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terça-feira, 9 de novembro de 2010

ATHENA E MEDUSA

Mirella Faur

Na arte clássica grega existem duas diferentes apresentações de Athena. A imagem mais familiar é a da deusa severa, paramentada com armadura, elmo e escudo, a virgem invicta e guardiã de Atenas, que protege as batalhas e os heróis. Já a mais antiga mostra-a como uma deusa majestosa, com o manto e os cabelos decorados com serpentes e um fuso na mão esquerda. No entanto, mesmo a figura guerreira guarda as memórias arcaicas da sua verdadeira origem, que aparecem na cabeça da Górgone com cabelos de serpentes, existente no seu escudo chamado Gorgoneion. Esta é a revelação da ascendência de Athena, herdeira da deusa minóica das serpentes, cultuada um milénio antes do mito patriarcal a ter transformado na filha nascida da cabeça do seu pai Zeus, surgindo totalmente armada e pronta para a batalha
Os mitos mais recentes descrevem a Górgone como um monstro atemorizador, vencido e morto pelo herói Perseu, que depois de a ter decapitado, entregou à deusa Athena a sua cabeça como gratidão pela ajuda recebida.

Analisando os detalhes do seu nascimento, descobrimos que a mãe de Athena era a deusa Métis, uma das esposas de Zeus, que a engoliu, temendo que o filho que ela carregava no ventre pudesse destroná-lo, assim como ele tinha feito com o seu progenitor Chronos. Sofrendo de atrozes dores de cabeça, Zeus pediu ajuda ao deus ferreiro Hefesto, que lhe abriu a cabeça com seu machado e dela emergiu Athena, defensora da ordem patriarcal e não sua opositora. É evidente a metáfora que descreve o predomínio do direito paterno e patriarcal sobre a antiga ordem da sociedade matrilinear e matrifocal. Vemos nisso uma semelhança com o nascimento de Eva da costela de Adão, o primogénito; tanto Eva quanto Athena sendo associadas a serpentes.
Em grego, Athena pode ser compreendida como A Thea, a Deusa, que também deu origem ao nome da cidade por Ela patrocinada. Seu segundo nome, Pallas, significa “virgem”, pois em nenhum mito é feita qualquer referência à sua condição de mãe, sendo sempre conselheira, protetora e amiga de heróis e reis.
Uma antiga imagem minóica do período neolítico retrata-a como uma deusa alada e com cabeça de pássaro. A transformação de Athena, de uma deusa pássaro e serpente numa deusa guerreira que negou a sua filiação materna, ocorreu ao longo dos dois milénios de influências indo-europeias e orientais na Grécia. O
nome da sua mãe – Métis – permaneceu no seu atributo “sabedoria” ou “aconselhamento prático”. A origem serpentínea de Athena aparece ocultada na lenda da Medusa que foi transformada pelo patriarcado na terrível Górgona cujo olhar petrificava os homens.

Na realidade, Medusa era neta de Gaia, o seu nome significava Senhora ou Rainha, sendo a deusa serpente das Amazonas da Líbia, uma das três irmãs Górgonas cujo cabelo encaracolado era semelhante a uma coroa de serpentes. Elas protegiam os mistérios matrifocais antigos e os limites dos lugares sagrados. Numa inscrição antiga, Medusa era chamada “Mãe dos Deuses, passado, presente, futuro, tudo o que foi, é e será” (frase posteriormente copiada pelos cristãos para definir Deus). A sua sabedoria era resumida nesta frase: “nenhum mortal foi capaz de levantar o véu que Me oculta”, por Ela ser a própria morte, sendo o aspecto destruidor da deusa tríplice. Outro significado da sua face oculta e perigosa era o tabu menstrual, pois os povos antigos temiam o poder mágico do sangue menstrual, que podia criar e destruir a vida. A serpente é um antigo símbolo da sabedoria feminina e também representa o poder da energia Kundalini, a capacidade de transmutação e regeneração.

A Górgona – sabedoria, força e protecção

Originariamente a cabeça da Górgona era encontrada na entrada dos templos como um escudo de proteção, a Górgona arcaica representando uma trindade lunar formada por sabedoria, força e proteção. A lenda conta que o sangue de Medusa - que tanto servia para curar como para matar - foi colhido dos seus dois lados (esquerdo e direito) colocado em duas ânforas e dado a Asclépio e à sua filha Hygeia, deuses da cura. A imagem das duas serpentes entrelaçadas existente no caduceu (o bastão das divindades de cura) simboliza o conceito de vida e morte, a polaridade masculino/ feminino, esquerda/ direita, a representação da hélice dupla do DNA. Os antigos símbolos da deusa serpente minóica sobreviveram na ordem patriarcal apenas no seu aspecto escuro e ameaçador (principalmente para os homens, que ficavam paralisados pelo poder do olhar da Medusa).

