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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Faleceu Patricia Monaghan

Faleceu no último dia 10, aos 66 anos, Patricia Monaghan, poeta e feminista, autora entre outros títulos de O Caminho da Deusa, editado em Portugal pela Europa-América, livro que forneceu inspiração a muitas de nós, nomeadamente a mim no meu trabalho com os arquétipos do Feminino.

Patricia Monaghan Ph.D. publicou mais de 15 títulos, incluindo um sobre vinhos, matéria em que era perita, e os 2 volumes da Enciclopédia das Deusas e Heroínas. Foi uma das fundadoras do Black Earth Institut, no Wisconsin, onde vivia, apesar de também ter a nacionalidade irlandesa.

Considerada por muit@s uma verdadeira força da natureza, que entre outras atividades também se dedicava à agricultura biológica, Patricia Monaghan foi uma das primeiras autoras através das quais aprendi antigos rituais da religião da Deusa. Onde quer que estejas, irmã, a minha profunda gratidão pela tua força, inspiração e generosidade. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SAMHAIN - CELEBRAR O FIM DUM CICLO



Este é o momento do ano em que o ciclo da vida termina, tudo o que a terra produziu já foi colhido e armazenado, o grão, os frutos, os vegetais (resta-nos a azeitona, a nós, mas está quase...!). Tudo o que resta vai agora ser cortado rente pela foice da morte da Anciã e retornar ao útero da Mãe Terra para aí ser transformado. O caldeirão simboliza esse útero da Mãe onde tudo é recriado para voltar a nascer. Na natureza, vão acontecer processos de decomposição, de putrefação, de transmutação; pétalas, folhagem, galhos secos transformar-se-ão em húmus suculento, enquanto das sementes nova vida germinará para que o ciclo recomece. O tempo circular, o tempo da Deusa.
 
Este é o momento da hibernação, quando a vida se recolhe para o interior da terra, quando a nós humanos também apetece ficar em recolhimento no interior das nossas casas, no aconchego do calor da lareira, honrando esta época de introspeção, de avaliação daquilo que na nossa vida também precisa de morrer, de ser transformado. Momento ainda de confronto com a Sombra... Quando aceitamos fluir com a Vida, com a Natureza, quando compreendemos que dela fazemos parte enquanto criações da Deusa, aprendemos a aceitar, respeitar, valorizar, honrar e celebrar o processo da morte. Sabemos que somos energia eterna, que como dizia Lavoisier, na Natureza nada se perde, tudo se transforma e que por isso também nós estamos envolvidas e envolvidos neste ciclo de morte e renascimento. Assim aquelas e aqueles que nos precederam, que continuam a viver noutra dimensão, e a quem naturalmente na nossa cultura nós recordamos e honramos neste momento do ano. 

Pessoalmente, gosto de ir ao cemitério visitar o túmulo da minha mãe, do meu pai, das minhas avós e avôs, das tias e dos tios já falecidos. Levo-lhes flores e uma prece de gratidão pela herança que me legaram. No meu altar coloco um bolo para elas e para eles, aquilo a que agora chamamos bolo dos santos, herança duma tradição muito antiga, pagã, que como tantas outras o cristianismo teve de assimilar para conseguir impor-se e dominar enquanto religião. É óbvio que elas e eles não irão comer esse bolo de uma forma física, mas a energia amorosa que foi colocada na sua confeção e na intenção desta oferenda tocará a energia que são agora, e sempre foram, e que conecta os nossos corações.

Neste festival honremos a Deusa Anciã, a Deusa Negra do Mundo de Baixo e peçamos-lhe que nos ajuda a transmutar dentro do Seu caldeirão ou na fogueira que Lhe acendemos, aquilo que não queremos mais na nossa vida. 
E depois celebremos a Vida com muita alegria!

©Maria Luiza Oliveira Frazão

terça-feira, 30 de outubro de 2012

CRISE NO PATRIARCADO



A estrutura caractereológica do homem atual (que vem perpetuando uma cultura patriarcal e autoritária desde há entre 4 a 6 mil anos) caracteriza-se por um encouraçamento contra a natureza dentro de si mesmo e contra a m
iséria social que o rodeia. Este encouraçamento do carácter está na base da solidão, do desamparo, do insaciável desejo de autoridade, do medo, da angústia mística, da miséria sexual, da rebelião impotente, assim como duma resignação artificial e patológica. Os seres humanos adotaram uma atitude hostil àquilo que dentro deles mesmos está vivo, mas de que se afastaram. A origem desta alienação não é biológica, mas social e económica e não é detetável na história humana antes do surgimento da ordem social patriarcal.

