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domingo, 6 de maio de 2012

O LUGAR DA MÃE - A RECUPERAÇÃO DA MÃE É A RECUPERAÇÃO DO FEMININO COLETIVO


A MÃE COMO ELEMENTO DETERMINANTE DA SOCIEDADE

“Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós.”

“Com a frase “Dai-me outras mães e eu vos darei outro mundo”, Santo Agostinho revelava o ponto débil do seu projeto de sociedade e a necessidade que tinham de transformar duma vez por todas as mães. Transformar as mães para vencer a natureza humana e a sua predisposição para se organizar e viver como o fez durante muito tempo, sem dominação nem escravatura, em paz e em cooperação (a arqueologia já afastou qualquer dúvida a este respeito, provando que a Idade de Ouro não é um mito mas uma realidade).

Novas mães para reproduzirem os “filia” continuadores das empresas guerreiras, humanos aptos para fazerem a guerra ou para aceitarem tornar-se escravos. Não se podia criar este mundo sem mudar a mãe. A sociedade patriarcal foi erguida sobre um matricídio, acabando com as gerações de mulheres com cujo desaparecimento se sumiu também a paz sobre a Terra (Bachofen). É esta a civilização que perdura ainda hoje, continuando a destruir a vida e a corromper a condição humana, mais competitiva, mais fratricida, mais belicista e mais desapiedada que nunca. Do meu ponto de vista, não é a economia que está em crise, é o modelo de civilização.

Na encruzilhada na qual a humanidade se encontra, o que precisamos de fazer se queremos acabar com este sistema de dominação e sobreviver é recuperar a verdadeira mãe, e com ela as qualidades básicas dos seres humanos, que nos capacitam para a concórdia e nos incapacitam para o fratricídio. Recuperar a mãe verdadeira é recuperar o habitat que a rodeia. Bachofen criou um termo em alemão para o definir: é o Muttertum, sendo que o sufixo “tum” (equivalente ao “dom” em inglês) significa o sítio, o lugar da mãe.

Não se trata apenas dum espaço físico, mas antes dum conjunto de relações travadas com o seu fluxo libidinal específico, o fluido feminino-materno, o hálito materno, porque a produção do nosso sistema orgânico libidinal, desenhado para organizar as relações humanas, é a matéria-prima do tecido social humano original. O Muttertum é assim como a urdidura da tela social, como lhe chamou na sua preciosa metáfora Martha Moia: um conjunto de fios, porque um fio sozinho não consegue fazer a urdidura.

Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós. Segundo Malinowski, as mulheres trobriandesas dum clã (in The Sexual Life of Savages in the Western Melanesia) tinham um nome coletivo, “tábula”, a “tábula” é que se ocupava do parto das mulheres do clã.

Em castelhano há uma aceção do nome "mãe" que é um vestígio dessa mãe ancestral, que se encontra na expressão "salirse de madre", "sair da mãe", que seria sair do Muttertum, que nos faz amadurecer e nos torna consistentes. Há também uma aceção em que a palavra significa "fonte originária de algo" ("a mãe do vinagre", por exemplo), ou como a raiz de algo, quando dizemos que encontrámos a "mãe do cordeiro". Se um rio sai da "madre", tudo se inunda e é o desastre. Pois assim anda a humanidade, "fora da mãe", em permanente estado de esquizofrenia e cada vez com mais ataques de violência..."

Cacilda Rodrigañez Bustos

Poderá continuar a ler aqui

  Imagem 
 (Mulheres do matriarcado Mosuo.Vale muito a pena ler o texto!)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

BLODEUWEDD, A DEUSA FEITA DE FLORES


Blodeuwedd Rising

Blodeuwedd, Magdalene of Springtime
Sweet flower face with wings of snow
You are the gateway to the seasons
Fierce in passion, eyes aglow

And You will rise in fearless beauty
Afraid of You, they change Your face
But we remember Your true nature;
Reclaim Your love, reclaim Your place

Defiled and changed and called a whore
If whore You are then so am I
As whore I’ll be Your temple priestess
And You will give me wings to fly

Reclaim the whore and rise in beauty
With Goddess spirit deep within
Knowing our own Goddess nature
How dare they name our passion sin!

