atitude hostil àquilo que dentro deles mesmos está vivo, mas de que se afastaram. A origem desta alienação não é biológica, mas social e económica e não é detetável na história humana antes do surgimento da ordem social patriarcal.
WILHEM REICH
La Función del Orgasmo
citado por Cacilda Rodrigañez Bustos, em El Assalto al Hades
WILHEM REICH
La Función del Orgasmo
citado por Cacilda Rodrigañez Bustos, em El Assalto al Hades
Imagem: Magritte
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
OCUPAR A SEMENTE
Lisboa, desfile performativo pela Liberdade das Sementes
16 de outubro, Dia Mundial da Soberania Alimentar
16 de outubro, Dia Mundial da Soberania Alimentar
Declaração sobre a Liberdade das
Sementes
- Vandana Shiva
1. A semente é a fonte de vida, é a urgência da vida de dar expressão a si mesma, de renovar-se, de multiplicar-se, de desenvolver-se de forma perpétua em liberdade.
2. A semente é a materialização da diversidade biocultural. Representa milhões de anos de evolução biológica e milénios de evolução cultural e o potencial para milénios de evolução no futuro.
3. A Liberdade das Sementes é o direito que toda e qualquer forma adquire desde nascença e é a base da protecção da biodiversidade.
4. A Liberdade das Sementes é o direito que qualquer agricultor e produtor alimentar adquire desde nascença. O direito dos agricultores de guardar, trocar, desenvolver, cultivar, vender as sementes é o âmago da Liberdade das Sementes. Quando esta liberdade lhes é retirada os agricultores ficam encurralados pela dívida e em casos extremos suicidam-se.
1. A semente é a fonte de vida, é a urgência da vida de dar expressão a si mesma, de renovar-se, de multiplicar-se, de desenvolver-se de forma perpétua em liberdade.
2. A semente é a materialização da diversidade biocultural. Representa milhões de anos de evolução biológica e milénios de evolução cultural e o potencial para milénios de evolução no futuro.
3. A Liberdade das Sementes é o direito que toda e qualquer forma adquire desde nascença e é a base da protecção da biodiversidade.
4. A Liberdade das Sementes é o direito que qualquer agricultor e produtor alimentar adquire desde nascença. O direito dos agricultores de guardar, trocar, desenvolver, cultivar, vender as sementes é o âmago da Liberdade das Sementes. Quando esta liberdade lhes é retirada os agricultores ficam encurralados pela dívida e em casos extremos suicidam-se.
5. A Liberdade das
Sementes é a base da Liberdade Alimentar, uma vez que a semente é o primeiro
elo na cadeia alimentar.
6. A Liberdade das Sementes é ameaçada pelas patentes sobre sementes, que criam um monopólio de sementes e tornam ilegais a conservação e troca de sementes pelos agricultores. As patentes sobre sementes não se justificam, nem em termos éticos nem em termos ecológicos, uma vez que as patentes são direitos exclusivos concedidos sobre uma invenção. As sementes não são uma invenção. A vida não é uma invenção.
7. A Liberdade das Sementes de diferentes culturas é ameaçada pela Biopirataria e pelas patentes no conhecimento e biodiversidade indígenas. A Biopirataria não é uma inovação – é um furto.
8. A Liberdade das Sementes é ameaçada por sementes geneticamente modificadas, que estão a contaminar as nossas quintas, eliminando assim a opção por alimentos não geneticamente modificados para todos. A Liberdade das Sementes dos agricultores é ameaçada quando, depois de contaminarem as nossas culturas, as multinacionais processam os agricultores por “roubar a sua propriedade”.
9. A Liberdade das Sementes é ameaçada pela transformação deliberada da semente de recurso renovável auto-gerado, em produto não renovável patenteado. Os casos mais extremos de sementes não renováveis são aquelas desenvolvidas através da “Tecnologia Exterminadora”, que foi desenvolvida com a finalidade de criar sementes estéreis.
10. Comprometemo-nos a defender a Liberdade das Sementes enquanto liberdade de evolução das diversas espécies; enquanto liberdade das comunidades humanas de reclamar as sementes de fonte livre como bens comuns.
