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quarta-feira, 11 de julho de 2012

OS HOMENS NO CAMINHO DA DEUSA



Nasci numa família de mulheres. A minha mãe tinha três irmãs e o meu pai duas – mulheres fortes, a maior parte delas. Na minha infância, com o meu pai ausente em África, em redor da máquina de costura da minha mãe, e do seu forte carisma, na nossa casa juntava-se um verdadeiro círculo de mulheres, cosendo, remendando, bordando, contando histórias, falando das suas (e de outras) vidas… Tenho consciência agora de que era um ambiente paradisíaco, o grande regaço da Deusa, um oceano de prazer onde me sentia completamente segura.

Para quase todas aquelas mulheres, entretanto, eram os homens o principal objeto da sua preocupação, do seu amor, mas também do seu medo. Alguns eram violentos, sarcásticos, bebiam demais… No mínimo, pareciam viver noutro mundo, segundo outras leis. Tudo lhes era permitido; já a elas tudo parecia proibido, sobretudo coisas que dessem prazer. “Toma muito cuidado com os homens” era o aviso mais repetido, de todas as formas.

Este abismo entre os homens e as mulheres, entretanto, acabava por tornar os homens objeto de grande atração e fascínio – as coisas são sempre bem mais complicadas do que parecem… De alguma forma e em algum momento das nossas vidas de mulheres – e quanto mais cedo melhor – deveríamos encontrar o tal príncipe encantado, o único e exclusivo ao qual iríamos dedicar a nossa vida; aquele que se tornaria dono e senhor dos nossos dias. De alguma forma (e a grande insanidade era esperarmos isso apesar de toda a corrente de mensagens negativas que circulava a respeito deles…), esperávamos que esse fosse perfeito, embora com frequência ele se revelasse aos nossos olhos mais como uma espécie de Barba Azul que iria manter-nos prisioneiras e tentar “matar” as nossas irmãs, os nossos apoios no exterior…

Podemos considerar que esta é uma boa imagem daquilo que aconteceu ao sistema matriarcal, ginecocêntrico, esse modo de vida aprazível, pacífico, inclusivo, igualitário, sustentável, essa Idade de Ouro, destruída quando os patriarcas impuseram o seu estilo de vida agressivo, violento, competitivo, egocentrado, hierarquizado, de espada sempre em riste e obcecados com o “crescimento” …

Claro que o tema é muito mais complexo, mas a questão é que o sistema patriarcal, baseado na lógica, que fomentou um desenvolvimento excessivo do hemisfério esquerdo do cérebro, em detrimento do direito, com o seu sentido de separação do todo, se tornou obcecado com o poder, a hierarquia, a propriedade privada, a herança, as leis e regulamentos para manter o estado das coisas… Até que a certa altura a mulher se tornou parte da propriedade do patriarca, como uma sofisticada e insubstituível tecnologia de reprodução, requerendo apertado controlo para garantir a pureza da linhagem.

O papel do pai tornou-se então cada vez mais importante, tão central na sociedade que a Deusa Mãe dos primórdios, cultuada durante milhares de anos, foi substituída pelo Deus Pai. Todo o poder passou para mãos masculinas com as desastrosas consequências que conhecemos. O Feminino foi suprimido tanto nos homens como nas mulheres para que fosse possível um mundo mais violento e competitivo, baseado na lei do mais forte que exerce o seu poder sobre tudo e tod@s percebid@s como mais frac@s: crianças, mulheres, outros homens, a própria terra. Poder que vai até impor a escravidão e tudo considerar numa perspetiva de puro lucro.

Tod@s somos vítimas deste desequilíbrio entre as energias Femininas e  Masculinas, destes papéis atribuídos a cada um-a de nós ao nascermos. O papel de Mulher contém certas expectativas que devo cumprir para poder ser aceite e amada. O mesmo acontece com o papel de Homem, e concordo que este não é nem melhor nem mais fácil do que o meu, mesmo  fazendo eles teoricamente parte do clã dominante. A verdade é que somos tod@s um-a e ninguém ganha quando um-a de nós perde.

