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terça-feira, 26 de abril de 2011

OS CICLOS DA NATUREZA SÃO OS CICLOS DA MULHER


“Os ciclos da natureza são os ciclos da mulher. A feminidade biológica é uma sequência de retornos circulares, que começa e acaba no mesmo ponto. A centralidade da mulher confere-lhe uma identidade estável. Ela não tem que tornar-se, basta-lhe ser. A sua centralidade é um grande obstáculo para o homem, cuja busca de identidade é bloqueada pela mulher. Ele tem que se transformar num ser independente, isto é, libertar-se da mulher. Se o não fizer acabará simplesmente por cair em direcção a ela. A união com a mãe é o canto da sereia que assombra constantemente a nossa imaginação. Onde existiu inicialmente felicidade agora existe uma luta. As recordações da vida anterior à traumática separação do nascimento podem estar na origem das fantasias arcádicas acerca de uma idade de ouro perdida. A ideia ocidental da história como movimento propulsor em direcção ao futuro, um desígnio progressivo ou providencial que atinge o seu apogeu na revelação de um Segundo Advento, é uma formulação masculina. Não creio que alguma mulher pudesse ter concebido tal ideia, já que a mesma é uma estratégia de evasão em relação à própria natureza cíclica da mulher, na qual o homem teme ser aprisionado. A história evolutiva ou apocalíptica é uma espécie de lista de desejos masculinos que desemboca num final feliz, num fálico cume”

In Personas Sexuais, de Camille Paglia (através de Rosa Leonor Pedro)

A PASSAGEM DO CULTO DA TERRA AO CULTO CELESTE DESLOCOU A MULHER PARA A ESFERA INFERIOR


“É correcta a identificação mitológica entre a mulher e a natureza. O contributo masculino para a procriação é fugaz e momentâneo. A concepção resume-se a um ponto diminuto no tempo, apenas mais um dos nossos fálicos pico de acção, após o qual o macho, tornado inútil, se afasta. A mulher grávida é demonicamente (diamon), diabolicamente completa. Como entidade ontológica, ela não precisa de nada nem de ninguém. Eu defendo que a mulher grávida, que vive durante nove meses absorta na sua própria criação, representa o modelo de todo o solipsismo, e que a atribuição do narcisismo às mulheres é outro mito verdadeiro. A aliança masculina e o patriarcado foram os recursos a que o homem teve de deitar a mão a fim de lidar com o que sentia ser o terrível poder da mulher. O corpo feminino é um labirinto no qual o homem se perde. É um jardim murado, o hortus conclusus do pensamento medieval, no qual a natureza exerce a demónica feitiçaria. A mulher é o construtor primordial, o verdadeiro Primeiro Motor. Converte um jacto de matéria expelida na teia expansível de um ser sensível, que flutua unido ao serpentino cordão umbilical, essa trela com que ela prende o homem.”*

In Personas Sexuais de Camille Paglia (através de Rosa Leonor Pedro)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

LEALDADE FEMININA



"A lealdade entre mulheres só pode acontecer a partir de um determinado estado de consciência das ditas mulheres. Ou seja: quem são, ao que se sujeitam ou não, qual a sua “estratégia” pessoal de emancipação. Donde vêm, o que as divide, o que as pode unir. Bem sei que há a força de certos laços afectivos mas eles empalidecem frequentemente perante os cancros da competição face ao homem, dos padrões sociais extremamente redutores do seu poder inato e da autonomia do seu ser. A ordem estabelecida (patriarcal) fomenta o culto e a superioridade da beleza física e da juventude, fomenta a intriga, a inveja e a deslealdade entre as mulheres (dividir para controlar), desencoraja o aprofundamento dos aspectos hoje herméticos e quase esquecidos da Mulher Inteira.
Para ser leal é preciso saber desmontar as armadilhas sistémicas antes que elas nos manipulem e nos afastem umas das outras.
Ser leal é estar com, ao lado de, é substituir-se a, quando necessário. Ser leal é dar a mão, acarinhar, proteger, pôr acima de tudo, amar, acarinhar...na alegria, na celebração mas em especial na hora amarga, na hora da dor, do desamparo. De forma consequente, continuada, firme. Não episódicamente, por capricho ou impulso momentâneo. Mas por uma corrente subterrânea, anímica, um fundo comum, um laço sagrado ligado à própria essência da Vida."