No one can shackle or control You
Owl of secrets, flying free
No chains to bind Your hungry spirit
With You beside, no chains on me

And we will rise in raging beauty
To be what we’ve been all along
When we can stand alone as equals
We will sing Blodeuwedd’s song

They left us here in silent fury
Thought that they had won the game
But as we reclaim our ancient birthright
Blodeuwedd will rise again

And we will rise in naked beauty
Revealing all we have to give
Loving in the ways we chose to
Deciding how we want to live

They try to make us pretty blossoms
Deny our clays, deny our power
But we must claim our truth and freedom
To choose the owl, to choose the flower

And we will rise in powerful beauty
Surrender to Blodeuwedd’s cry
She draws us to the path of moonlight
On owl wings we must learn to fly

No one has the right to harm us
To name and shame, abuse and scare us
Call us hag and call us bitch.
Reclaim the owl, reclaim the witch!

And we will rise in all our beauty
For we have heard Flower Face’s call
Our bodies glowing with our passion
Both owls and flowers, Priestesses all!

Jacqui Woodward-Smith
in Priestess of Avalon, Priestess of the Goddess, Kathy Jones

A LINGUAGEM DA DEUSA



“A minha tese é que a linguagem do mito poético, corrente na Antiguidade na Europa mediterrânica e setentrional, era uma linguagem mágica vinculada a cerimónias
religiosas populares em honra da deusa da Lua, ou Musa, algumas das quais datam da época paleolítica, e que esta continua a ser a linguagem da verdadeira poesia, «verdadeira» no moderno sentido nostálgico de  «o original inmelhorável e não um substituto sintético”. Essa linguagem foi corrompida no final do período minoico quando invasores procedentes da Ásia Central começaram a substituir las instituições
matrilineares pelas patrilineares e remodelaram ou falsificaram os mitos para justificar as mudanças sociais. 

Em seguida vieram os primeiros filósofos gregos, que se opunham firmemente à poesia mágica porque ameaçava a sua nova religião da lógica, e sob a sua influência criou-se uma linguagem poética racional (a que agora se chama clássica) em honra do seu patrono Apolo, e impuseram-na ao mundo como a última palavra em iluminação espiritual: opinião que predominou praticamente desde então nas escolas e universidades europeias, onde agora se estudam os mitos unicamente como relíquias arcaicas da era infantil da humanidade. 

Uma das repudiações mais intransigentes da mitologia grega primitiva foi feita por Sócrates. Os mitos assustavam-no e desagradavam-lhe; preferia voltar-lhes as costas e
disciplinar a sua inteligência para pensar cientificamente: «para investigar a razão da existência de tudo, de tudo tal como é, não como parece, e para refutar todas as
opiniões que não se podem explicar».

Robert Graves, A Deusa Branca (traduzido por mim da versão espanhola)

 A DEUSA BRANCA (SINOPSE)

Ao defender suas ideias, Graves empreendeu esta obra singular que constitui uma gramática histórica do mito poético. O escritor argentino Jorge Luis Borges sempre consultava A Deusa Branca, que foi publicado pela primeira vez em 1948. Trata-se de um texto fundamental para a teoria da literatura, mas igualmente importante para a história das religiões, bem como para toda a pessoa que quiser reconsiderar as suas certezas mitológicas ocidentais, cristãs ou não, à luz de uma reflexão erudita e independente. 

Com efeito, é também indispensável para aquel@s que se interessam pelo renascimento da religião da Deusa, por Wicca, por esoterismo e por simbolismo. O autor age como um arqueólogo de crenças e restaura os rudimentos perdidos e os princípios ativos da magia que governa os poetas.