Um mito antigo atribui à Medusa o nascimento de Pégaso, o cavalo alado, como fruto da sua união com Poseidon, ambos metamorfoseados em equinos (cavalo e égua). Outro mito mais recente descreve a sua criação do sangue jorrando do pescoço de Medusa quando a sua cabeça foi cortada pela espada brilhante de Perseu. A vitória de Perseu é vista como uma ode à vitória da luz sobre os terrores da escuridão e das serpentes, reforçando assim a dicotomia entre luz e sombra, masculino e feminino, Sol e Lua.


Compete às atuais sacerdotisas e seguidoras da Deusa compreender a complexa polaridade deste mito não como um conflito entre o arquétipo patriarcal de Athena e a sua antiga origem lunar e gorgónica, mas uma complementação de opostos personificados por Athena - o aspecto solar, guerreiro, criativo, heróico - e Medusa, sua contraparte lunar, passiva, obscura e misteriosa, mas igualmente poderosa.

http://sitioremanso.multiply.com/journal/item/68

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A VERDADEIRA FACE DE HERA


Mirella Faur

Hera e Juno, as padroeiras dos relacionamentos

“O meu canto louva Hera, filha de Rhea, Rainha imortal, irmã e esposa de Zeus. Sentada no seu trono
dourado Ela recebe as homenagens dos deuses do Olimpo, que A glorificam e honram tanto quanto ao
Zeus, pois a ambos pertencem o cetro e o céu.”

Hino a Hera, de Homero (adaptado)

Hera, a Rainha Celeste, uma das mais antigas e poderosas deusas do mundo mediterrâneo, nos primórdios reinava sozinha e sem consorte, verdadeira herdeira da tradição da Grande Mãe. No entanto, poetas e historiadores no período helenístico e clássico Lhe atribuíram um papel de menor importância , descrevendo-A como a esposa ciumenta e vingativa de Zeus, uma deusa insegura, cruel e injusta, padroeira do casamento e da fidelidade, que ela respeitava e cumpria apesar do alto preço a pagar. Zeus era um deus todo-poderoso, com comportamento tipicamente patriarcal , adúltero e dominador, que violentava gabava das suas conquistas e dos filhos ilegítimos. Hera aparece nos mitos clássicos e poemas homéricos como a consorte dependente e fiel, que u s a s e u s p o d e r e s sobrenaturais e sua astúcia para se vingar das traições conjug a i s , matando a s amantes e os filhos bastardos sem, no entanto, confrontar ou abandonar seu marido infiel. Apesar desta descrição negativa, o culto de Hera floresceu em vários lugares, seus templos imponentes e faustosos sendo encontrados da Babilónia até à Síria, Grécia, Creta e Roma, os mais famosos sendo os de Hierápolis, Sparta, Olímpia, Micenas, Argos, Cós, Samos, Corinto, Attica, Beotia, Epidaurus, Euboea, Platea e Creta.

Como se explicam os séculos de devoção a uma deusa“vulnerável” e misógina, com os inúmeros festivais e celebrações - chamados Heraea - em Hierápolis (com procissões, oferendas nos altares, banquetes e competições desportivas) ou Olímpia (com jogos e
competições de corridas entre mulheres de várias faixas etárias) e as procissões anuais das sacerdotisas levando as estátuas de Hera para serem lavadas no mar?

Para compreendermos estas incongruências históricas devemos perscrutar os mitos arcaicos e a origem do mito clássico. Na era de Touro Hera era honrada como a deusa celeste com “olhos de vaca” (símbolo de beleza e riqueza), que presidia sobre todas as passagens da existência feminina.

O nome grego Hera significava A Senhora e A Escolhida, atribuído à uma deusa minóica do céu, da tempestade e do vento, sua essência sendo a soberania da terra e seus títulos definindo a regência das fases da vida da mulher e da natureza. Assim Parthenia era a donzela, a lua nova, a primavera, Teleia – a mulher adulta, a lua cheia, o verão e Khêra, a viúva ou mulher solitária, a lua minguante e o inverno . A l é m d e s t a apresentação tríplice, Hera ainda tinha como atributos: Ataurote - a virgem, Nymphomene - a noiva, Zygia- a casada, Gamelia - padroeira do casamento, Antheia - deusa das flores, Acrea – a senhora das alturas, Hippia – padroeira das corridas de cavalos. Suas imagens mais antigas a representam nos altares dos templos como um pilar de madeira sagrada envolto em panos ou uma mulher majestosa e bonita, os cabelos presos por um diadema, sentada sobre um trono e segurando um cetro com um cuco no topo (seu animal sagrado além do falcão, do pavão e da vaca) e uma romã (indicando a sua regência também sobre a morte, além davida). Hera aparecia como uma deusa lunar e celeste, que controlava o céu, a terra, o ar e a água, protegia as mulheres, seus ritos de passagem e relacionamentos, regente da arte, da ciência, do tempo e das profecias. Seu culto antecede em muito o de Zeus, até mesmo em Olímpia, onde seu templo foi depois dedicado a Zeus.