WILHEM REICH
La Función del Orgasmo
citado por Cacilda Rodrigañez Bustos, em El Assalto al Hades





Imagem: Magritte

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

OCUPAR A SEMENTE

Lisboa, desfile performativo pela Liberdade das Sementes
16 de outubro, Dia Mundial da Soberania Alimentar



Declaração sobre a Liberdade das Sementes
- Vandana Shiva

1. A semente é a fonte de vida, é a urgência da vida de dar expressão a si mesma, de renovar-se, de multiplicar-se, de desenvolver-se de forma perpétua em liberdade.

2. A semente é a materialização da diversidade biocultural. Representa milhões de anos de evolução biológica e milénios de evolução cultural e o potencial para milénios de evolução no futuro.

3. A Liberdade das Sementes é o direito que toda e qualquer forma adquire desde nascença e é a base da protecção da biodiversidade.

4. A Liberdade das Sementes é o direito que qualquer agricultor e produtor alimentar adquire desde nascença. O direito dos agricultores de guardar, trocar, desenvolver, cultivar, vender as sementes é o âmago da Liberdade das Sementes. Quando esta liberdade lhes é retirada os agricultores ficam encurralados pela dívida e em casos extremos suicidam-se.
5. A Liberdade das Sementes é a base da Liberdade Alimentar, uma vez que a semente é o primeiro elo na cadeia alimentar.

6. A Liberdade das Sementes é ameaçada pelas patentes sobre sementes, que criam um monopólio de sementes e tornam ilegais a conservação e troca de sementes pelos agricultores. As patentes sobre sementes não se justificam, nem em termos éticos nem em termos ecológicos, uma vez que as patentes são direitos exclusivos concedidos sobre uma invenção. As sementes não são uma invenção. A vida não é uma invenção.

7. A Liberdade das Sementes de diferentes culturas é ameaçada pela Biopirataria e pelas patentes no conhecimento e biodiversidade indígenas. A Biopirataria não é uma inovação – é um furto.

8. A Liberdade das Sementes é ameaçada por sementes geneticamente modificadas, que estão a contaminar as nossas quintas, eliminando assim a opção por alimentos não geneticamente modificados para todos. A Liberdade das Sementes dos agricultores é ameaçada quando, depois de contaminarem as nossas culturas, as multinacionais processam os agricultores por “roubar a sua propriedade”.

9. A Liberdade das Sementes é ameaçada pela transformação deliberada da semente de recurso renovável auto-gerado, em produto não renovável patenteado. Os casos mais extremos de sementes não renováveis são aquelas desenvolvidas através da “Tecnologia Exterminadora”, que foi desenvolvida com a finalidade de criar sementes estéreis.

10. Comprometemo-nos a defender a Liberdade das Sementes enquanto liberdade de evolução das diversas espécies; enquanto liberdade das comunidades humanas de reclamar as sementes de fonte livre como bens comuns.



As Sementes e as Mulheres

As mulheres são naturalmente as guardiãs das sementes, as germinadoras da vida. Num momento onde por todo o mundo surgem esterilizações de mulheres sem o conhecimento e autorização das mesmas é paralelo o abuso do corpo natural da Terra e suas sementes. É urgente que se unam Homens e Mulheres preservando a semente e fruto dos seus ventres e do ventre criativo da natureza, no potencial máximo da sua abundância e sustentabilidade: a semente.

Se a semente é património privado, a vida humana perde o que de mais precioso tem: alimentação, cultivo (capacidade de gerar o seu alimento com autonomia) e saúde.
A semente privatizada e manipulada é como a remoção não consentida do útero, ovários ou trompas: um crime, uma violação da integridade humana e planetária, um atentado à mais elementar liberdade de ser parte de um planeta que é de todos.
A obra de E. Delacroix, La Liberté guidant le peuple, relembra os princípios esquecidos e essenciais da liberdade, igualdade, irmandade.

As sementes relembram a urgência de reclamar a concretização destes princípios  e de todos assumirmos o papel da revolucionária Liberté, porque é nesta mesma liberdade que se baseia o direito de nutrição autónoma dos nossos filhos e a biodiversidade essencial à vida saudável do planeta Terra.

A Liberdade guia o povo, as corporações matam a liberdade e o povo ao privatizarem as sementes e impedirem que a agricultura se processe livremente.