 A sua argumentação parte de um acurado exame de dois poemas galeses do século XIII, nos quais ele encontra as chaves, genialmente ocultas, desse antigo mistério. Robert Graves traz à baila diversos tópicos: as raízes da chamada Tradição Hiperboreal, o cerne da cultura celta; a história evolutiva do alfabeto fonético ocidental; o percurso das principais rotas migratórias durante a Idade do Bronze, na bacia mediterrânea e no continente europeu ocidental; o arcaico culto da Deusa, das origens paleolíticas até ao mundo mariano do cristianismo, passando pela mitologia grega e pela bruxaria medieval; o segredo do número da Besta, o 666; a revelação do secretíssimo Nome do Deus de Israel; além de muitas outras joias preciosas. A sua leitura estimula uma reintegração de diversas tradições mitológicas. 

As teologias monoteístas, que exprimem as crenças judaicas, cristãs e muçulmanas, sempre difundiram uma pretensa rutura radical entre elas e o mundo pagão. Robert Graves reencontra os liames que unem as tradições mitológicas com a elaboração semita das escrituras bíblicas.

Fonte: Editora Record, Brasil (adaptado)


domingo, 15 de abril de 2012

VIRGEM DO PARAÍSO

Achei esta imagem, que pertence ao espólio da arquidiocese de Évora, muito curiosa. Faz parte da coleção das "virgens abrideiras" de que nunca tinha ouvido falar... A mim soam-me muito a Grandes Deusas duma devoção muito popular e muito antiga... Até o nome tem que se lhe diga: "paraíso" ... Vale a pena espreitar o site de onde provém a imagem e vê-la abrir-se diante dos nossos olhos. 

"Uma lenda associada a esta imagem, contada no século XVIII pelo Padre Francisco da Fonseca na sua Évora Ilustrada, diz que dois peregrinos procuraram vendê-la a Isabel Afonso, eborense vizinha do convento do Paraíso. Quando quis pagá-la os peregrinos tinham desaparecido, ficando Dona Isabel com a certeza que seriam dois anjos e resolvendo doar a imagem ao convento próximo no final do século XV. Esta associação lendária é curiosa, pois a difusão deste tipo de peças na península ibérica parece ter estado claramente associada a rotas da peregrinação a Santiago de Compostela, como mostram os outros exemplares conhecidos (Santa Clara de Allariz, Ourense; San Salvador de Toldaos, Lugo, Catedral de Salamanca). O trabalho do marfim era quase desconhecido em Portugal, e tal como os outros exemplares peninsulares de "Virgens abrideiras", também esta de Évora deve ligar-se a oficinas parisienses do século XIV.

A expansão deste tipo de imagens, em que uma figura da Virgem com o Menino se abre a partir do colo para deixar ver um retábulo historiado em várias cenas do Nascimento e da Paixão, deu-se essencialmente nos séculos XIII e XIV, associando uma imagem devocional, na maioria das vezes de materiais preciosos, a uma sequência narrativa, que centrava no culto mariano os passos essenciais da história sagrada. Foram no entanto imagens sempre contestadas, exactamente pela duplicidade das leituras que criavam. Cerca de 1400 o chanceler da Universidade de Paris, Jean Gerson, criticava directamente estas imagens porque "não há beleza nem devoção em tal abertura e pode ser causa de erro e de indevoção". Apesar das críticas o seu culto manteve-se e, embora raros, existem mesmo exemplares posteriores ao Concílio de Trento."




