Ainda hoje fica bem claro quando erguemos o véu do mistério
que recobre a dimensão da Deusa entre nós que Ela continua a ser cultuada essencialmente como Deusa Dupla. Ela é a Senhora/Rainha, do
Verão, Iria, Aquela que apareceu na sua Cova num certo dia 13 de Maio pela primeira
vez, e repetiu a aparição por mais 5 meses até que em Outubro se despediu, ou seja, precisamente seis meses
depois, ficando oculta na outra metade do ano, na mais escura, fria e hibernal, como a Anciã do Inverno.
E até temos um mito semelhante àquele que tem a donzela Perséfone e a Sua mãe
Deméter, ou Proserpina e Ceres, como protagonistas, que nos conta que a 20 desse mesmo Outubro, que é quando acaba o bom tempo, Ela é morta. Em Tomar.
A nossa Deusa Donzela, filha quem sabe de Aire, cujo nome
é uma inversão do Seu e batizou a serra onde "apareceu", é morta junto ao rio Nabão. O Seu corpo é então levado por
este rio até ao Zêzere, descendo depois pelo Tejo onde acaba por ser encontrado
no lugar da Ribeira de Santarém.
Podemos imaginar até - por que não? -
que o rapto/morte/martírio de Iria poderia estar no centro de celebrações anuais
semelhantes aos Mistérios de Elêusis, na Grécia, que actualizavam o mito do
rapto de Perséfone, o mito da alternância das estações, e que aqui envolveriam
águas de três rios importantes. O rio da morte era afinal um motivo muito comum
às culturas da antiguidade. O mesmo Hades, senhor do inframundo, que rapta a
donzela, que em Roma se chama Proserpina, tem uma porta no castelo de Tomar…
E é agora precisamente
quando por todo o lado se investiga e se resgata a herança perdida, obliterada, da Deusa, quando o sagrado feminino é o tema do dia, que acontece este crime de lesa cultura, desvalorizando-se precisamente o espólio da nossa Santa/Deusa mais
importante e mais viva na cultura, cantada pelo povo e por poetas como Almeida Garrett, tema de inúmeras teses e investigações, celebrada em cada recanto do país com feiras e romarias... Não, isto não passa pela cabeça de ninguém em seu juízo perfeito...
E, não, lamento, Ela não é secundária em relação a
Fátima, Ela é a própria! Ela é a própria Deusa que todos os anos, meses, dias
atrai multidões a um lugar que na verdade não tem o nome de Fátima mas sim de Cova da IRIA!
"Cova", certo? Alguém aí por acaso já parou para pensar neste topónimo?
Imagens: Basílica da Santíssima Trindade, Cova da Iria
Cisterna/pego de Santa Iria, Tomar (Google)
Cisterna/pego de Santa Iria, Tomar (Google)

É uma dor de alma saber e assistir a isso Luiza, mas as mulheres ainda estão muito empenhadas na luta pessoal e politica e nos direitos económicos e até ecológicos, e eu não digo que não devamos lutar da forma como podermos e esteja ao nosso alcance, mas o que me doi na alma de facto é esta alienação do ma-trimonio sagrado da Deusa e dos seus lugares...Compreendo a sua perplexidade e dor, mas sendo eu uma velha e cada vez mais céptica vejo como a mulher jovem ainda está tão longe de integrar essa essência da Deusa e ser una com a Natureza. Sem fazer esse matrimonio secreto consigo mesma que é a Paixão por ela própria como ente esse amor pela Deusa é inexistente. Lamento dizer isto, mas se achar que não deve publicar o meu comentário não publique.
ResponderEliminarrlp
Grata pelo seu comentário, Rosa Leonor. Esta minha preocupação aqui é essencialmente "cultural", digamos, porque perdemos aquilo que é culturalmente, seja como for, mesmo que apenas nos fiquemos na dimensão da santinha católica, perdemos, dizia, valor acrescentado por gerações e gerações e isso torna-nos mais pobres e sobretudo expõe a nossa pobreza de espírito... que nos leva a não saber dar valor ao que temos, simplesmente.
ResponderEliminarSobre a Mulher e a sua relação com a Deusa, tem razão, esse "matrimónio secreto consigo mesma" e essa união com a natureza são fundamentais, sim...