6. A Liberdade das Sementes é ameaçada pelas patentes sobre sementes, que criam um monopólio de sementes e tornam ilegais a conservação e troca de sementes pelos agricultores. As patentes sobre sementes não se justificam, nem em termos éticos nem em termos ecológicos, uma vez que as patentes são direitos exclusivos concedidos sobre uma invenção. As sementes não são uma invenção. A vida não é uma invenção.
7. A Liberdade das Sementes de diferentes culturas é ameaçada pela Biopirataria e pelas patentes no conhecimento e biodiversidade indígenas. A Biopirataria não é uma inovação – é um furto.
8. A Liberdade das Sementes é ameaçada por sementes geneticamente modificadas, que estão a contaminar as nossas quintas, eliminando assim a opção por alimentos não geneticamente modificados para todos. A Liberdade das Sementes dos agricultores é ameaçada quando, depois de contaminarem as nossas culturas, as multinacionais processam os agricultores por “roubar a sua propriedade”.
9. A Liberdade das Sementes é ameaçada pela transformação deliberada da semente de recurso renovável auto-gerado, em produto não renovável patenteado. Os casos mais extremos de sementes não renováveis são aquelas desenvolvidas através da “Tecnologia Exterminadora”, que foi desenvolvida com a finalidade de criar sementes estéreis.
10. Comprometemo-nos a defender a Liberdade das Sementes enquanto liberdade de evolução das diversas espécies; enquanto liberdade das comunidades humanas de reclamar as sementes de fonte livre como bens comuns.
As
Sementes e as Mulheres
As
mulheres são naturalmente as guardiãs das sementes, as germinadoras da vida.
Num momento onde por todo o mundo surgem esterilizações de mulheres sem o
conhecimento e autorização das mesmas é paralelo o abuso do corpo natural da
Terra e suas sementes. É urgente que se unam Homens e Mulheres preservando a
semente e fruto dos seus ventres e do ventre criativo da natureza, no potencial
máximo da sua abundância e sustentabilidade: a semente.
Se a
semente é património privado, a vida humana perde o que de mais precioso tem:
alimentação, cultivo (capacidade de gerar o seu alimento com autonomia) e
saúde.
A
semente privatizada e manipulada é como a remoção não consentida do útero,
ovários ou trompas: um crime, uma violação da integridade humana e planetária,
um atentado à mais elementar liberdade de ser parte de um planeta que é de
todos.
A obra
de E. Delacroix, La Liberté guidant le peuple, relembra os princípios
esquecidos e essenciais da liberdade, igualdade, irmandade.
As
sementes relembram a urgência de reclamar a concretização destes princípios e
de todos assumirmos o papel da revolucionária Liberté, porque é nesta mesma
liberdade que se baseia o direito de nutrição autónoma dos nossos filhos e a
biodiversidade essencial à vida saudável do planeta Terra.
A
Liberdade guia o povo, as corporações matam a liberdade e o povo ao
privatizarem as sementes e impedirem que a agricultura se processe livremente.
Que
todas as mulheres e homens possam unir-se de coração nu pela liberdade de todas
as sementes, de toda a nutrição, de todos nós.
Iris
Lican
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
FILHAS DO PATRIARCADO
“É precisamente na mulher que tem
uma relação pobre com a mãe que o arquétipo do si mesmo primeiro se
constela, naquela que tende a buscar a sua plenitude através do pai ou do homem
amado. […]
Uma mulher expressou isso quase como um manifesto no começo da análise:
“Eu insisto em ter o carinho dum
homem. Qualquer fonte feminina me enfurece. O homem é responsável pelo
universo. As mulheres não passam dum
segundo lugar. Odeio túneis, Kali, minha mãe e este corpo de mulher. O que eu
quero é um homem.”
O problema é que nós, mulheres
muito feridas na relação com o feminino, quase sempre temos uma persona muito eficiente, uma boa imagem
pública. Crescemos como filhas dóceis do patriarcado, frequentemente
intelectuais e dotadas daquilo que denominarei “egos-animus”. Lutamos por
defender as virtudes e ideais estéticos a nós apresentados pelo superego patriarcal. Mas enchemo-nos de autorrejeição
e de uma sensação de profunda feiura e fracasso quando não conseguimos
satisfazer nem aliviar as exigências de perfeição do superego.