Que todas as mulheres e homens possam unir-se de coração nu pela liberdade de todas as sementes, de toda a nutrição, de todos nós.

Iris Lican

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

FILHAS DO PATRIARCADO


“É precisamente na mulher que tem uma relação pobre com a mãe que o arquétipo do si mesmo primeiro se constela, naquela que tende a buscar a sua plenitude através do pai ou do homem amado. […] Uma mulher expressou isso quase como um manifesto no começo da análise:
“Eu insisto em ter o carinho dum homem. Qualquer fonte feminina me enfurece. O homem é responsável pelo universo. As mulheres  não passam dum segundo lugar. Odeio túneis, Kali, minha mãe e este corpo de mulher. O que eu quero é um homem.”

O problema é que nós, mulheres muito feridas na relação com o feminino, quase sempre temos uma persona muito eficiente, uma boa imagem pública. Crescemos como filhas dóceis do patriarcado, frequentemente intelectuais e dotadas daquilo que denominarei “egos-animus”. Lutamos por defender as virtudes e ideais estéticos a nós apresentados pelo superego patriarcal. Mas enchemo-nos de autorrejeição e de uma sensação de profunda feiura e fracasso quando não conseguimos satisfazer nem aliviar as exigências de perfeição do superego.

Uma mulher com mais de dez anos de análise junguiana disse-me: “Passei anos tentando relativizar uma coisa que nunca tive: um ego verdadeiro”. Realmente, ela tem apenas um ego-animus, e não um que seja verdadeiramente seu para se relacionar com o inconsciente e com o mundo exterior. A sua identidade baseia-se em adaptações da persona àquilo que o animus lhe diz que deve ser feito; assim, ela a um só tempo, adapta-se às projeções que lhe impingem e revolta-se contra elas. 

Consequentemente, essa mulher quase não tem o sentido do seu núcleo pessoal de identidade, do valor e do ponto de vista femininos. Isto acontece por se terem valorizado, em relação às mulheres ocidentais, virtudes que frequentemente apenas se definem pela sua relação com o masculino: a mãe e esposa fecunda e bondosa; a filha agradável, dócil e delicada; a companheira diligente, discretamente encorajadora ou brilhante.

Como tantas escritoras feministas declararam pelos tempos afora, esse modelo coletivo e o comportamento daí resultante é inadequado para a vida; nós mutilamo-nos, enfraquecemo-nos, silenciamo-nos e enfurecemo-nos, tentando comprimir os nossos espíritos dentro dele, na certa exatamente como as nossas avós deformaram os seus corpos sensíveis dentro de espartilhos, por causa dum ideal.”

Sylvia Brinton Perera, Caminho para a Iniciação Feminina, Edições Paulinas, São Paulo, 1985 (adaptado)

Imagem: Liv Tyler em "O Senhor dos Anéis" (clique sobre a imagem para uma definição de consceitos junguianos como "anima" e "animus")


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

HOJE, 11 DE OUTUBRO, PRIMEIRO DIA INTERNACIONAL DA RAPARIGA

A CÉLULA "RAPARIGA" É UM CHIP QUE PODE MUDAR A NOSSA CONSCIÊNCIA COLETIVA

A célula “menina”, ou “rapariga”, é uma célula, ou um conjunto de células, central para a evolução da espécie humana. Essa célula existe em tod@s nós, mas entretanto os poderes em vigência compreenderam a necessidade de a suprimir, reinterpretando-a, negando o seu valor, levando-nos a tomá-la por fraqueza, reduzindo-a, erradicando-a, matando a célula “rapariga” em nós.

 Imaginemos que a rapariga é um chip no macrocosmos da consciência coletiva, e que é preciso repensar e equilibrar o futuro de tod@s nós. Imaginemos que essa célula “rapariga” é compaixão, empatia, paixão, intensidade, vulnerabilidade, sinceridade, capacidade de associação, de relacionamento, intuição.

 Compreendamos que da compaixão decorre grande sabedoria, a vulnerabilidade pode ser a nossa maior fortaleza e as emoções têm a sua lógica própria que nos leva a tomar as medidas mais certas, radicais e salvadoras. Os poderes instituídos, no entanto, sempre nos disseram o contrário, que a compaixão turva o raciocínio, que atrapalha, que vulnerabilidade é igual a fraqueza, que não nos devemos deixar guiar pelas nossas emoções, que não devemos tomar as coisas a peito, pessoalmente.