segunda-feira, 2 de abril de 2012

Glastonbury no Equinócio da Primavera 2012 - Priestess Training, Espiral 1



A DEUSA NO CORAÇÃO DA MULHER


A DEUSA NO CORAÇÃO DA MULHER
Curso de 10 semanas sobre Arquétipos do Feminino

Início a 18 de abril 2012, 20:30 às 22:30, espaço Quantum, Rio Maior

“ELA é o autêntico poder da essência feminina do Universo. É ao mesmo tempo uma expressão do que sabemos acerca do mundo humano e um poder muito além da nossa capacidade de expressão.” Patricia Monaghan
Para Carl Jung, arquétipos são padrões de energia, formas nas quais se exprimem naturalmente as forças do Universo. A Psicologia Arquetípica compreendeu que as características das deusas das antigas culturas, como a grega e a romana, entre muitas outras, correspondiam a qualidades da psique feminina.
Tomar consciência da sua força e do seu poder, e equilibrar essas qualidades na nossa alma e na nossa vida, é a proposta deste curso.
Seguir a via dos Arquétipos é descobrir a extraordinária riqueza do Feminino, um manancial de possibilidades que permitem a nossa expressão mais natural e abrem uma libertadora via de expansão e crescimento.
É ainda mergulhar num universo de beleza e de significado, repondo um equilíbrio que se perdeu num mundo excessivamente masculinizado como aquele em que vivemos.
Honrar e celebrar as Deusas é celebrar a vida e os seus ciclos de nascimento e de morte, de ganho e de perda, de luz e de sombra; é sentir que o tempo joga a nosso favor, e que honramos a Vida sempre que aceitamos ser nós mesmas, inteiras e autênticas.

Neste workshop vamos sentir-nos Mulheres completas, com a nossa alegria e a nossa dor, a nossa força e a nossa vulnerabilidade, sabendo que tudo está certo e é necessário e faz parte da Vida. Vamos sentir-nos unas e solidárias umas com as outras, oferecendo-nos mutuamente um colo de confiança e de aceitação, sabendo que a cura começa pela nossa aceitação incondicional do ser Mulher e do Feminino em nós.
A dinâmica do grupo, ao longo das 10 semanas, ajudará cada uma na sua experiência de descoberta tanto das feridas do Feminino como do seu poder profundamente curador e sustentador da vida.

Técnicas de relaxamento, meditação induzida, visualização criativa, auto-expressão e partilha, permitirão um trabalho profundo com a mente e com as emoções, bem como resgatar a consciência e o uso do nosso poder pessoal, encontrando um novo propósito, motivação e renovada vitalidade.

“Grupos conduzidos por e para mulheres são o nosso refúgio psíquico; o nosso local para descobrirmos quem somos ou em quem nos podemos tornar como seres integrais e independentes.” Gloria Steine

Arquétipos com que trabalharemos: DEMÉTER, PERSÉFONE, ÁRTEMIS, HÉSTIA, HERA, ATHENA, HÉCATE, AFRODITE, GAIA, BRIGID, SOPHIA, KALI

quinta-feira, 29 de março de 2012

A DEUSA NO CORAÇÃO DA MULHER, curso online, 12 meses

A DEUSA NO CORAÇÃO DA MULHER, ARQUÉTIPOS DO FEMININO - CURSO ON-LINE, 12 MESES, em fase de elaboração

Sobre Luiza Frazão




Sacerdotisa de Avalon e de Rhiannon, formada pelo Templo da Deusa de Glastonbury, Reino Unido, licenciada em Línguas e Literaturas pela Universidade Nova de Lisboa, com formação no Método Louise Hay de Desenvolvimento Pessoal, Programação Neurolinguística, Constelações Familiares, Astrologia, Xamanismo e largos anos de experiência em Desenvolvimento Pessoal e Espiritual. Depois de intensa pesquisa na tradição celta do nosso território, integrado na cultura do Arco Atlântico, reivindico para Portugal a dimensão do Jardim das Hespérides, a nossa dimensão da Deusa. Impulsionada e inspirada pelo meu treino de Sacerdotisa de Avalon, e por intensa pesquisa no nosso território, criei uma Roda do Ano e um Templo, em expansão, de que sou Guardiã: a Roda do Ano e o Templo da Deusa Cale do Jardim das Hespérides. Cerimonialista, facilitadora de Círculos de Mulheres, Formadora de Sacerdotisas e de Sacerdotes da Deusa, autora da obra A Deusa do Jardim das Hespérides: Desvelando a Dimensão Encoberta do Sagrado Feminino em Portugal.

