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domingo, 18 de setembro de 2022

Padeira de Aljubarrota – Um Avatar de Brigântia

 

Quem foi Brites de Almeida, a Famosa Padeira de Aljubarrota?

 Por que razão a memória desta mulher persiste até hoje?

O que haverá assim de tão heroico em eliminar sete desgraçados soldados espanhóis, estafados, assustados, perdidos, vencidos, confinados a um lugar tão exíguo e com uma única saída como o forno duma padaria? 

Ou será que estamos a falar da memória de Brigântia, Brites, Britiande, Brito, Deusa Guardiã e Defensora da Terra?

 O que se conta dela, que era uma simples mulher do povo, extraordinariamente forte e feia com seis dedos em cada mão, não é mais que a visão patriarcal distorcida duma antiga divindade feminina da Terra que entrou em declínio, em processo de obliteração e demonização, mas ainda presente na memória colectiva do nosso povo, embora sob este disfarce grotesco, como a antiga e poderosa Senhora, Rainha e Defensora da Terra. Na verdade, a Mãe Terra Ela própria, feia e feroz e perigosa quando ameaçada, como era o caso concreto aqui com a nossa independência em relação a Castela posta em causa no final do séc. XIV.

 

Sim, a chamada Brites de Almeida só pode ser nada mais nada menos que Brigântia, o aspecto Terra de Brígida, da Grande Deusa celta. E se pensam que o apelido Almeida é simplesmente aleatório é porque ainda não se debruçaram um pouco que seja sobre a história militar desta importante praça forte raiana do distrito da Guarda, Beira Alta. Com o seu famoso forte em estrela de doze pontas, uma enigmática arquitectura, que segundo algumas investigações parece ser bem mais antiga e universal do que oficialmente se conta, Almeida foi uma das mais importantes praças fortes de Portugal na Idade Moderna, tendo feito parte de Espanha até 1297 quando o tratado de Alcañices redefiniu as fronteiras ibéricas.

 “Alma até Almeida!... De Almeida para lá logo se verá!…”

 Em Almeida “se bateram mouros contra cristãos, depois portugueses e castelhanos, batalhas que duraram séculos até se firmarem as fronteiras nacionais. Também aqui se tentou rechaçar as tropas de Napoleão, durante as invasões francesas do século XIX. Pouco depois, liberais e absolutistas defrontaram-se por ideais políticos. E mais sangue foi derramado.” *

António Gedeão, nos versos finais do poema Terra Adubada, refere-se nestes termos aos campos de batalha de Almeida:

 As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.

É o sangue dos soldados que está vertido no chão.


Não são vespas, nem besoiros, 

nem pássaros a assobiar.

São os silvos das balas cortando a espessura do ar.

 

Depois os lavradores

 a terra com a lâmina aguda dos arados,

e a terra dará vinho e pão e flores

adubada com os corpos dos soldados.

 Nas linhas com que se tece esta persistente lenda nacional da Padeira de Aljubarrota, Brites de Almeida, parecem pois andar temas e motivos que se perderam no tempo, ofuscados pela glória dos heróis patriarcais, expurgados pela água benta das sacristias…   

Mas vale a pena revisitar esta história no feminino e não deixar de reflectir sobre o poder e significado da arma usada pela nossa Rainha Protectora e Defensora da Terra e da Vida, a pá do forno! Evocativa dos poderes de cuidar da vida, da exaltação da vida, valores próprios das sociedades matrifocais, em forte contraste com o aparato militar das sociedades que as venceram e suplantaram, aquelas que glorificaram a guerra, que enaltecem e valorizam acima de tudo a competição, a conquista e a rapina como forma legítima de criar riqueza e acumular poder.

 Que Brites de Almeida, Brigântia, sempre nos defenda e proteja!

 


*https://bercodomundo.com/2012/10/almeida-estrela-de-guerra.html?fbclid=IwAR32hVwW4NwUGOCZIQVACwl0WcYThAagiRTUt_KyjEV6C3dYhvSF0vG8eI0

Imagens: Google

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