 O mundo foi criado para evitar sermos uma rapariga. 

O que significará então ser um rapaz? Ser um rapaz significa não ser uma rapariga, ser um homem significa não ser uma rapariga, ser uma mulher significa não ser uma rapariga, ser um líder significa não ser uma rapariga. Ser uma rapariga é então algo de tão poderoso que é preciso treinar as pessoas para não o serem!

A ironia é que negar, suprimir, a rapariga, recusar o sentimento, nos trouxe até onde nos encontramos agora, a um mundo onde as mais extremas formas de violência, a pobreza mais terrível, a violação, o genocídio, a destruição do planeta e dos seus recursos, tudo está fora de controlo. Por termos suprimido as nossas células “rapariga”, não sentimos mais o que está a acontecer, não conseguimos sentir o peso do que está a acontecer connosco e com o planeta…

No Congo, por exemplo, uma terrível guerra que já matou mais de 6 milhões de pessoas dura há mais de 12 anos relacionada com a exploração de minério para exportar para o Ocidente. Os sentimentos são contrários aos interesses dos impérios, interferem com a exploração desenfreada, com o esventrar da Terra e com a exploração desenfreada e destrutiva das suas riquezas.

A célula “menina” foi suprimida tanto nas mulheres como nos homens, e nos homens os estragos foram ainda maiores. A educação dos rapazes, no sentido de os tornar “fortes”, obriga-os a distanciarem-se de si próprios, dos seus sentimentos, a não chorarem. Na verdade, as balas que eles usam na guerra são as suas lágrimas endurecidas… Quando não permitimos que os homens tenham acesso à sua Menina Interior, à sua vulnerabilidade, à compaixão, eles embrutecem, tornam-se agressivos e violentos. Ensinamos-lhes que devem sentir-se seguros quando não o estão, que devem fingir que sabem tudo quando não é o caso. Sem isso não teríamos chegado aonde nos encontramos…


Se é mau aquilo que fazemos com a menina dentro de nós, é terrível aquilo que fazemos com as raparigas por esse mundo fora.

elas são espancadas
queimadas com pontas de cigarros acesas
tratadas como lixo
espancadas pela mãe, o pai, os irmãos, os tios
passam fome deliberadamente, nos países ricos, para se assemelharem à imagem idealizada que têm de si próprias
são controladas
mutiladas
 vítimas de analfabetismo
levadas a sentirem-se mal por serem tão inteligentes e talentosas
silenciadas culpabilizadas
queremo-las suaves, com bons modos, menos intensas
são mortas no estado embrionários por serem raparigas
são escravizadas
violadas...

Elas estão tão habituadas a ser espoliadas de tudo aquilo que as torna humanas, que acabamos por transformá-las em objetos, em mercadorias. O comércio de raparigas é uma realidade em todo o mundo e em alguns países elas valem menos que as vacas ou as cabras…

Atualmente, uma em cada oito pessoas no mundo é uma rapariga entre os 10 e os 24 anos de idade. Elas são portanto a chave para o futuro da humanidade. Mas estão em sérios apuros porque enfrentam muitas desvantagens que as mantêm exatamente lá onde a sociedade quer que elas estejam: à míngua de cuidados médicos adequados, de educação, de comida saudável, de participação na força laboral, sobrecarregadas com toda a carga de tarefas domésticas e muitas vezes com a criação dos irmãos mais novos…

No entanto, é a condição das raparigas no mundo e da rapariga dentro de nós que vai determinar a nossa sobrevivência ou não enquanto espécie. 

A palavra de ordem que é imposta às raparigas de todo o mundo é o verbo “agradar”, as raparigas são treinadas para agradarem. Torna-se urgente mudar este verbo para “educar”, “ativar”, “ocupar-se”, “confrontar”, “desafiar”, “criar”. Se ensinarmos as raparigas a mudar as suas palavras de ordem, vamos fortalecer, empoderar a rapariga dentro de nós tod@s.