 

domingo, 18 de março de 2012

PERDEMOS A MÃE PRIMORDIAL, A GRANDE RAINHA DOS COMEÇOS

O continente e o conteúdo

À força de rejeitar tudo o que a feminilidade representava como solução para a angústia do homem, criou-se uma humanidade perfeitamente neurótica, pois se o rapazinho é obrigado a praticar este acto é porque não lhe vestiram na mais tenra idade uma veste feminina, como se fazia antigamente. Uma concepção estúpida e formal da virilidade impediu a continuação desta prática que, com origem em motivos inconscientes, era muito mais válida que a destruição do amor que educadores desprovidos de educação tentam levar a cabo, criando uma putativa educação sexual. É, uma vez mais, toda a nossa sociedade que está em causa.

A masculinização da sociedade conduziu a ignorar aquilo que constitui o próprio fundamento de toda a relação psicossocial, a saber, os laços afectivos que unem os membros duma mesma família, dum mesmo clã. E estes repousam muito particularmente na relação mãe-filho (rapaz ou rapariga). Suprimindo a noção de Mãe-Divina, ou submetendo-a à autoridade dum deus-pai, desarticulou-se o mecanismo instintual que estabelecia o primitivo equilíbrio. Daí provêm as neuroses e outros dramas que transtornam as sociedades paternalistas, incluindo aquelas que se consideram mais evoluídas, aquelas que pretendem, com belas palavras, atribuir à mulher um lugar de honra, um lugar escolhido pelo homem.

Na verdade, o homem não pode escolher o lugar da mulher nem o seu próprio lugar face à mulher. Ele deve obedecer a uma lei inelutável, que é, para retomar a definição de Montesquieu, uma lei de natura, contra a qual a lei da razão nada pode. Esta lei de natura concretiza-se no instinto, que não é algo que possamos negar. Negá-lo, como fizeram tantos moralistas e psicólogos, antes de Freud, é abrir a via dos desregulamentos psíquicos, porque todo o comportamento se ressente do facto de não estar apoiado na lei natural.

Esta querela entre natureza e razão, que de resto sempre foi uma falsa questão, é responsável pela cegueira desta sociedade que, ao querer corrigir o instinto, cortou o ser humano daquilo que era a sua natureza. A verdade é que o instinto não se corrige. Sublima-se, transcende-se, e isso graças a uma razão que o dirige, mas que em caso algum o deve encerrar em limites estreitos e negá-lo. E o instinto assusta, porque é forte e porque é inelutável.

Este estudo sistemático do princípio feminino na cultura celta tem pelo menos o mérito de trazer à luz da consciência a ideia de que o instinto é primordial, no sentido etimológico do termo, que ele é necessário, que é um factor de progresso e de evolução. Mas o instinto tem algo de selvagem, de “bárbaro”, mesmo. E é por aí que ele atinge a “grandiosidade”. Ele é o único motor dos nossos sentimentos, da nossa acção. E, tendo em conta os nossos hábitos morais, é por vezes difícil formulá-lo e olhá-lo de frente: a verdade choca-nos.

Quando ousamos afirmar que todas as relações entre homens e mulheres, quaisquer que elas sejam (conjugais, filiais ou outras) são necessariamente relações incestuosas entre mãe e filho, atraímos as mais ásperas críticas e somos tidos por obcecados. E no entanto… O homem é, com efeito, um ser incompleto e tem consciência disso. O seu medo e a sua atracção pelo abismo negro (o nada de onde provém), o seu medo e a sua vertigem diante da morte (o nada que o espera) tornam-no um ser frágil que procura a segurança a todo o custo. Essa segurança é a mãe, tanto para o homem como para a mulher.

Mas o homem, física e afectivamente, possui um meio de reentrar, pelo menos provisoriamente, na mãe. Não é preciso insistir: qualquer tendência da psicanálise já esclareceu suficientemente bem que o pénis, pequena parte do homem, mas uma parte exterior e susceptível de aumentar, constitui o substituto do próprio homem. Ele pode, portanto, em certas ocasiões, reactualizar de modo fantasmagórico o regresso ao paraíso que a mãe representa. E toda a mulher é uma mãe, real ou potencial. O homem está portanto biologicamente sujeito à mulher, quer ele queira, quer não.

