(Só é válido para o Português de Portugal, mas certamente que o Brasil tem algum termo semelhante...)
“Eu sempre me senti um
bocado gaja…” Diz um dos moços que acompanha Ricardo Araújo Pereira em algum
dos seus programas que de vez em quando me aparecem à frente no Youtube. Por
vezes, admito, a inteligência de RAP fascina-me, a graça com que desmascara o
chicoespertismo nacional dos Sócrates, Varas e outros patriarcas de serviço,
por exemplo, é irresistível. Neste caso discutia-se algo como o politicamente correcto
nas questões de género, ou assim, e um dos participantes, tentando parecer
civilizado e disfarçar o machismo que se toma no próprio leite produzido nos prados
nacionais, proferiu a frase com que inicio este texto. O termo, como é óbvio,
rasgou o éter com a violência do insulto, apesar da intenção... E ouviu-se ao fundo a voz de RAP, pai orgulhoso de duas filhas: “Estás a
insultar centenas de mulheres…” ou algo assim, que se perdeu no ar, porque,
claro, a assistência feminina ali é toda ela serena, cordata e sorridente, longe
daquelas “boas raparigas” sentirem-se ofendidas… Pois, “ofendidas” não seria o
termo correcto aqui, “feridas”, sim. Há termos que não ofendem, eles ferem como
se de repente naquele número do circo em que o homem atira facas a uma mulher contra
uma parede, uma delas tivesse mesmo acertado… não era suposto, mas acertou num nervo
qualquer e foi doloroso… Quando paro para sentir, quando “caio em mim”, como se
diz, sei que doeu mesmo…
“Gaja”, como sabemos, não
é o feminino de “gajo”, tal como “puta” não é o feminino de “puto”… “Gaja” é um
pacote… e não cheira bem, tresanda… Analisar este pacote iria tomar-me tempo a
mais ou requer mais argúcia e talento do que os que tenho… Mas não é preciso
análise de maior para perceber que o sujeito dentro de cuja cabeça este termo
foi concebido é homem ou é uma mulher patriarcalmente socializada para
hostilizar outra mulher percebida como uma ameaça… “Gaja” é sempre, digamos, um marcador
de alteridade. Por isso é que o moço disse aquilo com a desfaçatez de quem não
sabe o que diz, ou sabe, mas finge que não sabe para parecer simpático. Vejamos,
“gajo” é um termo vulgar, é calão, sim, mas um homem pode perfeitamente dizer: “Estava
aqui um gajo muito descansadinho da vida…” falando de si próprio. Uma mulher
nunca diz “gaja” referindo-se a si própria, “gaja” é sempre “a outra”, a que
lhe quer roubar o homem, por exemplo. E a verdade é que não há termo masculino
para isto, os homens, por norma, não temem que lhes roubem as esposas, em vez disso, um
homem “vai às gajas”… Pois, é aí nessa zona esconsa que o verdadeiro sentido e todo o sabor deste termo pode ser encontrado, como de resto todas e
todos sabemos muito bem.
Ora, depois de
Bruxa, cá está mais um termo a reclamar se queremos curar a grande cisão
patriarcal do feminino e da mulher... se há uma Gaja nisto tudo, essa sou eu!
Créditos da imagem: Duy Huynh, Blue Moon Expedition
Créditos da imagem: Duy Huynh, Blue Moon Expedition

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