Alguns exemplos de raparigas que abraçaram a sua Menina Interior, apesar de todas as circunstâncias negativas à sua volta:

uma rapariga holandesa que quer dar a volta ao mundo no seu barco sozinha

uma rapariga que quis tatuar 56 estrelas no lado direito do seu rosto

Julia Butterfly Hill, que passou um ano em cima duma árvore para defender velhos carvalhos que iam ser abatidos

uma rapariga afegã de 17 anos, que com uma câmara escondida na burca, filmou cenas de violência contra as mulheres no seu país, que deram a volta ao mundo

Rachel Corrie, uma rapariga israelita que se pôs à frente dum tanque de guerra gritando pelo fim da ocupação, sabendo o risco que corria

uma rapariga congolesa que engravidou do seu violador e que me disse amar o seu bebé, porque o seu bebé estava cheio de amor…

A capacidade destas raparigas para suplantarem situações adversas e ultrapassar limites é espantosa. (…)

Eve Ensler (tradução livre)

Veja o vídeo


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

SISTER OF AVALON

Fim da primeira espiral da formação de sacerdotisa da Deusa segundo a Tradição de Avalon. Cerimónia de dedicação à Deusa. Sinto-me muito abençoada por ter sido admitida na irmandade de Avalon, essa Ilha Encantada governada por 9 irmãs...

Foi como um salto quântico na compreensão da energia de Avalon, como se os véus se tivessem aberto um pouco mais e eu pudesse ver e sentir o que é pertencer a esta dimensão com a responsabilidade de ajudar a construí-la, a trazê-la à manifestação, cocriando com estas mulheres maravilhosas, tão humanas como qualquer uma de nós, com os seus defeitos e qualidades, mas tão especiais, enérgicas, conscientes e fantásticas, e aprendendo como elas conseguiram criar uma irmandade tão incrível, uma teia que serve de apoio a tantas mulheres, não só lá como pelo mundo fora, trazendo para o mundo uma dimensão perdida nos nossos sonhos... Quanto mais penetramos nela com o coração puro, mais transformad@s ficamos. Estes delicados reinos pedem-nos que entremos com respeito e reverência, e com boa vontade. Se decidirmos apoiar esta ideia, dar-lhe a nossa melhor atenção, estamos a dar a nossa contribuição para o ressurgimento deste reino mágico.
Outros há por aí perdidos e é tão excitante saber que podemos encontrá-los, dar-lhes vida, trazê-los para a consciência da humanidade, especialmente agora que a realidade se tornou irrespirável...     

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

GLASTONBURY - A MÃE DE TODAS AS CONFERÊNCIAS




A 17.ª Conferência da Deusa de Glastonbury acabou no domingo por volta das quatro da tarde. Depois disso, desmontámos o cenário e na 2.ª feira às 19 e 30 foi a cerimónia de Lammas no Goddess Hall. O tema deste ano foi a Mãe, a energia da Criadora, daquela face da Deusa que nutre, que suporta a manifestação,  a vida. Os amarelos e os dourados prevaleciam sobre todas as cores. Cores da abundância e da riqueza.

Mas aí, na energia da Mãe, nem tudo foi colo, aconchego, nutrição, generosidade… Foi primeiro o doloroso recordar das feridas da Mãe, a Mater Dolorosa em nós. Nós filhas, nós mães… Como cuidamos ou negligenciamos, como fomos cuidad@s ou negligenciad@s … Cada ferida se abrindo, cada uma se oferecendo à consciência/cura…  Ir fundo no abandono, ir fundo na consciência da criança em nós que pede colo, ir fundo na consciência da Mãe ferida em nós que aprendeu a dar, dar, dar como única forma de pagar o seu direito de estar viva… Até que nas feridas abertas a Deusa lança o seu bálsamo e começas a fluir leve no amor, na alegria, na graça e na beleza do Feminino… Realizas como é justo e natural cultuar uma Criadora cujo corpo se abre para dele sair a vida, a vida que foi fabricada no seu corpo, com a sua própria substância…

Na noite depois da abertura, no Drama Sagrado Mother Matters, dirigido por Katie Player, dezasseis mulheres, à semelhança de Monólogos da Vagina, contaram-nos as suas histórias reais enquanto mães ou enquanto filhas, guiando-nos com graça pelos seus meandros mais obscuros, onde por vezes se podia ouvir o coro da tragédia ou o coro dos anjos, das fadas, dos unicórnios, nas dimensões aonde brincam agora os espíritos bem-amados…

Depois dessa noite, o tom das Senhoras de Avalon estava dado: não há por onde fugires, nem penses em fazer de conta, não vale virares a cara… Vais viajar pelos três mundos em segurança, é só veres como fazemos, repara bem, nós vamos à frente, abrimos-te o caminho… follow us, sister… vai com confiança aos teus infernos mais privados, onde serás acolhida pela toda-poderosa Keridween com o seu caldeirão de morte, transformação e renascimento…