Quando as tribos invasoras vindo do Norte europeu invadiram a Grécia, o culto de Hera tornou-se um empecilho e assim ela foi transformada na consorte de Zeus, deus celeste e senhor dos raios. O casamento mítico de Hera e Zeus representa a derrota do culto matrifocal na Grécia e Creta prémicênica pelos cultos patriarcais e a amalgamação forçada das duas tradições e seus panteões. Os eternos conflitos do casal divino simbolizam as batalhas entre os seguidores de Zeus e os adoradores de Hera. A permanente tensão conjugal e a esterilidade matrimonial descreviam o contraste entre a antiga descendência matrilinear e as novas imposições da hierarquia patrilinear. Zeus negou a Hera realização sexual e emocional e nascimento de um filho legítimo, com medo de que ele poderia usurpar a sua soberania (assim como ele fez com o seu pai Chronos). Hera – por sua vez – recusou-se a gerar um herdeiro que perpetuasse o direito e a hegemonia patriarcal. Os inúmeros estupros de deusas e mortais atribuídos a Zeus representavam a violação dos direitos matrifocais e o ostracismo imposto às sacerdotisas de Hera pelos adeptos de Zeus.

A perseguição e punição das amantes de Zeus por Hera, era uma metáfora que simbolizava o compromisso sagrado que impedisse a submissão das sacerdotisas à nova ordem patriarcal. A matança dos filhos destes estupros era uma medida extrema para evitar a existência de descendentes leais à nova ordem patriarcal. A severidade do comportamento de Hera com seus inimigos reflete o desespero das seguidoras do seu culto, que lutaram até a morte para preservar a linhagem matriarcal e os direitos sagrados das mulheres. Como consequência da instauração da nova ordem patriarcal, as mulheres foram proibidas de exercer práticas curativas, terem acesso aos estudos, cultos e calendários lunares, sendo punidas pelas transgressões das regras. Até nos dias de hoje, a violência contra as mulheres é atribuída ao comportamento errado, omisso, devasso, rebelde, fútil ou carente das mulheres.

No panteão Olímpico Hera aparece como filha de Chronos e Rhea, irmã de Zeus que se apaixonou por ela, mas Rhea não lhe deu seu consentimento por conhecer a sexualidade voraz e desprovida de ética do seu filho. Para conseguir vencer a resistência de Hera refratária aos seus avanços, Zeus lançou mão de um estratagema, se transformando em cuco, que parecendo enregelado de frio foi acolhido nos braços compassivos de Hera. Depois que Zeus reassumiu suas feições ele a violentou, forçando-a aceitar o casamento, festejado por todas as divindades. O mito conta que a celebração do casamento durou 300 anos e em seguida o casal divino foi morar no monte Olimpo, onde Hera passou a dividir o trono com Zeus e ser a única deusa casada. No início a relação foi amorosa e pacifica, mas depois começaram as brigas perpétuas, com traições de Zeus, fidelidade e vinganças de Hera, humilhações e disputas recíprocas. Apesar desta união tumultuada, Hera passou a ser reverenciada como a esposa modelo, que permanecia fiel e monógama, apesar da infidelidade do marido e das investidas de outros deuses.

Enquanto Zeus gerou vários filhos fora do casamento, da sua união com Hera nasceram apenas as deusas Hebe e Eileithya que, segundo algumas fontes, não eram filhas, mas personificações da própria Hera (sua face jovem e a protetora dos partos). Para se vingar de Zeus pelo nascimento de Athena, Hera gerou de forma partenogenética (sem parceiro) os deuses Ares (odiado por Zeus), Hefaisto (rejeitado pela própria Hera por ter nascido aleijado) e uma criatura monstruosa, Tifon, a serpente de cem cabeças, inimiga mortal de Zeus.

A relação conjugal de Zeus e Hera tornou-se o protótipo do casamento humano, com brigas, separações e repetidas voltas, Hera se retirando na solidão durante algum tempo, mas voltando após a renovação da sua “virgindade” ao se banhar na fonte sagrada de Kanathos. Em troca da sua fidelidade Hera esperava a mesma conduta do seu cônjuge e sua decepção se manifestou na amargura, ciúme obsessivo, raiva e vingança, bem como na projeção da sua libido reprimida e manifestada pela licenciosidade de Zeus. Sua atuação feminina era mais como esposa do que como mãe, podendo ser definida como uma “matriarca contida e reprimida em um mundo patriarcal”, sem ter tido o direito e as condições mútuas para que fosse celebrado o verdadeiro hieros gamos, o casamento sagrado e consagrado.