MARIANA INVERNO
Imagem do filme "My Best Friend Girl" (Google)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

SERÁ POSSÍVEL A AMIZADE ENTRE MULHERES?


Hoje uma amiga pede-me que fale das relações entre mulheres. Acreditamos que tais amizades sejam possíveis, pergunta ela, depois de citar alguém, um homem, muito cético sobre o assunto.

O que seria da minha vida sem as amizades, sem os laços que estabeleci com as várias mulheres com as quais fui sentindo afinidade ao longo dos anos? Garantidamente um deserto. As mulheres são seres vivos, animados, vibrantes, apaixonados, criativos, inteligentes, versáteis, compassivos, tolerantes. Antes de também serem carentes e inseguras. Tudo qualidades que reconheço em mim.

Mas o maior problema das mulheres é serem tão pouco livres e autónomas. Logo que entramos de cabeça na grande armadilha patriarcal chamada casamento, ou logo que a nossa vida começa a gravitar muito em torno dos homens – e é raro que isso não aconteça -, chapéu! Todo o nosso raciocínio fica ensombrado, já não somos “nós nem o outro, mas qualquer coisa de intermédio, pilar da ponte de tédio que vai de um para outro”, atrapalhando um bocadinho os famosos versos do poeta Mário de Sá Carneiro (O Outro).

Por que são, lamentavelmente, os homens muito mais centrais na vida das mulheres do que o contrário, já todas sabemos sobejamente, não vale a pena repetir tudo outra vez. Mas só para recapitular: quem nos mete medo tem muito poder sobre nós. Tem-nos na mão. Uma simples questão de sobrevivência. O poder que deixamos que os homens tenham sobre nós, visto de perto, é absolutamente ridículo e conseguiríamos neutralizá-lo se houvesse mais coesão entre as mulheres. Mas é a pescadinha de rabo na boca: seríamos mais livres se nos apoiássemos umas às outras; não nos apoiamos tanto como devíamos porque somos pouco livres.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Quando menstruo fica instaurado o meu tempo sagrado de mulher



"É tempo de se falar, mostrar e partilhar o conhecimento das mulheres. É tempo das mulheres descobrirem e reconstituírem os seus próprios mistérios – os seus processos de menstruação e nascimento e os ciclos das suas emoções. "O que é isto que eu estou sentindo?" "O que diria aos outros se explicasse o que é ser mulher?" A Deusa interior é aquela que sabe, que leva informação de um sistema para o outro.
Pela Deusa, foi concebido às mulheres o dom de criar (gerar) e nutrir. É necessário, para caminhar com beleza e saúde, alinhar-se com as forças cósmicas, as mesmas forças que as medicinas tradicionais nativas reverenciam, identificando-nos com os elementos da natureza (ar, fogo, terra, água e éter) que estão em tudo. Este alinhamento com a natureza traz-nos o shakti-prana, ou a respiração da Grande Mãe, que se move em cada célula do nosso corpo. Esta energia permeia os dois chakras inferiores localizados perto do períneo e do osso sacro. O shkati-prana tem de estar em equilíbrio para que o aparelho reprodutor feminino, órgãos genitais, útero e abdómen estejam sadios. Em outras palavras, a mulher necessita tomar conhecimento do seu poder de criação.
A saúde e o bem-estar da família, da sociedade e da cultura giram em redor da mulher e dependem em grande parte da sua própria saúde, ou seja, se a capacidade de manter o fluxo de suas energias criativas está em dia.
A característica mutante da mulher presente desde a pré-história revela hoje ser a grande chance para a reintegração das perspectivas femininas no pensamento da corrente dominante. E é claro que a consciência ecofeminista é a via política e ativista para garantir a consciência dos ciclos femininos. (…)

DeAnna L'am (através de Rosa Leonor Pedro)

domingo, 17 de abril de 2011

Morremos de tão boazinhas...



