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terça-feira, 12 de abril de 2011

A feminilidade é uma dor colectiva de profundidade indescritível

O excerto do livro NIKETCHE, de Pauline Chiziane, publicado por Rosa Leonor Pedro no grupo Mulheres & Deusas (Facebook) fez-me lembrar este outro de Marianne Williamson. Não resolvemos nada fingindo que essa dor não existe ou que é coisa do passado, não deste tempo em que supostamente as mulheres já “conquistaram tudo”, como ingenuamente crêem algumas pessoas. A nossa única saída é a coragem para olhar de frente a verdade e sentir uma profunda compaixão por todas as nossas irmãs e por nós mesmas. “Em todas as cidades do mundo, a cada minuto e em cada momento, há mais mulheres a chorar, aos gritos ou em silêncio, do que qualquer pessoa – homem ou mulher – poderia imaginar. Choramos pelos nossos filhos, pelos nossos amantes, pelos nossos pais e por nós mesmas. Choramos de vergonha porque sentimos que não temos o direito de chorar, e choramos em paz porque sabemos que é a nossa hora de chorar. Choramos em gemidos e choramos em grandes soluços. Choramos pelo mundo em que vivemos. Mas, ainda assim, julgamos estar a chorar sozinhas. Sentimos que ninguém nos ouve. E agora devemos prestar atenção. Precisamos de pegar na mão desta mulher que chora, e consolá-la ternamente, senão ela – esse reflexo do eu colectivo feminino – transformar-se-á num monstro que ninguém deixará de ouvir.” “(...) ela vive neste momento, prisioneira embora ainda coberta de todas as suas antigas e aviltadas regalias. Ela parece uma criança embora não seja criança. Ele é a nossa mãe, nossa filha, nossa irmã, nossa amante. Ela precisa de nós, e nós precisamos dela. A feminilidade hoje é experimental e precária, algo mais definido pelo que não é do que por aquilo que é. Para algumas mulheres isso não é um problema. Elas superaram as complexidades das projecções e dos equívocos da sociedade e agora pairam acima das nuvens. Para a maioria, entretanto, as resistências que encontraram quando tentavam alcançar as alturas foram tão fortes que as suas asas agora pendem inertes, e elas não se aventuram mais. A feminilidade é uma dor colectiva de profundidade indescritível, e quando tentamos expressá-la, estamos sujeitas a ouvir: “Lá estão vocês outra vez a reclamar!” Enquanto isto acontecer, nada menos que toda a humanidade estará impedida de prosseguir na sua jornada até ao destino cósmico.” Marianne Williamson, in O Valor da Mulher Imagem do filme Lágrimas e Suspiros, Ingmar Bergman

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A GRANDE CISÃO DO FEMININO


Excertos da análise, muito interessante, do caso duma paciente, feita à luz da Psicologia Arquetípica:


O ESPECTRO DO FEMININO: DO SAGRADO AO PROFANO


Ana Carolina Silva Freire

Elisa Maria Chab Billwiller

Márcia Helena Mendonça

“(…) S. traz, em suas manifestações conscientes, clara identificação com o arquétipo de Deméter, a deusa maternal. Em contrapartida, em seus sonhos, aparece o arquétipo de Afrodite, a deusa do amor. Tal aspecto é confirmado pelo fato de S. manifestar grandes dificuldades em conciliar seus impulsos maternais e eróticos. Da análise dos sonhos e discurso da paciente, estabeleceu-se com clareza a díade Deméter-Afrodite, Lilith-Eva, reforçando a idéia da cisão do feminino em S. Segundo CORBETT (1990), o mesmo díptico aparece na mitologia cristã, entre a Virgem Maria e Maria Madalena. A Virgem Maria é a idealização da feminilidade, pessoa de absoluta pureza sobre a qual não há sombra de pecado. Sua primeira associação é com o filho, que é sacrificado; o papel de Maria como esposa e mulher é insignificante. No lado oposto, está Maria Madalena, o lado sexualizado da díade, como figura feminina com quem as mulheres podem se relacionar sem trair sua natureza essencial. Sua imagem, como o da prostituta sagrada, é capaz de encerrar todos os aspectos dinâmicos e transformadores do feminino - paixão, espiritualidade e prazer. Através dela, a Grande Deusa, vive no cristianismo. Da mesma maneira as mulheres do mundo patriarcal, as modernas Evas, frequentemente encontram sua natureza Lilith no espelho, isto é, na sua reflexão narcísica. A mulher precisa ficar atenta a seus próprios valores naturais, unir Lilith a Eva, e viver o eterno ciclo de alternância entre estes opostos. Esta divisão entre o sagrado consciente (identificado com Deméter, Eva e a Virgem Maria) e o profano inconsciente (representado por Afrodite, Lilith e Maria Madalena), tornam o feminino consciente de S. unilateral e portanto neurótico.