Os mitos clássicos enaltecem apenas a virtude da fidelidade de Hera, sem mencionar seus antigos atributos de proteção, força e nutrição. A ênfase está no ciúme mórbido, na maldade cruel das vinganças, na imagem maldosa de Hera, fato atribuído à vida conjugal de Homero, perseguido e atormentado por uma esposa vil e ciumenta.A equivalente romana de Hera, a deusa Juno tinha um mito semelhante, mas uma maior autoridade e relevância, por terem sido agregados ao seu culto os atributos lunares e de fertilidade da terra de uma antiga deusa mãe. Para os gregos, a união perene de Hera e Zeus simbolizava a importância da manutenção do casamento.

Para os romanos o casamento, lar e família tinham uma importância conjunta maior, louvando-se também a fertilidade e a maternidade como atributos divinos. Juno Natalis era a guardiã dos partos e da maternidade, Juno Lucina conduzia a alma para a luz e Juno Pronuba protegia as mulheres casadas, o mês de junho sendo a ela como favorável aos casamentos. Acreditava-se que cada mulher possuía uma individualidade feminina sempre renovada e jovem nomeada juno,
equivalente ao genius dos homens. O asteróide Juno simboliza o princípio de relacionamento e da parceria equilibrada e harmoniosa, sendo associado com os signos de Libra e de Escorpião, definindo a aspiração para a união perfeita e os sofrimentos e complexos psicológicos oriundos da não realização. Ele descreve os jogos de poder, as manipulações, repressões, projeções, decepções, medos e conflitos encontrados nos relacionamentos desiguais e desajustados e indica as soluções para a sua transmutação e cura..

Para as mulheres que buscam resgatar os verdadeiros valores e conceitos da tradição da Deusa é imprescindível descartar a visão patriarcal de Hera como uma deusa vulnerável e dependente e A honrar como protetora e defensora, que cuida dos seus direitos, favorecendo e atraindo relacionamentos justos, leais e de honesta parceria. Precisamos transformar o arquétipo distorcido da Hera como esposa infeliz e dependente enraizado no nosso inconsciente, na cultura, literatura e ordem social vigente. Resgatar a Hera arcaica que vive em nós - simultaneamente com a sua imagem negativa mais recente – significa ver Hera como um incentivo para que amemos mais a nós mesmas, buscando nosso aprimoramento individual, cuidando dos nossos corpos, mentes, corações e limites.

Devemos ter a coragem para exigir um relacionamento equitativo, harmonioso, honesto e equilibrado , vivendo com integridade, lealdade e respeito, sem nos deixar limitar ou prender por medos , co-dependências e concessões. Pede-se a Hera a benção para um casamento sagrado, uma união alquímica que una as almas e não somente corpos, corações ou interesses, em busca da fusão com o divino amor, que tudo permeia e que existe em todos e no todo.

http://www.teiadethea.org/files/jornais/jornaljulho09.pdf

terça-feira, 19 de outubro de 2010

AS VIRGENS NEGRAS


As Virgens Negras são registos valiosos duma época em que a Terra era reverenciada como Mãe e todas as criaturas eram Seus filhos.

Diferentes das Virgens Brancas - que personificam dogmas e virtudes cristãos de obediência e resignação-, as Negras têm em comum as qualidades telúricas e a sua localização em sítios arqueológicos que comprovaram a existência de deusas pré-cristãs. Tradições religiosas antigas – como a gnóstica, hebraica e cristã – contêm elementos da mitologia e iconografia das deusas asiáticas, sumérias, egípcias e europeias, guardando a sua associação com luz e sabedoria, mas desprovidas da unidade primordial entre céu e Terra. Inúmeras das imagens e estátuas destas deusas são negras, cor que evoca o mistério impenetrável da Fonte Criadora. Ísis e Shekina são cobertas por mantos ou véus pretos, Cibele era venerada como um bloco de pedra preta, Deméter e Athena tinham versões escuras e a belíssima e tocante estátua de Ártemis de Éfeso, a Mãe dos mil seios, era negra.