Ele é o conteúdo, enquanto a mulher é o continente: isso constitui um estado de inferioridade muito óbvio para o homem e ele passará depois todo o seu tempo a negar tal realidade para provar a si próprio que é superior. É assim que se explica a acção masculina, o facto dos homens serem dotados para a acção, para a violência e o combate. Esta acção é o único meio que lhes resta para tentarem afirmar-se. E se o homem é o conteúdo, portanto um ser inferior, ele arroga-se o direito dum ser superior, mostrando que a sua força activa é a única capaz de proteger a espécie.

Até conseguiu persuadir a própria mulher dessa superioridade, simbolizada pelo reconhecimento do pénis do rapazinho no momento do nascimento, feito pela mãe ou por qualquer outra mulher que ajude no parto. O famoso grito: “É um rapaz!”, repetido geração após geração, é bastante eloquente a esse respeito. Quando nasce uma rapariga, aceita-se; mas quando nasce um rapaz, rejubila-se. No entanto, o continente, a mãe, que é o mesmo que dizer a mulher , é a própria realização do Paraíso. Ela realiza-o sob dois aspectos duma mesma realidade: ela contém o filho e o amante.

De resto, como alguns psicanalistas já referiram, a vagina da rapariga não é reconhecida pela mãe, nem pelo pai, no momento do nascimento. Tal reconhecimento far-se-á, no entanto, um dia, e será o homem a efectuá-lo. Assim, para se afirmar, para tomar consciência de quem é e sobretudo do seu poder, a mulher precisa do homem. Traduzido em linguagem mitológica dá: o homem precisa duma deusa, mas a deusa precisa do homem. É esta a razão pela qual se perpetuaram, sob formas diversas, os antigos cultos da divindade feminina.

Na cultura celta, vimo-la sob os seus diferentes aspectos, ou melhor, sob as diferentes máscaras que os homens lhe atribuíram. Todos os nomes que lhe foram dados, entretanto, não nos devem fazer esquecer que se trata dum ser único, da mãe primordial, da primitiva deusa, da grande rainha dos começos.

Jean Markale, “La Femme Celte”, Petite Bibliothèque Payot (tradução Luiza Frazão)
Imagnes Google - Deusa Mãe Deméter; Adolphe W. Bourguereau; Almada Negreiros

sábado, 17 de março de 2012

A LINGUAGEM DOS ARQUÉTIPOS

"De acordo com a teoria Junguiana, as deusas são arquétipos, o que equivale a dizer fontes derradeiras dos padrões emocionais dos nossos pensamentos, sentimentos, instintos e comportamentos que poderíamos chamar de “femininos”, na acepção mais ampla da palavra.

Tudo aquilo que concebemos com criatividade e inspiração, tudo o que acalentamos, que amamentamos, de que gostamos, toda a paixão, desejo e sexualidade, tudo o que impele à união, à coesão social, à comunhão e à proximidade humana; todas as alianças e fusões; e também todos os impulsos de absorver, destruir, reproduzir e duplicar, pertencem ao arquétipo universal do feminino.

Entretanto, a psicologia académica moderna, com o seu amor pelas abstracções masculinas, prefere usar a linguagem racional e espiritualmente insensibilizante dos “instintos”, “impulsos” e “padrões de comportamentos” – palavras que não geram imagens na imaginação, nem provocam lampejos de reconhecimento na alma. Como disse certa vez James Hillman, o psicólogo dos arquétipos, a “linguagem da psicologia é um insulto à alma”.

No entanto, os Gregos e todas as culturas antigas, percebiam essas energias não como abstracções destituídas de alma, mas sim como forças espiritualmente vitais, ou energias que estão exercendo continuamente influências poderosas sobre os nossos processos psicológicos.

Quando conseguiam reconhecer as forças espirituais que activavam e esclareciam determinados aspectos do comportamento e da experiência humana, chamavam esses fenómenos de “compulsões dos deuses e das deusas”.

(Texto extraído da obra “A Deusa Interior ”, de Roger J. Woolger, Ed.Cultrix) http://terapiadamulher.blog.com/653746/(adaptado por Luiza Frazão)
Imagem: Google