Então,  o nosso desafio é conseguir equilibrar as energias, trazendo de novo à nossa consciência a Grande Deusa dos começos, o arquétipo, o padrão do Feminino esquecido e desvalorizado, procurando-A na terra, na natureza, nos nossos corpos, nesses lugares de onde os patriarcas judaico-cristãos A baniram para nos levarem a procurar exclusivamente nos céus um Deus severo e ciumento à semelhança do qual eles foram feitos, não nós. Fomos separad@s sistematicamente do nosso corpo, dos instintos, da natureza, percebid@s como lugares do mal, deixando livre o caminho para a sua exploração e destruição desenfreadas.

São muitos os homens que entenderam isto, que sentem em si próprios este desequilíbrio e alguns d@s autor@s mais inspirad@s que já li são homens como Jean Markale, Eric Neumann, Jung, Robert Graves, Stuart McHardy e muitos outros.

No entanto, em meu entender, homens e mulheres são muito diferentes biológica e  culturalmente. Temos histórias muito diferentes, vivências muito diferentes.


Interagir com homens neste caminho da Deusa não é simples. Quando nós, mulheres, nos juntamos há uma imediata compreensão da nossa história comum, uma cumplicidade natural que não inclui os homens. Diria até que os exclui, sentidos como o inimigo, não os homens em si mas os papéis que têm vindo a desempenhar na nossa cultura. Sinto muito, mas este é um ponto muito importante, porque se não temos esta primeira impressão, este sentimento de dor e de revolta, não conseguiremos mudar nada. Apenas a nossa indignação, a nossa raiva, a nossa dor nos podem dar a motivação e a força para mudarmos as coisas. Os homens nunca foram considerados inferiores só por serem homens, nunca foram considerados impuros, sujos, culpados da queda da humanidade, nunca lhes foi interdito o acesso direto ao sagrado…

Muitas mulheres por esse mundo fora continuam a sentir-se sujas, desvalorizadas, separadas dos seus corpos, dos seus instintos, da natureza, do sagrado, nas mãos dos patriarcas, escravizadas na sua grande parte e nós precisamos de curar essas mulheres ousando amar o nosso corpo tal como ele é e não apenas se ele corresponder aos padrões impostos pela cultura patriarcal, amar o lado feminino da humanidade, reclamar o nosso direito de lidar diretamente com o sagrado, como fizemos no passado, como fomos criadas para fazer.

Sei que não é fácil, que pode parecer um ponto de vista sexista, separatista, mas nós, mulheres, temos tantas feridas para curar, que precisamos dum campo seguro, só nosso, uma zona de pura irmandade, de perfeita compreensão, aceitação, cumplicidade para nos curarmos umas às outras, para nos sentirmos mais fortes, consideradas e respeitadas. Curarmo-nos a nós próprias significa admirarmo-nos e amarmo-nos umas às outras por aquilo que somos, fazermos as coisas por nós mesmas, sentir que somos capazes, já que durante milhares de anos fomos consideradas incapazes.


É por isso que a Conferência da Deusa, por exemplo, é um acontecimento tão fantástico. É-o não apenas por aquilo que lá acontece, que é excelente, mas sobretudo porque tudo é concebido por e para as mulheres. Nós precisamos de experienciar o nosso próprio poder, a nossa força, talento, criatividade, apresentar ao mundo a nossa própria visão, dar a cara por aquilo que acreditamos estar certo, demarcarmo-nos duma maneira masculina de fazer as coisas. Nós mulheres que fomos e ainda somos tantas vezes consideradas menos, pouco mais autónomas do que crianças, sem direito a exprimirmos a nossa maneira própria de ver as coisas, silenciadas pelo sarcasmo masculino e a sua “superioridade” a nível do raciocínio lógico, precisamos de agir neste mundo por nós próprias. Precisamos de aprender como é e a exprimir a nossa própria natureza num ambiente seguro.

Os homens que claramente entendam isto e solidariamente permaneçam ao nosso lado, colocando a sua força e os seus talentos ao serviço do Feminino, sabendo o que está em causa, sentindo-se suficientemente seguros para não nos retirarem a energia de que precisam, como habitualmente fazem das mais variadas maneiras, esses homens são bem-vindos, e há vários no caminho da Deusa. Como os antigos cavaleiros, eles precisam de se render à sua Dama, a sua Alma, a sua parte feminina; e a Alma vai à frente, está primeiro. É a Alma que mostra o caminho.