(…)


Pela imensa dificuldade de integrar seu feminino, o consciente da paciente tende a chamar para si o rapto e a violência pois, aquilo de que ela se defende e que constitui o oposto de sua atitude consciente, não lhe dará sossego e a perturbará até que seja aceito.


Segundo JUNG (1995), a única pessoa que escapa da lei sinistra da enantiodromia* é aquela que sabe como se afastar do inconsciente, não reprimindo-o - porque neste caso o inconsciente haverá de atacá-la pelas costas - mas, colocando-o claramente à sua frente, como aquilo que ela, a pessoa, não é. Esta atitude permitiria, por um lado, despojar o ego da falsa cobertura da persona, e por outro, do poder de sugestão das imagens primordiais, o que para Jung representa o objetivo do processo de individuação. A moralidade judaico-cristã tem, de forma direta ou indireta, influenciado poderosamente as atitudes com relação ao feminino. Esta visão convencional relega o feminino ao exílio, negando o instinto, o sentimento e dissocia a maternidade da sexualidade. Este legado milenar de cisão interna toca indiscriminadamente a todas as mulheres, destituindo-lhes de identidade como tal. Mulheres eternamente em busca de si mesmas, com a única e suprema pretensão de serem apenas o que lhes é inalienável por herança genética, por direito e por justiça: serem mulheres na mais profunda e plena acepção da palavra.”




*Enantiodromia é um conceito introduzido na psicologia pelo psiquiatra Carl Gustav Jung no qual a superabundância de qualquer 'força' inevitavelmente produz o oposto do que é expectativado. É de certo modo equivalente ao princípio de estabilidade no mundo natural, onde qualquer extremo vem a ser incompatível com a idéia de equilíbrio, tal como esse conceito é entendido.

Jung o utilizou particularmente para se referir à ação inconsciente, conflitante com os desígnios da mente consciente. ("Aspectos da Masculinidade",capítulo 7). Wikipedia


Imagem: Perséfone, Dante Gabriel Rossetti

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O FEMININO MULTIFACETADO


"(...)Na verdade, muito do que Inana simbolizava para os Sumérios foi exilado desde aquela época. Muitas das qualidades ostentadas pelas deusas do mundo superior foram dessacralizadas no Ocidente, assumidas por divindades masculinas e/ou extremamente comprimidas, idealizadas pelo código moral e estético do patriarcado. É por isso que a maioria das deusas gregas foram engolidas pelos seus pais e a deusa hebraica foi despotenciada. Restaram-nos apenas deusas minimizadas ou restritas apenas a determinados aspetos. E muitos dos poderes antes apresentados pela deusa perderam a conexão com a vida da mulher: o feminino apaixonadamente erótico e lúdico; o feminino multifacetado dotado de vontade própria, ambicioso, real.


Na verdade, AS MULHERES TÊM VIVIDO APENAS NO DOMÍNIO PESSOAL, na periferia da cultura do Ocidente, em funções fortemente circunscritas, frequentemente subordinadas a homens, posição social, filhos, etc., OCULTANDO A SUA NECESSIDADE DE PODER E PAIXÃO, vivendo em segurança e secundariamente na relação com nomes sobrecarregados, NOS QUAIS SE PROJETOU TODO O PODER QUE A CULTURA LEGITIMA PARA ELAS. O que então se tornou comportamento coletivamente aceite para as mulheres perdeu a conexão com o sagrado, ao mesmo tempo em que a estatura natural da deusa era reduzida. Tornou-se cada vez mais hipertrófico o superego patriarcal, originalmente necessário para inculcar a sensibilidade estética; a seguir, esse superego foi fortalecido pela Igreja Cristã institucional, com o fim de disciplinar as emoções tribais e selvagens do mundo medieval. A partir do Utilitarismo e do Vitorianismo, o superego comprimiu e regrediu tanto essas energias vitais, que agora elas têm de irromper, forçando, entre outras coisas, o retorno da deusa à cultura ocidental.”