Nos primórdios do cristianismo, o princípio feminino era representado por Virgens Negras e Brancas e por uma multidão de santas, todas brancas, com exceção de Sara, a Egípcia, padroeira dos ciganos. À medida da expansão e do fortalecimento da religião cristã, as estátuas de mármore e bronze das deusas pré-cristãs foram destruídas, o seu culto perseguido e proibido. Porém, em lugares remotos dos países cristianizados, fiéis dos antigos cultos preservaram os seus ídolos domésticos e pequenas estátuas, escondendo-os nas grutas e fendas da terra, em criptas dos templos antigos, perto de fontes e rios e no oco das árvores. Alguns foram encontrados na proximidade dos centros religiosos dos cátaros e templários e nos lugares onde foi preservado o culto da Mãe Divina e de Maria Madalena. Em todos estes locais “apareceram” posteriormente e de maneira milagrosa imagens das Virgens Negras, encontradas por pessoas humildes, animais ou crianças. Muitas delas foram perdidas ou destruídas por fanáticos e guerras, enquanto a sua verdadeira origem e significado estavam sendo esquecidas. No entanto, a sua lembrança influenciou gerações posteriores de escultores e artistas religiosos que reproduziram as suas imagens, surgindo assim representações mais recentes, com características e trajes cristãos, mas preservando a cor negra. No século VII e VIII chegaram na Europa estátuas originais das deusas antigas trazidas do Oriente Médio pelos Cruzados. Na Idade Média os altares dedicados à Virgem Negra na Europa eram os mais procurados e venerados. Os antigos locais sagrados e templos das deusas pré-cristãs foram adaptados à nova religião e dedicados a Maria, para quem foram “transferidos” atributos e poderes da Deusa, pois não tinha sido possível extinguir da alma popular a veneração milenar de uma Mãe Divina.
A partir do século X o culto das Mães negras intensificou-se de tal forma que ultrapassou o do Pai e Seu Filho. Reis, guerreiros, camponeses, mulheres, doentes e peregrinos ajoelhavam-se juntos perante as imagens das Virgens milagrosas nas inúmeras igrejas e grutas a Elas dedicadas nos países europeus, orando, fazendo os seus pedidos e deixando votos e contribuições. Milagres e aparições aconteciam com frequência, principalmente curas de mulheres, enfermos e crianças. A Virgem Negra tornou-se motivo predominante na literatura mística e alquímica dos séculos XII e XIII e o impulso para a construção de inúmeras catedrais, igrejas e permanentes romarias.

As tentativas da igreja cristã para explicar a cor negra das estátuas eram equivocadas e sem fundamento, alegando escurecimento pelo fumo das velas ou reações químicas dos pigmentos das tintas. Era necessário ocultar e distorcer o verdadeiro significado da cor preta, atributo milenar da terra, do inconsciente, da fase escura da Lua, do poder misterioso e sagrado da mulher, da sabedoria ancestral que aceitava a morte seguida pelo renascimento, assim com o dia segue à noite. O culto da Virgem Negra representava a perpetuação do princípio feminino numa cultura e religião patriarcais e misóginas e por isso devia ser abolido ou desacreditado. Apesar da oposição dos teólogos cristãos, da perseguição pela Inquisição, da destruição de inúmeras imagens pelos protestantes, revoluções, guerras e reformas políticas, do “disfarce” tingindo as estátuas de branco, o fenómeno complexo e multifacetado das Virgens Negras persistiu ao longo dos séculos. As fogueiras da Inquisição foram seguidas pela frieza da Era da Razão e do materialismo científico, que antagonizava tudo o que se relacionava com o princípio feminino. Porém, nos séculos XIX e XX, aparições marianas reanimaram o culto da Virgem Negra e a necessidade de conciliar religião e sexualidade trouxe de novo os valores telúricos e femininos à consciência coletiva. Algumas das Virgens Negras tornaram-se símbolos religiosos e mesmo padroeiras nacionais, como a Virgem de Guadalupe, a Madona Negra de Czestochova (Polónia) e a nossa Senhora de Aparecida. Atualmente intensificou-se o movimento internacional ao redor de imagens de Madonas e Deusas Negras na esperança de criar uma ponte de ligação entre grupos étnicos, movimentos ecológicos e feministas, teologia da libertação e teorias filosóficas e políticas. No aeroporto de São Francisco, Califórnia, existe uma escultura de Beniamo Bufano reproduzindo uma Madona Negra com seios nus, semelhante à deusa Astarte, enquanto outra na Califórnia evoca Ísis. Em 1991 na Polónia houve um “encontro” de Madonas Negras, que reuniu em exposição a hindu Kali com a Virgem de Guadalupe e a Madona de Czestochova. A intensa e extensa veneração da Madona Negra em Itália tem um equivalente no Brasil no culto das deusas afro-brasileiras e nas oferendas anuais nas praias para Iemanjá, a Negra Mãe das águas, enquanto em França, em Sainte Marie de la Mer, procissões, missas e oferendas no mar reverenciam a negra Sara Kali.

Apesar da diversidade de aparências, origens e antiguidade, as Virgens Negras evocam as memórias ancestrais do culto da Grande Mãe, fonte de vida e regente de todas as suas fases, do nascimento à morte e regeneração. Elas são a continuação - sob uma nova denominação e na nova religião - da reverência ancestral ao sagrado poder feminino. Autênticas ou réplicas modernas das antigas estátuas, as Virgens Negras evocam a sua origem ctónica, aquática e vegetal e as memórias ancestrais da Mãe Terra, pois a sua antiguidade supera a das religiões e civilizações.