Uma mulher com mais de dez anos
de análise junguiana disse-me: “Passei anos tentando relativizar uma coisa que
nunca tive: um ego verdadeiro”. Realmente, ela tem apenas um ego-animus, e não um que seja
verdadeiramente seu para se
relacionar com o inconsciente e com o mundo exterior. A sua identidade
baseia-se em adaptações da persona
àquilo que o animus lhe diz que deve
ser feito; assim, ela a um só tempo, adapta-se às projeções que lhe impingem e revolta-se
contra elas.
Consequentemente, essa mulher quase não tem o sentido do seu
núcleo pessoal de identidade, do valor e do ponto de vista femininos. Isto acontece
por se terem valorizado, em relação às mulheres ocidentais, virtudes que
frequentemente apenas se definem pela sua relação com o masculino: a mãe e
esposa fecunda e bondosa; a filha agradável, dócil e delicada; a companheira
diligente, discretamente encorajadora ou brilhante.
Como tantas escritoras
feministas declararam pelos tempos afora, esse modelo coletivo e o
comportamento daí resultante é inadequado para a vida; nós mutilamo-nos, enfraquecemo-nos,
silenciamo-nos e enfurecemo-nos, tentando comprimir os nossos espíritos dentro
dele, na certa exatamente como as nossas avós deformaram os seus corpos
sensíveis dentro de espartilhos, por causa dum ideal.”
Sylvia Brinton Perera, Caminho
para a Iniciação Feminina, Edições Paulinas, São Paulo, 1985 (adaptado)
Imagem: Liv Tyler em "O Senhor dos Anéis" (clique sobre a imagem para uma definição de consceitos junguianos como "anima" e "animus")
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Persona,
si-mesmo,
Sylvia Brinton Perera
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
HOJE, 11 DE OUTUBRO, PRIMEIRO DIA INTERNACIONAL DA RAPARIGA
A CÉLULA "RAPARIGA" É UM CHIP QUE PODE MUDAR A NOSSA CONSCIÊNCIA COLETIVAA célula “menina”, ou “rapariga”, é uma célula, ou um conjunto de células, central para a evolução da espécie humana. Essa célula existe em tod@s nós, mas entretanto os poderes em vigência compreenderam a necessidade de a suprimir, reinterpretando-a, negando o seu valor, levando-nos a tomá-la por fraqueza, reduzindo-a, erradicando-a, matando a célula “rapariga” em nós.
Imaginemos que a rapariga é um chip no macrocosmos da consciência coletiva, e que é preciso repensar e equilibrar o futuro de tod@s nós. Imaginemos que essa célula “rapariga” é compaixão, empatia, paixão, intensidade, vulnerabilidade, sinceridade, capacidade de associação, de relacionamento, intuição.
Compreendamos que da compaixão decorre grande sabedoria, a vulnerabilidade pode ser a nossa maior fortaleza e as emoções têm a sua lógica própria que nos leva a tomar as medidas mais certas, radicais e salvadoras. Os poderes instituídos, no entanto, sempre nos disseram o contrário, que a compaixão turva o raciocínio, que atrapalha, que vulnerabilidade é igual a fraqueza, que não nos devemos deixar guiar pelas nossas emoções, que não devemos tomar as coisas a peito, pessoalmente.
O mundo foi criado para evitar sermos uma rapariga.
O que significará então ser um rapaz? Ser um rapaz significa não ser uma rapariga, ser um homem significa não ser uma rapariga, ser uma mulher significa não ser uma rapariga, ser um líder significa não ser uma rapariga. Ser uma rapariga é então algo de tão poderoso que é preciso treinar as pessoas para não o serem!