“Não é o bom comportamento, mas a actividade lúdica que é a artéria central, o cerne, o bulbo cerebral da vida criativa. O impulso para o lúdico é instintivo. Sem o lúdico, não há vida criativa. Com o comportamento restrito ao “bom”, não há vida criativa. Quando estamos sentadas sem nos mexer, não há vida criativa. Quando falamos, pensamos e agimos apenas com modéstia, não há vida criativa. Qualquer grupo, sociedade, instituição ou organização que incentive as mulheres a desprezar o que for excêntrico; a suspeitar do que for novo e incomum; a evitar o que for inovador, vital, veemente; a desprezar o que lhe for característico, estará à procura de uma cultura de mulheres mortas.”
Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que Correm com os Lobos

sábado, 16 de abril de 2011

O PREDADOR – MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA



“Ao trabalhar com adolescentes mais velhas que vivem convencidas de que o mundo é bom se conseguirem lidar com ele de forma correta, sinto-me sempre como um velho cão grisalho. Tenho vontade de pôr as patas diante dos olhos e de gemer, porque vejo o que elas não vêem e sei, especialmente se forem determinadas e exuberantes, que elas vão insistir em se envolver com o predador pelo menos uma vez antes que sejam despertadas com um choque.

No início das nossas vidas, o nosso ponto de vista feminino é muito ingénuo, o que quer dizer que a nossa compreensão emocional do que está oculto é muito ténue. No entanto, é assim que todas começamos. Somos ingénuas e convencemo-nos a entrar em situações muito confusas. Não ser iniciada nos detalhes dessas questões significa estar num estágio das nossas vida em que somos propensas a perceber apenas o que está às claras.

Entre os lobos, quando a mãe deixa os filhotes para ir caçar, os pequenos tentam ir com ela para fora da toca, pela trilha abaixo. Entretanto, a mãe rosna-lhes e apavora-os, até que eles voltem atabalhoadamente para dentro da toca. A mãe sabe que os filhotes ainda não têm condições para pesar e avaliar outras criaturas. Eles não sabem quem é um predador e quem não é. Mas com o tempo ela irá ensiná-los com rigidez e eficácia.

À semelhança dos filhotes de lobo, as mulheres precisam duma iniciação semelhante, que lhes revele que o mundo interior, assim como o exterior, nem sempre são locais propícios. Muitas mulheres não chegam a receber os ensinamentos básicos a respeito de predadores que a mãe loba dá aos filhotes como, por exemplo, se for ameaçador e maior do que você, fuja; se for mais fraco, pense no que quer fazer; se estiver doente, deixe-o em paz; se tiver espinhos, veneno, presas ou garras aguçadas, recue e vá na direção oposta; se tiver um cheiro bom, mas estiver cercado de garras de ferro, passe a direito.”

Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que Correm com os Lobos
Imagem: Google

quinta-feira, 14 de abril de 2011

QUERIDA MULHER

Filme maravilhoso, Dear Woman no original, em que vários homens pedem perdão às mulheres por todas as ofensas cometidas pela sociedade patriarcal contra o Feminino. Lamento não ter encontrado ainda nenhuma versão legendada em Português, mas logo que encontre trago-a.
O texto que homens de várias idades e culturas dizem é o do Manifesto dos Homens Conscientes (A Manifesto for Conscious Men), criado no Facebook, e já subscrito por milhares de pessoas.
A polémica, entretanto, instalou-se e os autores, Arjuna Ardagh e Gay Hendricks, já foram até ameaçados de morte. Os argumentos são idênticos aos usados por quem considera desajustado estar-se agora a pedir desculpa aos povos que no passado estiveram sujeitos ao regime de escravatura, por exemplo. Além disso, não reconhecem legitimidade aos dois autores do Manifesto/filme para representarem a totalidade dos homens do planeta.

