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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A SENHORA DO VERÃO E A ANCIÃ DO INVERNO DO NOSSO TERRITÓRIO

Escrevia  este texto quando um amigo, que se encontrava por acaso na nova basílica da Cova da Iria, me enviou esta imagem...


Ainda hoje fica bem claro quando erguemos o véu do mistério que recobre a dimensão da Deusa entre nós que Ela continua a ser cultuada essencialmente como Deusa Dupla. Ela é a Senhora/Rainha, do Verão, Iria, Aquela que apareceu na sua Cova num certo dia 13 de Maio pela primeira vez, e repetiu a aparição por mais 5 meses até que em Outubro se despediu, ou seja, precisamente seis meses depois, ficando oculta na outra metade do ano, na mais escura, fria e hibernal, como a Anciã do Inverno.

E até temos um mito semelhante àquele que tem a donzela Perséfone e a Sua mãe Deméter, ou Proserpina e Ceres, como protagonistas, que nos conta que a 20 desse mesmo Outubro, que é quando acaba o bom tempo, Ela é morta. Em Tomar. 

A nossa Deusa Donzela, filha quem sabe de Aire, cujo nome é uma inversão do Seu e batizou a serra onde "apareceu", é morta junto ao rio Nabão. O Seu corpo é então levado por este rio até ao Zêzere, descendo depois pelo Tejo onde acaba por ser encontrado no lugar da Ribeira de Santarém. 

Podemos imaginar até - por que não? - que o rapto/morte/martírio de Iria poderia estar no centro de celebrações anuais semelhantes aos Mistérios de Elêusis, na Grécia, que actualizavam o mito do rapto de Perséfone, o mito da alternância das estações, e que aqui envolveriam águas de três rios importantes. O rio da morte era afinal um motivo muito comum às culturas da antiguidade. O mesmo Hades, senhor do inframundo, que rapta a donzela, que em Roma se chama Proserpina, tem uma porta no castelo de Tomar… 

Iria, a que pela Sua semelhança com a Brígida celta, denomino de Iria-Brígida, tem uma mitologia tão rica no nosso território, em particular no triângulo Cova da Iria, Tomar e Santarém, que dói na alma ver como vestígios físicos da Sua manifestação terrena, o que resta daquilo que a lenda diz ter sido o Seu convento, foram entregues a empresários privados para serem transformados em hotel, delapidando-se assim uma riqueza cultural incalculável, como só um povo amnésico e ou ignaro e miserável de espírito se pode dar ao luxo de fazer. É na verdade um bem que pertence a todas e a todos nós, à nossa história e cultura, que foi alienado por quem o deveria proteger e preservar para benefício de toda a gente. Acho muito triste e muito grave, sobretudo pelo grau de atraso endémico e de ignorância que nos é mostrado por acções como estas… E com o convento vai-se o Seu pego ou cisterna de águas sagradas, milagrosas, de cura...

E é agora precisamente quando por todo o lado se investiga e se resgata a herança perdida, obliterada, da Deusa, quando o sagrado feminino é o tema do dia, que acontece este crime de lesa cultura, desvalorizando-se precisamente o espólio da nossa Santa/Deusa mais importante e mais viva na cultura, cantada pelo povo e por poetas como Almeida Garrett, tema de inúmeras teses e investigações, celebrada em cada recanto do país com feiras e romarias... Não, isto não passa pela cabeça de ninguém em seu juízo perfeito... 

E, não, lamento, Ela não é secundária em relação a Fátima, Ela é a própria! Ela é a própria Deusa que todos os anos, meses, dias atrai multidões a um lugar que na verdade não tem o nome de Fátima mas sim de Cova da IRIA! 

"Cova", certo? Alguém aí por acaso já parou para pensar neste topónimo?

Imagens: Basílica da Santíssima Trindade, Cova da Iria
               Cisterna/pego de Santa Iria, Tomar (Google)


2 comentários:

  1. É uma dor de alma saber e assistir a isso Luiza, mas as mulheres ainda estão muito empenhadas na luta pessoal e politica e nos direitos económicos e até ecológicos, e eu não digo que não devamos lutar da forma como podermos e esteja ao nosso alcance, mas o que me doi na alma de facto é esta alienação do ma-trimonio sagrado da Deusa e dos seus lugares...Compreendo a sua perplexidade e dor, mas sendo eu uma velha e cada vez mais céptica vejo como a mulher jovem ainda está tão longe de integrar essa essência da Deusa e ser una com a Natureza. Sem fazer esse matrimonio secreto consigo mesma que é a Paixão por ela própria como ente esse amor pela Deusa é inexistente. Lamento dizer isto, mas se achar que não deve publicar o meu comentário não publique.
    rlp

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  2. Grata pelo seu comentário, Rosa Leonor. Esta minha preocupação aqui é essencialmente "cultural", digamos, porque perdemos aquilo que é culturalmente, seja como for, mesmo que apenas nos fiquemos na dimensão da santinha católica, perdemos, dizia, valor acrescentado por gerações e gerações e isso torna-nos mais pobres e sobretudo expõe a nossa pobreza de espírito... que nos leva a não saber dar valor ao que temos, simplesmente.
    Sobre a Mulher e a sua relação com a Deusa, tem razão, esse "matrimónio secreto consigo mesma" e essa união com a natureza são fundamentais, sim...

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