Não conheço sobre esta terra lugar mais seguro, porque nenhuma parte de nós tem de ser negada ou suprimida aqui, nem o nosso natural gosto pelo enfeite, a exuberância, a cor, o puro divertimento…
Foi muita Mãe, sem dúvida, mas não tanto como na nossa cultura patriarcal onde este é o arquétipo feminino mais estimulado, validado, usado e abusado…  Muito peso. A Mãe suporta aqui, na nossa cultura… o insuportável…  E foi por isso que o trabalho da californiana Ava sobre o arquétipo da Rainha soube tão bem. Durante mais de duas horas, explorámos a riqueza do único arquétipo do Feminino que não pode coexistir com o patriarcado e que tem sido portanto o mais difamado e atacado. Aquela que governa, que conduz a energia, tem o poder de pura e simplesmente não a dar a seja o que for que, com o seu apurado discernimento, não lhe pareça ser a favor do bem maior, sendo que a Rainha em nós é o arquétipo mais impessoal, a que vê the big picture… Amei!


Completamente de acordo com Ava, a facilitadora da Rainha em nós, quando começou por pedir uma salva de palmas para Kathy Jones, a criadora da Goddess Conference, que, segura da sua visão e do seu poder, não teme rodear-se de outras Rainhas e com elas interagir, criando um evento cuja energia inspiradora irradia para o mundo inteiro e se arrisca a ser neste momento o foco da mais extraordinária revolução da atualidade…

Luiza Frazão

Imagens: Sacred Drama, Mother Matters e altar principal

quarta-feira, 11 de julho de 2012

OS HOMENS NO CAMINHO DA DEUSA



Nasci numa família de mulheres. A minha mãe tinha três irmãs e o meu pai duas – mulheres fortes, a maior parte delas. Na minha infância, com o meu pai ausente em África, em redor da máquina de costura da minha mãe, e do seu forte carisma, na nossa casa juntava-se um verdadeiro círculo de mulheres, cosendo, remendando, bordando, contando histórias, falando das suas (e de outras) vidas… Tenho consciência agora de que era um ambiente paradisíaco, o grande regaço da Deusa, um oceano de prazer onde me sentia completamente segura.

Para quase todas aquelas mulheres, entretanto, eram os homens o principal objeto da sua preocupação, do seu amor, mas também do seu medo. Alguns eram violentos, sarcásticos, bebiam demais… No mínimo, pareciam viver noutro mundo, segundo outras leis. Tudo lhes era permitido; já a elas tudo parecia proibido, sobretudo coisas que dessem prazer. “Toma muito cuidado com os homens” era o aviso mais repetido, de todas as formas.

Este abismo entre os homens e as mulheres, entretanto, acabava por tornar os homens objeto de grande atração e fascínio – as coisas são sempre bem mais complicadas do que parecem… De alguma forma e em algum momento das nossas vidas de mulheres – e quanto mais cedo melhor – deveríamos encontrar o tal príncipe encantado, o único e exclusivo ao qual iríamos dedicar a nossa vida; aquele que se tornaria dono e senhor dos nossos dias. De alguma forma (e a grande insanidade era esperarmos isso apesar de toda a corrente de mensagens negativas que circulava a respeito deles…), esperávamos que esse fosse perfeito, embora com frequência ele se revelasse aos nossos olhos mais como uma espécie de Barba Azul que iria manter-nos prisioneiras e tentar “matar” as nossas irmãs, os nossos apoios no exterior…

Podemos considerar que esta é uma boa imagem daquilo que aconteceu ao sistema matriarcal, ginecocêntrico, esse modo de vida aprazível, pacífico, inclusivo, igualitário, sustentável, essa Idade de Ouro, destruída quando os patriarcas impuseram o seu estilo de vida agressivo, violento, competitivo, egocentrado, hierarquizado, de espada sempre em riste e obcecados com o “crescimento” …

Claro que o tema é muito mais complexo, mas a questão é que o sistema patriarcal, baseado na lógica, que fomentou um desenvolvimento excessivo do hemisfério esquerdo do cérebro, em detrimento do direito, com o seu sentido de separação do todo, se tornou obcecado com o poder, a hierarquia, a propriedade privada, a herança, as leis e regulamentos para manter o estado das coisas… Até que a certa altura a mulher se tornou parte da propriedade do patriarca, como uma sofisticada e insubstituível tecnologia de reprodução, requerendo apertado controlo para garantir a pureza da linhagem.