A ironia é que negar, suprimir, a rapariga, recusar o sentimento, nos trouxe até onde nos encontramos agora, a um mundo onde as mais extremas formas de violência, a pobreza mais terrível, a violação, o genocídio, a destruição do planeta e dos seus recursos, tudo está fora de controlo. Por termos suprimido as nossas células “rapariga”, não sentimos mais o que está a acontecer, não conseguimos sentir o peso do que está a acontecer connosco e com o planeta…
No Congo, por exemplo, uma terrível guerra que já matou mais de 6 milhões de pessoas dura há mais de 12 anos relacionada com a exploração de minério para exportar para o Ocidente. Os sentimentos são contrários aos interesses dos impérios, interferem com a exploração desenfreada, com o esventrar da Terra e com a exploração desenfreada e destrutiva das suas riquezas.
A célula “menina” foi suprimida tanto nas mulheres como nos homens, e nos homens os estragos foram ainda maiores. A educação dos rapazes, no sentido de os tornar “fortes”, obriga-os a distanciarem-se de si próprios, dos seus sentimentos, a não chorarem. Na verdade, as balas que eles usam na guerra são as suas lágrimas endurecidas… Quando não permitimos que os homens tenham acesso à sua Menina Interior, à sua vulnerabilidade, à compaixão, eles embrutecem, tornam-se agressivos e violentos. Ensinamos-lhes que devem sentir-se seguros quando não o estão, que devem fingir que sabem tudo quando não é o caso. Sem isso não teríamos chegado aonde nos encontramos…
Se é mau aquilo que fazemos com a menina dentro de nós, é terrível aquilo que fazemos com as raparigas por esse mundo fora.
elas são espancadas
queimadas com pontas de cigarros acesas
tratadas como lixo
espancadas pela mãe, o pai, os irmãos, os tios
passam fome deliberadamente, nos países ricos, para se assemelharem à imagem idealizada que têm de si próprias
são controladas
mutiladas
vítimas de analfabetismo
levadas a sentirem-se mal por serem tão inteligentes e talentosas
silenciadas culpabilizadas
queremo-las suaves, com bons modos, menos intensas
são mortas no estado embrionários por serem raparigas
são escravizadas
violadas...
Elas estão tão habituadas a ser espoliadas de tudo aquilo que as torna humanas, que acabamos por transformá-las em objetos, em mercadorias. O comércio de raparigas é uma realidade em todo o mundo e em alguns países elas valem menos que as vacas ou as cabras…
Atualmente, uma em cada oito pessoas no mundo é uma rapariga entre os 10 e os 24 anos de idade. Elas são portanto a chave para o futuro da humanidade. Mas estão em sérios apuros porque enfrentam muitas desvantagens que as mantêm exatamente lá onde a sociedade quer que elas estejam: à míngua de cuidados médicos adequados, de educação, de comida saudável, de participação na força laboral, sobrecarregadas com toda a carga de tarefas domésticas e muitas vezes com a criação dos irmãos mais novos…
No entanto, é a condição das raparigas no mundo e da rapariga dentro de nós que vai determinar a nossa sobrevivência ou não enquanto espécie.
A palavra de ordem que é imposta às raparigas de todo o mundo é o verbo “agradar”, as raparigas são treinadas para agradarem. Torna-se urgente mudar este verbo para “educar”, “ativar”, “ocupar-se”, “confrontar”, “desafiar”, “criar”. Se ensinarmos as raparigas a mudar as suas palavras de ordem, vamos fortalecer, empoderar a rapariga dentro de nós tod@s.
Alguns exemplos de raparigas que abraçaram a sua Menina Interior, apesar de todas as circunstâncias negativas à sua volta:
uma rapariga holandesa que quer dar a volta ao mundo no seu barco sozinha
uma rapariga que quis tatuar 56 estrelas no lado direito do seu rosto
Julia Butterfly Hill, que passou um ano em cima duma árvore para defender velhos carvalhos que iam ser abatidos
uma rapariga afegã de 17 anos, que com uma câmara escondida na burca, filmou cenas de violência contra as mulheres no seu país, que deram a volta ao mundo
Rachel Corrie, uma rapariga israelita que se pôs à frente dum tanque de guerra gritando pelo fim da ocupação, sabendo o risco que corria
uma rapariga congolesa que engravidou do seu violador e que me disse amar o seu bebé, porque o seu bebé estava cheio de amor…
A capacidade destas raparigas para suplantarem situações adversas e ultrapassar limites é espantosa. (…)
Eve Ensler (tradução livre)
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