Apesar de tudo, considero este gesto muito importante, bonito e sobretudo curador. Sugiro que vejam o filme, porque mesmo que não compreendam as palavras, vão sentir a intenção, a autenticidade e a beleza destes homens lindíssimos.



quarta-feira, 13 de abril de 2011

Homens e Mulheres - denunciar os jogos que até aqui têm prevalecido




A DICOTOMIA DA MULHER



“Há muito tempo que o homem e a mulher não falam a mesma linguagem. A imagem de um não se sobrepõe ao outro. Anjo ou demónio, Virgem ou Bruxa, Mãe ou Puta, o homem vê a mulher como uma ameaça e como uma necessidade imperiosa numa ambiguidade Ódio-Amor. A mulher vê o homem como um opressor do qual é vítima porque ela esforça-se para o satisfazer, andando à volta dele e das suas necessidades, aliena-se de si mesma tornando-se indispensável pensando que só assim será amada. A negação ou a usurpação dos papéis fez despender uma enorme energia, sofrimentos e erros que continuam a alimentar os jogos. Dois seres, cada um deles cego para a sua verdade interior, procurando ao longo de uma vida perceber um pouco deste mistério, caminhando na direcção um do outro pedindo-se mutuamente um pouco de luz...”


Paule Salomon (através de Rosa Leonor Pedro)




Imagem: Laurie Blank

terça-feira, 12 de abril de 2011

A feminilidade é uma dor colectiva de profundidade indescritível

O excerto do livro NIKETCHE, de Pauline Chiziane, publicado por Rosa Leonor Pedro no grupo Mulheres & Deusas (Facebook) fez-me lembrar este outro de Marianne Williamson. Não resolvemos nada fingindo que essa dor não existe ou que é coisa do passado, não deste tempo em que supostamente as mulheres já “conquistaram tudo”, como ingenuamente crêem algumas pessoas. A nossa única saída é a coragem para olhar de frente a verdade e sentir uma profunda compaixão por todas as nossas irmãs e por nós mesmas. “Em todas as cidades do mundo, a cada minuto e em cada momento, há mais mulheres a chorar, aos gritos ou em silêncio, do que qualquer pessoa – homem ou mulher – poderia imaginar. Choramos pelos nossos filhos, pelos nossos amantes, pelos nossos pais e por nós mesmas. Choramos de vergonha porque sentimos que não temos o direito de chorar, e choramos em paz porque sabemos que é a nossa hora de chorar. Choramos em gemidos e choramos em grandes soluços. Choramos pelo mundo em que vivemos. Mas, ainda assim, julgamos estar a chorar sozinhas. Sentimos que ninguém nos ouve. E agora devemos prestar atenção. Precisamos de pegar na mão desta mulher que chora, e consolá-la ternamente, senão ela – esse reflexo do eu colectivo feminino – transformar-se-á num monstro que ninguém deixará de ouvir.” “(...) ela vive neste momento, prisioneira embora ainda coberta de todas as suas antigas e aviltadas regalias. Ela parece uma criança embora não seja criança. Ele é a nossa mãe, nossa filha, nossa irmã, nossa amante. Ela precisa de nós, e nós precisamos dela. A feminilidade hoje é experimental e precária, algo mais definido pelo que não é do que por aquilo que é. Para algumas mulheres isso não é um problema. Elas superaram as complexidades das projecções e dos equívocos da sociedade e agora pairam acima das nuvens. Para a maioria, entretanto, as resistências que encontraram quando tentavam alcançar as alturas foram tão fortes que as suas asas agora pendem inertes, e elas não se aventuram mais. A feminilidade é uma dor colectiva de profundidade indescritível, e quando tentamos expressá-la, estamos sujeitas a ouvir: “Lá estão vocês outra vez a reclamar!” Enquanto isto acontecer, nada menos que toda a humanidade estará impedida de prosseguir na sua jornada até ao destino cósmico.” Marianne Williamson, in O Valor da Mulher Imagem do filme Lágrimas e Suspiros, Ingmar Bergman