O papel do pai tornou-se então cada vez mais importante, tão central na sociedade que a Deusa Mãe dos primórdios, cultuada durante milhares de anos, foi substituída pelo Deus Pai. Todo o poder passou para mãos masculinas com as desastrosas consequências que conhecemos. O Feminino foi suprimido tanto nos homens como nas mulheres para que fosse possível um mundo mais violento e competitivo, baseado na lei do mais forte que exerce o seu poder sobre tudo e tod@s percebid@s como mais frac@s: crianças, mulheres, outros homens, a própria terra. Poder que vai até impor a escravidão e tudo considerar numa perspetiva de puro lucro.

Tod@s somos vítimas deste desequilíbrio entre as energias Femininas e  Masculinas, destes papéis atribuídos a cada um-a de nós ao nascermos. O papel de Mulher contém certas expectativas que devo cumprir para poder ser aceite e amada. O mesmo acontece com o papel de Homem, e concordo que este não é nem melhor nem mais fácil do que o meu, mesmo  fazendo eles teoricamente parte do clã dominante. A verdade é que somos tod@s um-a e ninguém ganha quando um-a de nós perde.

Então,  o nosso desafio é conseguir equilibrar as energias, trazendo de novo à nossa consciência a Grande Deusa dos começos, o arquétipo, o padrão do Feminino esquecido e desvalorizado, procurando-A na terra, na natureza, nos nossos corpos, nesses lugares de onde os patriarcas judaico-cristãos A baniram para nos levarem a procurar exclusivamente nos céus um Deus severo e ciumento à semelhança do qual eles foram feitos, não nós. Fomos separad@s sistematicamente do nosso corpo, dos instintos, da natureza, percebid@s como lugares do mal, deixando livre o caminho para a sua exploração e destruição desenfreadas.

São muitos os homens que entenderam isto, que sentem em si próprios este desequilíbrio e alguns d@s autor@s mais inspirad@s que já li são homens como Jean Markale, Eric Neumann, Jung, Robert Graves, Stuart McHardy e muitos outros.

No entanto, em meu entender, homens e mulheres são muito diferentes biológica e  culturalmente. Temos histórias muito diferentes, vivências muito diferentes.


Interagir com homens neste caminho da Deusa não é simples. Quando nós, mulheres, nos juntamos há uma imediata compreensão da nossa história comum, uma cumplicidade natural que não inclui os homens. Diria até que os exclui, sentidos como o inimigo, não os homens em si mas os papéis que têm vindo a desempenhar na nossa cultura. Sinto muito, mas este é um ponto muito importante, porque se não temos esta primeira impressão, este sentimento de dor e de revolta, não conseguiremos mudar nada. Apenas a nossa indignação, a nossa raiva, a nossa dor nos podem dar a motivação e a força para mudarmos as coisas. Os homens nunca foram considerados inferiores só por serem homens, nunca foram considerados impuros, sujos, culpados da queda da humanidade, nunca lhes foi interdito o acesso direto ao sagrado…

Muitas mulheres por esse mundo fora continuam a sentir-se sujas, desvalorizadas, separadas dos seus corpos, dos seus instintos, da natureza, do sagrado, nas mãos dos patriarcas, escravizadas na sua grande parte e nós precisamos de curar essas mulheres ousando amar o nosso corpo tal como ele é e não apenas se ele corresponder aos padrões impostos pela cultura patriarcal, amar o lado feminino da humanidade, reclamar o nosso direito de lidar diretamente com o sagrado, como fizemos no passado, como fomos criadas para fazer.

Sei que não é fácil, que pode parecer um ponto de vista sexista, separatista, mas nós, mulheres, temos tantas feridas para curar, que precisamos dum campo seguro, só nosso, uma zona de pura irmandade, de perfeita compreensão, aceitação, cumplicidade para nos curarmos umas às outras, para nos sentirmos mais fortes, consideradas e respeitadas. Curarmo-nos a nós próprias significa admirarmo-nos e amarmo-nos umas às outras por aquilo que somos, fazermos as coisas por nós mesmas, sentir que somos capazes, já que durante milhares de anos fomos consideradas incapazes.