Sylvia B. Perera, Caminho para a Iniciação Feminina

O CORPO INVISÍVEL DA DEUSA


As Aves, as Cobras e o corpo invisível da Deusa


"As aves e os objetos do céu formam um aspecto do corpo visível. O ar, no entanto, conduz-nos ao reino do invisível. Podemos senti-lo quando ele sopra sobre nós, e conhecemo-lo no nosso corpo quando respiramos. A respiração transmite vida e espírito, uma palavra que deriva do latim spiritus, que significa "respiração, sopro de vida". Mas na nossa extensão normal dos sentidos, não conseguimos ver nem tocar o ar.


A ideia do corpo invisível da Deusa foi-me sugerida pela primeira vez quando pensei no significado das aves nas religiões e nas mitologias do mundo. Na arte neolítica, descobrimos uma grande série de esculturas, cerâmicas e pinturas de Deusas aladas. Muitas Deusas, como Afrodite e Athena, têm aves como companheiras. Outras Deusas e Deuses transformam-se em aves, ou recebem mensagens de aves, como o Deus escandinavo Odin, cujos corvos gémeos, Hugin e Munin - o Pensamento e a Memória – lhe trazem notícias do mundo inteiro. Também os xamãs de muitas culturas se vestem como aves para viajar pelas regiões dos espíritos.


As aves representam a Deusa porque viajam no ar, o seu corpo invisível, enquanto os humanos só podem viajar no corpo visível da terra; para viajar no mar, precisamos de criar barcos, que com a sua forma semelhante a um útero, adquirem o caráter de fêmeas. E como estas aves "falam" sob a forma de canto, elas podem ser as portadoras da sabedoria codificada da Deusa, assim como a inspiração para a arte, outra maneira do seu corpo invisível se movimentar rumo ao visível.


As aves ligam-nos às cobras, mesmo que apenas através da sua oposição simbólica. Elas movem-se através do ar invisível. Já as cobras, mais que qualquer outra criatura, deslizam através do corpo invisível da imaginação. As mitologias de todo o mundo descrevem a conexão íntima - frequentemente a antipatia - existente entre as aves e as cobras. Em quase todas as culturas, ambas aparecem como as criaturas primárias da Deusa. E nem sempre são inimigas. Muitos mitos e histórias de fadas contam a versão de um herói que prova o sangue de uma cobra e aprende a "linguagem das aves", ou seja, todo o conhecimento. A ave viaja para os mundos invisíveis do alto; as cobras deslizam pelos mistérios que há debaixo da terra.


As aves e as cobras parecem representar a cisão (ou o jogo) entre o consciente e o inconsciente, a racionalidade e o instinto. É fácil compreender o fascínio pelas aves com a sua capacidade de voarem com graça rumo ao céu. Mas o que proporciona às cobras o seu mistério, a sua acalentada resistência em quase toda a mitologia?


Podemos considerar várias possibilidades. Para se desenvolver, as cobras precisam de trocar a sua pele periodicamente, o que lhes proporciona uma aura de imortalidade. As cobras têm uma qualidade andrógina: esticadas, parecem falos; enroladas, assemelham-se às dobras da vulva. (...) Com essa mistura de imagens masculina e feminina, as cobras são a sexualidade encarnada. E quando observamos as cobras enroladas em volta dos braços da Deusa, ou movendo-se através do seu cabelo, vemos a força dos nossos mais antigos primórdios unindo-se à imagem do poder divino."


Rachel Pollack


Imagem: a Deusa Serpente de Creta

quarta-feira, 30 de março de 2011

Nasci no dia dedicado a Ártemis, Druantia e Ishtar...

O ANUÁRIO DA GRANDE MÃE Já tenho, é da Mirella Faur. Tive de pedir que mo trouxessem do Brasil."O mais completo estudo sobre a Deusa publicado em língua portuguesa". As deusas de cada mês, de cada celebração da Roda do Ano, de cada dia. Mirella Faur é uma das minhas autoras preferidas sobre este assunto.
29 de Março

"Delphinia ou Ártemis Soteira, celebração grega da deusa virgem lunar Ártemis, protetora dos recém-nascidos e dos animais.