Elas têm um intenso poder de cura e transformação, pois as Virgens Negras possuem o antigo axé das deusas telúricas, Senhoras da vida, morte e regeneração. A sua aparição nos sonhos, visões e terapias das mulheres contemporâneas representa uma mensagem do feminino sagrado e transcendente, um incentivo para transpormos as pontes que nos afastam e separam e o aviso urgente e premente de reconhecermos o poder sagrado da Terra e da mulher, da diversidade de todas as formas de vida e da necessária inclusão em uma harmoniosa e abrangente parceria. Nossa sobrevivência como Filhos da Terra depende da nossa capacidade de resgatar, honrar e cuidar da Sua luz, que brilha oculta na escuridão da nossa inércia, indiferença, esquecimento ou ganância.

http://sitioremanso.multiply.com/journal/item/70
Imagem 1: Senhora de Aparecida, Brasil
Imagem 2: Nossa Senhora de Einsiedeln, Suíca

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O PRIMEIRO TEMPLO DA DEUSA DA ACTUALIDADE


Entrevista realizada a Kathy Jones, sacerdotisa de Avalon, organizadora da Conferência anual da Deusa, pela BBC Somerset Sound's:

Kathy, sendo uma especialista como tu és, podes explicar-nos o que é exactamente a Deusa?

A Deusa é a face feminina do divino. Ela é a fonte de tudo o que é, Ela é a terra e o planeta, Ela é o céu e o paraíso.

Há quanto tempo existe esta ideia da Deusa?
Há cerca de 4 ou 5 000 anos, a Deusa era cultuada nas Ilhas Britânicas, na Europa e em muitos outros lugares do mundo.
Onde quer que encontremos vestígios neolíticos (círculos de pedras, pedras ou terras sagradas) todas eram especialmente dedicadas a uma antiga deusa em particular. Portanto a Deusa era conhecida por esse mundo fora há muito, muito tempo.
Foi só quando as culturas patriarcais se instalaram no mundo, removendo as manifestações do Seu culto, que nós deixámos de estar em contacto com a Sua essência.
Como se relaciona a Deusa em particular com Glastonbury?

O modo como encontramos a Deusa em Glastonbury é através da própria paisagem, da forma dos montes e dos vales. Glastonbury é uma cidade situada num pequeno grupo de colinas, composto pelo Tor, pela colina do Cálice (Chalice Hill) e pelas Wearyall Hill, Windmill Hill e Stone Down. Estas Colinas erguem-se na planície que rodeia Glastonbury, e quando olhamos para a sua forma, podemos ver as diferentes linhas dos seus contornos. Uma das formas observáveis é a de uma gigantesca mulher deitada de costas sobre a terra. É a Deusa Mãe deste lugar.
Apenas a encontramos aqui, em Glastonbury, ou será que Ela está também noutros sítios?

A Deusa está em todo o lado. Podemos ver belas paisagens em qualquer lugar, mas alguns sítios são particularmente belos. Glastonbury é um dos lugares onde A podemos ver de modo mais óbvio, porque Ela está aqui, na própria paisagem. Este sempre foi um lugar de peregrinação, pessoas de todas as confissões religiosas vêm até cá. Portanto, apesar da Deusa estar aqui na própria paisagem, as pessoas vêm, não aparentemente por isso, mas porque isto é um centro espiritual.
Existe algo de muito forte na energia deste lugar que atrai as pessoas.
Acha que aquilo que sente quando está em Glastonbury é devido à presença da Deusa?

Penso que sim. Porque Ela é uma presença muito poderosa. Outras pessoas dirão que vêm cá por outras razões.
Quando vim pela primeira vez, há cerca de 30 anos, ninguém falava na Deusa.
Todas as histórias sobre Glastonbury eram sobre personagens masculinos. Era uma tradição muito masculina. A consciência da Deusa apenas despertou nos últimos 20 anos.
O que terá provocado este ressurgimento da Deusa?


A meu ver, esse despertar veio da própria Deusa. Ela pede-nos para A relembrarmos. Muitas pessoas, particularmente mulheres, são chamadas a Glastonbury, para A relembrarem, para virem aqui e tornarem-se sacerdotisas de novo. Em termos práticos, as coisas começaram a acontecer. Uma escultora chamada Philippa Bowers começou a criar esculturas da Deusa. Na Glastonbury Assembly Rooms, tivemos uma exposição de quadros representando a Deusa. Há umas largas centenas de anos que tal não acontecia.
Também eu própria, e outras pessoas, escrevemos livros e peças de teatro sobre a Deusa. Houve uma série de factores que se juntaram em simultâneo.
Será que as mulheres têm mais conexão com a Deusa do que os homens?