Luiza Frazão 

Imagens: Herman Smorenburg. 
Glastonbury Goddess Conference

domingo, 6 de maio de 2012

O LUGAR DA MÃE - A RECUPERAÇÃO DA MÃE É A RECUPERAÇÃO DO FEMININO COLETIVO


A MÃE COMO ELEMENTO DETERMINANTE DA SOCIEDADE

“Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós.”

“Com a frase “Dai-me outras mães e eu vos darei outro mundo”, Santo Agostinho revelava o ponto débil do seu projeto de sociedade e a necessidade que tinham de transformar duma vez por todas as mães. Transformar as mães para vencer a natureza humana e a sua predisposição para se organizar e viver como o fez durante muito tempo, sem dominação nem escravatura, em paz e em cooperação (a arqueologia já afastou qualquer dúvida a este respeito, provando que a Idade de Ouro não é um mito mas uma realidade).

Novas mães para reproduzirem os “filia” continuadores das empresas guerreiras, humanos aptos para fazerem a guerra ou para aceitarem tornar-se escravos. Não se podia criar este mundo sem mudar a mãe. A sociedade patriarcal foi erguida sobre um matricídio, acabando com as gerações de mulheres com cujo desaparecimento se sumiu também a paz sobre a Terra (Bachofen). É esta a civilização que perdura ainda hoje, continuando a destruir a vida e a corromper a condição humana, mais competitiva, mais fratricida, mais belicista e mais desapiedada que nunca. Do meu ponto de vista, não é a economia que está em crise, é o modelo de civilização.

Na encruzilhada na qual a humanidade se encontra, o que precisamos de fazer se queremos acabar com este sistema de dominação e sobreviver é recuperar a verdadeira mãe, e com ela as qualidades básicas dos seres humanos, que nos capacitam para a concórdia e nos incapacitam para o fratricídio. Recuperar a mãe verdadeira é recuperar o habitat que a rodeia. Bachofen criou um termo em alemão para o definir: é o Muttertum, sendo que o sufixo “tum” (equivalente ao “dom” em inglês) significa o sítio, o lugar da mãe.

Não se trata apenas dum espaço físico, mas antes dum conjunto de relações travadas com o seu fluxo libidinal específico, o fluido feminino-materno, o hálito materno, porque a produção do nosso sistema orgânico libidinal, desenhado para organizar as relações humanas, é a matéria-prima do tecido social humano original. O Muttertum é assim como a urdidura da tela social, como lhe chamou na sua preciosa metáfora Martha Moia: um conjunto de fios, porque um fio sozinho não consegue fazer a urdidura.

Recuperar a mãe verdadeira pressupõe então recuperar o coletivo de mulheres e a sua função coletiva dentro dum determinado grupo social. A recuperação da mãe não é uma recuperação individual (embora tenha uma dimensão individual e corporal), mas a recuperação do feminino coletivo, de todas nós. Segundo Malinowski, as mulheres trobriandesas dum clã (in The Sexual Life of Savages in the Western Melanesia) tinham um nome coletivo, “tábula”, a “tábula” é que se ocupava do parto das mulheres do clã.

Em castelhano há uma aceção do nome "mãe" que é um vestígio dessa mãe ancestral, que se encontra na expressão "salirse de madre", "sair da mãe", que seria sair do Muttertum, que nos faz amadurecer e nos torna consistentes. Há também uma aceção em que a palavra significa "fonte originária de algo" ("a mãe do vinagre", por exemplo), ou como a raiz de algo, quando dizemos que encontrámos a "mãe do cordeiro". Se um rio sai da "madre", tudo se inunda e é o desastre. Pois assim anda a humanidade, "fora da mãe", em permanente estado de esquizofrenia e cada vez com mais ataques de violência..."

Cacilda Rodrigañez Bustos

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 (Mulheres do matriarcado Mosuo.Vale muito a pena ler o texto!)