Comemoração de Druantia, a deusa celta da fertilidade, da paixão e da sexualidade. Era tida como a Senhora das Árvores, sendo-lhe creditada a invenção de "Calendário das Árvores", o poder do conhecimento e da criatividade. Os Druidas, posteriormente, associaram este calendário ao alfabeto ogâmico, criado pelo deus Ogma, bardo da tribo dos seres sobrenaturais Tuatha de Danann, detentor da eloquência e inspiração artística.


Festival de Ishtar, a versão assíria da deusa suméria Inanna, contendo em si a complexidade das qualidades femininas: a alegre donzela, a mãe benevolente, a guerreira altiva, a amante instável, a conselheira sábia e a anciã severa.


Invoque a deusa Ishtar ao cair da noite, procurando conectar-se ao planeta Vénus. Medite sob a forma como está a viver a sua feminilidade. reforce os atributos que lhe são necessários na sua fase atual, preservando sempre a sua independência e auto-suficiência.

domingo, 27 de março de 2011

ALTARES

ANUKET - DEUSA VIRGEM


A MULHER LIVRE É FIEL AO "ARQUÉTIPO DA DEUSA VIRGEM"

"A Deusa Anuket está associada à Lua Crescente e a característica da Deusa desta fase é ser virgem. Mas virgem, no sentido de ser essencialmente uma-em-si-mesma. Isto explica o porquê de ser considerada uma Deusa andrógina. Ela não é, portanto, a contraparte feminina dum deus masculino. Ao contrário, ela tem um papel próprio. Ela é a mais Antiga e Eterna, a Mãe do deus Ra e Mãe de todas as coisas.

Da mesma forma, a mulher contemporânea que incorpora o arquétipo de Anuket é "virgem" na sua conotação psicológica. Uma mulher que é dependente do que outras pessoas pensam, o que a faz dizer e fazer coisas que realmente não aprova, não é virgem no sentido do termo. A mulher virgem é livre para ser como deseja. Ela é o que é.

Mas romper leis convencionais, não pode levá-la ao egocentrismo, pois deste modo a cura seria pior que a doença. Mas, como pode então a mulher libertar-se da sua orientação egocêntrica? Quando buscar objetivos não-pessoais e relacionar-se corretamente com a sua Deusa Interior, terá como resultado a libertação do egotismo e do egoísmo. Ela deixará então de ser vista como uma egoísta, para consolidar uma personalidade de significação mais profunda. Para tanto, deve ser conhecedora dos ensinamentos antigos da Deusa. É entendendo a conceção primitiva das deidades lunares, que eram tanto provedoras da fertilidade, como destruidoras da vida, que poderemos incorporar os princípios femininos das Deusas, tornando-nos então, "virgens", uma-em-si-mesma. "

Rosane Volpatto, através de Rosa Leonor Pedro (adaptado).

ANUKET : SIGNIFICA AQUELA QUE ABRAÇA...


Imagem: Google

terça-feira, 22 de março de 2011

Morgana


Irmã, amante, sacerdotisa, maga, rainha

"Em vida, chamaram-me de muitas coisas: irmã, amante, sacerdotisa, maga, rainha. O mundo das fadas afasta-se cada vez mais daquele em que Cristo predomina. Nada tenho contra o Cristo, apenas contra os seus sacerdotes, que chamam a Grande Deusa de demónio e negam o seu poder no mundo. Alegam que, no máximo, esse seu poder foi o de Satã. Ou vestem-na com o manto azul da Senhora de Nazaré que realmente foi poderosa, ao seu modo, que, dizem, foi sempre virgem. Mas o que pode uma virgem saber das mágoas e labutas da humanidade? "

in AS BRUMAS DE AVALON
Imagem: Google

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

COMO MANTER UM RELACIONAMENTO

Vídeo legendado, em que Abraham/Hicks nos lembra que o nosso mal nos relacionamentos é esperarmos demais da outra pessoa, dando ao príncipe ou à princesa encantada demasiada importância... Muito bom.