Mulheres, homens, crianças, todos são iguais perante a Deusa – Ela não discrimina. De certo modo, é mais fácil para as mulheres conectarem-se com a Deusa porque nos identificamos na nossa forma e nos nossos corpos. Experienciamos os Seus ciclos na nossa vida. Mas para os homens é igualmente poderoso. Eu faço formação de sacerdotisas de Avalon, que é um curso aberto igualmente aos homens, e eles têm a sua própria relação com a Deusa – não existem diferenças perante Ela.

A Kathy foi uma das fundadoras do Templo da Deusa em Glastonbury. Como é que isso aconteceu e qual a sua finalidade?

Em Glastonbury, cada Verão, nós temos a Conferência da Deusa. Todo o tipo de pessoas vêm aqui nesse momento – artistas, poetas, actores, etc. Depois de alguns anos (completaram-se agora 11), pensámos que gostaríamos de poder celebrar a Deusa de forma contínua durante todo o ano e não apenas uma vez. Viajei muito e em quase todos os lugares onde estive há templos da Deusa, mas estão todos em ruinas. Então pensei em como gostaria de ir a um templo vivo da Deusa. Começámos por alugar um espaço, decorávamo-lo durante três ou quarto dias como um templo da Deusa, realizávamos cerimónias e depois desmontávamo-lo.
Foi assim durante uns 18 meses até que surgiu um espaço disponível na Glastonbury Experience, que é exactamente na rua principal, e pudemos finalmente ter um verdadeiro Templo da Deusa.
Em 2002, fizemos o nosso registo como um local de culto, como um templo da Deusa, o primeiro a ser formalmente reconhecido como templo da primitiva Deusa britânica, desde há cerca de 1 500 anos.

Dezembro de 2008




Nota: No seguimento da entrevista (disponível em audio aqui), Kathy Jones fala da importância da obra de Marion Zimmer Bradley, AS BRUMAS DE AVALON, que apresenta uma perspectiva feminina das antigas lendas e narrativas, e que teve um enorme impacto por todo o lado.

Embora ela não refira Jean Shinoda Bolen, creio que também esta psicóloga junguiana, particularmente com a obra TRAVESSIA PARA AVALON, teve um papel importantíssimo no ressurgimento do culto da Deusa e no recrudescimento do interesse por Glastonbury e outros lugares sagrados britânicos.

Uma outra obra de grande importância no despertar do interesse por este lugar, mas que não me parece que tenha chegado até nós, foi O SOL E A SERPENTE (THE SUN AND THE SERPENT), de Paul Broadhurst e Hamish Miller. Dan Brown, com O CÓDIGO DA VINCI, também deu uma boa ajuda.
Imagens: Google

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

13 de AGOSTO, FESTIVAL GREGO DE HÉCATE

O dia 13 de Agosto era uma data importante no antigo calendário greco-romano, dedicada às celebrações das deusas Hécate e Diana, quando Lhes eram pedidas bênçãos de proteção para evitar as tempestades de Verão que prejudicassem as colheitas. Na tradição cristã, comemora-se no dia 15 de Agosto a Ascensão da Virgem Maria, festa sobreposta às antigas festividades pagãs para apagar a sua lembrança, mas com a mesma finalidade: pedir e receber proteção.Com o passar do tempo, perdeu-se o seu real significado e origem e preservou-se apenas o medo incutido pela igreja cristã em relação ao nome e atuação de Hécate. Esta poderosa Deusa com múltiplos atributos foi considerada um ser maléfico, regente das sombras e fantasmas, que trazia tempestades, pesadelos, morte e destruição, exigindo dos seus adoradores sacrifícios lúgubres e ritos macabros. Para desmistificar as distorções patriarcais e cristãs e contribuir para a revelação das verdades milenares, segue um resumo dos aspectos, atributos e poderes da deusa Hécate. Mirella Faur