É por isso que a Conferência da Deusa, por exemplo, é um acontecimento tão fantástico. É-o não apenas por aquilo que lá acontece, que é excelente, mas sobretudo porque tudo é concebido por e para as mulheres. Nós precisamos de experienciar o nosso próprio poder, a nossa força, talento, criatividade, apresentar ao mundo a nossa própria visão, dar a cara por aquilo que acreditamos estar certo, demarcarmo-nos duma maneira masculina de fazer as coisas. Nós mulheres que fomos e ainda somos tantas vezes consideradas menos, pouco mais autónomas do que crianças, sem direito a exprimirmos a nossa maneira própria de ver as coisas, silenciadas pelo sarcasmo masculino e a sua “superioridade” a nível do raciocínio lógico, precisamos de agir neste mundo por nós próprias. Precisamos de aprender como é e a exprimir a nossa própria natureza num ambiente seguro.

Os homens que claramente entendam isto e solidariamente permaneçam ao nosso lado, colocando a sua força e os seus talentos ao serviço do Feminino, sabendo o que está em causa, sentindo-se suficientemente seguros para não nos retirarem a energia de que precisam, como habitualmente fazem das mais variadas maneiras, esses homens são bem-vindos, e há vários no caminho da Deusa. Como os antigos cavaleiros, eles precisam de se render à sua Dama, a sua Alma, a sua parte feminina; e a Alma vai à frente, está primeiro. É a Alma que mostra o caminho.

Luiza Frazão 

Imagens: Herman Smorenburg. 
Glastonbury Goddess Conference

sábado, 30 de junho de 2012

CROSS BONES GRAVEYARD - curar as feridas do Feminino transformando lugares, e funções, de exclusão e de ignomínia em lugares de respeito e reverência


A primeira referência a este lugar encontrei-a na página do Facebook de Jacqueline Gemini Honeybee, e creio que a primeira foto é dela. Ao pesquisar sobre o cemitério de Cross Bones, encontrei também um blogue notável, cuja designação é Radical Joy for Hard Times (alegria radical para tempos difíceis...). O propósito da autora é contribuir para trazer harmonia, beleza e inclusão a lugares degradados e desprezados do planeta. Vale a pena visitar o blogue.




Então, Cross Bones Graveyard é um antigo cemitério de prostitutas no sudeste de Londres, um exemplo de como uma atenção amorosa a um lugar e às pessoas que com ele se relacionam satisfaz um profundo desejo da alma humana de reparar ultrajes e injustiças.

Perto duma estação de metro de Londres um portão metálico no meio de uma parede de tijolos foi adornado com hera, fitas coloridas, algumas com orações escritas sobre elas, flores, penas, ramos de ervas secas e outros presentes. Dentro do recinto, um pequeno canteiro bem cuidado com a forma dum coração.
Trata-se do famoso Cross Bones Graveyard , um cemitério onde as prostitutas foram enterrados há centenas de anos, começando em tempos medievais. As mulheres eram conhecidas como "Winchester Geese" (os gansos de Winchester), por terem sido licenciadas pelo Bispo de Winchester para trabalharem em bordéis legalizados, e não podiam ser enterrados em solo sagrado.

O terreno foi vendido para construção na década de 1880, mas durante mais de 100 anos nada foi construído até que o metro de Londres instalou aí uma sub-estação elétrica em 1990. Foi quando começaram a escavar que surgiram inúmeros esqueletos, muitos deles de prostitutas ainda crianças.
Desde então, esse lugar de anonimato e ignomínia foi embelezado e valorizado, informal e formalmente, através de cerimónias, como a celebração da noite de Halloween, ou simplesmente através duma atenção respeitosa.

John Constable, autor duma série de poemas e peças de teatro, Os Mistérios de Southwark, basead@s na vida imaginada de uma das mulheres, escreve:
"Temos realizado muitos rituais e eventos da comunidade no cemitério. Os rituais são simples, inclusivos e não-dogmáticos, enfatizando o respeito dos antepassados​​, e honrando o espírito deste lugar especial.  Cada noite de Halloween, desde 1998, centenas de pessoas fazem uma procissão à luz de velas, honrando estas mulheres que um dia foram proscritas com velas, incenso, cânticos e oferendas".


Membros da comunidade recolhem o lixo e enchem o santuário improvisado no portão com flores frescas. Estão a ser desenvolvidos esforços para obter permissão para transformar pelo menos parte do cemitério num jardim memorial.

'I was born a Goose of Southwark
by the Grace of Mary Overie
whose Bishop gives me licence
To sin within The Liberty.'
from The Book of The Goos, The Southwark Mysteries, John Constable

Fontes:

Imagens: Google