ARQUÉTIPO DA TRANSFORMAÇÃO E TRANSMUTAÇÃO

Hécate é também um vaso-útero, que recebe os processos passados no interior da psique. Ela é o vaso alquímico que permite a transformação e transmutação dos elementos materiais em espirituais. Hécate habita as grutas e cavernas. E para sermos fertilizados pela semente da criação espiritual e do renascimento psíquico temos de visitar a sua morada, fazer a entrada no reino dessa deusa. Ela é a Caverna-Mãe onde se dão os processos espirituais.
Muitos mistérios e ritos de iniciação se passavam no interior das grutas e cavernas.
Hécate é a regente dos processos misteriosos da vida e da morte, das passagens difíceis da vida, da entrada nos caminhos árduos da transformação.
A Deusa nos diz que as mudanças servem para determinar o nosso comportamento e que devemos ter cuidado com os caminhos falsos ou atalhos inadequados. O caminho, por vezes, pode não ter muita importância, mas premente é a necessidade de fazer a passagem.
Hécate estava por perto quando Perséfone foi raptada por Hades, mas não interferiu, porque ela sabia que as passagens são necessárias, às vezes não importam os caminhos. Mas é Hécate que ensina e ajuda Deméter a achar o caminho para recuperar a filha Perséfone.
A entrada no mundo inferior é necessária para o contacto com as fontes internas da fertilidade, mas é preciso saber o caminho de volta para poder tornar consciente toda a possibilidade criativa. Enquanto houver o mergulho no mundo inferior, a consciência pode adormecer e descansar, e novamente será renovada e frutificará com a volta.
Hoje podemos relacionar-nos com Hécate como uma figura guardiã do nosso inconsciente, que tem nas mãos a chave dos reinos sombrios que há dentro de nós e que traz as tochas para iluminar o caminho para as profundezas do nosso interior.
A nossa civilização patriarcal talvez nos tenha ensinado a temer esta figura, mas se confiarmos nas suas energias antigas, encontraremos nela uma gentil guardiã.
Ela está presente em todas as encruzilhadas que existem em todos os níveis do nosso ser, manifestando-se como espírito, alma e corpo. Devemos reconhecer que a imagem terrível, tenebrosa e horrenda de
Hécate é um mero registo do medo inconsciente do feminino que os homens, imersos num patriarcado unilateral, projetaram ao longo de milénios nesse arquétipo.
Temos que encarar a nossa Hécate interior, estabelecer uma relação com ela e, confiando na sua assistência, permitir a nós mesmas o desenvolvimento duma percepção desse rico reino do nosso Mundo Inferior Pessoal. Somente por meio dessa atitude poderemos tornar-nos seres integrados, capazes de lidar com as polaridades sem projetar de imediato dualismos.
Ao passar por uma encruzilhada, irá deparar-se com Hécate e ela dirá que as nossas vidas são feitas de escolhas. Não existem escolhas certas ou erradas, mas somente escolhas. Independente do que escolher, a experiência, por si só, já é algo valioso. Hécate insiste para que não tenhamos medo do desconhecido. Os desafios apresentados precisam de um salto de fé da pessoa que faz a escolha. Confie que será capaz de fazer uma escolha quando chegar a hora. Conceda-se tempo e espaço, nunca se censure ou se culpe, faça apenas a sua escolha.
Rosane Volpatto

quarta-feira, 28 de julho de 2010

DEMÉTER

Deméter é a deusa grega da manifestação, da renovação da natureza, da agricultura, das dádivas da terra, do alimento/nutrição. A semente, promessa da renovação e da continuidade da vida, personificada pela sua filha Perséfone, é a Sua grande dádiva à humanidade.

Ela representa então o aspecto Mãe da Deusa. Como Mãe, Ela é a deusa da criação e por isso é sempre associada à sua filha Kore/Perséfone, a sua criação, o seu fruto, a sua semente.

Perséfone, entretanto, é vítima duma catástrofe que afecta profundamente ambas, Mãe e Filha, um dos pares mais importantes do Olimpo. A donzela é certo dia raptada por seu tio Hades, o senhor dos Infernos, com o consentimento de seu pai, Zeus (irmão da própria Deméter...). Tal acontece quando, alegre e despreocupadamente, colhe flores no prado.

Desesperada, a mãe vagueia então pela terra, durante nove dias, implorando pela filha e decretando a morte de toda a vegetação. Nada mais crescerá sobre a terra, não haverá mais alimentos, até que Perséfone seja restituída sã e salva a sua mãe Deméter…

A história, entretanto, termina bem, pois a vítima acaba mesmo por ser enviada de volta à casa materna, embora apenas por alguns meses do ano, sendo que nos restantes, vai ter de descer aos infernos, para junto de Hades, que fez dela a senhora e rainha desse lugar...

E percebemos que se trata da expressão alegórica da mudança das estações, sendo os processos de morte por que passa a natureza no Outono/Inverno simbolizados pelo rapto de Perséfone.

Mas o mito é muito mais rico e profundo. Um dos seus aspectos, segundo vários autores, são as fortes reminiscências que aqui encontramos da luta travada pelo patriarcado para se impor numa sociedade à partida matriarcal…

Para a Psicologia dos Arquétipos, entretanto, Deméter representa a maternidade, e a relação com Perséfone a própria relação mãe/filha, sendo o rapto o símbolo do processo de individuação da rapariga, o momento em que esta se desliga da mãe e se assume como mulher…

Temos então aqui aquilo a que poderíamos chamar o percurso da heroína, um percurso que, muito embora passe igualmente pelos infernos, nada tem a ver com o que é próprio de um herói.